Campanhas salariais nos anos 1970 iniciaram rearticulação sindical
Há 30 anos, Conclat foi a matriz de unidades e desencontros sindicais
Conferência na Praia Grande (SP) reuniu todas as correntes de pensamento entre os trabalhadores.
São Paulo – Autênticos, comunistas, moderados, pelegos, radicais, revolucionários conservadores e outros fizeram, 30 anos atrás, o que até hoje é considerado o maior encontro sindical contemporâneo no Brasil. A importância foi histórica, considerando-se que o período de reorganização de forças aconteceu ainda sob a ditadura. Mais de 5 mil delegados de mil entidades participaram em Praia Grande, litoral sul paulista, da 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat).
Foram três dias – de 21 a 23 de agosto de 1981 – de discussões que envolveram, pela primeira e única vez, todas as correntes de pensamento atuantes no sindicalismo. Ali foi aprovada a decisão de se criar uma central única, o que aconteceria apenas dois anos depois – com a formação da CUT –, quando as divergências impediram o discurso unitário.
A ditadura terminaria apenas em 1985 – desde 1979, quem ocupava o Palácio do Planalto era João Figueiredo, o último dos generais-presidentes. Na época da Conclat, já havia sido aprovada a Lei da Anistia (1979), mas o país ainda convivia com ameaças de retrocesso feitas pela chamada linha dura do regime, explicitadas pelos atentados à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em 1980, e no Riocentro, em 1981. E, claro, a arapongagem ainda corria solta.
Um agente do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) de Santos (SP), vizinha à sede da conferência, por exemplo, classificou a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) de “um verdadeiro congresso de cúpula socialista-comunista”, onde “farto material de literatura de esquerda foi distribuído e vendido”. A menção é parte de relatório encontrado no Arquivo Público do Estado de São Paulo.
Naquele período, o movimento sindical se reorganizava e incomodava o poder de plantão. As greves de 1979 e 1980, particularmente na região do ABC, ganhavam o noticiário e se confundiam com os movimentos pela volta da democracia. Surgia uma geração que depois seria identificada com o “novo sindicalismo”, propondo mudanças estruturais e modernização nas relações do trabalho. Essa geração iria se chocar com dirigentes formados na estrutura oficial, getulista, e resistentes a mudanças.
Na política, com o fim do bipartidarismo imposto pelo regime, era tempo de recomposição. O PT havia sido criado em 1980. A sigla PTB era motivo de disputa entre Leonel Brizola e Ivete Vargas, que ganhou a parada – ao veterano político, coube o PDT. Os partidos comunistas se preparavam para sair da clandestinidade. Nas eleições que se realizariam em 1982 (para governos estaduais e municipais), o PMDB iria se afirmar como principal partido da oposição.
Empate técnico
Toda essa mobilização refletiu-se na Conclat, que reuniu todos os grupos políticos da época. Para Clara Ant, na época diretora do Sindicato dos Arquitetos de São Paulo, havia uma situação de “empate técnico” no encontro. “Era um equilíbrio delicadíssimo, a rigor, entre quem queria e não queria formar a CUT. A minha convicção é de que se a CUT não fosse criada, não ia ter nenhuma central”, afirma Clara, que hoje assessora o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Instituto Lula, antigo Instituto Cidadania.
Representante do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e um dos coordenadores da conferência, Edson Barbeiro Campos destaca a importância da Conclat, após um período intenso de greve e manifestações no país, para uma mudança de postura do governo. “A organização intercategoria era proibida. Não podia fazer reuniões. Nas reuniões que fazíamos, tinha sempre alguém infiltrado”, lembra.
“Foi uma inflexão fantástica (referindo-se à Conclat). Acho que a quantidade de pessoas, a mobilização, foi fundamental para que o governo repensasse o processo de intervenção generalizada nos sindicatos. Se o movimento sindical tivesse se dividido para fazer duas conferências, teria sido muito mais fácil para a ditadura tomar providências”, acrescenta Campos, atualmente assessor da presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).
Foi uma enorme demonstração de força, define. “Ninguém esperava, a imprensa, os partidos. Acho que boa parte da esquerda, mesmo a mais otimista, se surpreendeu com a mobilização.” Campos lembra que a Conclat abriu caminho para a criação de centrais e para ter um outro grau de relacionamento com os empresários e com os governos estaduais, porque se cristalizaram as principais tendências existentes dentro do movimento sindical.
Unidade
Dirigente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre – reconquistado após um processo de intervenção federal –, Olívio Dutra observa que a unidade prevalecia em torno de alguns temas. “Além da ditadura, havia a luta pela liberdade e autonomia sindical. Tínhamos unidade na luta contra a repressão, pela anistia. Mas na questão da pluralidade e da liberdade e autonomia sindical, nunca tivemos. Até no PT não existe um discurso muito articulado”, diz o ex-prefeito de Porto Alegre, ex-governador gaúcho e ex-ministro das Cidades.
Nesse movimento de rearticulação política entre os final dos anos 1970 e início dos 1980, foi realizado o Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição à Estrutura Sindical (Entoes). No mesmo ano, surgiu a Articulação Nacional dos Movimentos Populares e Sindical (Anampos), juntando setores da igreja, meio acadêmico, trabalhadores e intelectuais, sob influência do PT. Em outro polo, atuava a Unidade Sindical, juntando dirigentes sindicais tradicionais e, principalmente, o PCB.
“O Brasil estava todo em uma efervescência, em consequência dos movimentos sociais e organizativos”, lembra Avelino Ganzer, então dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Santarém (PA). “A Igreja, principalmente a católica, fazia esse debate, com a Teologia da Libertação, a criação das pastorais.” Ganzer seria, em 1983, o primeiro vice-presidente da CUT.
Nesse caldo em ebulição, vinha todo um debate sobre a importância da reorganização da sociedade, o combate à desigualdade, miséria, violência, acrescenta o dirigente. “E o novo sindicalismo trazia princípios de base, classistas, de autonomia, liberdade e independência perante os partidos e ao Estado, uma questão que deve ser muito avaliada hoje.”
O senador Paulo Paim (PT-RS), ex-dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas, considera a Conclat uma “revolução pela via democrática” no país. “Foi praticamente o grito de liberdade dado no Brasil. Todos estávamos juntos, por um sindicalismo autêntico, rebelde, combativo, corajoso.”
Pró-CUT
Entre as principais resoluções do encontro, algumas são conhecidas até hoje, como a redução da jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais. Em 1988, a Constituinte aprovaria jornada de 44 horas, ante as 48 horas vigentes até então. Também foi aprovado um dia nacional de luta, para entrega de pauta de reivindicações ao governo. Mas a principal decisão foi mesmo a eleição de uma comissão nacional pró-CUT – responsável por organizar um congresso para, conforme se previa, aprovar a fundação da central em 1982, o que de fato só ocorreria um ano depois do prazo determinado.
A comissão eleita tinha 56 integrantes, 32 de sindicatos urbanos e 24 de rurais. Mas chegar a essa composição exigiu horas de reuniões, depois que o plenário se dividiu entre as duas chapas apresentadas. “A votação foi extremamente apertada. Não era possível dizer quem tinha ganhado”, lembra Edson Campos.
Havia receio de briga, que poderia ter consequências mais sérias considerando que eram milhares de delegados em um prédio em construção. Os líderes do encontro partiram, então, para uma reunião em um vestiário, segundo Edson, ou um banheiro, de acordo com Hugo Perez. E quebraram cabeça para formar chapa única. “Nós apresentamos o nome do Waldemar Rossi (da oposição metalúrgica em São Paulo), e eles vetaram”, conta Edson. “Aí, quando eles apresentaram o nome do Joaquinzão, ele também ficou de fora.”
Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, comandou por mais de 20 anos o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. A oposição tentou derrotá-lo várias vezes, e foi justamente em 1981, pouco antes da Conclat, que isso esteve mais perto de acontecer. Com três chapas no primeiro turno, a votação teve segundo escrutínio, com vitória apertada de Joaquinzão (22,7 mil votos) sobre Waldemar Rossi (20,2 mil), militante da Pastoral Operária – sua chapa levava o nome de Santo Dias, metalúrgico da oposição assassinado por um policial em 1979, durante uma greve.
Morto em 1997, Joaquinzão era visto para grande parte dos sindicalistas presentes como ao grande símbolo do sindicalismo conservador. O fato de, no início do golpe de 1964, ter sido nomeado interventor no Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, ajudou a formar a alcunha de “pelego” que doravante o acompanharia.
Para Hugo Perez, o ex-líder metalúrgico pode ter sido um bode expiatório. Ele acredita que o papel histórico de Joaquinzão deve ser revisto. “Já se procurava um pé de frango para fazer banquete. O que se procurava era marcar posição e delimitar terreno”, comentou.
Em entrevista dada em 1991, dez anos após a Conclat, Joaquinzão definiu o evento como uma “esgrima” entre aqueles que fundariam a CUT dois anos depois e o outro bloco do movimento sindical. “Eles achavam que unidade era dizer ‘amém’ à CUT”, afirmou.
“O que eles não queriam admitir era a possibilidade de o Lula obter a hegemonia do movimento sindical”, reage Jair Meneguelli, o primeiro presidente da CUT e hoje à frente do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi). Também em 1981, Meneguelli sucedeu Luiz Inácio Lula da Silva no comando do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (atual sindicato do ABC). Na posse, ganhou um abacaxi, para simbolizar a difícil missão que teria pela frente, em tempos de crise.
Entre debates e enfrentamentos políticos, sobrou um momento para o devaneio. Clara Ant ainda se emociona ao lembrar que, durante o encontro, chegou a notícia da morte do cineasta Glauber Rocha. Os delegados faziam um minuto de silêncio quando alguém gritou: “Os artistas precisam de aplauso!” Os murmúrios deram vez às palmas.
Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual. Publicado em 19/08/2011, 10:00. Última atualização em 22/08/2011, 12:32
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Debatida desde a Conclat, mudança de estrutura sindical ainda é tema polêmico
São Paulo – Mudar ou manter a estrutura sindical? Criar sindicatos paralelos em vez de disputar eleição? Esses dilemas já existiam antes mesmo da 1ª Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), realizada em Praia Grande, litoral sul paulista, em agosto de 1981. De certa forma, parte das questões são mantidas após 30 anos para o movimento de trabalhadores no país.
Edson Barbeiro Campos, representante do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região e um dos coordenadores da conferência, lembra que os temas foram fortemente debativos no Encontro Nacional dos Trabalhadores em Oposição à Estrutura Sindical (Entoes), em 1980, no Rio de Janeiro.
“Foi uma decisão importante (preservar a estrutura) porque conseguiu trazer muita gente para a retomada das entidades sindicais e trazer companheiros que não queriam entrar numa ‘aventura’”, afirma.
Mas a elaboração dos documentos para a Conclat foi uma tarefa complicada. “A ideia era construir uma tese unitária”, diz Edson. Mas algumas propostas eram inaceitáveis para parte das correntes, como as relativas a mudanças na estrutura e à Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sobre liberdade e autonomia sindical. Ele lembra que havia posições contrárias mesmo entre os chamados “autênticos”. “Também havia divergência em relação ao ritmo das mudanças, por medo de sofrer retrocesso. Outros achavam exatamente o contrário, que era preciso aproveitar o momento”, afirma.
Ex-presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Augusto Campos recorda que havia “uma questão feroz”, sobre a presença de federações e confederações, que queriam um número maior de delegados. “Você não instaurava dissídio pelo sindicato”, lembra. Isso era feito pela federação, que muitas vezes não tinha afinidade política com o sindicato, caso dos metalúrgicos de São Bernardo (atual ABC) e a federação estadual da categoria.
“Os empresários eram muito mais organizados, por meio de suas confederações”, diz Jair Meneguelli, primeiro presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e, hoje, à frente do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi). “Eles tinham muito mais compromisso com a classe empresarial do que as nossas confederações. Eu, por exemplo, nunca conheci o presidente da CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria). Eles (confederações e federações) negociavam sem saber o que exatamente cada categoria estava reivindicando.”
Imposto
Algumas questões delicadas são discutidas até hoje. “Você ainda não conseguiu destruir a estrutura, que se baseia em dois pontos: imposto sindical e CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas, conjunto de normas sancionadas em 1943, durante o governo Getúlio Vargas), que praticamente impede o direito coletivo”, avalia Augusto Campos. “Sou totalmente a favor da liberdade sindical”, diz Clara Ant, em referência ao número de centrais existentes (seis reconhecidas legalmente). “A única coisa que me magoa mesmo é não ter acabado o imposto sindical, um símbolo da prisão na estrutura estatal.”
Segundo Olívio Dutra, que à época da Conclat era o dirigente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, setores da centro-esquerda, aliados à indústria, lutaram para manter o imposto sindical na Constituinte, em 1988. O ex-prefeito de Porto Alegre, ex-governador gaúcho e ex-ministro das Cidades avalia que muitas entidades, “mesmo que tenhamos derrubado a ditadura”, ainda funcionam como repartições públicas. “Muitos existem só por conta do imposto sindical e para manter uma burocracia básica.”
A CUT sempre manteve a bandeira do fim do imposto sindical. Neste ano, a movimentação para cobrar a extinção do tributo foi retomada, um dos motivos para um tensionamento na relação com outras centrais, especialmente a Força Sindical. Ao mesmo tempo, segundo a visão de dirigentes cutistas, ao voltar ao tema, ficam claras as divergências ideológicas entre as entidades.
Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual. Publicado em 19/08/2011, 17:20. Última atualização em 22/08/2011, 12:38
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Conclat: Campanhas salariais nos anos 1970 iniciaram rearticulação sindical
Realizada há 30 anos, Conferência da Classe Trabalhadora em Praia Grande foi fruto do fortalecimento do movimento de trabalhadores, alcançado ainda durante a ditadura no país
São Paulo – De certa forma, a história da primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) começou em 1977, segundo relato de Hugo Perez, então presidente da Federação dos Urbanitários de São Paulo e atualmente assessor político da Força Sindical. Naquele ano, os empresários haviam realizado o Congresso Nacional das Classes Produtoras (Conclap), atiçando o movimento sindical, que já se organizava em campanhas salariais, turbinadas pela revelação de que houvera manipulação de dados oficiais da inflação de 1973. Convocado para ser orador da turma de um curso do Ministério do Trabalho perante o presidente Ernesto Geisel, o sindicalista falou sobre a necessidade de os trabalhadores também realizarem seu congresso. “Ele (Geisel) não falou uma palavra”, lembra Hugo. “E a palavra ‘congresso’ rolou por meses.”
Começaram as conversas e reuniões. Um dia, o dirigente foi chamado a comparecer ao Ministério do Trabalho, com Aluysio Simões de Campos, ex-delegado regional do Trabalho em São Paulo. “Um aristocrata, só falava com a sobrancelha arqueada”, descreve Hugo. O recado era claro, segundo ele. “O senhor vai parar com as reuniões ou eu intervenho na federação”, teria dito o representante do governo. Nada aconteceu e, alguns meses depois, estourou a primeira greve, dando início a uma longa sequência – que desembocaria na Conclat, mesmo com todas as divergências de pontos de vista.
De volta ao Brasil após dez anos de exílio, José Ibrahim, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco, tinha a missão de organizar a recepção às delegações estrangeiras. “Todos foram alertados que vivíamos um processo de abertura, mas ainda não estávamos em um país democrático. Havia um esquema de segurança, mas tudo correu bem. Estávamos ainda com bastante tensão, porque a parada ainda não estava decidida”, conta Ibrahim, referindo-se a ações da chamada linha dura do regime. “Eu mesmo quase fui preso de novo. Escapei porque dormi na casa da (atriz e ex-deputada) Bete Mendes, em uma reunião sobre a criação do PT”, afirma o dirigente, hoje na União Geral dos Trabalhadores (UGT).
Participaram da Conclat 11 delegações de entidades internacionais. Ibrahim lembra que portugueses e espanhóis ainda conviviam com resquícios de longas ditaduras (Salazar e Franco, respectivamente). “O pessoal me dizia: vocês ainda têm uma longa caminhada pela frente.”
Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual. Publicado em 21/08/2011, 15:50. Última atualização em 22/08/2011, 12:31
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Após 30 anos da Conclat, ex-sindicalista diz que “rufar de tambores tem de continuar”
Na conferência de 1981, deliberação era criar central sindical unificada. Atualmente, são seis as entidades reconhecidas, mas convivência é melhor
São Paulo – O país hoje tem seis, mas foi difícil criar uma central sindical. A primeira Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat) de 1981, realizada em Praia Grande, no litoral paulista, aprovou a formação de uma comissão pró-CUT que deveria organizar um congresso no ano seguinte, a fim de aprovar a criação de uma central única dos trabalhadores. Por razões diversas, esse congresso ficou para 1983, e mesmo assim dividido.
“A gente entendeu que não era o momento (1982), por causa das eleições (para governos estaduais e municipais). Foi difícil manter a coesão, mas mantivemos, até 1983. Aí dividiu mesmo”, diz Hugo Perez. Parte da tensão envolvia a ascendente figura de Luiz Inácio Lula da Silva.
“No meio do caminho, diziam, o Lula ia ser candidato a governador em São Paulo. Também falavam que poderia ser visto como uma afronta aos militares. Acabamos aceitando o adiamento do congresso, mesmo não concordando. Em 1983, fomos formando a maioria. Aí tentaram outra vez impedir, não aguentamos e fomos fazer o congresso, com ou sem eles”, afirma Jair Meneguelli, que seria o primeiro presidente da CUT e hoje está à frente do Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi). A CUT foi fundada em agosto de 1983. Em 1986, viria a CGT, que se dividiria três anos depois. Em 1991, foi a vez da Força Sindical.
Para o senador Paulo Paim (PT-RS), a multiplicação era inevitável. “Surgiram uma, duas, três, seis centrais. Com o tempo, vai diminuir de novo. A tendência é termos três ou quatro centrais, no máximo”, calcula o ex-dirigente metalúrgico, que vê pouca “rebeldia” neste momento. O senador era, à época da conclat, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Canoas.
“Acho que foi um pouco nosso erro. Aquela safra (de sindicalistas) está hoje no Parlamento, e não houve a multiplicação de quadros que precisávamos fazer”, avalia. “Como o peão mudou, assim como o mundo do trabalho, nós deveríamos ter nos preparado mais para este momento. O rufar dos tambores tem de continuar. Tem de fazer barulho.”
“O movimento sindical passou a ter atuação mais política, por causa das centrais. É preciso manter a unidade na luta. Cada um tem seu próprio espaço e sua forma de atuação”, diz Hugo Perez, para quem “a democracia consolidada é uma grande mestra”.
Meneguelli destaca que atualmente as centrais conseguem ao menos conviver, bem diferente de quando ele comandava a CUT. “Quando eu ia para a Europa, para um congresso da Cisl (central italiana), por exemplo, a CGIL e a UIL (outras centrais) tinham uma hora para falar e todo mundo ouvia respeitosamente. Aqui era quase inimigo. Agora há pelo menos uma convivência.”
Olívio Dutra, então dirigente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre lembra que a própria formação da CUT representou uma ruptura, surgindo contra dirigentes que temiam uma renovação caracteriza por um movimento mais forte nas bases sindicais. “Queríamos uma central única, mantendo internamente sua diversidade. Em 1980, havia uma semente disseminada nas oposições sindicais: democratização no sindicato, organização de baixo para cima. Vejo que ainda existe esse debate sendo travado na CUT, e às vezes travado.”
Para Avelino Ganzer, alguns valores não podem se perder, como solidariedade, ética e indignação. “No fundo, havia alguma coisa como se fosse cimento, que era a confiança.”
Por: Vitor Nuzzi, Rede Brasil Atual. Publicado em 22/08/2011, 12:15. Última atualização às 12:30
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