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Meirelles diz que BC entregará ao país inflação condizente com trajetória de metas

Brasília – O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse que o aumento de preços no atacado, superior ao verificado no varejo, é reflexo de uma demanda aquecida que gera riscos de repasses generalizados ao varejo. Segundo ele, hoje há uma inflação não só de alimentos, mas de matérias-primas, metais, químicos, petróleo e serviços. Segundo ele, essa inflação será mantida num patamar consistente com a trajetória de metas com uma economia crescendo de forma sustentável. Meirelles falou com a Agência Brasil, por cerca de uma hora.

Para ele, caso o presidente da República e o Congresso Nacional decidam por uma elevação do superávit primário (a economia que o país faz para honrar seus compromissos financeiros), isso ajudaria na medida em que a relação entre dívida e Produto Interno Bruto (PIB) cairia com maior rapidez, potencializando ainda mais a atual política monetária. Ele deixou claro que não cabe ao Banco Central definir quais são a prioridades do país, em termos de gasto público.

Meirelles também afirmou que o controle da inflação será feito pelo Banco Central com a taxa básica de juros, descartando alterações no sistema de compulsórios sobre depósitos à vista (dinheiro que os bancos repassam ao BC). Segundo ele, a experiência acumulada nos últimos dez anos de metas de inflação pode ajudar no atual esforço de controle dos preços. “Usando a analogia do tiro ao alvo, o Banco Central sempre mira na meta. Depois do tiro disparado pode haver um vento forte que desvie um pouquinho a bala. Mas a próxima bala vai ser de novo atirada em direção à meta”, disse.

Ele lembrou que, quando o Banco Central manifestou preocupação com a inflação, muitos analistas de mercado acharam que a autoridade monetária exagerava. Mas, à medida que se confirmaram as preocupações do BC, muito desses analistas reagiram de uma forma “talvez também exagerada”. “Antes estavam, talvez, eufóricos. Hoje estão próximos do pânico”, enquanto o Banco Central mantém “absoluta serenidade”, uma vez que o que está acontecendo atualmente já estava previsto. “O Banco Central previu toda esta manifestação, anunciou e está tomando medidas a tempo”, disse Meirelles. Leia a íntegra da entrevista.

Agência Brasil: Economistas dizem que uma elevação do superávit primário, com cortes de gastos correntes, potencializaria a política monetária do Banco Central.

Henrique Meirelles: As opções de política econômica têm que ser feitas dentro do quadro de possibilidades administrativas, políticas e econômicas. Não há dúvida de que do ponto de vista meramente econômico, um aumento do superávit primário tem vantagens importantes, na medida em que a relação dívida/Produto [Produto Interno Bruto, a soma das riquezas produzidas no país] cai com maior rapidez. Isso tenderia a baixar as taxas de juros do país a longo prazo. Por outro lado, existem demandas importantes da sociedade por gasto público que são expressas através dos diversos setores da sociedade e principalmente pelo Congresso Nacional. A definição de prioridades na gestão dos recursos públicos é algo que envolve uma discussão mais ampla do que meramente pronunciamento de uma ou outra autoridade ou analista. O quadro de discussão de fatores é de uma abrangência maior do que meramente os aspectos econômicos. Não compete ao Banco Central definir e sugerir qual é a composição ótima das prioridades econômicas. Compete ao presidente da República, ao governo e ao Congresso Nacional, dentro das prioridades de despesas públicas, de investimentos. E cabe ao Banco Central cumprir seu papel.

ABr: É uma arte difícil compatibilizar o anseio da sociedade de crescer e fazer com que a inflação fique sob controle? Qual é o fio da navalha dessa política?

Meirelles: Entendo que são objetivos absolutamente compatíveis. Não há nenhuma incompatibilidade entre inflação baixa e estável e crescimento econômico. Muito pelo contrário, não existe exemplo de país no mundo que tenha crescido com taxas elevadas, com períodos prolongados com inflação alta. Na medida que sobe a inflação, ela, em primeiro lugar, corrói o poder de compra do trabalhador. Além dos problemas sociais, gera uma queda da demanda doméstica. Essa queda, em última análise, vai se refletir na produção. Outro fator é que a inflação desorganiza a atividade produtiva, o planejamento das famílias e das empresas, fazendo com que haja uma taxa de crescimento menor e muitas vezes uma recessão. É o fenômeno conhecido como estagflação que se estabelece a partir do momento que a inflação se instala de forma mais permanente. Vivemos isso durante muito tempo. Nesse sentido, entendemos que o esforço de estabilização feito pelo governo Lula, nos seus primeiros anos, que trouxe a inflação para a trajetória de metas e estabilizou a economia, é exatamente o fator mais importante para o momento em que a economia está vivendo hoje de crescimento elevado, acima de 5%. A geração de empregos é a maior da história. Nos últimos três meses, tivemos 200 mil empregos novos formais por mês. O desemprego é o menor na série histórica. O investimento vem crescendo a taxas sem precedentes no Brasil, cerca de 16% ao ano, e também paralelamente uma arrecadação tributária crescente que não só dá condições para se falar até em aumento do [superávit] primário, mas certamente dá condições para que o PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] seja implementado com todo o sucesso. É exatamente uma política monetária rigorosa, a não hesitação do Banco Central de manter a inflação na meta, é que garante o crescimento e, portanto, o sucesso do banco.

ABr: O Banco Central ao persistir nos seus objetivo de controle da inflação, elevando juros, não passa um sinal ao investidor de que o custo do investimento vai ficar mais alto?

Meirelles: É importante mencionar que o maior fator que fez com que o investimento privado no Brasil atingisse os patamares de crescimento que tem hoje – os maiores da nossa história recente – são resultado da estabilidade e da previsibilidade. Portanto, a confiança na capacidade do Banco Central, e no seu compromisso com a manutenção da estabilidade, é melhor garantia do empresário para continuar investindo, e de que não haverá descontrole inflacionário. É esta mensagem fundamental que tem feito com que os investimentos no Brasil venham aumentando, exatamente com a política deste Banco Central.

ABr: A taxa de juros é o melhor mecanismo que o Banco Central tem hoje para conter a inflação, principalmente no grupo de alimentos?

Meirelles: São várias coisas diferentes que temos que levar em conta. Em primeiro lugar, existe, sim, uma inflação de alimentos, mas não é só de alimentos. Temos hoje uma inflação que já tem uma difusão muito maior. Temos desde a inflação de matérias primas, metais, não metálicos, químicos, petróleo e uma atividade bastante aquecida levando também a uma inflação na área de serviços. Temos um aumento dos preços no atacado bastante acima dos preços no varejo que numa situação de atividade e a demanda bastante aquecida gera riscos de repasse mais generalizado de preços para o varejo. Exatamente por isso, no entanto, que o Banco Central já anunciou que tomará qualquer providencia que for necessária e, em conseqüência, as perspectivas de inflação estão ancoradas nas metas de inflação porque os agentes econômicos têm e devem ter confiança de que o Banco Central vai entregar uma inflação consistente com trajetória de metas. Portanto, isso faz com que o Banco Central já tenha anunciado e tomado uma atitude tempestiva. Esta é vantagem importante: O Banco Central agiu a tempo e a hora e está agindo e está preparado para continuar a agir. Portanto, a Nação pode estar tranqüila de que o Banco Central vai manter a inflação na meta. Em relação a isso a taxa de juros juntamente com o sistema de metas de inflação têm se revelado no mundo todo como o mecanismo mais adequado para a aplicação da política monetária. Portanto, a meta de inflação como arcabouço de regime monetário e a taxa de juros como instrumento de política monetária, é o sistema consagrado no mundo todo.

ABr: Muitos economistas acham que o Banco Central deveria elevar os compulsórios sobre depósito à vista para reduzir o descompasso entre oferta e demanda?

Meirelles: O Brasil tem compulsórios elevados em termos internacionais. Já está bastante acima da média e dos máximos praticados em outros países. A experiência do Banco Central, e de diversos bancos centrais do mundo, é de que o meio mais eficientes é exatamente o manejo da taxa básica, no caso do Brasil, a taxa Selic.

ABr: O senhor chegou ao Banco Central quando a taxa de inflação estava em 12,5% e trouxe para o nível de 3,14%, em 2006. Com essa experiência o senhor acha que dá para manter a inflação dentro do prometido, ou eventualmente, terá que alterar a meta?

Meirelles: É importante dizer o seguinte: quando o Banco Central manifestou preocupações com a inflação muitos analistas de mercado acharam que o Banco Central talvez estivesse preocupado exageradamente. Na medida em que se confirmaram as preocupações do Banco Central – e hoje estão sendo confirmadas pelos números-, muitos desses analistas reagem de uma forma, talvez também exagerada. Na medida que antes estavam, talvez, eufóricos, hoje estão próximos do pânico. Enquanto para o Banco Central, neste aspecto, mantém uma posição de absoluta serenidade: o que está ocorrendo hoje é exatamente o que constava nas nossas previsões e para o que anunciamos e começamos adotar medidas tempestivas. Portando, o que queremos é dar uma mensagem de tranqüilidade. O Banco Central previu toda essa manifestação, anunciou e está tomando medidas a tempo e a hora. Portanto, o Banco Central vai mais uma vez entregar ao país uma inflação consistente com a trajetória de metas e uma economia crescendo de forma sustentável gerando emprego com investimentos elevados, porque os empresários brasileiros estão cada vez tendo confiança de que o Brasil é um país estável e continuará estável.

ABr: O senhor descarta então ajuste no centro da meta de inflação? Alguns analistas estão dizendo que poderia subir de 4,5% para 5%?

Meirelles: A meta é uma decisão do Conselho Monetário Nacional [CMN] e a discussão que vai se dar na próxima reunião do CMN diz respeito à meta de 2010. Não existe, que eu saiba, qualquer agendamento para uma mudança: ou seja a meta para 2008 e 2009 está fixada e nós vamos fixar a meta para 2010.

ABr: Quando o Banco Central pegou inflação de 12,5% e trouxe para o atual patamar, isso lhe rendeu acúmulo de experiência e credibilidade junto aos agentes econômicos. A experiência ajuda o Banco Central neste momento em que a inflação dá sinais de aumento?

Meirelles: É importante mencionar que a expectativa de inflação para 2009 é de 4,5%, que é a meta. Usando a analogia do tiro ao alvo, o Banco Central sempre mira na meta. Depois do tiro disparado pode haver um vento forte que desvie um pouquinho a bala. Mas a próxima bala já vai ser de novo atirada em direção à meta. Quer dizer, o Banco Central não atira em outra direção que não seja o centro da meta. Agora, evidentemente, que o Banco Central não atira junto do alvo. A arma não está encostada no alvo, está a uma certa distância; que são – trazendo esta realidade para a política monetária- a defasagem dos efeitos de política monetária entre a medida tomada pelo Banco Central e o efeito na atividade e inflação. O Banco Central sempre age com uma mira no centro da meta e os desvios que ocorrerem são trazidos, exatamente pelos choques externos, que se dão durante o período da defasagem.

ABr: A experiência dos últimos anos no combate à inflação ajuda o BC a fazer um mira mais exata?

Meirelles: Certamente, não há dúvida. Hoje nós estamos caminhando para dez anos de implantação do regime de metas. De um lado, é um período curto, mas a cada tempo que passa ele tem um ganho de experiência importante. Quando assumimos, o regime de metas não tinha nem quatro anos. Era uma série muito curta de experiência. Hoje temos mais experiência e bem sucedida.

ABr: Esta menor experiência do Banco Central em metas de inflação, tempos atrás, fez com que atuasse de forma mais firme do que deveria?

Meirelles: Não. Acredito que o Banco Central agiu de forma adequada. Precisamos levar em conta que a situação quando assumimos era de bastante dificuldade. A inflação tinha rodado a 12,5% no ano de 2002, mas chegou a 17% em 12 meses acumulado. Existem diversos fatores que ajudam nesse processo: um deles é da maior experiência. O segundo é a maior credibilidade do Banco Central. Na medida em que os agentes formadores de preços passam a ter maior confiança de que o Banco Central vai fazer o necessário para que a inflação esteja na meta, os agentes econômicos têm uma tendência menor de aumentar os preços acima da meta, porque há risco de perder mercado. O terceiro é a própria estabilização da economia brasileira. Isso faz com que as oscilações [volatilidade] da inflação, taxas de juros e de produto diminuam. Tudo isso facilita com que cada vez mais o custo da desinflação seja menor. Mas importante é que o país consiga crescer a taxas altas, em termos médios, com custo menor e com taxas de juros médias menores ao longo do tempo.

ABr: Outro reflexo do aquecimento da economia pode ser visto com a elevação das importações e estamos tendo um déficit do balanço de transações correntes [os pagamentos e recebimentos do Brasil com o exterior]. Como o senhor vê o comportamento do nosso balanço de pagamentos?

Meirelles: Uma das razões da elevação do déficit de transações correntes é o aumento das importações; impulsionado pela demanda interna, que está bastante aquecida. Um dos mecanismos é exatamente um ajuste monetário que faz com que haja uma moderação desta demanda doméstica. Isso está sendo feito e com as demais políticas do governo – como a política industrial- nossa expectativa é de que o equilíbrio dessas contas será restabelecido.

ABr: O Banco Central tem dito que o déficit com as contas correntes será coberto com o investimento direito [recursos externos que se destinam à parte produtiva da economia e geram empregos], mas isso não ocorreu no primeiro trimestre?

Meirelles: Se olharmos um período maior, veremos que os investimentos direitos, como ocorreu no ano passado, atingiram valor superior a US$ 35 bilhões. Enquanto a previsão do Banco Central para este ano é acima de US$ 30 bilhões e não se espera um déficit de transações correntes maior que isso.

ABr: Caso esse déficit continue subindo, em algum momento haverá reflexo sobre a taxa de câmbio e, como conseqüência, sobre o controle dos preços. Como o senhor vê esse processo?

Meirelles: Precisamos ter consistência na análise econômica. O que não podemos é estar preocupados com a queda do dólar frente ao real e ao mesmo tempo estarmos preocupados com a subida do dólar, possível ou potencial, em função do aumento do déficit em conta corrente. Quer dizer: estes são mecanismos normais de equilíbrio da atividade econômica. Na medida em ue há aumento do déficit em conta corrente, é previsível que isso se reflita na cotação da moeda. O que não podemos é, enquanto o dólar esta caindo, nos esquecer dos benefícios para a inflação e nos preocupar com déficit em conta corrente futuro. No momento em que o dólar, em função do déficit em conta corrente começar a subir, se vier a subir, aí nós deixamos de nos preocupar com a conta corrente e aí passamos a nos preocupar com a inflação. É um equilíbrio normal da atividade econômica e, certamente, o país não poderá contar de maneira permanente com a apreciação cambial como forma de controlar a inflação.

ABr: Com o déficit em conta corrente ocorre redução das reservas internacionais e os custos internos de financiamento?

Meirelles: Não há dúvida que existe um custo de carregamento das nossas reservas, mas por outro lado, existe um benefício muito grande que é o aumento da capacidade de resistência do país aos choques e a melhora do risco país e sua capacidade de captação externa. Em resumo: reduz o custo de carregamento do total da dívida pública, em função da melhora do risco e estamos aí vendo o investiment grade [grau de investimento, classificação que sinaliza aos investidores externos que o país tem condições de honrar seus compromissos, portanto é seguro para se investir] que confirma isso. Portando, o custo benefício das reservas tem sido favorável ao país.

Por Ivanir José Bortot e Kelly Oliveira – Repórteres da Agência Brasil.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍITO www.agenciabrasil.gov.br.

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