Leia o discurso do governador na íntegra:
Inicio nossa conversa citando o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt. No seu intento de levantar a moral dos Estados Unidos, depois do famoso crack de 1929, quando a economia quebrou levando o país ao desemprego e a estrutura empresarial ao desespero. O presidente falava ao povo pelo rádio, num programa conhecido como conversas ao pé do fogo — no frio do inverno americano, o presidente com uma lareira acesa se dirigia a nação.
Foi nesse momento que ele propôs aos Estados Unidos um novo pacto de crescimento, a partir do impulso ao desenvolvimento e a agricultura. Roosevelt mobilizou os EUA com duas frases. A primeira — ‘Se as cidades queimarem, os campos se levantarão e reconstruirão as cidades; se os campos queimarem, as cidades morrerão de fome.’ A segunda — ‘Em cada panela uma galinha, em cada propriedade um poste de energia elétrica’.
O presidente Roosevelt sabia da resposta extremamente rápida que agricultura daria a estímulos governamentais, muito diferente do setor industrial. Roosevelt, com tal apoio à agricultura, queria viabilizar os pequenos agricultores, e assim reacender o movimento forte de produção de comoditties, no caso especifico dos EUA, do milho. Pois da noite para o dia as pradarias se transformaram em milharais, e o milho até hoje é o principal componente da alimentação americana.
Com o estímulo, os pequenos e médios agricultores se capitalizaram; capitalizados, começaram novamente a consumir, esvaziaram prateleiras de um comércio paralisado, compraram eletrodomésticos, ordenhadeiras mecânicas, trituradores de grãos, uma roupa para os filhos, bens de consumo duráveis para melhorar o nível de vida da família. E o comércio, de prateleiras vazias, voltou a encomendar da indústria, que foi progressivamente ocupando a capacidade ociosa. E os Estados Unidos restabeleceram o círculo virtuoso do desenvolvimento. Mais que a recuperação da economia americana, se estabeleceu a recuperação da esperança de um povo decepcionado com seu modelo de vida e de desenvolvimento, falido na crise de 29.
É evidente que a recuperação americana se deu, depois desse início, pelo vigor dos seus setores industriais. Os EUA receberam investimentos brutais do poder público. São desta época as grandes usinas de energia elétrica, a dragagem dos portos, o impulso das ferrovias, a maioria delas privadas que passaram a ser estatizadas para baixar o preço de transporte dos produtos. Esta retomada do desenvolvimento é extraordinariamente interessante. Joga-se uma semente ao solo, a fotossíntese se estabelece ela germina, seis meses depois, industrializada, ela está à mesa do povo. A agricultura é a chave da retomada do desenvolvimento do Brasil; em um momento de crise no mercado internacional de alimentos, é a vacina para evitar que o processo inflacionário atinja as classes populares, a classe média, com a supressão da possibilidade de comprar alimentos por preço razoável.
Tal é a política do governo federal, tal é a política do Paraná. O presidente Lula, conversando comigo agora há pouco, dizia que não pode em hipótese alguma admitir aumentos de preço na alimentação do povo, e isto só pode ocorrer com algumas medidas que garantam a agricultura. A agricultura é subsidiada no mundo inteiro. Na França, por exemplo, o pequeno pecuarista recebe um subsídio para manter seu rebanho vivo e produtivo. Há uma disposição forte do governo federal de impulsionar a produção de alimentos do País, das comoditties que são importantes para a nossa balança, mas também da agricultura familiar, que é importantíssima para a produção de alimentos.
Vejam vocês, no Paraná temos cerca de 370 mil propriedades; 90% delas tem menos de 50 hectares, e ocupam cerca de 30% da nossa área rural. Os 70% restantes são ocupados por grandes propriedades. Esse processo tem de ter um balanceamento, para não cairmos na armadilha da Argentina. Estou vindo de Buenos Aires; onde vi o desespero do governo argentino com a queda da produção de alimentos que são consumidos no país. Das 65 milhões de cabeças de gado de até um tempo atrás, a Argentina tem hoje cerca de 40 milhões de reses, fruto da falta de política governamental de apoio a produção de alimentos. O Plano de Safra tem a virtude de contemplar o agronegócio, mas tem também a virtude de trazer um impulso significativo na produção de alimentos na pequenas e medias propriedades.
O Paraná tem tomado algumas medidas nesse sentido. Fiz duas viagens com o presidente da República à Índia e a Suíça, que renderam dois projetos interessantíssimos implementados no Paraná. Na Índia, surgiu a idéia do Trator Solidário, um programa indiano de financiamento de máquinas com pagamento em equivalência-produto, juros baixíssimos, e preço baixo do trator, graças à negociação com a industria produtora. Conseguimos reproduzir isso aqui, e estamos comercializando 4 mil tratores a partir de um registro de preço por valores extremamente pequenos e com juro zero para os agricultores menores e de 2%, 3% ao ano para os mais capitalizados. Assim, um trator de 55 cavalos-vapor esta sendo comercializado por 40 mil reais, e um de 75 cavalos-vapor, por 47 mil. A alta demanda viabilizou aos fabricantes o ganho em escala graças ao aumento da produção e da comercialização, e tornou extremamente acessível o equipamento aos pequenos e médios produtores.
Na Suíça eu o presidente Lula tivemos uma reunião com o então secretario-geral da ONU, Kofi Annan, que nos dizia que, mais que qualquer insumo, a saída para a alimentação no mundo é a irrigação. Inspirados por essa visão, criamos no Paraná a irrigação noturna. Das nove da noite às seis da manhã, o custo da energia para irrigação tem desconto de 75% sobre o custo da energia urbana. A Agência de Fomento financia os insumos do sistema de irrigação com juro de 1% ao ano, e com a participação da Emater e do Iapar, se estabelece uma defesa contra o exagero dos preços com o aumento da oferta da compra. Temos que ter insumos razoáveis e necessários, mas temos que escapar do exagero do dimensionamento do sistema de irrigação.
Nossa cesta básica ampliada é desonerada, reduzimos em 75% o custo da energia para criadores de frango e de suínos, baixamos o imposto sobre a farinha de mandioca e a ração animal. Estamos trabalhando no sentido da redução dos custos da agricultura, e os dividendos dessas medidas simples que estamos tomando são fantásticos, como tenho certeza que será fantástica a resposta da agricultura brasileira e paranaense aos estímulos do Plano Safra do governo federal.
O Iapar e a Emater tem lançado novas sementes, e não me canso de falar nisso. Uma semente de feijão razoável nos rendia, numa má plantação, 700 quilos por hectare, ou 1,4 mil quilos por hectare numa mais bem cuidada. Produto de uma pesquisa antiga e bem fundada do Iapar, surge no mercado uma semente que nos da 4,1 mil quilos por hectare. Isso é entusiasmante, pois além disso se trata de um feijão resistente a algumas pragas. O resultado é que ele é hoje o feijão preto mais consumido no Sul do País. Outras sementes do feijão com excepcional possibilidade de produção têm sido lançadas pelo Iapar. Agora, o presidente Lula me fala de uma pesquisa em Pernambuco de uma nova variedade de cana-de-açúcar, que multiplica de forma extraordinária a produção por por hectare. Temos que avançar nisso, na pesquisa, temos que valorizar os nossos institutos de pesquisa, nossos profissionais. No Paraná, estamos recompondo os quadros da Emater, do Iapar.
Nas mãos de vocês, nas mãos calejadas do nosso agricultor, estão depositadas as esperanças de que a crise internacional não atinja o nosso País. Há uma crise internacional, o Brasil está exposto a ela, mas não podemos cair na esparrela argentina de não termos uma política de produção de alimentos. E hoje, graças a visão do presidente da República, do ministério da Agricultura, estamos nos encaminhando para uma solução que reforça nosso agronegócio, mas que não esquece a pequena e média propriedade que, ao fim e ao cabo, coloca comida na nossa mesa.
A crise na Argentina se suporta em uma produção fantástica de grãos para exportação, que de certa forma liquidou a diversidade da produção rural do país. O resultado — a Argentina consome internamente apenas 5% dessa produção inteira. A regressão da produção das pequenas propriedade leva o pequeno proprietário a arrendar suas terras para o agronegócio e ao desespero do governo, que vê o desabastecimento interno por via da regressão da produção de alimentos. Hoje, a Argentina hoje corre sério risco de ter de comprar carne do Brasil, porque os 40 milhões de cabeças, mesmo rebanho de 20, 25 anos atrás, não são suficientes para abastecer o mercado interno.
Esta reunião marca a abertura da visão do governo brasileiro para essas necessidades, e as medidas tomadas a partir desse Plano de Safra são as medidas que devem impedir que o nosso Brasil caia na mesma armadilha em que caiu a Argentina. O governo brasileiro tem consciência da importância da agricultura. Pois, como disse Roosevelt, se as cidades queimarem, os campos levantarão e reconstruirão as cidades; mas, se os campos queimarem, as cidades morrerão de fome.
Muito obrigado.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.aenoticias.pr.gov.br.