A Secretaria de Políticas Sociais e Estudos Socioeconômicos do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região convidou a deputada estadual Ana Julia Ribeiro, eleita pelo Partido dos Trabalhadores aos 22 anos, a mais jovem da história do Paraná, para falar sobre a importância da aprovação da Proposta de Emenda à Constituição pelo fim da escala 6×1. Ana Julia é responsável pela criação da Frente Parlamentar de Proteção à Saúde Mental na Assembleia Legislativa.
“A Ana Julia é uma mulher jovem, que entrou na política também muito jovem, a partir da militância das causas dos estudantes secundaristas, na luta coletiva, ainda em 2016 com a ocupação das escolas públicas aqui no Paraná. As mulheres são as primeiras a perderem direitos em ataques da direita, seja no legislativo (cortes de direitos nas leis), ou no executivo (quando governadores extinguem carreiras como por exemplo das professoras), é por isso que temos que entender as lutas a partir desse olhar feminino”, explica Ana Smolka, diretora da pasta.
Fim da escala, a redução de jornada e a manutenção de salários
Ana Julia explica que a PEC, protocolada pelo presidente Lula no dia 15 de abril, já começou a tramitar no Congresso, com a eleição do presidente da comissão, mas a sua totalidade ainda não está garantida entre os parlamentares.
Nós já temos a concordância no Congresso sobre o fim da escala 6 por 1, mas ainda não temos a redução da jornada de trabalho e ainda não temos a manutenção dos salários e para conquistar isso é preciso mobilização”, explica.
Ana Julia contextualiza dizendo que o Congresso pode entregar esse fim da escala “mastigado”, com a divisão da jornada de 44 horas nos cinco dias, e não é isso que os trabalhadores querem.
“As pessoas estão exaustas, é sobre os trabalhadores terem qualidade de vida, tempo com a família, com os amigos, é sobre trabalhar menos de fato. Sem a exaustão, a produtividade melhora. Queremos redução real de jornada, trabalhar menos, sem redução de salário. Grande parte da sociedade é favorável, mas não é unanimidade na política”, diz. “A mediocridade dos agentes da política enxerga a miséria como lucro”, define Ana Julia.
Distribuir o tempo
Ana Julia se sente uma privilegiada por ter crescido e ter sido educada num ambiente sem a lógica individualista, que para ela atrapalha as lutas coletivas. “A gente só quer distribuir melhor as riquezas na sociedade, inclusive o tempo, o tempo é uma riqueza”.
Confira a íntegra da entrevista:
Sindicato: Como você avalia a importância da pauta do fim da escala 6×1 e os impactos na vida dos trabalhadores?
Ana Júlia: Nós temos já, historicamente, na luta dos trabalhadores brasileiros, a pauta da redução de jornada, sem redução salarial e algumas categorias, inclusive, já conquistaram essa redução de jornada. E acredito que, por bastante tempo, também a gente teve dificuldade de traduzir o que seria essa redução de jornada e o impacto que isso traz na vida das pessoas.
E agora, com esse mote de fim da escala 6×1 isso traduz muito bem. Todo mundo sabe o que é trabalhar seis dias na semana e folgar um só. Então as pessoas começaram a conseguir visualizar essa redução da jornada de trabalho. E isso é muito positivo para a gente debater a política, para a gente discutir a pauta, mas é preciso que a gente saiba que se trata de redução de jornada, justamente para a gente não só trabalhar cinco dias da semana, mas que não adianta continuar trabalhando as 44 horas semanais. Justamente porque a questão é que quando a gente fala do fim da escala 6×1, da redução de jornada de trabalho, nós estamos falando do quanto é importante os trabalhadores terem qualidade de vida, né?
O trabalho é importante, mas o trabalho não pode tomar mais tempo da nossa vida do que o tempo com a família, do que o tempo com os amigos, do que a qualidade de vida dos trabalhadores, das pessoas, da dignidade humana.
Então é uma pauta super importante, que é positivo que esteja em alta nesse momento, porque mostra o quanto também os nossos trabalhadores estão cansados. Estão exaustos. Estão sem tempo de conseguir conviver com aquelas pessoas que eles amam. Então eu fico otimista.
Algumas categorias profissionais já trabalham fora da escala 6×1 e nada mais justo a gente pensar também nos trabalhadores do comércio, nos trabalhadores em geral que também querem e devem alcançar esse direito para poder ter mais tempo com a família: de lazer, de descanso e até melhorar também a produtividade, por não estarem tão exaustos.
Sindicato: Qual sua análise política de como estão as movimentações no Congresso sobre a tramitação da pauta?
Ana Julia: A movimentação da PEC está em discussão. Já tem um texto que o governo federal mandou para o Congresso Nacional, já foi eleito presidente da Comissão Especial de tramitação em relação à PEC e a gente já tem alguns partidos da base de oposição do governo se dizendo contrários, que aceitam reduzir jornada, desde que reduza o salário.
A gente vê o quanto nós ainda não conquistamos na totalidade essa pauta na política, ela ainda não é uma unanimidade. E existem alguns motivos pra ela não ser unanimidade. Na realidade, mediocridade desses agentes da política, que só enxergam a miséria e o cansaço do outro como uma forma de lucrarem também.
Então, veja, nós precisamos de mais mobilização. Eu acho que tem condições de avançar. Mas hoje, o que o Congresso Nacional quer é aprovar o fim da escala 6×1 sem redução da jornada de trabalho, quer manter as 44 horas semanais divididas em cinco dias na semana. E não é isso a nossa pauta.
Nós queremos redução real da jornada de trabalho, fim da escala 6×1 e sem a redução de salário. Então não basta dividir essas horas nos outros dias da semana. A gente quer trabalhar menos de fato e não trabalhar menos, porque nós nos dedicamos menos, ou porque nós somos preguiçosos ou qualquer coisa nesse sentido. Os trabalhadores querem trabalhar menos, porque eles já entregam, já vendem a sua força de trabalho e já estão dando os resultados para aquilo que são contratados para aquilo que se espera deles e porque é importante do ponto de vista da qualidade de vida das pessoas, mas também da saúde da nossa sociedade como um todo.
A nossa sociedade está extremamente cansada, adoentada, e um dos motivos é a exaustão no trabalho. Então, veja, nós ainda não avançamos por completo na pauta dentro do Congresso Nacional. Porque ainda não há um acordo em relação àquilo que a gente quer. Eles topam o fim da escala, mas eles ainda não toparam a redução de jornada de fato e ainda não toparam, fazerem isso sem reduzir os nossos salários.
Então é preciso que a gente entenda que as conquistas que a gente tem, seja das categorias profissionais, seja da sociedade como um todo, seja de um plano de carreira, por exemplo, tudo isso só vem através de mobilização social e popular. Só vem conforme a sociedade esteja engajada, politizada e pautando isso.
O debate do fim da escala 6×1 ganha apelo quando você começa a ver que grande parte da sociedade é favorável. Então eu acho importante a gente ter em mente isso, que ainda não conquistamos essa pauta no Congresso. E eles vão querer nos entregar ela mastigada, não o que a gente está pedindo. E ao mesmo tempo, vão querer sinalizar para a sociedade que eles estão fazendo uma boa ação. É preciso a gente ter muita atenção.
Sindicato: É importante a gente considerar que a gente está num momento muito oportuno para debater essa pauta, porque nesse ano a gente vai eleger um novo Congresso, que é quem incide diretamente nessas questões. Então eu queria que você falasse sobre a importância de debater essa pauta. E de como o voto lá em outubro vai impactar diretamente na vida deles dos trabalhadores.
Ana Julia: É importante que as pessoas saibam que quando você vota em alguém, você está entregando a sua confiança política para o que aquela outra pessoa vai votar nos próximos quatros anos, nas pautas que aquela pessoa vai defender nos próximos quatros anos. Então é muito contraproducente você votar em alguém que defende exatamente o oposto daquilo que te beneficia na sociedade. A gente precisa, de fato, que as pessoas conheçam na totalidade as propostas e defesas dos seus candidatos, as opiniões políticas dos seus candidatos. Do ponto de vista econômico, social, cultural, para que elas de fato se sintam representadas, que elas saibam em quem votaram, saibam acompanhar esse trabalho.
A maioria dos trabalhadores na sociedade brasileira está sujeita a essa escala e, ainda assim, a gente não está tendo maioria no Congresso, para melhorar a vida dessas pessoas.
Os pequenos e médios negócios são os que mais defendem, que mais concordam que deveria reduzir a jornada de trabalho. Então não são eles que estão lutando contra isso.
A questão é que toda vez que a gente coloca uma mínima divisão de riquezas, seja da riqueza enquanto bem financeiro, físico ou imaterial, cultural, a gente só quer distribuir um pouquinho melhor as riquezas para a sociedade e o tempo hoje é uma dessas riquezas.
É importante que as pessoas saibam o significado de cada uma dessas ações na política e escolham bem os seus candidatos.
Sindicato: Considerando seu histórico de militância, qual é a importância das lutas coletivas, das lutas sociais para a gente avançar na conquista dos direitos?
Ana Julia: Um dos nossos maiores problemas hoje, na política brasileira, na sociedade brasileira, como um todo, é como ela está individualizada. É como as pessoas estão imersas numa perspectiva individual e numa perspectiva apenas do merecimento, não da dedicação para o acesso à oportunidade, de se dedicar para conseguir as coisas, mas do merecimento, como se fosse algo dado, por um divino, por uma sorte na vida. E não é, né?
As pessoas, claro, elas têm os seus méritos pessoais. Elas têm os seus esforços pessoais, que precisam ser valorizados e reconhecidos. Mas as pessoas também têm acesso às oportunidades e a gente precisa igualar o acesso à oportunidade, para que elas possam desenvolver os seus méritos pessoais.
E a nossa sociedade está mergulhada numa lógica muito individualista, que atrapalha as vitórias coletivas, porque isso cria uma sensação nas pessoas de que não se deve ter políticas públicas de assistência social, porque isso vai acomodar, ou porque isso vai trazer algo que a pessoa não necessariamente tem um merecimento.
Então é muito importante a gente fortalecer a luta na perspectiva coletiva da sociedade como um todo.
Eu tenho um privilégio muito grande de ter construído a política a partir desta perspectiva coletiva, de ter sido criada a partir desta perspectiva coletiva. Sempre lembro, os meus pais me diziam que eu tinha que conquistar os meus sonhos sem esquecer que as pessoas também precisavam conquistar os sonhos delas. Que para eu conquistar as minhas coisas e os meus sonhos eu não precisava desejar que as outras pessoas não conquistassem os delas ou não alcançassem os seus objetivos. E que deveria ser mais preocupada com o que eu seria do que eu deveria ser, essa divisão entre o ser e o ter.
E eu tive uma oportunidade maravilhosa na minha vida de participar do movimento estudantil em 2016 na ocupação das escolas, na Primavera Secundarista, que foi um movimento horizontal, coletivo, participativo do ponto de vista dos estudantes. E que me trouxe essa perspectiva da luta coletiva. A partir dele, eu pude ter várias outras experiências, e todas elas sempre me reforçaram a importância das lutas coletivas.
Acho que quando a gente conseguir avançar um pouco nessa perspectiva da solidariedade, a gente vai conseguir avançar melhor.
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Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região