Cada ano, no dia 23 de agosto, a ONU celebra o dia internacional da lembrança do tráfico de escravos e de sua abolição. Durante toda a próxima semana, acontecerão eventos e conferências sobre o assunto em vários países, principalmente naqueles mais marcados por essa terrível chaga da história que foi a escravidão negra. No entanto, até pelo título das comemorações da ONU, alguém pode pensar que se trata apenas de uma lembrança longínqua e uma memória do passado. Infelizmente não é essa a verdade. Quando os escravos foram libertados, não receberam nenhuma indenização, nem ajuda para viver. Foram jogados nas ruas e favelas. Seus descendentes até hoje sofrem consequências dessa injustiça. Além disso, o racismo continua vigente em muitos países do mundo. A escravidão mudou apenas de forma. Embora ilegal, o tráfico de seres humanos permanece fonte de riqueza para máfias internacionais, especializadas em prostituição forçada e em migrantes clandestinos que lhes rendem dinheiro. Os escravagistas do século XXI não operam mais em navios negreiros e sim em jatos de última geração. De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), os lucros provenientes do tráfico humano, são de 32 bilhões de dólares por ano. No mundo de hoje, 12.3 milhões de pessoas já passaram por alguma forma de trabalho forçado ou de servidão. Destas, 9.8 milhões foram exploradas por agentes privados, incluindo mais de 2.4 milhões em trabalho forçado resultante do tráfico humano. Os dados mais elevados encontram-se na Ásia, com cerca de 9.4 milhões, seguidos de aproximadamente 1.3 milhões na América Latina e nas Caraíbas, e de pelo menos 360.000 nos países industrializados e considerados do “primeiro mundo”. Perto de 56 % das pessoas vítimas de trabalho forçado são mulheres e jovens menores de idade.
Quanto à escravidão no campo, em países como a República Dominicana, o Paraguai e mesmo o Brasil, a cada dia, aparecem denúncias de novos casos, descobertos e constatados. Conforme o relatório da Comissão Pastoral da Terra, em 2011, se registraram no Brasil, 249 casos de trabalho escravo em fazendas e empresas rurais, com 4348 pobres trabalhadores que viviam como escravos. Desses, foram resgatados e libertados pela fiscalização federal 2505 pessoas. E as outras? A maioria desses casos aconteceu no Pará, em Goiás, em Minas Gerais e Maranhão. Algumas fazendas são distantes de tudo e perdidas no nada das terras ocupadas no Oeste, mas outras estão bem próximas da chamada civilização. De acordo com esses dados, muitas indústrias de ferro e aço empregam mão de obra escrava, assim como há uma relação estreita entre o desmatamento da Amazônia e o emprego de trabalho forçado. E isso para falar somente do campo. Em pleno centro de São Paulo, indústrias de fundo de quintal e empresas de tecelagem empregam bolivianos em situação ilegal e obrigados a morar no lugar de trabalho, com horários extenuantes e sem salários fixos. Trabalham para pagar dívidas que crescem ininterruptamente e exigem mais trabalho.
Há cinco anos, o governo federal e alguns organismos da sociedade civil elaboraram um pacto nacional para a erradicação do trabalho escravo. Essas medidas têm ajudado, mas a má erva precisa ser extirpada na semente e nas raízes. A raiz da escravidão é o sistema social que perpetua a desigualdade social e considera o dinheiro mais importante do que a vida. O trabalho escravo atinge principalmente índios, negros, mulheres pobres e crianças. Ele atenta contra a dignidade das vítimas, mas também de toda a sociedade que convive com uma barbaridade dessas. O trabalho escravo ainda persiste porque os que o praticam encontram pessoas com tal fragilidade social que se tornam mais vulneráveis a isso Cada um/uma de nós é responsável por criar uma cultura, nas quais esse tipo de crime se torne impossível. Principalmente, quem está ligado a alguma tradição espiritual deve assumir esse compromisso pela justiça como testemunho de sua fé em um Espírito que é amor e ternura solidária. Há muitos anos, um poeta escreveu: “Quem trabalha pelo pão de cada dia, faz avançar no mundo o projeto divino. Quem varre a rua e recolhe o lixo está preparando o reino de Deus”.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.adital.org.br
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Seleção encerrada: “Escravo, nem pensar!” financiará 15 projetos de prevenção ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo
30/07/2012
As iniciativas partem de escolas, dioceses e organizações da sociedade civil e irão abordar o tema de forma criativa e variada
O programa “Escravo, nem pensar!” aprovou 15 projetos comunitários de prevenção ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo. Eles receberão financiamento de até R$ 1.200 do Fundo de apoio a projetos do “Escravo, nempensar!” para desenvolverem suas atividades. Os projetos foram propostos por escolas, dioceses e organizações da sociedade civil dos estados de Ceará, Goiás, Mato Grosso, Maranhão, Pará, Piauí e Tocantins.
Serão discutidos assuntos que se relacionam ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo, como aliciamento, migração, direitos trabalhistas, meio ambiente, exploração sexual, agricultura familiar, entre outros. Os participantes constituem um público bem diverso: alunos de ensino infantil, fundamental e médio, de Educação de Jovens e Adultos e de Escolas Família Agrícola (EFAs); professores; famílias de trabalhadores e grupos pastorais. Eles produzirão programas de rádio, cartazes, poemas, peças de teatro, músicas, danças e desenhos. Também participarão de oficinas, apresentações, debates e palestras relacionados aos temas. Alguns projetos preveem o plantio de hortas comunitárias.
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| Municípios onde os projetos serão desenvolvidos |
Confira abaixo os projetos aprovados:
- Projeto: “Historiar a escravidão, grafitar a liberdade”
Proponente: Centro de Ensino Mary Dalva Castro Rocha
Açailândia – MA
- Projeto: “Comunicação comunitária contra o tráfico de pessoas para o trabalho escravo”
Proponente: Rádio Arca FM
Açailândia – MA
- Projeto: “Trabalho, prazer, respeito e dignidade enobrecem o ser humano”
Proponente: Escola Estadual Santo Antônio (Assentamento Santo Antônio)
Confresa – MT
- Projeto: “Ações de combate ao trabalho escravo. Conhecer para combater”
Proponente: Centro de Estudos Supletivo Professor Antônio Vieira da Silva
Rio Maria – PA
- Projeto: “Desafios na perspectiva de “educar para não escravizar””
Proponente: Secretaria Municipal de Educação e Cultura
Rio Maria – PA
- Projeto: “Educar para não escravizar”
Proponente: Programa Brasil Alfabetizado
Rio Maria – PA
- Projeto: “Ocupando o campo do saber para erradicar o trabalho escravo”
Proponente: Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom José Gomes (Acampamento João Canuto)
Sapucaia – PA
- Projeto: “Morro de sonhos e esperança“
Proponente: Diocese de Bom Jesus do Gurgueia
Morro Cabeça no Tempo – PI
- Projeto: “VIVER : Vida Integrada Vencendo a Escravidão Reinventada”
Proponente: Diocese de Oeiras
Oeiras, São João da Varjota, Cajazeiras e Santo Inácio – PI
- Projeto: “Gerar renda é gerar vida. Com o plantio de hortas”
Proponente: Associação da comunidade São Luis – ACOSAL
Barras – PI
- Projeto: “A arte na prevenção ao trabalho escravo”
Proponente: Associação do Assentamento Nova Conquista
Monsenhor Gil – PI
- Projeto: “Vidas em liberdade”
Proponente: Associação de Mulheres do Setor Tiúba
Araguaína – TO
- Projeto: “Projeto Lindô: um resgate cultural”
Proponente: Grupo “Jovens em Resgate” da Igreja Nossa Senhora das Graças
Muricilândia – TO
- Projeto: “Ações preventivas às práticas de superexploração do trabalho e tráfico de trabalhadores rurais no Município de Itatira – Ceará”
Proponente: Comissão Pastoral da Terra
Itatira – CE
- “Já chega de escravo, todos ganham quando somos livres”
Proponente: Comissão Pastoral da Terra
Goiânia – GO
Clique aqui para ver projetos desenvolvidos em outros anos.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO http://www.escravonempensar.org.br/detnovidades.php?id=107
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Cadastro inclui casos que tiveram destaque na Repórter Brasil
Entre os casos de libertações que entraram na última atualização, há quadros de escravidão por mais de 30 anos, trabalho infantil e ataques à bala a empregados
Por Bianca Pyl, Guilherme Zocchio e Maurício Hashizume
Entre os flagrantes que resultaram na inclusão de 116 novos nomes na “lista suja” do trabalho escravo, ocorrida na semana passada, há quadros de vítimas exploradas por mais de 30 anos, casos graves de trabalho infantil (em lavouras, carvoarias e pedreiras, por exemplo) e situações de ataques à bala e exploração desumana de pessoas em terra pública destinada à reforma agrária “grilada” por particular.
A fiscalização única campeã em inclusões foi a que se deu em um conjunto de olarias no município de Gouvelândia (GO). Somente por conta dessa inspeção, entraram para o cadastro nove empregadores, responsáveis pela manutenção de 51 pessoas em condições análogas à escravidão. São eles: Manoel Diniz, Edson Malaquias da Silva, Idércio Lemes do Prado, Marcos de Moura Henrique, Joaquim Gonçalves Rodrigues, Sebastião Ribeiro do Prado, Sílvio da Silva, Marcos Roberto Pereira da Silva e Márcio Adriano Pereira da Silva. Outros quatro empregadores também foram envolvidos durante a inspeção trabalhista, mas ainda não ingressaram no cadastro mantido desde novembro de 2003, que tem amparo em portaria conjunta do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e da Secretaria Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).
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| Alojamento de trabalhadores libertados de olarias em Gouvelândia (GO) |
Alguns dos libertados confirmaram à fiscalização que nasceram e passaram mais de 30 anos enfrentando um quadro de servidão por dívidas, condições degradantes e outras precariedades na atividade de produção de tijolos. Em outro resgate, envolvendo os fazendeiros Abimael Jesus Moreira e Abner Jesus Moreira, um trabalhador estava sendo escravizado por longos 14 anos, em Mineiros (GO). Ambas as ações foram coordenadas pela Superintendência de Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO).
Os empregadores escravizaram um trabalhador por 14 anos. Ao todo eles eram responsáveis por três empregados. A fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal (PF) aconteceu entre maio e junho de 2010.
No interior de São Paulo, o estado mais rico do país, Edson da Silva Rossi explorava sete crianças e adolescentes – com idades entre 7 e 15 anos – e 13 adultos em condições análogas à escravidão em uma plantação de tomate, em outubro de 2011. As crianças encontradas na Fazenda Palmeira Ltda. não recebiam pagamento algum e ajudavam os pais com vistas a aumentar a quantidade colhida da produção. As crianças declararam que gostariam de estudar, mas que, por causa da jornada que tinham que cumprir, e frequência na escola não era permitida pelo empregador. O mesmo Edson já havia sido implicado em infrações similares em 2009 e 2010.
No caso do empregador Francisco César Cavalcante, além do trabalho infantil (e da exploração desumana de 69 pessoas) em 11 carvoarias, houve relatos de tiros direcionados ao trabalhador que teve coragem de cobrar o empregador.
O flagrante ocorrido em pedreiras pertencentes a políticos locais de Nortelândia (MT)também envolveu trabalho infantil e culminou na inclusão dos nomes de José Pedro de Lima (Pavimentadora São José) e Silvino Santana Araujo na “lista suja”. Já Geraldo Aires de Souza Nunes, implicado na libertação de três pessoas da extração de ouro na Fazenda Recanto, em Novo Mundo (MT), atuava de forma ilegal, pois, segundo o Ministério Público Federal (MPF), a área em questão fora “grilada”, tratando-se de terra pública destinada ao programa federal de reforma agrária.
Confira a relação com outras matérias relativas às fiscalizações que resultaram na inclusão de empregadores na recente atualização da ” lista suja”:
– Adriano Carlos Piasseski
– Agropastoril Gaboardi Ltda
– Antônio Alves da Silva
– Antônio Vieira Fortaleza
– Bruce Barbosa Guerra
– Ecomax Agroflorestal e Pecuária Ltda (atual: Becchi Ind. e Com. de Móveis Ltda
– Fidelcino Andrade
– Ilmar Santos da Silva
– Inácio Pereira Neves
– Indústria e Comércio de Erva Mate Tiecher Ltda
– Juciel Dias Correa
– Laci Dagmar Zoller Ribeiro
– Laurélio Rogemar Kochenborger
– Marcelo Krohling
– Parra & Cia Ltda
– Paulo Davit Baldo
– Sebastião Gardingo
– Volnei Modesto Diniz
– W.S.A. Madeireira Ltda
– Yong Gul Kim
Notícias relacionadas:
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– MRV e empregadores ligados à política entram para a “lista suja”
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO http://www.reporterbrasil.org.br/exibe.php?id=2097

