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A mão que lava a outra

Estava o acima assinado no luminescente palácio do Ministério das Relações Exteriores em Brasília na noite de gala de 1º de janeiro de 2011, festa da posse da presidenta Dilma Rousseff, e eis que sai da salinha vip, reservada aos cumprimentos dos graúdos, o governador Geraldo Alckmin. E me cai nos braços, como sonha Cavaradossi ao recordar Tosca, fundo musical de Puccini.

No caso, em lugar da ficção operística, invoco a verdade factual. O governador reeleito e reempossado naquele mesmo dia, surpreende-me por estar já na capital da República e ainda mais por me abraçar com tamanha simpatia. O que, sublinho, não me desagrada. Vem atrás dele o senador Aloysio Nunes Ferreira, o qual, de rosto lívido, incumbe-se de restabelecer as distâncias ao produzir um aceno soturno a transparente contragosto. O que também não me desagrada.

O senador Aloysio esqueceu momentos passados à beira da mesa de debates do programa Jogo de Carta da TV Record, que conduzi de setembro de 1984 a abril de 1987. Estávamos ainda a caminho da eleição indireta que levaria Tancredo Neves à Presidência e eu reunia frente a frente tancredistas e malufistas. Aloysio estava do lado oposto a Gastone Righi e este, aos berros, partiu para os impropérios, entre outros, audíveis em Pindamonhangaba, “cachorro” e “macaco”. Presa de palidez freudiana (de Lucien Freud), encolhido na cadeira, Aloisio não conseguia articular um revide. Ergui-me do assento central e berrei mais alto na direção de Righi: “Cale-se! No meu programa ninguém grita e ofende os adversários!” Tive pleno sucesso.

Na noite de Brasília, o governador talvez tenha me confundido com outrem, só posso dizer que sempre o tratei com o devido respeito. O senador, no entanto, não se confundiu. De todo modo, se a simpatia de Alckmin foi autêntica, sei que não é compartilhada por outros inúmeros tucanos. Por exemplo, CartaCapital foi praticamente ignorada pela publicidade governista durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso e em São Paulo só teve vez enquanto Mário Covas viveu. A isonomia que passou a ser praticada pelo governo Lula na distribuição de anúncios, e agora pelo governo Dilma, nunca deixou de contar com as críticas, às vezes ásperas, de alguns guardiões da moral, perdão, da Moral, tidos como jornalistas.

Neste exato instante, recebemos a informação de que, na esteira do ex-governador José Serra e do seu ex-secretário da Educação Paulo Renato, o atual presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), José Bernardo Ortiz Monteiro, acaba de renovar contratos para o fornecimento de assinaturas com as revistas Época, IstoÉ e Veja, e os jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo pelo valor total de 9 milhões de reais e alguns quebrados. Não houve licitação, está claro, assim como está que CartaCapital foi excluída mais uma vez.

Há toda uma longa tradição de mamatas, como outrora se dizia, a caracterizar a relação entre poder e mídia, esta que incessantemente clama por sua liberdade de fazer o que bem entende, inclusive assaltar a verdade factual de todas as formas possíveis. Só para citar as mais recentes, repito, mamatas, evoco o aval da ditadura ao acordo entre a Globo e Time-Life, para que logo em seguida fosse proibido qualquer acerto do mesmo gênero. Tivemos, sempre à sombra do regime de exceção, as generosas operações da Caixa Econômica Federal em benefício do Estadão e da Editora Abril, esta retribuída por minha saída da direção de Veja, voluntária aliás, por recusar um único escasso tostão dos patrões, ao contrário do que se lê até em livros.

E lá vem a história da Gazeta Mercantil, que lançou debêntures prontamente adquiridas pela Previ para que em suas mãos virassem letras mortas, enquanto o jornal ocupava por aluguel irrisório espaço confortável no prédio da Funcef. Ah, sim, debaixo do governo FHC registramos várias situações impagáveis, a começar pela privatização das teles em 1998, a favorecer Globo, Estadão e Abril. Não deixa por menos, em matéria de mamata, a linha de financiamento criada pelo BNDES- para salvar a Globo. Enfim, no ocaso da Presidência do príncipe dos sociólogos, a aprovação de lei que permite o investimento- de até 30% de capital estrangeiro nas nossas- empresas midiáticas, àquela altura- com a água pela garganta.

CartaCapital tem boa memória, mas não se queixa. Fizemos nossas escolhas cientes dos riscos a correr no país dos herdeiros da casa-grande e da senzala. E não perco a oportunidade para confirmar o que já sustentei neste mesmo espaço: o mundo, até este dos dias de hoje, não é todo igual. Não há notícia, para ficar no assunto, de que ministros da Educação de países democráticos e altamente civilizados comprem lotes substanciosos de assinaturas de jornais e revistas em proveito do progresso cultural de professores e alunos. Mas é óbvio que os objetivos das autoridades paulistas são outros e que a opinião de CartaCapital nunca esteve e nunca estará à venda. •

Por Mino Carta 16 de setembro de 2011 às 10:01h

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartacapital.com.br

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Anvisa alerta para riscos de remédio “miraculoso” propagandeado por Veja

Agência Nacional de Vigilância Sanitária divulga nota oficial afirmando que “não reconhece a indicação do Victoza para qualquer utilização terapêutica diferente da aprovada e afirma que o uso do produto para qualquer outra finalidade que não seja como anti-diabético caracteriza elevado risco sanitário para a saúde da população”. Matéria de capa da revista Veja apresentou medicamento como “um novo remédio que faz emagrecer entre 7 e 12 quilos em apenas cinco meses, sem grandes efeitos colaterais”.

A matéria de capa da revista Veja, em sua edição de 7 de setembro, propagandeou os supostos milagres de um novo medicamento para emagrecer. Intitulada “Parece Milagre”, a reportagem afirma que “um novo remédio (Victoza) faz emagrecer entre 7 e 12 quilos em apenas cinco meses. E sem grande efeitos colaterais”. “Saiba tudo sobre ele”, convida a revista com uma sugestiva ilustração de emagrecimento voltada ao público feminino. Em nota oficial divulgada nesta sexta-feira (9), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), alerta para os erros da reportagem e, ao contrário do que a Veja afirma na capa, afirma que o medicamento em questão “não é indicado para emagrecimento”.

A diretoria colegiada da agência enviou uma nota de esclarecimentos sobre o assunto, solicitando que a mesma fosse publicada como um complemente à referida reportagem. A mesma nota também foi enviada para os demais veículos de imprensa e instituições da área da saúde como o Conselho Nacional dos Secretários Estaduais de Saúde (Conass), Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde (Conasems) e Conselho Federal de Farmácia, entre outros. A íntegra da nota da Anvisa:

Em relação a reportagem intitulada “Parece Milagre”, edição número 2.233 da revista VEJA, de 07/09/2001, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) esclarece que o Victoza é um produto “biológico”. Ou seja, trata-se de uma molécula de alta complexidade, de uso injetável, contendo a substância liraglutida. O medicamento, fabricado pelo laboratório Novo Nordisk, foi aprovado pela Anvisa para comercialização no Brasil em março de 2010, com a finalidade de uso específico no tratamento de diabetes tipo 2. Portanto, seu uso não é indicado para emagrecimento.

A indicação de uso do medicamento aprovada pela Anvisa é como “adjuvante da dieta e atividade física para atingir o controle glicêmico em pacientes adultos com diabetes mellitus tipo 2, para administração uma vez ao dia como monoterapia ou como tratamento combinado com um ou mais antidiabéticos orais (metformina, sulfoniluréias ou uma tiazollidinediona), quando o tratamento anterior não proporciona um controle glicêmico adequado”.

Por tratar se de um medicamento “biológico novo”, o Victoza, assim como outros medicamentos dessa categoria, estão submetidos a regras específicas tanto para o registro quanto para o acompanhamento de uso após o registro durante os primeiros cinco anos de comercialização. Além disto, o produto traz a seguinte advertência no texto de bula: “este produto é um medicamento novo e, embora pesquisas tenham indicado eficácia e segurança aceitáveis, mesmo que indicado e utilizado corretamente, podem ocorrer eventos adversos imprevisíveis ou desconhecidos. Nesse caso informe seu médico.”

Para o registro do produto foram apresentados os relatórios de experimentação terapêutica com estudos não clínicos e clínicos Fase I, Fase II e Fase III comprovando a eficácia e segurança do produto, para o uso específico no tratamento de diabetes tipo 2.

É importante destacar que além dos estudos apresentados para o registro, encontra-se em andamento um estudo Fase IV (pós registro) para confirmação da segurança cardiovascular da liraglutida. Os resultados deste estudo podem trazer novas informações a respeito da segurança do produto.

O laboratório fabricante já enviou à Anvisa três relatórios sobre o comportamento do produto, trata-se do documento conhecido como PSUR (Relatório Periódico de Farmacovigilância). Além disto, o Novo Nordisk decidiu incluir, em junho de 2011, em seu Plano de Minimização de Risco (PMR) a alteração da função renal como um potencial efeito adverso do uso da medicação.

Nos estudos clínicos do registro e nos relatórios apresentados à Anvisa foram relatados eventos adversos associados ao Victoza, sendo os mais freqüentes: hipoglicemia, dores de cabeça, náusea e diarréia. Além destes eventos destacam-se outros riscos, tais como: pancreatite, desidratação e alteração da função renal e distúrbios da tireóide, como nódulos e casos de urticária.

Outra questão de risco associada aos produtos biológicos são as reações de imunogenicidade, que podem variar desde alergia e anafilaxia até efeitos inesperados mais graves. No caso da liraglutida a mesma apresentou um perfil de imunogenicidade aceitável para a indicação como antidiabético, o que não pode ser extrapolado para outras indicações não estudadas, por ausência de dados científicos de segurança neste caso.

Para o caso de inclusão de novas indicações terapêuticas deve-se apresentar estudo clínico Fase III comprovando a eficácia e segurança desta nova indicação.

A única indicação aprovada atualmente para o medicamento é como agente antidiabético. Não há até o momento solicitação na Anvisa por parte da empresa detentora do registro de extensão da indicação do produto para qualquer outra finalidade. Não foram apresentados à Anvisa estudos que comprovem qualquer grau de eficácia ou segurança do uso do produto Victoza para redução de peso e tratamento da obesidade.

Conclui-se pelos dados expostos acima que desde a submissão do pedido de registro a aprovação do medicamento para comercialização e uso no Brasil, a ANVISA fez uma análise extensa e criteriosa de todos os dados clínicos que sustentam a aprovação das indicações terapêuticas do produto contendo a substância liraglutida, através da comprovação de que o perfil de eficácia e segurança do produto é aceitável para indicação terapêutica como antidiabético.

A Anvisa não reconhece a indicação do Victoza para qualquer utilização terapêutica diferente da aprovada e afirma que o uso do produto para qualquer outra finalidade que não seja como anti-diabético caracteriza elevado risco sanitário para a saúde da população.

(*) Os grifos são da Carta Maior

A revista Veja, considerando o teor da nota da Anvisa, pode ter incorrido em três crimes previstos no Código de Defesa do Consumidor:

Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enganosa ou abusiva:

Pena Detenção de três meses a um ano e multa.

Parágrafo único. (Vetado).

Art. 68. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a sua saúde ou segurança:

Pena – Detenção de seis meses a dois anos e multa:

Parágrafo único. (Vetado).

Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que dão base à publicidade:

Pena Detenção de um a seis meses ou multa.

Por Marco Aurélio Weissheimer

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br

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