O endividamento da população avança no radar de 2026 como uma das principais situações enfrentadas pelos brasileiros, com capilaridade para pautar o debate até mesmo das eleições presidenciais de outubro – e você já deve ter visto ou ouvido falar essa palavra ao menos uma vez nas diversas notícias que circularam em abril.
Além de compreender a dimensão desse endividamento e do real prejuízo dessa situação na vida das pessoas, o Sindicato quer saber: o que as instituições financeiras estão fazendo para cumprir sua função social e evitar tragédias familiares ocasionadas por dívidas impagáveis?
Banco tem papel social
A atividade bancária é de interesse público. A lei é antiga, de 1964, e desde o início estabelece que cabe ao Conselho Monetário Nacional orientar que a aplicação dos recursos das instituições financeiras deve “propiciar, nas diferentes regiões do País, condições favoráveis ao desenvolvimento harmônico da economia nacional”.
Essa mesma lei determina ao Banco Central a fiscalização das instituições e, aos bancos, a intermediação do dinheiro, guardando de quem poupa e ofertando empréstimo para quem precisa.
Endividamento da população
É considerada endividada toda pessoa que realizou um empréstimo bancário ou financiamento e que utiliza parte de sua renda mensal para pagar esse parcelamento, e, nesse sentido, 77% das famílias brasileiras estavam endividadas, de acordo com dados de dezembro de 2024 da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor.
Ocorre que quase 29,1% dessas famílias possuíam dívidas em atraso e 12,7% alegavam que não conseguiam pagar suas dívidas.
Em março de 2026, essa mesma pesquisa constatou o aumento do percentual do endividamento para 80,4% das famílias.
Qual é o papel dos bancos nesse cenário?

As instituições financeiras têm que assumir para si a responsabilidade de não perpetuar o endividamento da população. É preciso que dados sobre incapacidade de renegociação de dívidas de determinados estratos da sociedade sejam utilizados para um reposicionamento dessa oferta de crédito, ao invés de empurrar os próprios trabalhadores bancários para vender aos clientes dívidas impagáveis em troca do cumprimento de metas inatingíveis”, salienta Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região.
Postura perversa
Seguindo esse entendimento sobre o papel dos bancos em promover o crédito consciente, é possível descrever esse modo de operar como uma postura perversa, já que a própria existência de juros atrelados aos produtos financeiros acabou gerando outro produto financeiro, que muita gente conhece de perto: os juros sobre juros, em que a dimensão mais evidente da consequência na vida das pessoas é a incapacidade de renegociação de dívidas por parte da população bancarizada.
Bancarização universal
De acordo com o Relatório de Cidadania Financeira, 2025, publicado na segunda quinzena de abril pelo Banco Central, o acesso da população à bancarização já é considerado universal pelo BC. O número de adultos com relacionamento com instituições financeiras atingiu 175 milhões ao final de 2024, representando 96,4% da população adulta brasileira. Desse universo, 160,8 milhões de usuários estavam ativos junto ao Sistema Financeiro Nacional, correspondentes a 88,4% dos 181,9 milhões de adultos.
Para o Banco Central, a criação do Pix, em novembro de 2020, consolidou a universalização da bancarização, paralelamente ao avanço das fintechs na intermediação de operações com meios de pagamento e de crédito.
Uma das dimensões dessa universalização da bancarização via Pix é a estatística da utilização do serviço pela população de baixa renda: conforme o BC, 74% dos adultos inscritos no CadÚnico, sistema de políticas públicas do Governo do Brasil, haviam registrado ao menos uma chave Pix até dezembro de 2023.
Ampliação dos serviços digitais e endividamento
Conforme o mesmo relatório já mencionado, o próprio Banco Central entende que o avanço dos serviços digitais “pode obscurecer a percepção do gasto, facilitando, assim, o consumo impulsivo ou sem controle”.
O problema imediato dessa análise é que ela coloca o cliente bancário como o único culpado pelo que seria uma ilusão do acesso facilitado ao crédito, sendo que se a bancarização fosse promovida com responsabilidade pelas instituições financeiras, dívidas impagáveis não seriam proporcionadas pelos bancos para essas pessoas”, afirma Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato.
Acesso ao crédito
O acesso ao crédito é mensurado pelo número de pessoas que possuem limite disponível em alguma instituição financeira e não o seu uso, que pode ser nos serviços de empréstimos, financiamentos, cartões de crédito ou cheque especial da conta corrente.
De acordo com dados do BC, em 2024, o Brasil tinha quase 130 milhões de pessoas com acesso a crédito, equivalente a 74% da população com relacionamento bancário, e a média de uso do crédito é de 9 entre 10 pessoas com acesso a ele.
Números do uso do crédito no Brasil (2024)
41,7 milhões de clientes utilizaram o empréstimo pessoal;
53 milhões de pessoas usaram o rotativo ou parcelamento do cartão de crédito;
24 milhões de clientes usaram o cheque especial;
24 milhões de clientes utilizaram o crédito consignado;
10 milhões de clientes utilizaram alienação fiduciária para crédito imobiliário;
10 milhões de clientes utilizaram alienação fiduciária para crédito automotivo.
Entre 2020 e 2024, as taxas médias cobradas pelo uso do cartão de crédito foram as mais altas registradas no mercado; o rotativo do cartão foi de 313% a.a. em 2020 para 430% no final de 2024.
De quem é a responsabilidade?
O Banco Central, responsável por fiscalizar as instituições financeiras, em seu próprio Relatório de Cidadania Financeira (2025), parece fazer um alerta para ele mesmo, mas que registra como uma ação de orientação, e não de fiscalização: a partir desses dados, o BC informa que “por meio da Supervisão de Conduta, demandou das instituições um conjunto de ações prioritárias a serem executadas tendo esse público-alvo como principal”.
O público-alvo que o BC se refere são os clientes considerados altamente vulneráveis. E entre as ações mencionadas, está priorizar esses clientes “na adoção de estratégias de relacionamento cada vez mais cuidadosas” e na lista das ações, acaba responsabilizando o lado mais fraco dessa relação: o trabalhador bancário. Veja:
Essas ações prioritárias envolvem, primordialmente:(i) ações de adequação da cultura organizacional, tais como sanções diferenciadas aos colaboradores que cometam falhas de conduta junto a esse público; e (ii) ações relacionadas ao ciclo de vida desses clientes na instituição financeira, tais como, atendimento prioritário e diferenciado em canais de atendimento e esteiras de pós-venda, exclusão em campanhas de oferta ativa de produtos, análise e ressarcimento prioritário em casos de fraudes, entre outras.
Essas falhas envolvem casos de falhas no atendimento, oferta e venda inadequadas de produtos e serviços financeiros, vendas não consentidas e barreiras desarrazoadas ao cancelamento ou à portabilidade do relacionamento, entre outros.
A culpa não é do trabalhador bancário, é do sistema financeiro
Não podemos deixar que as instituições financeiras empregadoras, nem que o Banco Central, como órgão de fiscalização, atribua a clientes e trabalhadores bancários a culpa desse sistema perverso que oferta crédito de maneira que ele se torna impagável. Essa inversão de valores (éticos e financeiros), não pode ser o pressuposto de instituições que lucram bilhões para prestar esses serviços”, finaliza Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato.
Você quer saber mais sobre o perfil das pessoas que acessam o crédito no país e do consequente endividamento? Acompanhe outros conteúdos nas próximas semanas de maio.
🔗 Com informações do Relatório de Cidadania Financeira 2025
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Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região