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Em defesa da educação e da biodiversidade

Jornada da Via Campesina debate importância de uma agricultura fundamentada na agroecologia

Com o lema “Cuidando da Terra, Cultivando Biodiversidade, Colhendo Soberania Alimentar”, ocorre a 7ª Jornada de Agroecologia, na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Cascavel, região Oeste do Paraná. O evento, organizado pela Via Campesina, teve início na quarta-feira (23) e segue até sábado (26).

A Jornada debate a importância de uma agricultura fundamentada na agroecologia, que respeita o meio ambiente (sem uso de agrotóxicos ou cultivo de transgênicos), os pequenos agricultores e sua relação saudável com a terra, além de reafirmar as formas organizativas tradicionais de cooperação e prosseguir com a marcha de luta pela reforma agrária.

De acordo com José Maria Tardin, da Via Campesina, “a construção da Jornada faz parte de um processo de luta permanente, contra o projeto das empresas transnacionais e do agronegócio, na construção de um projeto popular e soberano para a agricultura brasileira, baseada na agroecologia e na soberania alimentar”.

Plantio de mudas

No segundo dia da jornada, houve um ato em defesa da educação e da biodiversidade, realizado no próprio campus da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), com o plantio simbólico de sete mudas de árvores em defesa da educação e da biodiversidade. A Via Campesina realizou uma mística em homenagem aos militantes assassinados entre o segundo semestre de 2007 e 2008, Keno e Eli Dallemole.

Para o representante da Via Campesina, José Damasceno, o plantio de árvores dentro da Universidade representa a produção e reprodução da vida e a preservação da biodiversidade. “O ato demonstra o compromisso dos camponeses da Via Campesina com a recuperação do meio ambiente e dos recursos naturais. É o resultado de um processo de construção de sete anos de jornada, com o conhecimento dos camponeses na relação com a natureza”, explica.

O sistema Judiciário recebeu muitas críticas durante o ato por estar deixando de atender às solicitações da sociedade para servir de braço ideológico do poder hegemônico, especialmente nas ações de perseguição ao movimento do campo, em todo o país. Assim como acontece no Rio Grande do Sul (RS), em Cascavel e na região sudoeste do Paraná, os trabalhadores sem-terra têm sido alvo de investidas do Judiciário, como no caso a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)-Cascavel.

Milícias armadas

Outra denúncia preocupante é a perseguição promovida pelos representantes do agronegócio, que se utilizam de milícias armadas e capangas. Também são motivos de preocupação os despejos oficiais promovidos pelo governo estadual contra os acampamentos. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), a cada dez dias ocorre no Paraná uma ação de reintegração de posse. Apenas no ano de 2007, 2077 famílias sofreram com o cumprimento de 18 mandatos de reintegração de posse.

O ato da Via Campesina contou com a presença de representantes da Assembléia Popular, da APP-Sindicato de Curitiba, do Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), Coletivo Despejo Zero, do DCE da Universidade Federal do Paraná (UFPR), entre outros movimentos sociais. Também esteve presente o Movimento dos Camponeses Paraguaios (MCP), que ressaltou a necessidade de um projeto popular para os dois países. “A luta não tem fronteiras, estamos lutando para construir um projeto popular também para o Paraguai, e em toda América Latina”, disse Jose Bobadilla, membro do movimento. Também estiveram presentes no ato o deputado federal Dr. Rosinha e representantes da Unioeste.

Por Pedro Carrano, de Cascavel (PR).

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Feira de agroecologia: embrião da resistência

Para coordenador do MST, técnicas de agroecologia devem ser analisadas “como um processo e não como um fim em si mesmo”

Na feira de produtos agroecológicos, agricultores exibem as variedades de sementes pesquisadas, refletindo sobre a necessidade de superação do modelo do agronegócio, mesmo reconhecendo que a agroecologia ainda é um embrião de resistência frente a expansão do capital no campo.

Roque Gandin é um dos 25 produtores familiares do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) que compareceram à jornada. A barraca em que estavam instalados exibia mais de 30 sementes de diferentes espécies, como feijão de porco, milho orgânico e arroz crioulo, esta última uma variedade rara, segundo ele.

Na avaliação de José Damasceno, da coordenação estadual do MST, a agroecologia e suas técnicas devem ser analisadas como um processo e não como um fim em si mesmo. “Do meu ponto de vista, a agroecologia não deve negar a tecnologia mas sim a modernidade do ponto de vista do capitalismo, da concentração e do dano ao meio ambiente. Neste momento da luta de classes, a agroecologia é a proposta de enfrentamento no campo”, define.

Dia 24, teve início a maioria das 48 oficinas temáticas da jornada, divididas em 10 eixos, em torno do tema da agroecologia. As principais linhas foram as seguintes: técnicas de agroecologia, água, apicultura, educação, experiências em agroecologia, segurança e soberania alimentar, organização popular, programas governamentais, saúde. Todos os temas foram abordadas no contexto da jornada, que busca refletir sobre um modelo de agricultura sustentável e sobre as experiências, as técnicas, as possibilidades e as contradições que vêm sendo desenvolvidas pelos camponeses.

Por Pedro Carrano, de Cascavel (PR).

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Acesso à educação e estratégia de soberania popular

Durante a oficina “Educação do Campo: o protagonismo dos camponeses e movimentos sociais na luta por educação” , realizada no segundo dia da 7º Jornada de Agroecologia, foram apresentadas experiências concretas de ensino popular desenvolvidas pelo MST. Durante toda a tarde foram realizadas 37 oficinas, cinco delas sobre educação.

O MST mantém 11 escolas itinerantes no Paraná, todas baseadas no princípio da auto-organização, na importância da coletividade e na formação crítica dos educandos. As escolas funcionam dentro dos acampamentos e atendem 1500 jovens e adultos. Fátima Knopf, educadora da Escola Itinerante Carlos Marighela e ministrante da oficina sobre educação do campo, conta que as escolas surgiram como forma de garantir o acesso à educação para os filhos dos militantes acampados que lutam pela reforma agrária.

O projeto político-pedagógico das escolas itinerantes utiliza as práticas da educação popular e o método pedagógico proposto por Paulo Freire, que considera os educandos como sujeitos inseridos em uma realidade social que deve ser levada em conta no processo educativo. “O projeto de educação está vinculado ao projeto de sociedade que os militantes do MST defendem e que pretende romper com o modelo de sociedade atual”, explica Fátima.

Os estudantes do curso técnico integrado em agroecologia da Escola Milton Santos também relataram durante a oficina um pouco da experiência que realizam em Maringá, município no noroeste do Estado. A iniciativa mantém parceria com a Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e fornece formação técnica e política para os educandos.

A turma Karl Marx foi a primeira formada, em 2005, com 13 técnicos. Além de formar profissionais com qualificação para trabalhar com a agricultura camponesa e familiar e com uma tecnologia agrícola que não prejudica o meio ambiente, a escola funciona como um centro de experiência em agroecologia.

Durante a visita à Cascavel, o membro da coordenação nacional do MST João Pedro Stedile criticou o modelo de ensino das faculdades tradicionais que formam profissionais capacitados apenas para o modelo de agricultura desenvolvido pelas transnacionais, baseado na monocultura e na utilização extensiva de agrotóxicos e insumos químicos. “Faltam agrônomos que dominem os processos da agroecologia. Para fazer a transição do modelo de produção é preciso difusão do conhecimento, convencimento e apoio do governo”, disse.

Por Thaíse Mendonça, de Cascavel (PR).

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