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Vitória para o povo brasileiro

O fracasso da Rodada Doha, lamentado pelo governo Lula, é, para os movimentos sociais e alguns estudiosos, uma vitória dos verdadeiros interesses do povo brasileiro.

Para o economista Reinaldo Gonçalves, o povo brasileiro saiu ganhando com o fracasso do seu governo na Rodada Doha. Segundo Gonçalves, a forte influência do setor agrícola na política brasileira, principalmente na política externa, fez com que o país aceitasse as considerações da União Européia e dos Estados Unidos e esquecesse os reais interesses do Brasil. “O governo brasileiro deu a ‘cara a tapa’ em Genebra, porque estava, na verdade, querendo fazer qualquer acordo. Isso por duas razões: para capitalizar politicamente no Brasil e para atender os interesses do agronegócio brasileiro”, disse ele à reportagem da IHU On-Line.

Na entrevista que segue, concedida por telefone, o professor avalia a atuação do Brasil em Genebra e as conseqüências disso para o povo brasileiro, para o G20 e para a política externa brasileira. Em relação ao G20, ele acredita que o país, por ser vulnerável à influência do agronegócio, sempre foi visto com desconfiança e que, por isso, países como a China, Índia e Argentina já estavam preparados para assistir o Brasil aceitar aos pedidos dos europeus e estadunidenses.

Reinaldo Gonçalves é formado em Economia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Obteve o título de mestre em Economia, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ), e de doutor em Letters And Social Sciences, pela University of Reading, na Inglaterra. Em 1991, a UFRJ, onde é professor, lhe concedeu o título de Livre-docência. Atualmente, é também diretor da Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Economia e membro de diversas entidades da área de economia do país. É autor de Economia internacional. Teoria e experiência brasileira (Rio de Janeiro: Elsevier, 2004) e Economia política internacional. Fundamentos teóricos e as relações internacionais do Brasil (Rio de Janeiro: Elsevier, 2005).

Confira a entrevista.

Para o senhor, o que determinou o fracasso da Rodada Doha?

Será que de fato houve fracasso? O que houve foi uma interrupção da Rodada Doha nesse mês de julho de 2008. Para alguns países, ela foi um sucesso importante. Eu chamo a atenção para o fato de que o grande fracasso foi da política externa brasileira, sobretudo no que se refere ao seu foco para negociação, que é muito restrito e atende somente a interesses muito específicos.

O que explica a política externa brasileira atual?

O foco das negociações multilaterais no governo Lula é a questão de abertura de mercado para os produtos agrícolas, principalmente àqueles vinculados ao agronegócio. A questão importante é que esse foco restrito não significa necessariamente um ganho para a sociedade brasileira. O que estou querendo dizer é que a política externa brasileira é equivocada e, portanto, o fracasso do governo Lula em Genebra deve ser visto como um sucesso para os interesses nacionais.

O que explica o Brasil ter se voltado contra os principais interesses do G20 e ter aceitado as propostas feitas pelos Estados Unidos e Europa durante a Rodada?

Na verdade, o governo brasileiro deu a “cara a tapa” em Genebra, porque estava, na verdade, querendo fazer qualquer acordo. Isso por duas razões: para capitalizar politicamente no Brasil e para atender os interesses do agronegócio brasileiro. Então, isso é um fracasso localizado, do Itamaraty, da política exterior, para o agronegócio, para o governo Lula, mas não é verdade que seja um fracasso para o Brasil.

Em que medida essa política do Itamaraty, do governo Lula, é contrária aos interesses do povo brasileiro?

O principal foco da estratégia brasileira é a eliminação dos subsídios concedidos nos países desenvolvidos para a produção local de alimentos. Não tenho a menor dúvida que, caso isto ocorresse, ou seja, caso houvesse algum tipo de acordo em Genebra, as grandes empresas do agronegócio no Brasil expandiriam as suas exportações e, portanto, seus lucros aumentariam. Agora, o Brasil perderia com isso. A eliminação dos subsídios agrícolas, que é que o Brasil estava querendo e por sorte fracassou, causaria um aumento dos produtos agrícolas, o que levaria a uma maior pressão inflacionária internacional. Isso é ruim porque ocasiona um aumento tanto do preço do petróleo quanto dos produtos alimentícios. Acontece que, quando existe uma inflação lá fora, por causa do petróleo e dos produtos alimentícios, ela repercute no país e aumenta a nossa inflação, porque os produtores brasileiros de commodities elevam seus preços.

E quem perde…

É o trabalhador brasileiro quem perde com essa maior inflação devido à eliminação de subsídios agrícolas nos Estados Unidos e na Europa. O agronegócio brasileiro ganha, mas o trabalhador perde porque existe a inflação. A aceleração dos preços internacionais do preço dos alimentos aumenta a fome e a miséria no Brasil e no mundo. Então, a política externa do governo Lula, se fosse bem-sucedida, provocaria mais fome e mais miséria. Por isso, os países mais pobres foram contrários à posição brasileira. Isso é importante. O segundo aspecto do fracasso do governo Lula e da vitória do Brasil é que, para o país eliminar os subsídios agrícolas, ele teria de reduzir as tarifas de produtos industriais. O Brasil aceitou isso. E países como a Argentina não aceitaram.

Que problemas isso ocasionaria?

Se, por um lado, os consumidores brasileiros ganhariam, por outro, haveria uma redução de renda daqueles que dependem da indústria brasileira e a perda de competitividade da indústria seria muito grande, o que também ocasionaria uma perda de produção e de emprego. O problema é que, nessa história toda, o Brasil perderia renda. Com essas concessões, o saldo líquido do Brasil seria um valor irrisório. Além disso, esse pequeno aumento de renda ficaria concentrado no agronegócio e a mão-de-obra qualificada teria uma perda de renda. Ainda bem, então, que o governo Lula foi derrotado lá em Doha.

Segundo alguns estudiosos, EUA, Índia e China derrubaram a Rodada Doha. Os três países estão fortemente envolvidos com as três principais crises mundiais: financeira, alimentícia e imobiliária. Podemos relacionar essas crises com o fato de a Rodada Doha não ter avançado?

Não, não há relação. O fato concreto é que esses países têm políticas corretas internamente. É correto que a Argentina defenda a sua indústria, que os Estados Unidos defendam sua agricultura, e assim por diante. É correto eles defenderem o que é importante para cada um. No caso do Brasil, os interesses defendidos são do agronegócio, não do conjunto da população brasileira.

O posicionamento do Brasil durante a Rodada estremeceu as relações com a Argentina. Como o senhor acha que ficará o Mercosul com os resultados de Doha?

O Brasil, quando deu a “cara a tapa” lá em Doha, mostrou uma coisa que governos como o da Argentina e China já sabiam, ou seja, a enorme vulnerabilidade externa brasileira e a extraordinária influência que o agronegócio tem na política do governo Lula. Mesmo no âmbito do G20, esses países sabiam que precisavam estar de olho no Brasil porque o país entregaria a sua indústria e faria concessões desnecessárias para ter melhor condição de acesso do etanol, do açúcar, da soja no mercado internacional. O Brasil é muito vulnerável ainda, pois mantém uma agenda muito retrógrada. Os outros países mencionados já estavam preparados para lidar com isso. Não é a primeira vez que isso acontece. Já nos anos 1980, o Brasil fez concessões desse tipo. Países como Argentina, China e Índia ainda não confiam no Brasil.

O Brasil está andando na contramão, então?

Sim, o que é um problema dos grupos de interesse. Particularmente, no governo Lula, o setor primário exportador aumentou a contribuição de 2,9% em 2002 para 10,4% em 2006. Ou seja, ele, particularmente o agronegócio, aumentou sua influencia no governo. Por isso, nas negociações, o Brasil tem como foco defender os interesses dos commodities agrícolas. Como esse é um setor retrógrado, acabou definindo essa política retrógrada do governo.

O G20 foi uma espécie de resposta a postura dos europeus e norte-americanos em Cancun. E agora, depois de Doha, ele sai desfortalecido?

Sem dúvida alguma. Há conflitos de interesses dentro do G20, mas, desde 2005, quem superestimou o grupo foi o Brasil para fins de propaganda. O governo brasileiro sempre disse que coordenava o G20, mas a política internacional sabe que o Brasil não coordenava verdadeiramente. Esse conflito explicitado no G20 não vai mudar muita coisa, porque os próprios participantes do G20 sempre viram a participação do Brasil no G20 com suspeitas, pois sabem da influência do agronegócio na política brasileira. Eles já foram preparados para Genebra.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.mst.org.br.

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Doha, um fracasso que salvou empregos

Sobrevalorização cambial e juros estratosféricos terminam por levar a alienação de ativos a investidores estrangeiros. Mas para o diretor da Fiesp isso significa fazer o “dever de casa”. Como essa lição, para ser bem feita, solicita uma crescente desestruturação do mercado de trabalho, resta aos especialistas calcularem quantos empregos foram salvos com o fracasso das negociações em Genebra.

Se alguém ainda tinha um mínimo de dúvida de que o caminho traçado pela burguesia brasileira para consolidar, entre nós, uma nova forma de dominação de classe passa pela desconstrução permanente de direitos trabalhistas, Mário Marconini, diretor de negociações internacionais da Fiesp tratou de dissipar qualquer incerteza.

Quando lamenta o fracasso de um acordo que, entre outras coisas, traria um corte médio de 54% nas tarifas de importação do setor industrial, além de acordos setoriais, que levariam a perda de mercado para corporações de países centrais, Marconini demonstra que o ajuste imposto nos anos 1990, com a abertura comercial indiscriminada, foi assimilado por um setor que traz a vocação para a dependência no DNA.

Ao declarar à Folha de S. Paulo (30/7) que “as concessões poderiam significar ganho de produtividade nos próximos anos, à medida que tornaria a realização de reformas estruturais mais prementes”, o dirigente empresarial deixou claro que tipo de projeto encampa como forma de desenvolvimento para o país.

O governo Collor e os oitos anos do consórcio tucano-pefelista já nos ensinaram como a burguesia nativa interpreta o conceito de “produtividade”: terceirização de atividades, fusões, fechamento de plantas, transferência de controle acionário e redução de custos. Sobrevalorização cambial e juros estratosféricos terminam por levar a alienação de ativos a investidores estrangeiros. Mas para o diretor da Fiesp isso significa fazer o “dever de casa”

Como essa lição, para ser bem feita, solicita uma crescente desestruturação do mercado de trabalho, resta aos especialistas calcularem quantos empregos foram salvos com o fracasso das negociações em Genebra.

Por trás dessa “visão modernizadora”, no entanto, persiste o interesse patrimonial típico da elite brasileira, com a visão do aparelho estatal como extensão do patrimônio particular.Falta, contudo, o bloco de poder que até 2002 tratava a administração pública como se fosse a gerência de uma empresa privada ou de uma grande fazenda.

É no compasso de espera do retorno do tucanato ao poder que a direita urde sua trama. Agindo dentro da própria institucionalidade, sem quebra de regras, sem movimentos abruptos. Já não há dúvidas que é mais eficaz, sai menos custoso, além de dar menos visibilidade a seus interesses.

“Marconini, talvez sem o querer, mostrou o que mobiliza os nossos “indignados” e moralistas” completamente inocentes”, em sua grita diária por mais ética e menos gastos públicos. O horizonte é 2010

Por enquanto, resta o consolo de que vários postos de trabalho não foram esterilizados.

Por Gilson Caroni Filho, que é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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A Rodada de Doha ficou para trás. E agora?

Concebida em novembro de 2001 na capital do Qatar, para transmitir solidariedade a um mundo sacudido pelo terrorismo, com os atentados de 11 de setembro daquele ano em Nova York e Washington, a Rodada de Doha se apaga, quase sete anos depois, quanto tomam corpo outras ameaças de crise global nos setores de alimentos, energia e clima.

GENEBRA – As negociações comerciais da Rodada de Doha fracassaram estrepitosamente arrastadas pelas mesmas discrepâncias entre países ricos e pobres que a caracterizaram durante seus quase sete anos de vida. Uma discordância irreparável entre os Estados Unidos, por um lado, e China e Índia, por outro, precipitou o final da conferência de ministros convocada pela Organização Mundial do Comércio, que havia chegado ao nono dia de sessões. O chanceler da Argentina, Jorge Taiana, considerou o ocorrido com Doha o fracasso de uma tentativa dos países industrializados de dar pouco e pedir muito. “E isso não foi aceito em linhas gerais pelos países em desenvolvimento. Me parece que esse desequilíbrio impediu de se resolver estas negociações”, afirmou.

A faísca deste sinistro político internacional foi um assunto caro aos países em desenvolvimento, a criação de um mecanismo de salvaguardas especiais que aumentaria os direitos de aduana quando as importações de produtos agrícolas superassem certo nível e causassem prejuízo aos camponeses das nações pobres. “É incrível que tenhamos fracassado em um único tema”, lamentou o chanceler brasileiro, Celso Amorim. “Não significa que a questão não seja importante para alguns países, mas já havíamos decidido muitos outros assuntos intratáveis”, acrescentou.

O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, disse que de uma lista de 20 tópicos em discussão já se havia progredido em 18. Mas a brecha não pôde ser fechada no tema 19, lamentou. Os Estados Unidos se opuseram por considerarem que o mecanismo poderia levara a abusos, enquanto China e Índia o exigiam como uma defesa do sustento, da segurança alimentar e do desenvolvimento rural dos camponeses dos países em desenvolvimento. A divergência impediu que os ministros de 30 países e representantes dos demais 153 membros da OMC chegassem a um acordo sobre os parâmetros das negociações para liberalizar a agricultura e os produtos industriais, ou acesso aos mercados dos produtos não-agrícolas (Nama).

Concebida em novembro de 2001 na capital do Qatar, para transmitir solidariedade a um mundo sacudido pelo flagelo do terrorismo, com os atentados de 11 de setembro desse ano em Nova York e Washington, a Rodada de Doha se apaga quanto tomam corpo outras ameaças de crise, em alimentos, energia e clima. Diante da crise mundial nos preços dos alimentos, é irônico que se pretenda criar mais barreiras ao intercâmbio mundial destes produtos, disse Susan Schwab, representante de Comércio dos Estados Unidos. Carin Smaller, do Instituto de Políticas para a Agricultura e o Comércio (IATP), afirmou que Washington propõe a abertura dos mercados como a melhor forma de conseguir segurança alimentar e promover o sustento.

Por sua vez, Índia e China, com apoio da maioria dos países em desenvolvimento, dizem que as salvaguardas são o melhor resseguro em caso de ocorrer grandes transtornos nos mercados agrícolas. A subsecretária de Economia do México, Beatriz Leycegui, considerou o fracasso de Doha uma perda para todo o mundo, porque ocorre em meio a uma crise econômica muito forte, onde há protecionismo e falta credibilidade no sistema multilateral. “Nessas condições, era urgente obter um resultado”, disse.

Lamy aceitou que Doha “fracassou”. Deixemos a poeira baixar, respondeu sobre futuras atividades negociadores da OMC. Mas, explicou que “minha reação não é a de jogar a toalha”. Alfredo Chiaradía, secretário de Relações Comerciais Internacionais da chancelaria da Argentina, disse que durante a última reunião de ministros, ontem, alguns se declararam partidários de novas tentativas para ressuscitar a Rodada. Leycegui reconheceu que o México insistiu em “não jogar no lixo tudo o que se conseguira” nos nove dias de negociações. “Foi uma frustração porque pensávamos que o acordo estava muito próximo, mas faltou um pouco de compromisso político”, disse.

Anne-Laure Constantin, outra especialista do IATP, falou à IPS de suas esperanças de que os países-membros da OMC encontrem outra fórmula de encarar o comércio em nível multilateral. “Uma forma que se adapte mais às novas condições do mundo e ajude os países diante da crise que enfrentam, de alimentos, energia e clima. O processo de Doha deveria se converter em uma rodada do desenvolvimento, para favorecer os países mais pobres. Por esse motivo este desenlace se converte em frustração”, disse Taaiana.

Jeremy Hobbs, diretor da Oxfam Internacional, disse estar decepcionado com o ocrrido. Quando os preços dos alimentos e da energia sobem e que as perspectivas da economia mundial se mostram incertas, o número de pobres crescem sem parar, afirmou. “Por isso, um acordo comercial decente teria dado a oportunidade de prevenir o agravamento da pobreza”, disse Hobbs.

Por sua vez, Aftab Alam Khan, da ActionAid, entidade dedicada à promoção do desenvolvimento, atribuiu a responsabilidade do fracasso ao Estados Unidos e à União Européia, “que não puderam pensar além dos interesses de suas empresas multinacionais, que querem se apropriar de todas as oportunidades nos mercados dos países pobres. O fato de Estados Unidos e União Européia responsabilizarem China e Índia pelo ocorrido é de fazer rir”, concluiu. (IPS)

Por Gustavo Capdevila (IPS).

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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