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LIvro explica como funciona a lavagem de dinheiro no Brasil

O autor Amaury Ribeiro Jr. comenta sobre a repercussão do livro na imprensa

Vivian Fernandes,
da Radioagência NP

O livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., alcançou dois feitos importantes no jornalismo investigativo nacional. Um deles é por ser um fenômeno de vendas, alcançando 15 mil exemplares vendidos somente no dia do lançamento, 9 de dezembro. Além disso, a segunda edição chega às livrarias com mais 80 mil exemplares. O segundo feito se deve ao fato de ter sido ignorado pela maioria dos veículos da grande imprensa, mesmo com o estrondoso sucesso.

A corrupção e a lavagem de dinheiro são os temas centrais da obra, que traz como um dos casos investigados o esquema montado em torno do político do PSDB José Serra. Com farta base de documentos, o livro destrincha os processos por trás das privatizações de estatais brasileiras.

Jornalista investigativo de renome, ganhador de três prêmios Esso, Amaury Ribeiro Jr., em entrevista à Radioagência NP, comentou sobre a repercussão do livro na grande imprensa. Ele também disse esperar que “A Privataria Tucana” contribua para mudar as leis que deixam impunes muitos esquemas de lavagem de dinheiro no país.

Radioagência NP: Como foi o início da investigação que gerou “A Privataria Tucana”?

Amaury Ribeiro Jr.: Eu comecei a investigar no início da década de 2000, quando surgiram as primeiras notícias de que haveria propina nas privatizações. Depois tratei o mesmo tema quando veio à tona o caso [do esquema de lavanderia] Banestado, em 2003. E depois em 2004, o Ricardo Sérgio de Oliveira, que era o tesoureiro de campanhas [do PSDB] e o chefe que pilotava esses consórcios de privatizações, moveu um processo contra mim por danos morais e eu venho na exceção de verdade, que é um processo para se defender na Justiça. O juiz obrigava a dar todas as informações sobre a propina das privatizações. Foi aí que vieram os primeiros documentos que estavam arquivados na CPI do Banestado e que vieram as primeiras provas da CPI das privatizações. Eu trabalhava no Estado de Minas [em 2008] quando o jornal me chamou para investigar um suposto esquema de espionagem da vida do Aécio [Neves, PSDB]. Aí eu resolvi ampliar a investigação e investigar novamente esse tema.

Radioagência NP: O que você destacaria como elemento central da obra?

ARJ: O elemento central da obra, embora ela fale sobre propinas nas privatizações, acredito que é um livro que aborda de forma geral a questão da lavagem de dinheiro e do combate da lavagem de dinheiro no mundo todo. Explica como se lava dinheiro, como foi o processo de combate à lavagem de dinheiro no mundo, explica as leis e as portarias do Banco Central. Não é o ponto central só a lavagem de dinheiro nas privatizações. Acho que o ponto que eu mais gosto é esse: situar como funciona a lavagem de dinheiro no Brasil.

Radioagência NP: Qual seria a função que você espera que o livro cumpra na sociedade?

ARJ: O que eu acho que precisa ser feito é, primeiro, mudar nossa lei de lavagem de dinheiro, que é uma lei que já nasceu ultrapassada. Criou-se no meio jurídico, por exemplo, que para lavagem de dinheiro tem que provar o que se chama de crime antecedente. Para provar que houve lavagem de dinheiro com corrupção, tem que se provar primeiro que houve corrupção. Outra coisa é coibir outros mecanismos de internação de dinheiro, quer dizer, evitar que empresas de off shore – de paraísos fiscais – se tornem sócias de empresas no Brasil. Porque essas empresas só entram [no país] para internar dinheiro e buscar um respaldo legal para isso. Então, esses são alguns mecanismos, entre outras coisas, para se tentar brecar a questão da lavagem de dinheiro. Se acontecer isso, já ajudou muito, o livro já terá cumprido um papel.

Radioagência NP: Qual sua opinião sobre a cobertura da grande imprensa em relação ao livro?

ARJ: O grande fenômeno do livro é porque ele bate na grande imprensa, nos seus principais veículos. Bate e bate violentamente em alguns veículos, mostrando o papel partidário, a favor da candidatura do José Serra [PSDB] na eleição passada. Acho que se a grande mídia entrar, vai entrar para atacar. Embora eles não queiram dar, problema é deles, porque nós não dependemos deles para vender livro. É um fenômeno o que está vendendo, mais até do que de música sertaneja. Nós não precisamos deles, isso é um fato novo.

Radioagência NP: Como você avalia essas primeiras manifestações do José Serra sobre as denúncias que você publicou?

ARJ: A primeira notícia que eu fiquei sabendo é que ele não falou nada, só falou que o negócio [livro] era um lixo, e ele não ia explicar um lixo, que não tem provas. Mas tudo tem documentos, e o que ele fala desses documentos? Essa é uma defesa meio generalizada. Ele tem que explicar fato por fato, tem que explicar cada ponto daquilo. O Serra agora que está se manifestando, que vai processar e tudo, demorou sete dias para responder. Levar processos faz parte do jogo, eu sempre fui processado. Com base na Lei de Imprensa, todos os processos que eu peguei, eu ganhei o processo.

Radioagência NP: A recente publicação da revista Veja a respeito de escândalos financeiros do PT soa como uma resposta às denúncias sobre o PSDB que você fez?

ARJ: Em relação à matéria do PT que saiu em uma revista, aquilo sim, com certeza é uma resposta. Eles só não acabaram comigo naquela matéria, porque o autor da matéria, quem assina a matéria, apurava aqueles fatos junto comigo quando trabalhava comigo na Istoé. Na época, nós queríamos a lista verdadeira de Furnas, então nós buscávamos um laudo original pra dizer se aquela lista era verdadeira ou falsa. Então, talvez eles queriam dizer que eu falsifico documentos e tudo. Aquela matéria é um recado e eu acho que vão criar mais fatos ainda. Com certeza daqui para frente eles vão tentar me desqualificar, inventar coisas. Esse é o jogo que eles fazem sempre.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.brasildefato.com.br

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CPI das privatizações: a responsabilidade do PT

A nova relação de forças existente no país permite que a discussão esmagada nos anos 90 – e ainda vetada pela mídia conservadora, que silencia diante do livro citado – seja reaberta agora. Ao protocolar um pedido de CPI sobre o assunto, na última quarta-feira, dia 21, o deputado Protogenes Queiroz, destravou o ferrolho da porta do silêncio. É importante utilizá-la para arejar o tema com o ar fresco da seriedade que o passado negou. O artigo é de Saul Leblon.

Saul Leblon

O desabalado processo de privatizações vivido pelo Brasil nos anos 90 ressentiu-se, entre outros requisitos, da necessária transparência de um debate sereno e abrangente.

No atropelo que marcou uma agenda impulsionada por coalizão de interesses econômicos e ideológicos, então no auge do seu poder, a mídia conservadora cumpriu a função de silenciar as vozes e forças discordantes, asfixiando-as com o método conhecido da desqualificação.

O aparelho de Estado resultante de quase duas décadas de ditadura militar necessitava sem dúvida ser passado a limpo pela democracia, tendo sido desvirtuado como instrumento da sociedade e do desenvolvimento.

Ademais de sua blindagem repressiva, é indiscutível que muitas das empresas enredadas na engrenagem estatal nesse período serviam apenas de fachada para o assalto ao erário público, desservindo a população e desguarnecendo o país em áreas essenciais.

Não foi esse, porém, o critério da bocarra voraz que escolheu o quê e como seriam privatizadas, extintas ou fortalecidas as empresas formadoras do patrimônio público brasileiro.

O livro-dossiê do jornalista Amaury Jr,’A Privataria Tucana’, desvela um pedaço do apetite rapinoso que orientou boa parte do processo e dele se aproveitou. Antes e com rigor reconhecido até pelos seus críticos,o jornalista Aloysio Biondi já havia vasculhado outras dimensões e casos correlatos.

A nova relação de forças existente no país permite que a discussão esmagada nos anos 90 – e ainda vetada pela mídia conservadora, que silencia diante do livro citado – seja reaberta agora. Ao protocolar um pedido de CPI sobre o assunto, na última quarta-feira, dia 21, o deputado Protogenes Queiroz, destravou o ferrolho da porta do silêncio. É importante utilizá-la para arejar o tema com o ar fresco da seriedade que o passado negou.

A CPI que está sendo proposta não deve ser encarada como uma oportunidade de revanche contra personalidades arestosas da vida política nacional. O envolvimento de José Serra e o enriquecimento de seus familiares no intercurso com o afanoso processo é um ângulo. Ilustrativo, merecedor de esclarecimentos amplos,mas talvez não o mais importante. A reabertura da discussão hoje tem o mérito, entre outras coisas, de adicionar elementos à retificação da macroeconomia legitimada no processo de privatizações, e cujos efeitos deletérios ainda são determinantes na condução da agenda brasileira de desenvolvimento.

À rapinagem do patrimônio público sucedeu-se, simultaneamente nos anos 90, a expropriação da soberania democrática na formulação das políticas públicas brasileiras. A agenda do Estado mínimo que embalava o rufar dos negócios ‘no limite da irresponsabilidade’, transferia ao mesmo tempo o comando regulador da economia à autossuficiência dos livres mercados, descredenciando a política, as urnas e a mobilização social como protagonistas supremos do desenvolvimento. Quando tomou posse em 2003, não por acaso, em meio ao dilúvio de interditos e restrições, o Presidente Lula desabafou: ‘Terceirizaram o Estado brasileiro’.

Não são questões de natureza teórica. A dominância financeira subjacente a esse rolo compressor explica hoje porque o Estado brasileiro destina ao SUS, por exemplo, com as consequências sabidas, o equivalente a 1/3 da fatia do PIB que o Estado francês reserva à saúde pública. Em contrapartida, graças a juros de calibre inédito em economias relevantes, o Brasil oferece 5,5% do PIB aos rentistas da dívida pública que não para de crescer. O desequilíbrio cambial decorrente da política monetária ensandecida faz do Brasil atualmente um paraíso dos capitais especulativos, com a contrapartida de importações maciças que aniquilam elos das cadeias produtivas, corroendo a indústria,o emprego e o saldo comercial.

Embora agônica no plano mundial por conta da crise capitalista que engendrou, a hegemonia das finanças desreguladas continua a dar as cartas aqui e alhures. Entre outros motivos, porque as forças de esquerda, de um modo geral, renderam-se elas também ao receituário ortodoxo do mito dos mercados autossuficientes.

O PT traz no seu DNA sindical, enriquecido por correntes de esquerda e de extração religiosa progressista, um antagonismo de berço com essa agenda. Mas acomoda em seu interior também o germe da rendição socialdemocrata que hoje pavimenta o avanço desconcertante da extrema-direita na Europa, em meio ao desmantelo de direitos duramente fincados como estacas demarcatórias da fronteira entre a civilização e a barbárie da lógica redutora do capital.

A CPI da privatização abre um espaço de discussão política e de investigação de responsabilidades num momento crucial da maior crise vivida pelo capitalismo nos últimos 80 anos. Pode ser uma trincheira importante para evitar que o colapso em curso seja ‘resolvido’ dobrando-se a aposta nos métodos e agendas que provocaram a a vossoroca da esfera pública, a captura dos recursos nacionais e o engessamento financeiro e ideológico do Estado brasileiro a partir dos anos 90.

É incompreensível assim que deputados do PT tenham omitido a sua assinatura no requerimento de CPI protocolado no dia 21. Não se trata de renegá-los, mas de sensibilizá-los para o debate relevante e inadiável que essa CPI propicia, num quadro de gravidade histórica inquietante. Com o objetivo de acelerar essa discussão pertinente e fraterna no interior do partido e entre eleitos e eleitores, Carta Maior disponibiliza a lista com os nomes dos deputados que assinaram a CPI, aguardando a palavra daqueles que se omitiram.

Clique aqui para ver os deputados que assinaram o pedido de CPI

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cartamaior.com.br

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