Mais de 500 representantes de partidos de esquerda da América Latina reúnem-se no Uruguai para avaliar situação política do continente. Anfitriã do encontro, Frente Ampla quer reforçar união entre as organizações políticas de esquerda da América Latina.
MONTEVIDÉU – O velho Parque Hotel, inaugurado em 1909 e uma das construções mais impactantes de Montevideo, é, desde 1997, sede oficial do Mercosul. Nos corredores projetados pelo arquiteto Guillermo West, delegações estrangeiras que integram a 18ª edição do Fórum de São Paulo circulam desde a manhã desta sexta-feira (23). Os países membros do encontro sediado na capital uruguaia (República Dominicana, Brasil, Equador, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, Venezuela, Colômbia, Cuba, México, Nicarágua, São Salvador, Guatemala e Uruguai) debaterão até domingo perspectivas para a esquerda latino-americana e analisarão a situação dos governos progressistas no poder hoje no continente.
O Fórum deste ano deve reunir mais de 500 representantes de partidos políticos de esquerda de vários países e concluir as definições do encontro, linhas gerais de agremiações políticas de pouca hegemonia nos dias de hoje. Entre as presenças, destaca-se a participação de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, que deve chegar neste sábado (24), à capital uruguaia. Carlos Gaviria, presidente do Pólo Democrático Alternativo, principal partido de oposição a Álvaro Uribe na Colômbia, também é um dos nomes aguardados no encontro. Políticos e militantes de outros 23 países também são esperados como observadores do Fórum.
Os grupos de trabalho andino amazônico, caribenho e do Conesul abriram os trabalhos na manhã desta sexta. Durante o final de semana, será realizado um balanço políticos dos governos que atuam na América Latina. A Assembléia de aprovação da declaração final e das declarações particulares das delegações, acontece no domingo, dia 25. Homenagens à Nani Stuart, aos 80 anos do nascimento de Che Guevara e ao 100º aniversário de Salvador Allende também estão previstas.
Montevidéu recebe pela segunda vez o Fórum que, nesta edição, discute fundamentalmente questões como a atuação dos partidos de esquerda na mediação dos conflitos na Colômbia entre as Farc e o governo de Álvaro Uribe e a revisão dos tratados energéticos entre Paraguai, Brasil e Argentina.
Nos salões do Edifício Mercosul, fala-se em “relançamento” do Fórum de São Paulo, definição que indica a expectativa de utilizar o encontro para estreitar laços e reforçar a união entre os partidos políticos de esquerda da América Latina. Anfitriã da reunião, a Frente Ampla, do Uruguai, lançou um documento a partir da Comissão de Relações Internacionais, que sublinha este intenção. “A tendência à esquerda na América Latina é destacada por todos analistas políticos em nível mundial, criando condições para avançar e concretizar sonhos tão caros aos nossos povos e partidos, como a construção de uma pátria grande latino-americana”.
Renegociação de Itaipu
“Estamos falando com os companheiros do PT, do Brasil, para termos um encontro em junho ou julho. As organizações de esquerda dos nossos países, Lugo e Lula podemos criar um diálogo político para encaminhar as soluções de problemas sérios como a reforma agrária paraguaia e a questão de Itaipu”, assinalou o provável futuro Ministro da Energia do Governo Lugo, Ricardo Canese. Para o membro do Movimento Popular Tekojoja, a relação com o Partido dos Trabalhadores e outras organizações sociais de esquerda, como o MST, são indispensáveis para o novo governo paraguaio.
Sobre a expectativa popular criada em torno da vitória de Fernando Lugo, Canese explica que a primeira resposta do governo deve ser emergencial. “Há uma enorme expectativa inclusive de gente que não votou por Lugo. Estamos convencidos de que pouco a pouco podemos resolver os problemas estruturais. Organizamos uma frente política e social que seja um instrumento para avançar nas reformas”.
Segundo o engenheiro e autor do livro “La recuperación de la soberanía hidroelétrica del Paraguay” (Editora El ombligo del mundo, 2007), “o Tekojoja está em todo o país trabalhando para, depois da vitória, ganhar a batalha de um bom governo. Nossa transição dura até dia 15 de agosto, por isso, temos tempo para articular as demandas sociais e chegar nesta data com propostas bem afiadas e soluções imediatas e efetivas”.
Por Clarissa Pont – Especial para Carta Maior.
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O alerta que vem da Argentina
Um grupo de mais de 750 intelectuais argentinos lançou uma carta-aberta alertando para o crescimento de um clima golpista no país, com participação ativa dos grandes meios de comunicação. E adverte governos latino-americanos para uma batalha simbólica que eles não estão enfrentando.
No dia 14 de maio, um grupo de intelectuais argentinos reuniu-se na livraria Gandhi, em Buenos Aires, para divulgar uma carta-aberta sobre a situação política do país. Estavam presentes nomes como Horacio Verbitsky, Nicolás Casullo, Ricardo Forster e Jaime Sorín, entre outros. Assinada por mais de 750 intelectuais, a carta denuncia o clima de golpismo que vem sendo alimentado na Argentina pelos setores conservadores ligados ao agronegócio e seus aliados urbanos. Além disso, o documento critica fortemente a atuação dos grandes meios de comunicação na formação desse clima. A carta afirma:
“Como em outras circunstâncias de nossa crônica contemporânea, hoje assistimos em nosso país a uma dura confrontação entre setores econômicos, políticos e ideológicos historicamente dominantes e um governo democrático que tenta implementar determinadas reformas na distribuição de renda e adotar estratégias de intervenção na economia. A oposição às retenções – compreensível objeto de litígio – deu lugar a alianças que chegaram a lançar a ameaça da fome para o resto da sociedade e lançaram questionamentos sobre o direito e o poder político constitucional do governo de Cristina Fernández para efetivar seus programas de ação, a quatro meses de sua eleição pela maioria da sociedade”.
O texto prossegue:
“Instalou-se um clima de desconstituição, que tem sido considerado com a categoria do golpismo. Não, talvez, no sentido mais clássico de incentivar alguma forma mais ou menos violenta de interrupção da ordem institucional. Mas não há dúvida de que muitos dos argumentos que se ouviram nestas semanas tem paralelos ostensivos com os que, no passado, justificaram esse tipo de intervenções e, sobretudo, um muito reconhecível desprezo pela legitimidade governamental”.
A barbárie política diária da mídia
Esta atmosfera política perigosa, afirma ainda o documento, vem sendo alimentada pelos grandes meios de comunicação do país:
“Na atual confrontação em torno da política de retenções desempenharam e desempenham um papel fundamental os meios massivos de comunicação mais concentrados, tanto audiovisuais como gráficos, de altíssimos níveis de audiência, que estruturam diariamente a realidade dos fatos, que geram ‘o sentido’ e as interpretações e definem ‘a verdade’ sobre atores sociais e políticos a partir de variáveis interessadas que excedem a busca de audiência. Meios que gestam a distorção do que ocorre, que difundem o preconceito e o racismo mais espontâneos, sem a responsabilidade por explicar, por informar adequadamente nem por refletir com ponderação as mesmas circunstâncias conflitivas e críticas sobre as quais operam”.
“Esta prática de autêntica barbárie política diária, de desinformação e discriminação, consiste na gestação permanente de mensagens formadoras de uma consciência coletiva reacionária. Privatizam as consciências com um sentido comum cego, iletrado, impressionista, imediatista, parcial. Alimentam uma opinião pública de perfil anti-político, que desacredita a existência de um Estado democraticamente interventor na luta de interesses sociais. A reação dos grandes meios diante do Observatório da discriminação na rádio e na televisão mostra claramente um desprezo fundamental pelo debate público e pela efetiva liberdade de informação”.
Uma tarefa inadiável: a recuperação da palavra crítica
Diante desse cenário, o documento defende a necessidade de “uma recuperação da palavra crítica em todos os planos das práticas e no interior de uma cena social dominada pela retórica dos meios de comunicação e pela direita ideológica de mercado”. “Da recuperação de uma palavra crítica que compreenda a dimensão dos conflitos nacionais e latino-americanos, que assinale as contradições centrais que estão em jogo, mas sobretudo que acredite ser imprescindível voltar a articular uma relação entre mundos intelectuais e sociais com a realidade política”.
“Esta problemática”, afirma ainda a carta, “é decisiva não só em nosso país, mas também no Brasil de Lula, na Bolívia de Evo Morales, no Equador de Correa, na Venezuela de Chávez, no Chile de Bachelet, onde abundam documentos, estudos e evidências sobre o papel determinante que assume a contenda cultural e comunicativa e as denúncias contra os meios em mãos dos grupos de mercado mais concentrados”. Um dos pontos mais débeis dos governos latino-americanos, defendem os signatários do documento, é “que eles não assumem a urgente tarefa de construir uma política à altura dos desafios diários desta época, que tenha como horizonte o político emancipatório”. Esse déficit de política é detalhado do seguinte modo:
“É necessário criar novas linguagens, abrir espaços de atuação e de interpelação indispensáveis, discutir e participar na lenta constituição de um novo e complexo sujeito político popular, a partir de rupturas concretas com o modelo neoliberal de país. A relação entre a realidade política e o mundo intelectual não vem sendo especialmente valorizada pelo governo nacional e as políticas públicas não tem considerado a importância, a complexidade e o caráter político que tem a produção cultural”.
Contra-ofensiva conservadora
O alerta lançado pelos intelectuais argentinos deveria ser ouvido com muita atenção pelos governos dos países citados. A guinada à esquerda que marca a história recente da América Latina já foi objeto de muitos textos e discursos entusiasmados. Esse entusiasmo, porém, pode favorecer um clima de desatenção com alguns fatos que vêm acontecendo no período recente. A direita latino-americana não engoliu e não engolirá passivamente as derrotas que sofreu nos últimos anos. Por maiores que tenham sido, é importante lembrar que, de modo geral, essas derrotas se deram fundamentalmente no plano eleitoral. Um amplo conjunto de estruturas de concentração de poder político e econômico seguem na mão desses setores.
O fato de terem sofrido pesadas derrotas eleitorais e políticas não significa que estão mortos. Pelo contrário, há vários exemplos que indicam uma contra-ofensiva conservadora em andamento: a mobilização dos ruralistas argentinos contra o governo de Cristina Kirchner, recorrendo a táticas como bloqueio de estradas e interrupção do abastecimento de alimentos; as propostas autonomistas na Bolívia, que querem retirar do governo de Evo Morales qualquer capacidade de gestão sobre os departamentos mais ricos do país; o racismo explícito que acompanha esses movimentos na Bolívia; racismo este que também se manifesta na Venezuela contra Chávez e, de um modo um pouco mais dissimulado, no Brasil, em torno do debate das cotas e da demarcação das reservas indígenas; a crescente tentativa de criminalização de movimentos sociais e dos governos da Bolívia, da Venezuela e do Equador.
Há uma batalha simbólica, mais ou menos subterrânea, sendo travada nestes países. O manifesto dos intelectuais argentinos chama a atenção para isso. Está em curso, diz a carta, “um debate pelas heranças e biografias econômicas, sociais, culturais e militantes que tem como um de seus pontos centrais a questão da memória articulada na política de direitos humanos e que transita pelas tensões e conflitos da experiência histórica, inseparável dos modos de se posicionar diante de cada problema que está em jogo hoje”.
Debates e lutas sobre heranças e valores costumam ser de longo prazo. Por essa razão, não podem ser enfrentados com uma lógica pragmática que tem como horizonte sempre (e apenas) a próxima eleição. A advertência feita pelos intelectuais argentinos (de que há uma luta que não está sendo feita) encontra eco nas palavras do historiador Russel Jacoby, no livro “O Fim da Utopia – Política e Cultura na era da Apatia” (publicado no Brasil pela Record): “Somos cada vez mais insistentemente convidados a escolher entre o status quo ou algo pior que ele. Não parece haver outras opções (…) Não há alternativas. É esta a sabedoria do nosso tempo, uma era de exaustão e recuos políticos. Há uma certa tendência cultural para bater em retirada. O problema não é a derrota, mas o desânimo e a dissimulação intelectual, fingir que cada passo para trás ou para o lado significa dez passos à frente”.
O alerta está dado. Depois, ninguém poderá dizer que foi pego de surpresa pelo curso dos acontecimentos.
Por Marco Aurélio Weissheimer é jornalista da Agência Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com).
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A Argentina é um problema nosso
O crescente conflito entre o agronegócio e o governo de Cristina Kirchner é algo que, ultrapassando o território de origem, incide diretamente na agenda do governo Lula. Os locautes dos setores agroexportadores não podem ser vistos apenas como resultado de uma equação fiscal complicada.
Ser latino-americano compreende viver sobressaltado ante as incansáveis estratégias urdidas por forças políticas que têm como único objetivo a promoção do retrocesso. Nossas elites, baseadas em um trotskismo às avessas, se empenham em estratégias que podem ser definidas como “involução permanente”. Uma procedimento recorrente em toda a América Latina que, com o apoio ostensivo das corporações midiáticas locais, visa à desestabilização de governos emergentes do campo democrático-popular.
Nesse sentido, o crescente conflito entre o agronegócio e o governo de Cristina Kirchner é algo que, ultrapassando o território de origem, incide diretamente na agenda do governo Lula. Um breve retrospecto se faz imperativo para recordar dois pontos que, com distinções de origem, convergem para um encontro que não pode ser perdido de vista: a origem do dois governos e a trajetória de seus líderes.
Um nasceu há 63 anos em Garanhuns, cidade incrustada no agreste pernambucano. Quatro décadas após uma viagem de pau-de-arara rumo a São Paulo, chegou à Presidência da República. Inequívoca inflexão ética de um eleitorado secularmente conservador, sua vitória foi festejada como o fato político mais importante da história recente da América Latina. Um ex-retirante, forjado no embate político-sindical, líder do mais importante partido de esquerda do subcontinente, sobrepujava os preconceitos da elite e os receios de parcela expressiva da classe média. A esperança teria, enfim, vencido o medo. Com 61,2% dos votos válidos. Em 2006, apesar da maciça artilharia da mídia conservadora, se reelegeu com 60,83% dos votos contra 39,17% de seu oponente tucano.
O outro, 59 anos, veio de Santa Cruz, província argentina rica em petróleo e gás natural. Advogado, desde jovem filiado à ala revolucionária do Partido Justicialista, foi governador de sua terra natal por duas vezes. No dia 25 de maio de 2002, com 46% dos 37 milhões de argentinos vivendo em estado de pobreza, chegou à Casa Rosada em meio à maior crise política, econômica e social dos últimos 100 anos. Ao contrário do primeiro, não foi tão festejado nem despertou tanta expectativa de mudança efetiva. Foi empossado com 22% dos votos, depois da desistência do ex-presidente Carlos Menem.
Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Carlos Kirchner têm em comum o período em que chegaram ao poder e a herança deixada por ditaduras e políticas neoliberais dos antecessores. O governo petista recebeu uma dívida interna equivalente a 62% do PIB, inflação na casa de 25,3% e uma economia à beira da ruptura financeira. Tais indicadores já haviam levado, ainda na campanha, o candidato Lula a assinar a Carta ao Povo Brasileiro, em que eram mantidas as metas básicas dos acordos firmados pela equipe econômica de FHC com o FMI. A política de manutenção dos superávits foi aprovada simultaneamente ao programa de governo pela direção nacional do PT.
Kirchner se deparou com uma economia tomada pela informalidade, taxa de desemprego superior a 20%, dívida pública superior a US$ 146 bilhões e avançado estágio de sucateamento de um parque industrial cuja pujança remontava ao início do século XX.
Ao não quitar débitos estimados em US$ 14 bilhões com o Fundo, Buenos Aires recebeu elogios da conservadora revista The Economist. Obteve, ainda, apoio internacional à proposta de pagamento da dívida privada com deságio significativo. O resultado foi um crescimento em ritmo asiático superior a 8% em quatro anos consecutivos, que somado ao reajuste de 50% do salário mínimo, congelado desde 1993, e à política de programas sociais negociados com o movimento sindical, tirou a Argentina do limbo. Em 2007, conseguiu eleger sua mulher, Cristina Fernández de Kirchner, com 44,8% dos votos.
Não há dúvidas que ainda faltam correções para pavimentar o caminho do crescimento sustentável, tanto aqui como na Argentina, mas a correção de rota não pode ser confundida com um retorno ao neoliberalismo da banca. E muito menos com uma política externa que volte a vislumbrar uma reinserção subalterna no cenário internacional. Por tudo isso, o que se delineia no país vizinho é preocupante demais como já observou Marco Aurélio Weissheimer em O alerta que vem da Argentina.
Os locautes dos setores agroexportadores não podem ser vistos apenas como resultado de uma equação fiscal complicada. A natureza da paralisação patronal, por não aceitar a redução dos seus lucros, é, antes de qualquer coisa, uma ação política que atinge a classe trabalhadora urbana com desabastecimento e elevação de preços. Pede-se, em especial aos setores de esquerda, que não percam o foco de quem é o real adversário a ser combatido.
Manifestações como a da Frente Obrero Socialista (FOS), corrente trostskista que segue o pensamento de Nahuel Moreno, beiram a insanidade política. Ao afirmar que “foi correto nos colocarmos contra os dois (governo e ruralistas) e chamar os trabalhadores da cidade e do campo a unirem-se em torno a um programa operário para garantir a alimentação”, os morenistas parecem não ter aprendido que do gueto não se faz revolução. É, quando muito, um atalho curto que leva a alamedas de cemitérios ou a presídios mais próximos.
Cortes nas estradas e “caçarolaços” nas classes médias das cidades evocam um passado tão recente que talvez a melhor saída, a mais sensata, seja parafrasear Terêncio, o grande dramaturgo romano: nada do que é latino me é estranho. Precisamos redobrar a atenção. Lidamos com derrotados que costumam vencer ao primeiro cochilo da crítica.
Por Gilson Caroni Filho, que é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, e colaborador do Jornal do Brasil e Observatório da Imprensa.
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Proposta de referendo desata crise inesperada na oposição
A decisão do partido de direita “Podemos” de ressuscitar o referendo revogatório provocou uma crise no campo da oposição. “Grave erro”, “estupidez política e “magro favor para as autonomias” foram alguns dos epítetos lançados a partir das regiões autonomistas contra os senadores do “Podemos”.
LA PAZ – A maioria dos analistas apelavam para metáforas de futebol e qualificavam a surpreendente iniciativa como um gol-contra dos detratores de Evo Morales. Em conversas de café ou em almoços familiares o tema é sempre o mesmo: por que a oposição lançou esse salva-visas ao presidente indígena? O que vai acontecer em 10 de agosto, quando os bolivianos terão que decidir se ratificam ou não Morales e os governadores?
A grande notícia da semana passada foi a troca de acusações e as posições contraditórias defendidas por cada grupo opositor. “Grave erro”, “estupidez política e “magro favor para as autonomias” foram alguns dos epítetos lançados a partir das regiões autonomistas contra os senadores de Podemos. O prefeito de Cochabamba, da oposição, qualificou a aprovação do referendo revogatório —que pode acabar com sua gestão— como uma “manobra de Podemos”. A resposta não se fez esperar: “O prefeito não é sério, toma café-da-manhã com Santa Cruz e à noite janta com o presidente”, revidou o senador de Podemos Walter Guiteras, referindo-se à decisão de Reyes Villa de responder à convocatória para o diálogo feita por Morales.
O presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, Branko Marinkovic, e o prefeito de Pando, Leopoldo Fernández, coincidiram em dizer que o referendo revogatório vai aprofundar a crise. Mas divergiram sobre a antecipação das eleições proposto pelo dirigente de Santa Cruz e apoiado por Reyes Villa. “Estamos vivendo muito depressa. As autoridades devem cumprir seus mandatos e muito circunstancialmente devem apresentar saídas como referendos revogatórios ou eleições antecipadas”, disse Fernández, cujo cargo também corre perigo.
“É inexplicável, isto já é considerado, nas nossas regiões, como uma traição ao processo autonômico por parte de Podemos”, declarou o senador por Tarija desse mesmo partido, Roberto Ruiz. E os parlamentares dessa região, que votará seus estatutos autonômicos em 22 de junho, anunciaram que pedirão a derrogação da lei que habilita o referendo revogatório.
“O referendo revogatório, vou dizer do modo mais cru, não serve absolutamente para ninguém e é uma estupidez política”, acrescentou o ex-prefeito de Santa Cruz, Carlos Hugo Molina, que acredita que Evo será retificado. E há coincidência quanto a que a iniciativa de Podemos visa apenas recolocar no mapa político a desprestigiada liderança do ex-mandatário Jorge “Tuto” Quiroga (2001-2002), amplamente derrotado por Evo Morales nas presidenciais de dezembro de 2005.
Morales propôs para cinco dos nove prefeitos (governadores) que concorreram para participar na mesa de diálogo um pacto para a redistribuição eqüitativa dos recursos do Estado, o impulso às autonomias, a transparência administrativa e a produção de alimentos. Mas no encontro faltaram os líderes autonomistas de Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando, que promovem um acordo nacional prévio reconhecimento pelo governo dos referendos autonomistas considerados por La Paz como ilegais e sediciosos.
Em uma reunião de sete horas, os prefeitos de La Paz e Cochabamba (todos da oposição) e os oficialistas de Oruro, Chuquisaca e Potosí, com a presença do delegado da OEA, o diplomata argentino Raúl Alconada Sempé, acordaram com o presidente a formação de uma “grande comissão” para que encontre, em dez dias, uma saída à crise política que afeta o país. Também foi anunciado que o Palácio Quemado voltará a convidar o cardeal Julio Terrazas, depois de rejeitar sua participação devido ao apoio do religioso, com seu voto pelo SIM, à autonomia, na consulta de Santa Cruz, no domingo 4 de maio. Enquanto o porta-voz governamental, Iván Cane, disse que o encontro foi um êxito, o líder do departamento de Santa Cruz, Rubén Costas, disse que não passou de “mais um show político”.
Mas, desde a aprovação da proposta do referendo, a prioridade de uns e outros começou a ser a campanha eleitoral para evitar a remoção de seus cargos.
Por Pablo Stefanoni.Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores.
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Mais uma vitória dos setores populares sul-americanos
Com figuras bem diferentes, mas em grandes linhas numa mesma direção, temos uma equipe de governantes inédita, no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela a agora no Paraguai, ainda que possamos fazer reparos aqui ou ali a um ou outro.
Faz alguns meses escrevi que o protagonismo popular ia ameaçando cada vez mais as elites latino-americanas retrógradas. Temos uma nova vitória dos setores populares, fechando o cerco no Mercosul e quase cobrindo o mapa da América do Sul. A alegria pela eleição de Fernando Lugo é semelhante à que sentimos com Lula em 2002 e, mais adiante, com Evo Morales na Bolívia. Com figuras bem diferentes, mas em grandes linhas numa mesma direção, temos uma equipe de governantes inédita, no Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Equador, Venezuela e agora no Paraguai, ainda que possamos fazer reparos aqui ou ali a um ou outro. Peru é um caso mais complexo, onde o partido no governo, o APRA (Aliança Popular Revolucionária Americana), que nascera em 1924 com uma vocação continental, foi perdendo suas intuições originais. Mas não podemos esquecer que, nas últimas eleições peruanas, um mestiço, Ollanta Humala, ainda que de perfil político pouco nítido, chegou a ameaçar o poder branco tradicional.
Fica isolada a Colômbia, com uma violência que vem de longe, prisioneira de uma guerrilha anacrônica, dos para-militares seus inimigos complementares e de um narco-tráfico em alianças com ambos. Mas a região sul-americana, com exceções que não invalidam a regra, adquire um rosto novo, com o povo pobre entrando como sujeito determinante do processo político. Já meses atrás, Lugo declarou: “o povo deve ser protagonista”. Tão diferente da União Européia que, se por um lado reelegeu Zapatero, por outro deu a vitória ao histriônico Sarkozy ou, recentemente, ao magnata Berlusconi.
O Paraguai esteve em mãos de uma oligarquia autoritária, voraz e corrupta desde sempre, ou pelo menos desde os tempos da chamada “guerra grande”, quando a tríplice aliança praticamente o destruiu. A vitória de Lugo sinaliza um novo e profundo processo histórico de construção, ou refundação do país. E começa logo com a exigência de recuperar uma plena soberania energética diante de seus visinhos Brasil e Argentina. “Yacyretá e Itaipu são tratados leoninos, injustos”, declarou meses atrás.
Provavelmente veremos novamente, pela imprensa, ex-chanceleres e outros arautos de uma linha dura, denunciar sinais de debilidade do governo de Lula e de seu ministro Celso Amorim. Todos eles aceitavam docilmente serem suseranos dos Estados Unidos e, num mecanismo de transferência compensatória, só se sentiam cômodos diante da doutrina golberiniana do “satélite privilegiado”, pela qual havia que tratar os menores como fazia conosco o poder imperial.
Nosso torneiro mecânico presidente e o índio cocalero, iniciaram uma diplomacia totalmente diferente, às vezes com momentos ásperos e difíceis, mas sempre respeitadora dos direitos dos mais fracos. Agora se abrirá certamente um período de discussões, para a revisão do tratado de Itaipu Binacional ou, pelo menos, chegar logo a uma remuneração adequada da energia comprada pelo Brasil ao Paraguai, como indicou Celso Amorim. Este tratado foi negociado a partir de 1966 e assinado em 1973, em pleno governo autoritário entre nós e com políticos venais e autoritários no país vizinho. Aliás, em 1979, houve um acordo tripartite entre Brasil, Argentina e Paraguai sobre água e energia, os três com ditaduras militares.
Para Lugo, não há que esperar 2027, data prevista para a revisão do tratado com o Brasil, mas o fará por via diplomática, num estilo possivelmente diferente do que teve Evo Morales com o gás e o petróleo.
Lugo indica que não seguirá nenhum modelo alheio: “Creio que hoje, na América Latina, não há paradigmas comuns unificados… Temos de fazer nosso próprio caminho para nos integrar e não ser uma ilha entre governos progressistas” (entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 18 de abril). Ao mesmo tempo, tem declarado sua estima plural tanto por Lula, Evo Morales, Rafael Correa, ou Michelle Bachelet, quanto por Hugo Chávez. Temos diante de nós um tempo fecundo e criativo, não isento de tensões normais e indispensáveis, nas novas relações entre o Brasil e o Paraguai.
A escolha de Fernando Lugo
Gostaria, numa segunda parte, de refletir sobre o caso de Fernando Lugo, que trocou o episcopado por uma ação política, fundando a Aliança Patriótica para a Mudança e, depois, por uma candidatura a presidente. Um jornalista da grande imprensa, logo no momento da vitória, insistiu em chamá-lo religioso ou bispo, ao que parece sob o pretexto de que o Vaticano não aceitou seu pedido de secularização ao sacerdócio. Como se as decisões relevantes fossem apenas as que vêm unilateralmente de cima.
Para entender um pouco o tema, temos de examiná-lo nas reflexões dos teólogos dos últimos anos, mas também na história concreta. Uma visão piramidal da Igreja Católica, que vigorou no segundo milênio, desce do episcopado (e ali no alto a primazia do bispo de Roma), passa ao sacerdócio mais abaixo, depois vêm a vida religiosa e os institutos seculares, para chegar finalmente aos chamados leigos e leigas, que curiosamente, nesse elenco tradicional, são a clara maioria, especialmente estas que, numa Igreja machista, vão colocadas em último lugar. Tudo muda se invertermos essa pirâmide, na linha do que o concílio Vaticano II chamou “o povo de Deus”.
Como ponto de partida, somos todos iguais, cristãs e cristãos batizados, do papa à mais simples e humilde fiel. Mas dentro da estrutura eclesial há vários serviços, ou em linguagem católica, ministérios. Uns tem uma missão específica na sociedade, outros missões próprias na instituição eclesiástica.
Porém as fronteiras não são fechadas nem rígidas. Valem alguns exemplos do caso brasileiro. Nos anos 50 e 60, alguns membros da Ação Católica aceitaram trabalhar na estrutura eclesial interna durante alguns anos, organizando e coordenando movimentos de apostolado leigo, a quem a Igreja conferia um “mandato”, isto é, um reconhecimento especial. Os que aí participamos, éramos conhecidos, na linguagem da época, como “permanentes”, por uma dedicação temporária, mas quase exclusiva, a essas tarefas.
Fui, naqueles anos, dirigente nacional e internacional da Ação Católica. Mas nunca deixamos de ser estudantes, operários ou profissionais, seguimos sendo cristãos comuns, leigos como se diz até agora, numa expressão que não me agrada, por ser negativa, igual a não-clérigo. Nessa condição, casamos e constituímos nossas famílias. Entretanto, alguns sentiram uma vocação especial para a vida religiosa ou para o sacerdócio.
Da antiga Associação dos Universitários Católicos (AUC), que precedeu a Juventude Universitária Católica (JUC), Jorge Dale tornou-se Frei Romeu, frade dominicano, por muitos anos admirável assistente nacional da JUC. Outros jovens profissionais se fizeram beneditinos, como José Carlos Isnard, depois D. Clemente, hoje bispo emérito (aposentado) de Nova Friburgo; um médico se tornou monge no Rio e abade em Olinda, D. Basílio Penido, outro, depois de viúvo, também monge no Rio e logo abade na Bahia, D. Timóteo Amoroso Anastácio. Maria de Lourdes Ribeiro de Oliveira passaria a ser Dona Luzia, monja e abadessa em Belo Horizonte, Lia Amoroso Lima, dona Maria Teresa, monja e abadessa em São Paulo, Maria Sílvia Penido, irmã Letícia, beneditina em João Pessoa.
Para não ficar só de um lado do espectro das opções e sensibilidades ideológicas, o jovem Lauro Barbosa seria o monge poeta D. Marcos e Flávio Bittencourt, que acaba de falecer, o inflexível D. Estêvão. Os homens normalmente, mas não necessariamente, acediam ao sacerdócio. Carlos Alberto Libânio Cristo, da equipe nacional da Juventude Estudantil Católica, seria o dominicano Frei Betto, que não quis receber o sacramento da ordem. São alguns exemplos de militantes do “laicato” católico que se fizeram sacerdotes, religiosos ou religiosas.
Em sentido contrário, vários sacerdotes, assistentes eclesiásticos dos movimentos, pediram a secularização, isto é, voltar a ser cristãos comuns. Isso se deu também com figuras importantes do episcopado, em vários países, como Jerônimo Podestá, valente defensor dos direitos humanos em Avellaneda, na Argentina, que deixou o episcopado e se casou. Os processos de secularização foram relativamente ágeis com Paulo VI, lentos e difíceis com João Paulo II. Assim, as situações no mundo laical e no religioso ou sacerdotal, tiveram diferentes vias e direções em dois sentidos.
A Igreja Católica não teve problemas quando alguns sacerdotes assumiram mandatos políticos. Viu com bons olhos Monsenhor Arruda Câmara fundar o PDC e lutar no Legislativo, por anos, para impedir uma lei do divórcio. Não levantou dificuldade em aceitar o direitista padre Godinho como senador. A situação foi diferente quando o monge e poeta Ernesto Cardenal e seu irmão, o jesuíta Fernando, se tornaram ministros do primeiro governo sandinista. Receberam fortes reprimendas, Ernesto em público, com o papa João Paulo II invetivando-o dedo em riste, com nosso monje sorridente, sem entender o que se passava.
Fernando Lugo teve, sob esse ponto de vista, uma atitude clara e exemplar. Fôra por alguns anos, desde 1994, bispo em San Pedro e ali esteve sempre a serviço dos setores populares mais pobres, como Leônidas Proaño, em Rio Bamba, no Equador, bispo dos indígenas, que conheceu de perto e a quem tanto admirou. Entre nós, podemos mencionar, entre outros, Pedro Casaldáliga, Erwin Krautler ou Tomás Balduíno, na linha da teologia da libertação latino-americana e dos encontros de Medellín (1968) e de Puebla (1979).
Mas Lugo, num certo momento, sentiu que poderia servir melhor a seu país entrando para a política. Entretanto, não quis embaralhar funções. Referindo-se à experiência centro-americana, declarou no jornal El País, citado acima, em entrevista publicada dois dias antes de sua vitória eleitoral: “Quando a Igreja, como instituição, optou por identificar-se com um modelo temporal, equivocou-se. Isso aconteceu com os padres nicaragüenses durante o sandinismo”.
No seu caso, não quis confundir sua situação anterior de bispo com a de futuro candidato a presidente. Claro que o episcopado fica na sua história e nas raízes de sua experiência. Sabemos também que, na Igreja Católica, a ordem sacerdotal e a episcopal permanecem como sacramentos (“sacerdos in aeternum”). Mas o sacerdote ou bispo pode perfeitamente ser dispensado de seu exercício. Foi nessa direção que agiu Lugo, solicitando dispensa do episcopado em 2005, quando se tornou bispo emérito e do sacerdócio em 2006, para servir seu país em outro lugar social e eclesial, como simples cristão.
A reação romana, nesse último caso, foi de irritação, ao seu entender, pelo inusitado da demanda. Como renunciar à dignidade de um poder eclesiástico, por um simples poder temporal? Suspendeu Lugo indefinidamente de suas funções (“a divinis”), mas sem lhe conceder a dispensa do sacerdócio. Agiu como uma burocracia defendendo corporativamente os poderes internos de sua instituição, apoiando-se em regulamentos e códigos e não com sensibilidade pastoral. Faltou-lhe abertura para entender a importância do gesto de um cristão até então clérigo, mas que desejava exercer seu serviço em outro domínio, com o extremo cuidado de não confundir papeis, por profunda convicção, lealdade e transparência para com sua Igreja.
Fernando Lugo seguiu adiante, deixou o sacerdócio e agora se tornou o novo presidente paraguaio. Depois de ter votado, diz a imprensa, foi à missa dominical como simples cristão. Não foi mencionado se participou da comunhão. Possivelmente não, estando suspenso sem prazos.
O importante é que temos de deixar de vê-lo, de uma vez por todas, como ex-bispo, como gostam de proclamar os meios de comunicação, numa atitude no fundo clerical. Há um clericalismo de direita que se escandaliza, como há um subreptício clericalismo progressista que se alegra com a vitória do que consideram um ex-bispo.
Lugo é agora simplesmente um cristão que se elegeu presidente e que, num gesto pessoal de liberdade, suspendeu definitivamente suas antigas prerrogativas eclesiásticas, sem esperar uma autorização de cima que certamente não viria. Estas prerrogativas e o poder inerente ficaram para trás. Ao ser eleito declarou: “sou um homem de fé e de espiritualidade”, agora como um simples fiel. E noutra ocasião: “se minha atitude e minha desobediência às leis canônicas causaram dor, peço perdão” (Folha de São Paulo, 22-4-2008). Como não alegrar-nos com um presidente que deixou no passado sua situação de bispo e agora é apenas um cristão, mas acima de tudo um cristão e um cidadão cuidadoso e responsável?
Trata-se de um presidente de pertença cristã, em diálogo pluralista com outros estadistas cristãos, de outras religiões ou sem religião. O cristianismo, como para qualquer fiel, poderá ajudá-lo a discernir, a iluminar sua consciência, mas as decisões serão tomadas como um homem livre e com a enorme responsabilidade que tem, a partir de agora, de refazer, com sua equipe, a vida paraguaia.
Por Luis Alberto Gómez de Sousa, que é sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Cândido Mendes.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.