Ao acompanhar o movimento da greve dos bancários, felizmente tenho percebido, ali dentro das agências, um grande apoio vindo da população. Os correntistas, apesar de terem receios de possíveis transtornos em seu cotidiano como o pagamento de contas, têm demonstrado simpatia com o movimento dos trabalhadores.
Fato importantíssimo, pois qualquer greve atinge diretamente a população e a cada ano há mais adesões espontâneas ao movimento paredista. Desde 1982 a categoria bancária tem uma única data-base em todo o País, mas foram as grandes greves de 1985 e 1986 que impulsionaram o novo sindicalismo no meio bancário, onde setores ligados à emergente CUT criaram o DNB – Departamento Nacional dos Bancários que em 1992 foi transformada em CNB – Confederação Nacional dos Bancários.
A CNB assumiu a linha de frente das nossas campanhas salariais e assinou a primeira Convenção Coletiva Nacional formalizando a unificação das negociações em todo o Brasil, que já era uma prática desde 1985. Essa tradição continua até hoje. Se na década de 80 a luta do movimento sindical era pela recuperação do poder aquisitivo dos salários corroídos pela inflação galopante, nos anos 90 as pautas de reivindicação revelaram a luta pela manutenção do emprego e preservação do patrimônio público.
Em 1995 conquistamos Participação nos lucros e resultados (PLR), mas também não foram poucos os acordos trabalhistas e convenções coletivas (não só de bancários) que trocavam o reajuste salarial por um abono que mal pagava as contas atrasadas.
Paralelamente à organização nacional dos bancários em torno de sua Confederação o Brasil passou pelos anos duros do neoliberalismo, caracterizados pelas privatizações e pela forte reestruturação do sistema financeiro. Bilhões saíram dos cofres públicos para salvar bancos em situação falimentar, através do PROER. Mas essa é outra história, o que importa é que a CNB, em 2006 transformada em CONTRAF- Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro vinculada à CUT, sempre levantou a bandeira da regulamentação do artigo 192 da Constituição Federal que trata do sistema financeiro.
Os lucros dos bancos sempre foram uma pedra nos sapatos do movimento sindical, assim como deveria ser de todos os brasileiros. Beneficiados com a política de privatizações, com a desregulamentação do setor pela liberação das tarifas em 1996 e juros estratosféricos da dívida pública, a evolução dos lucros dos bancos entre 1994 e 2002 chegou a 659% no BB, 102% no Bradesco e 211% no Itaú. De lá para cá, com novas fusões, maior concentração do setor, grande expansão do crédito e política de juros altos a curva da lucratividade continua em posição ascendente e não se sabe qual é o limite. O Banco Central informou no dia 20 passado que o lucro dos bancos no Brasil cresceu R$ 4,5 bilhões no primeiro semestre deste ano, atingindo, nos doze meses encerrados em junho, R$ 59,7 bilhões. O que os bancários querem? Divisão mais justa destes lucros exorbitantes que são garantidos com a mais-valia da categoria.
Desde 2003 o Sindicato dos Bancários de Curitiba lança uma consulta para levantar as pretensões da categoria para a campanha salarial. Naquele ano foram ouvidos 169 bancários e a reivindicação foi de 21,58%, que era formado pelo ICV de 16,43%, mais 3,99 de produtividade e 0,42% de resíduo da campanha de 2002.
Desde então a pauta de reivindicação é construída a partir da pesquisa junto à categoria e outras variantes, como os dados da economia e as conferências regionais, estadual e nacional. A mais importante é a análise das perdas feita pelo Dieese, em seguida o lucro dos bancos e depois a pauta das cláusulas sociais.
O mecanismo de consulta aos bancários se legitimou e em 2007 o retorno foi de 1.858 consultas, o índice pedido foi de 10% mas o índice conquistado foi de 6%. Porém incorporamos a 13ª cesta alimentação à nossa Convenção Coletiva, entre outros direitos como a PLR. Em 2009 foram tabulados 2.500 questionários e esse número cresceu ainda mais em 2011. Nacionalmente é feita uma pesquisa e uma consulta. Os dados são idênticos. Neste ano foram ouvidos 21.329 bancários e bancárias, e o resultado mostra que a categoria sabe o que quer: Aumento real dos salários e garantia de emprego, valorização dos pisos, menos metas e mais saúde. Isso vem se repetindo ao longo dos últimos anos, pois o lucro desmedido tem seu preço que é o adoecimento dos trabalhadores e a concentração da riqueza.
Nos últimos sete anos os bancários conquistaram aumento real todos os anos, 17,26% de ganho real no salário e 26,3% no piso. No ano passado 91% dos acordos e convenções foram fechados com aumento acima do INPC. Assim como 85% das categorias que fecharam acordo este ano com aumento real também buscamos o que é nosso. O que é necessário ressaltar é que todas as conquistas foram obtidas por meio da greve. E a cada ano aumenta o número de bancários parados, tanto que em 2010 foi registrada a maior paralisação da categoria dos últimos 20 anos.
O que pedimos?
– Inflação do período mais 5% de aumento real o que resulta em 12,8%.
-PLR de três salários mais R$4.500,00 linear.
– Piso com base no salário mínimo do DIEESE.
– Fim das metas abusivas.
-Combate ao assédio moral.
-Respeito à jornada de seis horas.
-Mais segurança e adicional de 30% de risco de morte.
-Igualdade de oportunidades.
-Mais contratações e fim das terceirizações.
-Garantia de emprego (convenções 158 da OIT)
O que os banqueiros oferecem?
-A inflação mais 0,56%. Não querem dar garantias de emprego, não querem ampliar o valor do piso nem da PLR (aliás, vão continuar compensado programas próprios). Não querem fim das metas abusivas, não querem o fim das terceirizações…
Esta proposta foi aposta na greve.
Nossa mobilização teve início em junho e a pauta foi entregue a FENABAN em meados de agosto, após quatro reuniões a resposta dos banqueiros não dá alternativa senão a paralisação. A partir desta terça-feira, mais uma vez, milhares de bancários e bancárias cruzaram os braços em todo o Brasil. A população vai se irritar e reclamar junto aos grevistas, todavia seria mais produtivo se o desagrado geral fosse canalizado a quem merece: os banqueiros que cobram fortunas em juros e prestação de serviços. Talvez, com a população em pé de guerra, no próximo ano não teríamos grave e sim negociações sérias, com respeito e dignidade para quem faz o País.
Por Marisa Stédile, secretária-geral da CUT
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cutpr.org.br