União dos bancos brasileiros é resposta à ofensiva de grupo
A fusão do Itaú com o Unibanco, anunciada nesta segunda-feira, tende a ser vista como um desdobramento da crise financeira internacional e da onda de desconfiança que recaiu sobre bancos do mundo todo – inclusive no Brasil, ainda que com menor intensidade. Este, porém, parece ser um ingrediente secundário, talvez apenas um catalisador, da união que acaba de criar o maior grupo financeiro da América Latina. O fator determinante é certamente a intenção de fazer frente ao avanço do grupo espanhol Santander sobre o mercado brasileiro – e a pista decisiva sobre tal motivação está na informação de que as conversas entre os controladores do Itaú e do Unibanco começaram 15 meses atrás. Ora, a compra do Banco Real pelo Santander foi anunciada no dia 10 de setembro do ano passado. Há quase 14 meses, portanto. O movimento dos espanhóis, porém, já era dado como certo pelo menos 40 dias antes do anúncio, o que coloca os tais 15 meses perfeitamente dentro do cronograma da fusão Real-Santander.
Em agosto do ano passado, a então chamada crise do subprime já havia sido deflagrada nos Estados Unidos, mas não se tinha idéia do poder destrutivo de seus desdobramentos. Se Itaú e Unibanco começavam ali seus entendimentos para uma união, é equivocado atribuí-los à crise financeira. Há quem diga que a crise pode ter acelerado a fusão, derrubando eventuais resistências de acionistas. Mas é improvável que, mesmo com céu de brigadeiro nas finanças, houvesse uma rejeição mais séria ao casamento dos bancos. De um lado, os acionistas do Itaú têm claro que foi justamente ele o banco ultrapassado com a fusão entre Santander e Real. O banco das famílias Setubal e Villela perdeu sua duradoura condição de segundo maior banco privado do país, atrás do Bradesco. E de terceiro no ranking geral, liderado pelo Banco do Brasil. Por sua vez, o Unibanco, que nos últimos anos já não agüentava o ritmo de crescimento imposto por Bradesco e Itaú, era o eterno alvo de especulações sobre uma eventual venda de seu controle para algum grupo internacional. É difícil imaginar que seus acionistas rejeitassem a união com o Itaú, mesmo sem crise no cenário.
É verdade, sim, que o Unibanco se viu mais uma vez envolvido em rumores negativos devido à sua aliança, no Brasil, com a seguradora americana AIG, que teve de ser socorrida pelo governo americano para não quebrar, em setembro. O banco dos Moreira Salles chegou a antecipar a divulgação de seu último balanço, para dissipar boatos sobre sua saúde financeira. E efetivamente os dissipou, ao apresentar números sólidos ao mercado, ainda que bastante inferiores aos de Bradesco e Itaú.
Por tudo isso, é razoável supor que a turbulência dos últimos meses possa ter apressado a definição do negócio. Mas não se deve perder de vista a motivação estratégica da fusão. E ela se chama Santander. Com a compra do Real, o grupo espanhol passou a controlar o terceiro maior banco do Brasil, com 2.177 agências, 55 mil funcionários e 21,6 milhões de clientes. Sua participação de mercado é de aproximadamente 15%. Estabelecida esta sólida posição, não resta dúvida das pretensões espanholas. Na sexta-feira passada, em visita oficial ao Brasil, o presidente mundial do Santander, Emilio Botín III, foi enfático ao dizer que seu banco quer ser o primeiro do ranking privado brasileiro. É provável que, sozinhos, nem Itaú nem Bradesco pudessem detê-lo. Associado ao Unibanco, o primeiro passou da defesa ao ataque. Resta saber quais as perspectivas do Bradesco, que ficou sozinho diante das duplas Santander-Real e Itaú-Unibanco. E, aparentemente, não tem com que se juntar.
por alexandre teixeira