
A presença dos líderes sul-americanos no segundo dia da 6ª Reunião de Cúpula do Brics ameniza possíveis indisposições regionais provocadas por rumores de que o Brasil estaria se afastando do continente e priorizando negociações e acordos com o bloco, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Hoje (16), os 12 países da América do Sul participam das discussões, no Palácio Itamaraty, em Brasília. O encontro começou com atraso de uma hora.
A sessão de trabalho que ocorre a portas fechadas criou ambiente para que líderes da Argentina, Colômbia, Venezuela e Bolívia, por exemplo, manifestem anseios e demandas prioritárias no cenário internacional.
Alguns minutos antes da reunião, a presidenta Dilma Rousseff declarou que a intenção era replicar o modelo do encontro na África do Sul. “Fizemos a reunião com países africanos e faremos aqui com países da Unasul, que também é muito importante para o relacionamento com o Brics”, explicou.
Os países da América do Sul não têm, por exemplo, perspectiva de serem beneficiados diretamente pela principal medida aprovada na cúpula do Brics. A criação do Banco de Desenvolvimento do Brics, formalizada em Fortaleza, só deve impactar a região sul-americana a longo prazo. Projetos priorizados por Brasil, Rússia, Índia e China podem repercutir, indiretamente, nas economias de todos os vizinhos brasileiros.
Dilma reforçou a previsão de que, num primeiro momento, os países que não compõem o bloco não poderão se beneficiar diretamente da instituição recém-criada, mas “quero dizer que o banco sequer foi formado. Sempre olharemos com muita generosidade os nossos empréstimos. Eles serão feitos com padrão de boa gestão. Ninguém vai sair por aí [emprestando] nem é este o papel do banco do Brics. De fato ele [o banco] reflete um mundo mais multipolar”, declarou a presidenta.
Na prática, as operações do banco não devem impactar imediatamente nem mesmo o bloco, já que os empréstimos só devem estar disponíveis em dois anos, depois que os parlamentos de cada um dos quatro países aprovar a criação e as regras da instituição.
Às 13h30, a presidenta Dilma Rousseff oferece um almoço em homenagem aos chefes de Estado que participam do encontro e à noite, com o fim da Cúpula do Brics, os líderes devem participar de um coquetel oferecido pelo governo brasileiro no Itamaraty.
Amanhã, o Itamaraty segue com a agenda de encontros com líderes que ainda permanecerão em território brasileiro. Além dos sul-americanos, o trabalho será ampliado com os representantes do Quarteto da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), formado por Chile, Antígua Barbuda, Cuba e Costa Rica.
*Colaboraram Danilo Macedo, Ivan Richard e Ana Cristina Campos
Banco do Brics cria “rede de proteção” aos cinco países do bloco, diz Dilma
A presidenta Dilma Rousseff classificou hoje (16) como “completamente satisfatória” a criação do banco do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), formalizado ontem (15), em Fortaleza, no Ceará, durante a sexta reunião de cúpula do bloco e que ela não significa que esses países deixarão de participar de outras instituições multilaterais, como o G20, por exemplo. Dilma negou ainda que o Brasil tenha “cedido” presidência do novo banco aos indianos. “O Brasil não cedeu porque não tinha, não era dono”, disse.
Segundo a presidenta, o banco do Brics cria uma rede de proteção para os cinco países e muda as condições de financiamento dos integrantes do bloco. “Um dos pontos da pauta de ontem foi o problema da reforma acertada no G20, das instituições financeiras multilaterais, como o FMI, por exemplo. Porque, na distribuição de cotas do FMI, não está refletido o poder, a correlação de forças econômicas dos países que integram o G20, que são as 20 maiores economias do mundo”, frisou Dilma.
Logo após assinar acordos bilaterais com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Dilma voltou a defender mudanças no FMI. “Não temos o menor interesse em abrir mão do fundo monetário. Pelo contrário: temos interesse em democratizá-lo e torná-lo mais representativo. O novo banco dos Brics não é contra, ele é a favor de nós. É diferente. É uma postura completamente diferente. E terá sempre uma postura diferenciada em relação aos países em desenvolvimento”, acrescentou a presidenta.
A presidenta comentou as críticas de que o Brasil teria “cedido” a presidência do banco. “Se a gente tivesse ficado com a primeira vice-presidência, a imprensa estaria dizendo ‘O Brasil perdeu a sede’. O que se trata é de um banco gerido por um conselho de administração – que o Brasil preside; por um conselho de ministros – que a Rússia preside; por um presidente – que é da Índia e tem o primeiro banco localizado lá na China”.
Ela acrescentou que o banco terá escritório na Ásia e na África e depois na América Latina. “Isso significará uma forma de gerir o banco que vai ser a mesma forma que os Brics têm. Então, é absolutamente, eu diria assim, inadequado, avaliar o resultado dessa cúpula assim. Cada país tem o seu papel e vai tendo em várias outras esferas, sistematicamente”.