Enviado por luisnassif, qui, 02/02/2012 – 08:00
Coluna Econômica – 02/02/2012
Ex-economista chefe da Febraban (Federação de Bancos do Brasil), Roberto Troster escreveu para o jornal Valor Econômico provavelmente o mais importante artigo sobre política monetária.
O título é “A “Copomização” do debate do sistema bancário” e se refere ao hábito entranhado de se discutir a política monetária somente através da taxa Selic (a taxa referencial de juros do Banco Central) sem analisar a ponta, isto é, a maneira como a taxa impacta a economia real.
A taxa Selic é mero instrumento para o BC atuar sobe o mercado de crédito. Ela é eficaz ou não dependendo da maneira como impacta o mercado. Sem essa análise, a taxa Selic torna-se quase uma abstração.
Constata Troster que uma Selic a 9% ou a 12% não faz a menor diferença para o tomador de empréstimo.
A consequência é que, apesar dos lucros enormes do sistema financeiro, “a oferta de crédito apresenta níveis de instabilidade e ineficiência incompatíveis com a sofisticação dos bancos”, diz ele. Em 2011, as taxas médias de crédito variaram mais de 20% entre as diversas instituições. Há uma medida de eficiência de um sistema bancário: a diferença entre as taxas de captação e de aplicação. No último Förum Econômico Mundial, de Davos, essa diferença superou 300%, em alguns casos, tornando o sistema bancário brasileiro o segundo mais ineficiente do mundo, superado apenas pelo Zimbábue.
Disso resulta uma série de consequências:
1. Mesmo com o recorde de desemprego baixo, a inadimplência brasileira é mais que o dobro da média mundial.
2. Apesar dos avanços da bancarização, a demanda por crédito está diminuindo. Segundo pesquisa do IPEA, o número de famílias sem nenhuma dívida aumentou para 56%. Na mesma sondagem, mostra que 36% dos endiividados não teriam como saldar suas dívidas.
3. Levantamentos do Sebrae mostram que 71% das pequenas e médias empresas não recorrem a empréstimos bancários.
4. Apesar de bancos sólidos e bem geridos, a relação crédito/PIB é parecida com a da Bolívia. PElas projeções atuais, levará dez anos para alcançar a do Chile.
O banqueiro brasileiro não é diferente de outros países, argumenta Troster. O problema está na redução do debate às reuniões do Copom. “Enquanto a taxa Selic, centro das atenções, aumentou 0,25% em 2011 e foi manchete em cada alteração, a de crédito pessoal (excluído o consignado) se elevou 11,40% (quarenta e cinco vezes mais!), e não foi notícia. Há taxas médias para pessoa jurídica que são mais de dez vezes maiores que a Selic. Para pessoa física, mais de 15 e há também financiamentos para o tomador final que estão a mais de trinta”.
O BC precisa avançar além da Selic. “Falta ao país uma política bancária que trate do custo do crédito, da cunha tributária, da transparência, da proteção ao consumidor bancário, do direcionamento de recursos, do desempenho dos bancos públicos, da estabilidade da oferta, dos compulsórios, do processo de precificação, da concorrência, do financiamento de longo prazo” diz ele.
“O crédito é a ponte entre o presente e o futuro e necessita de uma política consistente que alinhe interesses privados com sociais (…) Não são objetivos incompatíveis, pelo contrário. É possível, há uma janela de oportunidade e o governo quer fazer acontecer”, conclui ele.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/falta-uma-politica-bancaria-ao-pais#more
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O debate sobre sistema bancário, por Troster
Enviado por luisnassif, qua, 01/02/2012 – 10:44
Do Valor Econômico
Dois temas dominam o mês de fevereiro: Carnaval e o lucro dos bancos. O primeiro é uma unanimidade e o outro uma polêmica que se acirra a cada ano que passa. Com a publicação dos balanços anuais, os resultados líquidos, superiores a R$ 60 bilhões em 2011, de um lado serão defendidos como consequência de uma gestão primorosa e de investimentos responsáveis e, de outro, atacados e classificados como exagerados e indecentes. É um debate de surdos.
A questão subjacente é a legitimidade dos lucros, que é a visão heterogênea que o público tem deles e está baseada em aspectos legais, éticos, concorrenciais e culturais, sendo o ponto chave se sua contribuição para a sociedade é compatível com as recompensas a seus acionistas e gestores. Um paralelo pode ser feito com a indústria do fumo, que gera empregos, impostos e divisas, mas, por outro lado, tem um custo social elevado por conta de seus efeitos danosos na saúde pública. A intermediação de recursos no Brasil é abrangente e sólida. Todavia, a oferta de crédito apresenta níveis de instabilidade e ineficiência incompatíveis com a sofisticação dos bancos.
Não há diferença material relevante para os tomadores de financiamentos se a Selic está a 9% ou 12%As oscilações nos juros cobrados e nos volumes ofertados são elevadas. Em 2011, observaram-se taxas médias de crédito que variaram mais de 20% e a composição entre linhas de recursos apresentou diferenças de composição altas. A ineficiência no Brasil, medida pelas diferença entre taxas de captação e aplicação, em alguns casos, superou os 300%. De acordo com levantamento feito pelo Fórum Econômico Mundial (Davos), é a segunda pior do mundo, só o Zimbábue tem margens de crédito maiores que as tupiniquins.
As consequências são palpáveis. A inadimplência, mesmo com o recorde de desemprego baixo, é mais que o dobro da média mundial. A demanda de crédito está diminuindo, apesar dos avanços da bancarização. Ilustrando o ponto, pesquisa do IPEA mostra que o número de famílias sem nenhuma dívida aumentou e alcança a 56%; a mesma sondagem relatou que 36% das endividadas não teria como saldar suas obrigações. Levantamento do Sebrae apontou que 71% de pequenas e médias empresas não buscaram empréstimos bancários. É uma situação incompatível com a capacidade do sistema financeiro nacional em emprestar e melhorar o potencial de pessoas, de corporações e do país.
No governo Lula, houve alguns acertos pontuais como o crédito consignado e uma expansão considerável, mas também retrocessos como as margens da conta garantida e as do cheque especial, que aumentaram 30% e quase 20%, respectivamente. Em 2011, manteve-se a tendência e continuaram deteriorando-se com altas de 8% e 14%, respectivamente. Apesar da sofisticação, a relação crédito e Produto Interno Bruto (PIB) é parecida com a da Bolívia, e, se as projeções estiverem corretas, só alcançará o mesmo nível do Chile, que tem um sistema financeiro menos sofisticado que o brasileiro, em mais de uma década. Os números de expansão do crédito, recentes e projetados, mostram recursos direcionados crescendo ao dobro da taxa real dos livres, gerando inquietações com relação ao futuro.
Nos debates sobre os lucros, é comum responsabilizar a cobiça dos bancos como causa das dificuldades. Mas os banqueiros brasileiros não são mais gananciosos que os de outros países e/ou dos demais empresários. A mesma tem influência em algumas situações muito específicas, mas não é o que explica a falta de legitimidade dos lucros dos bancos. Supondo que todos eles decidissem reduzir as tarifas e taxas bancárias cobradas em 15%, zerariam seus lucros, mas não resolveriam o imbróglio. Ficariam sem recursos para investir e o sistema continuaria a ser ineficiente, com as segundas taxas de juros mais altas do planeta, instabilidade na oferta de recursos e uma expansão de financiamentos distorcida.
A origem dos problemas é outra: está na “Copomização” do debate bancário, que está focado nas reuniões do Copom que determinam a Selic (uma taxa interbancária de um dia). As decisões são tomadas em um processo em grande estilo com comunicados, atas e relatórios que detalham seus fundamentos, boletins com as expectativas do mercado, modelos econométricos que dão suporte, encontros regulares com economistas, uma equipe qualificada que analisa minuciosamente todos os fatores que influenciam e acompanhado extensivamente pela imprensa. É uma taxa importante que deve baixar. Todavia, não é a única, nem é o que mais atrapalha o desenvolvimento do país. O ponto é a pouca atenção dada às demais, que são administradas com medidas – leia-se improvisos, mais retalhos na colcha que é o quadro institucional financeiro.
As distorções no tratamento da questão dos juros são gritantes. Enquanto a taxa Selic, centro das atenções, aumentou 0,25% em 2011 e foi manchete em cada alteração, a de crédito pessoal (excluído o consignado) se elevou 11,40% (quarenta e cinco vezes mais!), e não foi notícia. Há taxas médias para pessoa jurídica que são mais de dez vezes maiores que a Selic. Para pessoa física, mais de 15 e há também financiamentos para o tomador final que estão a mais de trinta. Não há diferença material relevante para esses tomadores de financiamentos se a Selic está a 9% ou 12%. Mesmo assim, a oferta de crédito continua sendo administrado com medidas, culpando-se os banqueiros e dando-se o foco das atenções ao Copom, “Copomizando” ainda mais o debate.
Falta ao país uma política bancária que trate do custo do crédito, da cunha tributária, da transparência, da proteção ao consumidor bancário, do direcionamento de recursos, do desempenho dos bancos públicos, da estabilidade da oferta, dos compulsórios, do processo de precificação, da concorrência, do financiamento de longo prazo, do microcrédito, da bancarização, do uso da tecnologia, do ônus regulatório, dos financiamentos de longo prazo, do papel de bancos menores, da liquidez, dos custos de observância, enfim, de todos os demais fatores e da taxa Selic. O setor não pode ficar refém do vaivém das circunstâncias, o momento pede uma modernização institucional.
Uma intermediação financeira eficiente e estável interessa ao país. O crédito é a ponte entre o presente e o futuro e necessita de uma política consistente que alinhe interesses privados com sociais, que proporcione mais lucros e mais legítimos para os bancos e mais desenvolvimento para o país. Não são objetivos incompatíveis, pelo contrário. É possível, há uma janela de oportunidade e o governo quer fazer acontecer. Cumpra-se!
Roberto Luis Troster é consultor e doutor em economia pela USP e foi economista chefe da Febraban e da ABBC e professor da USP, Mackenzie e PUC-SP. E-mail: robertotroster@uol.com.br
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-debate-sobre-sistema-bancario-por-troster#more
P. S.: VOCÊ LEMBRA QUANDO TROSTER ERA PORTA-VOZ DA FEBRABAN ?
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A ficção da política monetária
Enviado por luisnassif, sex, 03/02/2012 – 12:16
Coluna Econômica – 03/02/2012
Vamos retomar o tema da coluna de ontem.
Como funciona a política monetária:
1. A cada fechamento do dia, os bancos trocam reservas entre si para fechar a conta. A taxa de juros dessas operações é dada pelo CDI (Certificado de Depósito Interbancário) diretamente afetado pela taxa Selic, a chamada taxa básica da economia fixada pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central).
2. Tornando o dinheiro mais caro no interbancário, pretende-se que a elevação de custo impacte a taxa de juros na ponta, aquela que vai para o cliente de banco.
3. Com a taxa mais cara, teoricamente o consumidor vai consumir menos, devido ao encarecimento de crédito, e a empresa vai comprar menos, devido à redução de estoques, reduzindo os preços. E vice-versa.
Vamos sintetizar o que foi exposto acima em um pequeno exercício de lógica:
1. As taxas de crédito ao tomador final impactam o PIB.
2. A taxa Selic impacta as taxas de crédito ao tomador final.
3. Logo, a taxa Selic impacta o PIB.
O ponto central é que a segunda premissa é incorreta: a taxa Selic não impacta as taxas do tomador final. Não impactando, seu impacto sobre o nível de atividade é zero, ou insignificante. Mas sobre as contas públicas é direto, desviando recursos de infraestrutura, investimentos e políticas sociais para os detentores de títulos públicos.
O desafio, portanto, é comprovar que a segunda premissa está errada.
Nas análises do Copom e do mercado, os econometristas limitam-se a analisar a relação Selic-PIB. Juntam séries históricas e definem correlações que, em tese, deveriam mostrar os efeitos das variações da Selic sobre o PIB no tempo e na intensidade. Ou seja, aumentando o PIB em 1 ponto percentual, o efeito sobre a atividade econômica será de xis em um prazo y.
Qual a maneira adequada de medir esses efeitos:
1. Analisar o impacto da Selic sobre o mercado de crédito.
2. Analisar o impacto do mercado de crédito sobre a variação do PIB.
Simples assim.
Definida a primeira correlação – ou seja, os efeitos da alta do crédito sobre o nível de atividade – o jogo fica mais claro. Depois, é só medir os efeitos do crédito sobre o nível de atividade, muito mais fácil de medir porque o impacto é direto.
Nesse ponto, vamos dividir os tomadores de crédito em dois grupos: o prime (a grande empresa que têm acesso às linhas mais baratas do mercado) e o não-prime (a rapa, consumidores, pequenas e médias empresas).
Ontem, o ex-economista chefe da Febraban (Federação dos Bancos Brasileiros) Roberto Troster demonstrou que não existe A MENOR correlação entre Selic e custo do dinheiro para o tomador final não-prime. Não tem novidade. Escrevo sobre isso desde que se inaugurou esse sistema de metas inflacionárias.
Se não existe nenhuma correlação da Selic com os não-prime, restariam os clientes prime para comprovar a suposta eficácia da Selic sobre o PIB.
De fato, os clientes prime são grandes empresas, cujas linhas de crédito acompanham o CDI – e, portanto, são diretamente influenciadas pela Selic. Como grandes empresas que são, dispõem de poder de mercado – isto é, de fixar preços.
Segundo a lógica do mercado, encarecendo o crédito, o aumento da Selic as obrigaria a reduzir o capital de giro, por exemplo, e com isso afetaria o nível de atividade.
Vamos conferir se essa análise é correta.
Selic e produção
Capital de giro é proporcional as vendas; e as vendas acompanham a demanda. Se a demanda (dada basicamente pelos clientes não-prime) não é afetada pela taxa Selic, não há a menor razão para reduzir a oferta. Ou as empresas absorvem essa alta do custo do dinheiro ou repassam para os preços. Na primeira hipótese, não há efeito sobre o nível de atividade; na segunda hipótese, há efeitos negativos sobre a inflação.
Selic e custo de produção
A não ser quando ocorrem variações muito substantivas na produção, o custo de um produto, na margem, equivale ao preço final menos custo dos insumos menos tributos. Isto porque não a empresa tem custos fixos (que indpendem da produção) e não mudará a folha salarial parqa variações pequenas de produção. O impacto da Selic será exclusivamente sobre o capital de giro para os insumos adquiridos.
Impacto sobre o capital de giro
Supondo uma carga tributária de 30% e uma margem operacional de 15%, a composição final de um produto seria: 15% de margem operacional, 65% de insumos e 20% de tributos. Supondo que a empresa gire seus estoques a cada 6 meses (hipótese conservadora), cada ponto da Selic impactaria o capital de giro em 0,17% (1,01 ^(1/6)). É uma porcentagem ínfima levando em conta os impactos do financiamento para os consumidores.
Impacto sobre o preço final
Como o impacto é exclusivamente sobre o custo dos insumos e supondo que eles representam 65% do preço final do produto, o impacto sobre o preço final do produto seria de apenas 0,1% (0,17 x 0,65). 6 pontos percentuais da taxa Selic (uma enormidade) teria um impacto de apenas 0,6% sobre o preço final do produto, na ponta. O que é isto perto dos 40 a 120% do custo do financiamento?
As saídas das empresas prime
À empresa prime, restariam duas alternativas para enfrentar o aumento da Selic: ou absorver ou incorporar no preço. Em ambos os casos, o efeito é insignificante. Mas existe um impacto direto nas decisões de investimento das empresas. Para investir, a empresa costuma pegar a taxa básica, acrescentar um fator de risco e estimar os resultados por prazos de 10 anos. Cada variação para cima da Selic reduz decisões de investimento.
A ata do Copom
Chegou a hora do BC submeter a Selic a testes mais efetivos, criando indicadores na ata do Copom que permitam analisar 1) o comportamento do mercado de crédito vis-à-vis a taxa da Selic; 2) o comportamento do PIB vis-à-vis a Selic. Com isso permitirá que o debate sobre política monetária ganhe substância e não seja uma ficção estatística, como é atualmente. E, abrindo a discussão, aprimorar de ftao as ferramentas de política monetária.
Entenda as contas
| Preço final | 100.00% | 100 |
| Margem | 15% | 15 |
| Insumos | 65% | 65.39 |
| Impostos | 30% | 19.617 |
| Total | 100.007 | |
| Impacto da Selic | ||
| Selic | Ano | 6% |
| Giro (meses) | 2 | 0.98% |
| Impacto | s/insumos | 0.64 |
| s/preco final | 0.42 |
Margem: Margem% x preço final
Insumos: Insumos% x preço final (ajustado com impostos para chegar aos 100)
Impostos: impostos% x preço final
Selic: 1,06 ^ (1/(12/giro)) – 1
Impacto sobre insumos: 0,98 x 65,39
Impacto sobre preço final: 0,42 x 100
O padrão sangria na política monetária
Enviado por luisnassif, sex, 03/02/2012 – 16:21
Vamos ampliar um pouco mais a discussão sobre a relação Selic-PIB. Vou antecipar a coluna do próximo domingo.
A maneira como a Selic impacta a economia lembra muito o uso de sanguessugas para o uso da sangria no tratamento de saúde. Se contasse para um médico como a Selic atua sobre a economia, haveria denúncia ao Conselho Federal de Medicina.
O Banco Central aumenta a Selic e ocorrem os seguintes eventos:
1. O efeito sobre o canal de crédito é mínimo.
Um comentarista comentou que a cada aumento da Selic seu banco aumenta as taxas de juros. Experimente calcular o efeito sobre o valor final da prestação. Dado o elevadíssimo nível de juros do crédito, variações da Selic têm impacto inexpressivo sobre o valor final da prestação.
Por exemplo, um bem de R$ 1.000,00, por 36 meses a taxa de 3% ao mês (42,6% ao ano) resultará em uma prestação de R$ 45,80. Um aumento de 1 ponto na Selic (que provoca comoção nacional), se repassado para o financiamento, resultará em uma prestação de R$ 46,21. Um aumento de 3 pontos na Selic anual resultará em uma prestação de R$ 47,03. Pergunto: impactará a decisão de compra do consumidor? Evidente que não. Portanto, o efeito do canal de crédito é inexpressivo.
2. Há impacto sobre decisões de investimento privado.
Suponha um investimento de R$ 1 milhão, com uma taxa anual de retorno de 10% e um prazo de 10 anos para amortização. O fluxo de caixa terá que ser de R$ 162,7 mil por ano para amortizar o investimento em 10 anos (sem considerar o valor residual). Se a taxa aumenta 3 pontos, o prazo de retorno aumenta para 14 anos. É evidente que ocorre um corte em todos os investimentos que proporcionem um retorno inferior.
É uma lógica maluca. A política monetária atua sobre a demanda visando corrigir o descompasso com a oferta. Em vez de aumentar a oferta, a política monetária a reduz, através da inibição dos investimentos.
Só o país da jabuticaba para aceitar essa lógica.
3. Um terceiro efeito é sobre o câmbio.
Aumenta a Selic, atrai mais capital especulativo, que pressiona o câmbio tornando mais baratos os chamados produtos exportáveis – os importados e aqueles controlados por cotações internacionais.
É o uso da sangria no tratamento médico. Interfere-se em um preço fundamental da economia, com implicação direta sobre as contas externas e sobre a competitividade, para atingir o objetivo de controlar a inflação. Mesmo assim, hoje em dia é pequeno o efeito cambial sobre os preços.
4. Reduz investimentos públicos.
Esse é o ponto mais nefasto da operação sangria.
Aumenta a Selic. Há uma pressão adicional sobre as contas públicas e sobre a relação dívida/PIB. Para contrabalançar, exige-se um aumento do superávit primário. Cortam-se investimentos públicos e, com isso, reduz-se a demanda agregada.
Depois, alega-se que o país não pode crescer (e tome juros altos para segurar o crescimento) porque não tem infraestrutura adequada.
Ou seja, eventuais impactos da Selic sobre o PIB ocorrem da maneira mais torta possível.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-padrao-sangria-na-politica-monetaria#more

