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Por 22:31 Sem categoria

E agora, ao social

Na festa de CartaCapital, destinada a premiar as Empresas Mais Admiradas no Brasil e a celebrar o aniversário da revista, o 15º, o presidente Lula não estava com a cadelinha dálmata, estava é com a macaca. Ou, se quiserem, estava inspirado, a mostrar como se cativa um auditório.

A dálmata, não se surpreendam, cabe no enredo. Entre afirmações de grande peso, ironias de notável sutileza e a evocação de episódios escolhidos para despertar a hilaridade embora bastante representativos, a cadelinha não arreda pé do passado de Lula porque, muito tempo atrás, uma jovem jornalista não entendeu como um metalúrgico pudesse hospedar em sua casinha de São Bernardo do Campo um bicho tão aristocrático. Por causa de situações deste gênero, explicou o presidente, ele perdeu ranço e rancor.

Quanto à macaca, diz respeito ao extraordinário talento de comunicador do presidente da República mais popular na história do Brasil. Capaz também de fazer valer seu carisma no estrangeiro para conquistar a admiração do mundo. O discurso pronunciado por Lula na noite de CartaCapital é um primor de graça autêntica e também como peça política.

No ano passado, outubro também, o muro do neoliberalismo ruíra, quase vinte anos depois da queda de outro, o muro do socialismo real. Ambos fizeram por merecer. A festa de 2008 foi marcada pela desorientação da plateia e até pelo desalento. Único ali, a manter uma desabrida tranquilidade, o presidente da República. Já ensaiava o que viria pouco tempo depois, o vaticínio da “marolinha”.

O tempo deu-lhe razão, em boa parte, e hoje o leva a acentuar como a situação atual- deste país protegido pela natureza mas conduzido por cidadãos capazes de manter “a cabeça erguida” (palavras dele) explica o favor global e encaminha-o para tornar-se a quinta potência econômica até 2016. Diante disso, não há como a assistência não estrugir em palmas. CartaCapital – espera que a consciência desta perspectiva tão próxima da realização empolgue a nação, a repelir a ação contrária de quem, por exemplo, gostaria de entregar o pré-sal à Shell ou à Esso.

Até parece que o Brasil do futuro está na iminência de virar o Brasil do presente, para o bem geral, inclusive dos maus brasileiros, incapazes de enxergar as suas próprias conveniências. Se assim for, se a potencialidade econômica se afirmar, que faltaria? Admitamos que as condições de vida dos mais pobres tenham melhorado, como afirma o presidente Lula, assim mesmo pouco na visão de CartaCapital. De todo modo, a questão central ainda pousa na péssima, injusta distribuição de renda. Para ser, de verdade, o País do Presente, o Brasil precisa enfrentar seu maior problema, de cuja solução depende o êxito de um capitalismo pós-enterro do neoliberalismo.

Duas semanas atrás, neste mesmo espaço, falava de um livro recém-publicado na Itália sobre Enrico Berlinguer, um dos últimos grandes líderes políticos ocidentais. Recebi, a par da manifestação de simpatia do presidente da Fundação Astrojildo Pereira, Caetano Pereira de Araújo, de presente dois livros que a entidade lançou à sombra da coleção “Brasil e Itália”: Por um Novo Reformismo, de Giuseppe Vacca, pensador validíssimo, e Democracia, um Valor Universal, coletânea de trechos de ensaios, artigos, discursos e entrevistas de Berlinguer.

Extraio desta segunda obra uma resposta do líder comunista a um entrevistador da Time Magazine, em junho de 1975. Soa à perfeição no Brasil de hoje. Pergunta o jornalista americano: “O que aconteceria se o Partido Comunista passasse a fazer parte do governo nacional?” Responde Berlinguer: “Antes de tudo, no terreno da política interna, haveria o início de importantes reformas sociais, como as da habitação, da escola, do urbanismo. Depois, pressionaríamos para um grande avanço da produção agrícola e industrial, levando adiante um processo de modernização tecnológica.”

“Em segundo lugar”, prossegue o entrevistado, “e isto é de vital importância, promoveríamos um saneamento moral da vida política, social e judiciária da Itália.” E ainda: “Trabalharíamos também para pôr fim ao amplo sistema de clientelismo, que é fonte de tanto desperdício. Existe um nexo entre criminalidade comum e desordem política e, enquanto não eliminarmos a corrupção, especialmente nas cúpulas, não podemos esperar por grandes mudanças na criminalidade…”

Tanto mais inspiradoras estas declarações a se considerar que Berlinguer conduziu o PCI para uma linha própria, independente de Moscou, conforme “as melhores tradições democráticas e patrióticas da Itália”.

Por Mino Carta.

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E o presente chegou

Em outubro de 2008, o clima da festa de premiação das Empresas Mais Admiradas no Brasil era de perplexidade e aturdimento. Há poucas semanas, ruíra o muro do neoliberalismo. O fantasma de 1929 assombrava.

Só uma voz otimista se fez ouvir, a de Lula. No discurso de encerramento do evento, o presidente comemorou o crescimento de 5% previsto para 2008 e exortou os empresários a apostarem no País. Foi o ensaio do termo “marolinha”, que tanto debate provocaria no primeiro semestre.

Marolinha talvez não tenha sido, como lembrou Mino Carta, diretor de redação de CartaCapital, mas o Brasil mostrou uma capacidade inédita de se destacar em meio a uma crise que se espalhou por todo o globo. Em mais uma noite de festa das mais admiradas, realizada na segunda-feira 19, em São Paulo, ficou claro que o empresariado nacional superou a apreensão. A realidade venceu o medo. Exagero? Poucas horas antes de subir ao palco para receber o prêmio de segundo líder empresarial mais admirado (o primeiro colocado foi Antônio Ermírio de Moraes, da Votorantim), o diretor-presidente da Vale, Roger Agnelli, anunciara investimentos de 24 bilhões de reais em 2010.

Em seu discurso, Lula citou as promessas de investimentos da Vale e da Petrobras e acentuou que os resultados da economia neste ano lançaram o Brasil a outro patamar. “Em outros tempos, éramos um país considerado de quinta categoria ou uma república menor, mas chegamos lá. Estudo do Banco Mundial aponta que, em 2016, quando a Olimpíada será realizada no Rio de Janeiro, o Brasil poderá ser a quinta maior economia do mundo.”

Segundo o presidente da República, uma das mudanças é que o País agora participa de cabeça erguida dos fóruns internacionais e tem o que ensinar ao mundo. “Já estava cansado daqueles especialistas que vinham até aqui nos dizer como fazer as coisas, enquanto seus bancos afundavam”, ironizou ao alfinetar o FMI. E prosseguiu: “Os mais pobres se tornaram consumidores (…). Por muito tempo, a publicidade nas tevês era direcionada a quarenta e poucos por cento da população. Significa que 50% não tinham nem o direito de ver a publicidade feita na televisão, chamando-os às compras. Essa gente aprendeu a entrar em shopping, aprendeu a entrar no supermercado, e a comprar as coisas que todo mundo tem direito de comprar”.

Copresidente do Conselho de Administração da Natura, a empresa mais admirada, Luiz Seabra considera que o Brasil não é mais o país do futuro, mas do presente. “Precisamos aproveitar as oportunidades à nossa frente”, afirmou à plateia. Seabra fez questão de citar o exemplo da própria companhia, que completa 40 anos em 2009: “No início tínhamos dez funcionários ao -todo. Hoje- nos orgulhamos da marca de 6 mil funcionários e de 1 milhão de consultoras, sendo 850 mil no Brasil e 150 mil nos países da América Latina”.

Em uma queda de braço com o governo, que reclama do recuo da Vale durante o primeiro semestre, Agnelli fez questão de ressaltar os efeitos dos novos investimentos anunciados. “A produção até 2014 será de 450 milhões de toneladas de minério de ferro ante 350 milhões de toneladas neste ano”, disse a jornalistas. “Já se notam sinais de recuperação da demanda mundial. O programa de investimentos da Companhia, cujo foco é o minério, é ambicioso e busca ampliar sua capacidade de geração de valor”, afirmou o presidente do Conselho de Administração da Companhia, Sérgio Rosa, falando à CartaCapital.

O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, discursou em nome dos líderes empresariais e afirmou que o momento atual é de otimismo. “Em janeiro, no auge da crise, ao anunciarmos investimentos de 174 bilhões de dólares, houve surpresa. Dizia-se que estávamos remando contra a maré e éramos irresponsáveis. Mas a ordem do governo era de manter investimentos. Passados nove meses, a premissa de que o Brasil era uma economia bem aparelhada mostrou-se correta. Tivemos um impacto muito baixo em relação a outros países.”

Segundo Gabrielli, com a expansão- do mercado interno, a maior inserção externa e a redefinição do gasto público (mais investimentos e menos -custeio), o Brasil ingressa agora em uma fase de grandes projetos, com maior presença do Estado. E destacou a demanda para exploração do pré-sal. “Isso abre oportunidades gigantescas para a indústria nacional, com encomendas para o pré-sal, cinco unidades de refino, toda a parte de logística das operações e milhares de quilômetros de dutos.” Outra a anunciar a retomada de investimentos foi a Gerdau, oitava colocada entre as mais admiradas. O grupo decidiu reiniciar o projeto de instalação do laminador de chapas grossas na usina siderúrgica em Ouro Branco (MG), projeto estimado pelo mercado em 1,75 bilhão de reais e que havia sido adiado devido à crise no consumo de aço. “O mercado brasileiro está apresentando gradual retomada da demanda por aço e as expectativas para os próximos anos são muito positivas, o que nos levou a decidir pela ampliação da nossa linha de produtos no Brasil, com o início da produção de chapas grossas”, afirmou o diretor-presidente da Gerdau, André Gerdau Johannpeter.

O laminador de chapas grossas terá capacidade instalada de 1 milhão de toneladas por ano, com possibilidade de futuras expansões, e sua entrada em operação está programada para o fim de 2012. O principal foco do investimento é o mercado interno, especialmente o segmento petrolífero, seguido da indústria naval, da construção civil e de equipamentos pesados.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que as perspectivas para a economia em 2010 são bastante positivas. Segundo ele, o Brasil deve crescer entre 2,5% e 3% no terceiro trimestre deste ano e no mesmo ritmo entre outubro e dezembro, o que aumenta a chance de uma expansão entre 4% e 5% no próximo ano. As vendas no varejo estão se mantendo em bom patamar, o setor produtivo está voltando a ampliar seu nível de produção e a concessão de crédito se normalizou.

Também pouco antes de participar do evento, Mantega havia anunciado novidades: a taxação de 2% do capital estrangeiro aplicado na Bolsa brasileira e em títulos públicos e privados de renda fixa. O objetivo é tentar deter a excessiva valorização do real diante do dólar.

Responsável pela geração de pouco mais de um terço dos empregos existentes no País, o setor de agronegócio nacional ganhou neste ano uma medição exclusiva, com a avaliação de vinte setores e a eleição das dez mais do segmento. O troféu de mais admirada, independente do segmento de atuação, ficou com a Tortuga, do ramo de nutrição animal, cuja receita em 2008 atingiu 723 milhões de reais. A crise não deve abalar os resultados deste ano. “Nossa previsão continua sendo a de crescer 10%”, disse o presidente, Max Fabiani, que, -emocionado, recebeu o prêmio das mãos do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab.

Bem-humorado, Lula disse em seu discurso que não aguentava mais que o Fundo Monetário Internacional ditasse as regras, como se o Brasil não tivesse governo, mas afirmou que não tinha ranço com nada, nem com ninguém, pois o País superou as adversidades. Para ilustrar sua posição, lembrou de um episódio dos tempos em que presidia o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Uma jornalista, contou Lula, da revista Latidos e Miados fora entrevistá-lo no fim da década de 1970, em sua casa, em São Bernardo do Campo, e impressionada, negativamente, com um presente dado ao metalúrgico por Renato Consorte, ator falecido em janeiro deste ano e que participara, à época, de manifestações a favor das greves no ABC.

“Essa moça ficou indignada porque encontrou no meu quintal uma cachorrinha dálmata que eu tinha ganho do nosso querido Renato Consorte. Na greve de 79, em um show que a Elis Regina, o Gilberto Gil, o Gonzaguinha fizeram lá na Vera Cruz, o Renato me prometeu uma cachorrinha policial. Não tinha policial, fiquei com uma dálmata. Pois essa moça ficou indignada: como é que um metalúrgico poderia ter uma cachorrinha dálmata. Então, eu não tenho mais motivo para ter ranço, para ter mágoa dessas coisas, porque conseguimos superar isso, na prática.”

Por Roberto Rockmann.

ARTIGOS COLHIDOS NO SÍTIO www.cartacappital.com.br.

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