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Brasil: Colhendo os frutos da baixa estação

“A inadimplência é um efeito colateral do elevado financiamento no crédito consignado, que foi muito utilizado no sistema de serviços público e no sistema INSS”, declara o economista Guilherme Delgado.

Confira a entrevista.

A notícia de que o índice de endividamento das famílias atingiu o maior patamar dos últimos dez anos não é motivo de preocupação imediata, diz o economista Guilherme Delgado à IHU On-Line. “Não há bolhas financeiras em função desse endividamento e dessa inadimplência. Há apenas uma observação de que o caminho de endividamento das famílias, que foi percorrido com certo sucesso na crise de 2008, provavelmente não vai ter a mesma possibilidade de utilização como via de sair da crise de desaceleração econômica atual”.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line, Delgado esclarece que a crise financeira externa e a reversão da valorização das commodities no mercado internacional são, atualmente, os principais fatores da desaceleração da economia brasileira. Diante do quadro de instabilidade da economia internacional, alerta, o Brasil “não ficará indiferente à situação de crise econômica global e às suas repercussões na Ásia”. E dispara: “O país não será eximido de contaminações, mas elas serão diferentes em função desse arranjo keynesiano, e das políticas não ortodoxas que o governo tem procurado adotar, com sucesso relativo”.

Na avaliação do economista, as políticas keynesianas adotadas pela equipe econômica do governo estão sendo eficazes no sentido de resolver os problemas conjunturais, mas estão longe de ser uma política macroeconômica que possa resultar em benefícios futuros. “Os ingredientes ou as formulações de uma política macroeconômica de mais fôlego, no sentido de aumentar a produtividade da indústria, de melhorar a competitividade pela via da inovação que é uma via mais profunda e demorada , estão pouco visíveis na engenharia da política econômica, porque isso requer mais formação e planejamento integrado do conjunto do governo do que realmente se tem”, assinala.

Guilherme Delgado é doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas Unicamp. Trabalhou durante 31 anos no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada Ipea.

Confira a entrevista.

IHU On-Line
O Banco Central divulgou que a inadimplência brasileira está no mais alto patamar desde os anos 2000. Como o senhor interpreta essa informação e quais os efeitos da inadimplência para a economia brasileira?

Guilherme Delgado – A informação mais relevante é a do grau de endividamento das famílias, que se elevou nos últimos cinco ou seis anos em relação ao padrão histórico de endividamento das famílias brasileiras, que é um padrão baixo. A inadimplência é um efeito colateral do elevado financiamento no crédito consignado, que foi muito utilizado no sistema de serviços público e no sistema INSS. Então, esses dois sistemas, que têm pagamentos atrelados a benefícios previdenciários ou de seguridade social, sofreram um processo de endividamento além do limite potencial, ainda que não esteja em uma situação explosiva. Quer dizer, não há bolhas financeiras em função desse endividamento e dessa inadimplência. Há apenas uma observação de que o caminho de endividamento das famílias, que foi percorrido com certo sucesso na crise de 2008, provavelmente não vai ter a mesma possibilidade de utilização como via de sair da crise de desaceleração econômica atual.

IHU On-Line A inadimplência das empresas é menos preocupante? Essa elevação da inadimplência já era esperada?

Guilherme Delgado – A inadimplência das famílias não era esperada, mas quando se ultrapassam determinados limites de renda familiar com prestação de débitos bancários, dado que as famílias não têm sua renda incrementada de forma autônoma, por salários e lucros, há uma esperada possibilidade de haver o aumento da inadimplência.

Para avaliar o caso das empresas, eu precisaria ter esse dado desagradado para ver o que está significando. Mas o que está acontecendo, de modo geral, é um processo de desaceleração econômica que é muito maior no segmento industrial do que nos outros segmentos da economia. Então, essa desaceleração da economia tem a ver com os cenários externos e, no caso brasileiro, com a reversão da valorização das commodities, que eram a grande linha de impactação da economia nos últimos sete ou oito anos. A crise financeira externa e, por via de consequência, a desaceleração do preço das commodities, têm efeito na desaceleração econômica. As empresas que já estavam endividadas diante desse cenário têm mais dificuldades para honrar compromissos financeiros. Mas esse é um fenômeno geral, e não específico do Brasil.

Macroeconômico

Do ponto de vista macroeconômico, não vejo possibilidade de bolha financeira, no sentido de que famílias e empresas fortemente inadimplentes criem uma corrente negativa no sistema financeiro. Até porque o sistema brasileiro de finanças recebe benefícios públicos muito generosos e altera com a lucratividade extremamente elevada para padrões internacionais. As linhas de financiamento utilizadas pelo setor público e privado conferem ao sistema financeiro um privilégio grande. E por essas distorções, o sistema financeiro não vai “mal das pernas”. Não se pode dizer a mesma coisa da economia no seu conjunto, que está em processo de desaceleração claro. Disso não tenho dúvidas.

IHU On-Line – Então, apesar de o acesso ao crédito ter sido útil para prevenir a crise em 2008, hoje não é mais possível investir nessa política econômica para alavancar a economia?

Guilherme Delgado – Sim. Essa é uma linha que foi utilizada amplamente, mas não teve, na época, prevenções ou avisos dos riscos. Esse crédito consignado foi contratado por ser um crédito de baixíssimo risco para o sistema financeiro, mas como o juro brasileiro só baixou agora, esses burduários do crédito consignado carregam uma dívida muito pesada em relação aos seus baixos rendimentos de salários e benefícios previdenciários.

Esse é um problema que na época não foi advertido, porque o governo Lula não estava preocupado com isso. A preocupação era de que a chamada nova classe média – que não é classe média propriamente dita, mas representa um grupo grande de pessoas que entraram nessa faixa de dois ou três salários mínimos entrasse no consumo, no sistema de crédito, sem muitas preocupações com a solvabilidade futura. Hoje este problema está colocado não como um problema de bolha financeira, mas não dá para insistir nesse caminho, porque, do contrário, se torna inviável a recuperação desses créditos numa forma mais organizada, ainda que o crédito consignado, como o próprio nome diz, seja um crédito obrigatório. Mas ele pode evocar razões judiciais, porque o crédito consignado só pode abater um percentual da renda pessoal ou previdenciária das pessoas.

IHU On-Line – Muitos economistas divergem em relação à eficácia do crédito para economias como a brasileira. Em que circunstâncias ele é positivo e negativo?

Guilherme Delgado – Numa situação de recessão, o crédito, assim como os investimentos públicos, e o consumo público, têm um papel importante na recuperação da economia. Entretanto, esse é um receituário clássico de economia keynesiana para manter a economia efetiva. O problema é que o grau de financeirização da economia hoje é tal que se tem de olhar outros condicionantes do processo de recuperação econômica para não colocar armadilhas na própria engenharia financeira do processo.

Nesse sentido, o governo está certo ao considerar a existência de uma crise externa no ar, porque a demanda externa deve cair, e se o governo não fizer alguma coisa, a demanda interna cai também, e aí se aprofunda a crise econômica, que não vai ajudar ninguém a pagar as contas, e gerará uma crise financeira por esse lado.

Qual é a dosagem calibrada para fazer políticas anticíclicas? Nessa conjuntura atual, os dados demonstram que não se deve investir na mesma política com que se conteve a crise de 2008. Portanto, o crédito consignado talvez não seja a opção viável neste momento. Provavelmente, o investimento público e o gasto social devem se manter como vetores importantes de recuperação da demanda interna, e substituição das exportações, que são ou foram, nos últimos dez anos, uma locomotiva muito forte para puxar a economia para o crescimento.

Tudo indica que agora o Brasil não terá mais tantas vantagens nas exportações – que foram basicamente primárias, porque as exportações manufatureiras tiveram uma trajetória bem mais modesta nos últimos três anos. Já está havendo queda do produto industrial, que deve ser negativo em 2012, isso porque o setor externo, como via de exportação, está bloqueado. No sentido primário-exportador, que foi a grande aposta brasileira, isso está em processo de reversão tanto no caso dos minerais como das commodities agrícolas, que já apresentam preços em declínio relativo. Se houver queda mais forte no saldo comercial externo, que é o que se espera para esse ano, alguma coisa terá de ser feita na política macroeconômica para ter efeitos compensatórios, e não levar a economia para o buraco.

IHU On-Line – Como o quê?

Guilherme Delgado – O governo Dilma está agindo corretamente do ponto de vista conjuntural. Ela tem mexido na política cambial, no sentido de permitir que haja uma maior desvalorização do real. Ela está concedendo uma série de benefícios para os setores industriais de mais prejuízo nas relações internacionais, o que tem gerado algum efeito, embora não seja um efeito macroeconômico evidente. Também tem dado uma série de benefícios fiscais para os setores de vestuário, calçados, de produtos automotivos, para melhorar as condições de competitividade externas. No entanto, não há, no setor automotivo, evidências de que essa política tenha funcionado no sentido de reverter o padrão de crescimento anterior. Os ingredientes ou as formulações de uma política macroeconômica de mais fôlego, no sentido de aumentar a produtividade da indústria, de melhorar a competitividade pela via da inovação que é uma via mais profunda e demorada , está pouco visível na engenharia da política econômica, porque isso requer mais formação e planejamento integrado do conjunto do governo do que realmente se tem.

IHU On-Line – Entre essas medidas que o senhor citou, está a de redução do IPI dos produtos para incentivar a indústria interna. Como o senhor vê essa medida no curto e longo prazo? O que está por trás dessa iniciativa e quais as implicações dessa medida num contexto em que cresce a inadimplência?

Guilherme Delgado – A utilização da via tributária como incentivo econômico para melhorar a competitividade tem limites. Nesse sentido, tem se usado muito também a folha de pagamento do INSS, com redução da contribuição patronal para vários setores como via de compensação e de estimulação, mas isso também tem limites. Quando o sistema tributário e previdenciário estão desordenados e com baixo crescimento econômico, há perda de arrecadação. E quando há perda de arrecadação sem perda de despesa, criam-se tensões do ponto de vista de déficit público ou de necessidade de financiamento. Numa situação de crise, o governo pode ter de apelar para a dívida pública, como via de financiar esse processo de sustentação da demanda. Provavelmente isso vai ter que acontecer de duas formas: ou reduz o superávit primário, ou aumenta a emissão de títulos de dívida pública para poder financiar esse arranjo macroeconômico.

Em princípio, o país pode fazer isso porque tem uma relação dívida x PIB baixa em termos internacionais. É possível investir ainda mais na engenharia de baixar a taxa de juros brasileira até a aproximá-la das taxas internacionais. Ou seja, é a engenharia que o governo ainda pode percorrer no sentido de baixar a taxa de juros, diminuir o superávit primário, elevar a dívida líquida do setor público. Essas são possibilidades que podem ser usadas para que o país consiga crescer numa taxa relativamente baixa, mas não negativa.

Entretanto, não se pode esquecer que o Brasil não ficará indiferente à situação de crise econômica global e às suas repercussões na Ásia. O país não será eximido de contaminações, mas elas serão diferentes em função desse arranjo keynesiano, e das políticas não ortodoxas que o governo tem procurado adotar, com sucesso relativo. Só o fato de não importar a crise externa na sua magnitude maior já é positivo.

IHU On-Line – Outra reclamação da política econômica do governo vem das editoras de livros. Elas dizem que atualmente é mais barato importar livros e Bíblias de outros países do que produzi-los no Brasil, em função do alto custo do material, e pelo fato desses produtos terem isenção de impostos. Como explicar isso?

Guilherme Delgado – O Brasil exporta a pasta de celulose para a China. Aliás, o Brasil é o grande fornecedor de pasta de celulose, que é a matéria-prima do papel. Portanto, os chineses conseguem o papel, imprimem a Bíblia, e a vendem mais barata. Então, têm algumas coisas erradas nessa cadeia de indústria e comércio exterior que precisam ser revistas. Na realidade, toda a política de comércio exterior brasileira, nos últimos dez anos, convergiu para a ideia de que são o setor primário e as cadeias industriais de comércio de manufatura leve o polo predileto de expansão externa. Então, expandiu-se a venda de pasta de celulose, de minérios, de soja etc. Todo esse conjunto de setores industriais montado no país, os quais deveriam manter a competitividade externa, não recebem um tratamento equânime.

Não sei exatamente qual é o fator que explica a importação de Bíblias, mas tem alguma coisa mal calibrada. Todavia, isso não acontece só nesse setor: trata-se do conjunto da indústria brasileira que  vem declinando de participação no produto interno e no comércio exterior há vários anos. O Brasil fez uma aposta primário-exportadora. Não foi uma aposta boa, e agora está colhendo os frutos da baixa estação. Enquanto estava crescendo o preço das commodities de exportação, ninguém queria entrar nessa discussão de desindustrialização. Acharam que isso seria conversa fiada, mas não era.

IHU On-Line Como o Brasil pode resolver a desaceleração econômica, considerando que já não se pode investir nas políticas passadas?

Guilherme Delgado – Do ponto de vista do desenvolvimento vou falar mais teoricamente, porque não tenho a experiência concreta de quem está manejando a política industrial , o país tem capacidade e competitividade externa quando a inovação industrial, a inovação técnica é o motor do processo de acumulação do capital. No caso do pré-sal, por exemplo, ele é o motor da acumulação do capital não porque houve aumento no preço externo do petróleo, mas porque o Brasil acumulou tecnologia em águas profundas a partir das pesquisas que a Petrobras desenvolveu décadas atrás, e com base nessas inovações ele pode ingressar em novas fronteiras, como a das águas ultraprofundas. Portanto, quando se inova nesse campo, cria-se uma cadeia de relações interindustriais para atender à demanda externa. Esse é o caminho virtuoso do desenvolvimento industrial e da competitividade externa.

No caso do petróleo, do pré-sal, o Brasil tem essa experiência mais ou menos desenhada. Entretanto, nos demais setores, que tiveram uma vantagem comparativa muito grande nas exportações de commodities mas sem inovação industrial, como no caso da soja, da carne, da pasta de celulose, do minério etc., isso não aconteceu. Então, o país cresce horizontalmente, aumenta a exportação, a produção, mas não cria os links, as ligações interindustriais para a economia dar um salto de qualidade tecnológica. Esse é o gargalo da questão, ou seja, o Brasil está parado do ponto de vista da inovação e do progresso técnico, porque o país se restringiu a mirar o setor primário e as vantagens comparativas naturais do comércio exterior como tábua de salvação. Mas isso não é tábua de salvação; é pedra de tropeço, como está sendo demonstrado agora.

Saídas

Como sair dessa situação? O país só sairá dessa situação a partir de uma crise. Esse modelo primário-exportador ainda não está em crise, e ainda é visto como tábua de salvação. Na crise se  gestam saídas, mas são saídas um pouco mais duras, mais difíceis.

O que está em discussão nesses sinais de crise externa é: qual é o rumo que a economia e a sociedade brasileira precisam perseguir no longo prazo para que essa economia saia da dependência e da estagnação a que está subordinada não somente de antes dos anos 2000, mas a partir da inserção primária e exportadora dos últimos anos? Esse modelo funcionou muito bem enquanto a locomotiva chinesa importava tudo do Brasil, e o país se desindustrializava.

A discussão não vai se resolver com políticas pontuais, conjunturais, embora essas políticas pontuais tenham de ser trabalhadas, porque não se  pode só discutir teoricamente, sem fazer nada concreto.

IHU On-Line – Teoricamente, há soluções…

Guilherme Delgado – Analisar do ponto teórico é fácil, mas operar em política industrial, tecnológica e de comércio exterior para tirar a economia do buraco e encaminhá-la para uma situação de sustentação, é algo mais complicado. Nesse sentido, o governo Dilma e sua assessoria econômica estão corretos no diagnóstico de que não podemos aprofundar a crise com receitas ortodoxas. Essa receita ortodoxa estilo Miriam Leitão, de cortar e cortar, leva a economia ainda mais para o buraco. De todo modo, não podemos ignorar os sinais amarelos de inadimplência e de superendividamento das famílias e, potencialmente, das empresas, se a economia permanecer estagnada por três anos.

IHU On-Line Quais são as causas da desaceleração da economia argentina? Os problemas são de origem interna ou externa?

Guilherme Delgado – A questão das commodities é tão ou mais importante para a Argentina do que para o Brasil. O grau de participação das commodities agrícolas, do comércio exterior argentino, e a primarização do comércio exterior na Argentina é muito anterior ao brasileiro. A primarização do comércio exterior brasileira é dos anos 2000, e a da Argentina é de décadas passadas.

Não tenho os dados da desaceleração econômica da Argentina e de seu grau de magnitude. O que sei é que eles estão impondo restrições muito fortes à importação, porque o desequilíbrio externo deles é aparentemente muito pior do que o brasileiro, porque os canais de financiamento internacional para a Argentina estão muito mais bloqueados do que para o Brasil. O Brasil tem déficit em conta corrente desde 2008, na faixa dos 50 bilhões de dólar ao ano, mas nunca deixou de ingressar capital no balanço de pagamento para financiar esse déficit e gerar alguma reserva internacional, mesmo em situação de crise externa. O caso da Argentina é diferente. Caindo o superávit comercial, como tem caído fortemente, eles encontram muito mais dificuldades para financiar.

Em segundo lugar, o comércio entre Brasil e Argentina é muito importante para manter as exportações dos dois países em processo de crescimento. E os dois países estão enfrentando os efeitos da crise externa. Portanto, um não pode ajudar o outro no sentido de ampliar o comércio exterior.

IHU On-Line A presidente Cristina Kirchner tem recebido críticas por conta das restrições da importação. Eles estão no caminho certo?

Guilherme Delgado – Não me parece que a forma burocrático-administrativa que o governo Kirchner adota, no sentido de impor condições administrativas cada vez mais rigorosas e demoradas para inibir as importações, seja um bom caminho, porque impede que setores saudáveis ou setores completamente competitivos participem do comércio. Esse é o grande risco. Então, esse componente é danoso à própria possibilidade de a Argentina se recuperar. Agora, tem de se considerar a escassez de divisas, ou seja, a Argentina enfrenta um problema parecido com aquele que o Brasil enfrentou em 1999. Então, se o país entra em uma crise cambial e não tem uma moeda estrangeira, os pagamentos externos e as importações passam a racionar de forma administrativa. E aí, provavelmente, essa linha complica mais ainda do que resolve, porque, quando a Argentina embarga importações de um país, este país também embarga as importações da Argentina. É um ciclo que agrava o problema da dependência externa deles. Como a Argentina tem o Brasil como um parceiro muito importante, e vice-versa, esse caminho não é bom.

IHU On-Line A crise argentina poderá afetar a economia brasileira?

Guilherme Delgado – Tem que ver o lugar de cada país no comércio brasileiro. Mas como as exportações brasileiras estão em processo de desaceleração, a perda de um parceiro importante como a Argentina, é ruim tanto para o Brasil como para a Argentina. Boa parte desses problemas poderiam ser resolvidos. O problema da Argentina é que eles precisam de moeda estrangeira para poder resolver seus compromissos internacionais. Se o comércio brasileiro pudesse travar-se com base em moeda comum ou moeda conveniada real ou peso, isso talvez poderia ser uma via de enfrentamento dessas dificuldades comerciais. Mas, sinceramente, não quero especular, porque para essas questões bilaterais é preciso ter um pouco mais de senso fino da situação para poder dar sugestões.

(Por Patricia Fachin e Luana Nyland)

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Crédito, um venenoso remédio

“Hoje, na maior parte dos casos, em particular nas sociedades mais abastadas, os homens parecem mais escravos das coisas do que seus beneficiários. O caráter contraditório do crédito não é estranho a essa sociedade na qual, a depender do ângulo em que se olha, tudo parece de cabeça para baixo”, escreve Leda Maria Paulani, professora titular do departamento de Economia da FEA-USP e do PPG de Economia da IPE/USP, em artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo, 01-07-2012.

Eis o artigo.

Ao longo da semana, a imprensa trouxe várias matérias sobre o nível de inadimplência na economia brasileira hoje. O Departamento Econômico do Banco Central, por exemplo, informa que a inadimplência total está no maior patamar da série, iniciada em junho de 2000. Isso é reflexo não só da elevação porcentual do número de famílias que enfrentam problemas para honrar seus compromissos financeiros e creditícios, como do vigoroso crescimento do volume de crédito ofertado nos anos de 2009 e 2010. A ampliação do crédito, como se sabe, foi um dos instrumentos mais acionados pelo governo na busca de combater as consequências, para a economia brasileira, da crise financeira internacional deflagrada ao final de 2008.

Há muito que pensar sobre o que significa o crédito e a forma como vem sendo utilizado, tanto do ponto de vista de sua racionalidade econômica e funcionalidade num contexto de crise quanto, numa perspectiva mais ampla, sobre o significado de suas consequências do ponto de vista da sociedade que vai se construindo com seu auxílio.

Do ponto de vista da dinâmica que move a economia capitalista, a adoção desse tipo de medida é absolutamente racional e tende a ser eficiente no que concerne ao objetivo de erguer aquilo que os economistas chamam de demanda efetiva, incentivando com isso o crescimento do produto, do emprego e da renda. Suas consequências do ponto de vista dessa mesma dinâmica podem, no entanto, ser deletérias, se a ampliação do crédito “sair do controle” e começar a se alimentar de si mesma, como sói ocorrer com ativos emitidos a partir de operações desse tipo. Foi alguma coisa parecida com isso, aliás, que esteve na raiz da crise imobiliária de 2008 nos Estados Unidos, assentada na expansão do crédito e do endividamento das famílias, via hipotecas. O interessante aqui é salientar que esse crescimento por lá foi empurrado com mão forte pelo próprio governo americano, não só por meio de abrupta redução da taxa de juros como pelo incentivo direto, via peças publicitárias, para que os cidadãos americanos utilizassem seus cartões de crédito e se lembrassem que “imóvel é ativo real” e pode lastrear empréstimos. E tudo isso foi feito, a partir de 2001, visando a tirar a economia americana da crise em que mergulhara por conta do estouro da bolha das empresas “ponto com” na bolsa de Nova York.

O leitor atento já terá percebido que há aqui um processo marcado pela tautologia e pelo caráter autorreferencial, uma vez que o veneno que mergulha a economia no poço é idêntico ao remédio que se utiliza para resgatá-la. Isso é da natureza das operações de crédito e da frenética atividade de emissão de riqueza fictícia (bolhas) que elas podem gerar, mas mais que isso, na atual fase vivida pelo sistema capitalista em nível mundial, a formação de bolhas, longe de ter caráter episódico, passou a ter caráter praticamente permanente. Isso, evidentemente tornou mais agudas as contradições inerentes ao sistema econômico sob o qual vivemos.

E é sob essa chave que podemos pensar o crescimento desmesurado do crédito para além dos muros da economia, e veremos que as contradições não param por aí. A racionalidade econômica da sociedade moderna reza que, quanto mais consumo, mais produto, mais renda e mais emprego. Sem consumo, ou com consumo refreado, as expectativas de lucratividade se deprimem, os investimentos mínguam, o produto encolhe, contingentes enormes de pessoas são demitidas e têm suas vidas desestruturadas. É para evitar esse tipo de coisa, ou minorar esses fenômenos e as agruras que eles provocam, que os governos recorrem ao… crédito.

Portanto, em nossa sociedade, as coisas só andam bem no quesito econômico quando consumimos irrestritamente, por funestas que sejam as consequências desse consumo irrefreado sob todos os outros pontos de vista. Assim, se é absolutamente racional da perspectiva do andamento da economia ampliar o acesso ao automóvel particular, é completamente irracional fazê-lo do ponto de vista ambiental, da utilização dos recursos naturais, da sanidade do ambiente urbano, entre tantos outros aspectos que poderíamos citar. Mas isso não é privilégio do automóvel: qual é a lei que nos obriga a consumir muito mais vestuário do que seria necessário (a cada ano as coleções mudam!), muito mais engenhocas eletrônicas, muito mais bugigangas de toda ordem? Tudo isso não parece absolutamente irracional sob qualquer outra ótica que não a puramente econômica? A essas alturas alguém poderia observar que estamos esquecendo o elo principal de toda essa cadeia, aquilo que torna racional toda essa irracionalidade: todas essas coisas são produzidas para atender às necessidades humanas. Mas não há nesse contexto uma inversão? Hoje, na maior parte dos casos, em particular nas sociedades mais abastadas, os homens parecem mais escravos das coisas do que seus beneficiários. O caráter contraditório do crédito não é estranho a essa sociedade na qual, a depender do ângulo em que se olha, tudo parece de cabeça para baixo.

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