Bamako – Os tambores de Burundi, a dança senegalesa chamada sabarni e a música da Guiné e do Mali são uma pequena amostra da imensidão da cultura africana, tão pouco conhecida fora do continente – sobretudo no Brasil, apesar de nossas raízes. Nesta quinta-feira (19), essas representações artísticas, no entanto, foram mais do que isso. Na cerimônia de abertura que aconteceu no Estádio Modibo Keitá, elas deram o tom, a cor e o espírito do que promete ser o Fórum Social Mundial de Bamako. Embalaram e animaram as 10 mil pessoas que lá chegaram depois da marcha que percorreu o centro da cidade, convidando a população a participar do FSM que acabava de começar.
Como todas as marchas do Fórum, esta também foi marcada de símbolos e simbolismos. Partiu do Monumento da Independência, e percorreu seus primeiros quilômetros na avenida de mesmo nome. Quem percorreu todo o trajeto acabou cruzando com palestinos, filipinos, cubanos, italianos que viajaram de longe pra participar do encontro. Mas esta era uma marcha africana, dos povos africanos, que levaram pras ruas de Bamako suas tradições, costumes e até sua fauna. Para reivindicar o comércio justo entre as nações, uma organização levou camelos pra passeata. Por que não?
« Não esperava tudo isso deste Fórum, já que este ano o encontro é policêntrico. Mas fico feliz com o resultado, e feliz que o Fórum esteja na África, porque assim nos sentimos em casa. Aqui podemos discutir com profundidade nossos verdadeiros problemas, que representam também os problemas do mundo », disse o marroquino Lefnatsa Abdellah, da Federação de Funcionários da Água Potável e da União Marroquina do Trabalho, que participa pela primeira vez de um Fórum Social Mundial.
Para o brasileiro José Reinaldo Carvalho, diretor do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz), que saiu de São Paulo pra vir a Bamako, a marcha que abriu o FSM mostrou que a luta contra a injustiça e a pobreza ganha corpo em todo o mundo. « E mostrou que essa luta, aqui, é encarada do ponto de vista político; que o combate à pobreza tem que ser um combate à política neoliberal. Não se trata, portanto, de uma luta de caridade, mas de uma luta política e social », afirma Carvalho.
E foi a política que marcou fortemente os dois únicos, e breves, discursos da cerimônia de abertura no Estádio Modibo Keitá – nenhuma fala do comitê organizador, nem do Conselho Internacional do FSM. Nas palavras pronunciadas em bambari de Fanta Diara, representante de uma organização de camponeses que trabalham na plantação e colheita do algodão, uma dura crítica à globalização que desvaloriza os produtos africanos e gera, como consequência do desemprego, processos complexos de imigração dos jovens do Mali. Nas de Ibrahim Souley, um dos coordenadores do Acampamento da Juventude, a indignação da geração que mais sofre com os golpes do neoliberalismo.
« Temos consciência que as políticas neoliberais estão na base dos nossos problemas, seja nos países do sul ou do norte. Por isso, camaradas, vos recebemos com saudações militantes e revolucionárias. Decidimos assumir nossa responsabilidade histórica pelo que acontece com a juventude africana. Uma juventude que não sonha é uma juventude que não tem futuro. Por isso, depois de Bamako precisaremos de ações concretas para fazer acontecer este mundo que buscamos », disse Souley.
O anseio por resultados concretos, capazes de fortalecer as lutas travadas em todos os campos acolhidos na bandeira do Fórum Social Mundial, é o que fica das conversas com os participantes do encontro no Mali. Para as 20 mulheres da Cooperativa Demeton de reciclagem, de Bamako, os resultados concretos podem ser formas de obter recursos para melhorar seu trabalho cotiano. «Coragem de fazer nós temos, mas não temos meios », conta Mariam Dembélé Sogodogo.
Para Nedwa Mint Moctar Nech, que veio da Mauritânia, onde dirige uma ONG que desenvolve políticas de economia solidária para a insersão de artesãos e pescadores no mercado de trabalho, os resultados concretos esperados do Fórum poderiam ser recomendações de como avançar praticamente no combate ao neoliberalismo. « Sabemos que o Fórum não tem resoluções finais, mas não podemos simplesmente vir pra cá e assistir as atividades. Temos que participar de debates que vão nos ajudar a enfrentar nossas lutas cotidianas, realizar trocas que vão trazer resultados, não dispersas esforços. Integrar de um lado para continuarmos o trabalho depois », explica Nedwa.
Para o sindicalista marroquino Lefnatsa Abdellah, um resultado concreto seria articular entidades para barrar o que ele definiu como a ofensiva capitalista às normas internacionais do trabalho. « A supressão dessas leis, uma conquista do sacrifício da classe trabalhadora ao longo dos séculos, é algo que vai representar um recuo para toda a humanidade », acredita.
Em buscas de respostas
Para responder de alguma forma a esta expectativa dos participantes, o último dia do Fórum de Bamako será reservado para que as organizações possam se reunir e definir formas de articulação – no ano passado, em Porto Alegre, o período da noite foi utilizado com este mesmo objetivo. A idéia, no entanto, desta vez, é ir além do Mural de Propostas elaborado em 2005, e que reuniu 352 sugestões de ação, como a aplicação da taxa Tobin, o estabelecimento de um sistema bimonetário entre os países da América do Sul, a promoção de campanhas globais contra os tratados de livre comércio e em defesa da soberania alimentar e a condenação de do presidente americano George W. Bush por crimes contra a humanidade.
“De 2001 a 2006, muita coisa mudou no Fórum Social Mundial. Mas vivemos uma espécie de armadilha neste sentido », admite Mamadou Goita, membro do Secretariado de Coordenação do FSM de Bamako. « Precisamos ir além do Mural de Propostas porque, para muitos participantes, o Fórum não pode continuar sendo um espaço somente de encontros e debates », afirma.
O que Goita faz questão de relembrar, no entanto, é que o Fórum Social Mundial pode não ter resoluções finais, mas já apresenta resultados concretos há alguns anos. « A questão da dívida dos países do terceiro mundo, por exemplo, está sendo discutida desta maneira porque o Fórum resolveu falar disso em nível mundial. O G8 era totalmente arrogante, e se hoje há alguma abertura é porque houve pressão do Fórum para que os povos pudessem se exprimir sobre estes assuntos. Hoje os políticos e parlamentares se interessam pelo Fórum porque este espaço permite que eles próprios encontrem alternativas. É importante, portanto, que as pessoas compreendam esses mecanismos e se engajem. Se a questão não é resolvida aqui, que este seja então o espaço de tomada de consciência », diz.
Tudo indica que será, com as mais de 700 atividades auto-gestionadas que têm início nesta sexta, propostas por organizações de mais de 40 países. Entre eles, Burkina Faso, Afeganistão, Índia, Uganda, Equador e Finlândia. Em sua edição de janeiro, o jornal Sanfin, do movimento operário e popular do Mali, afirma que o “Fórum Mundial na África destacará o que há de mais dinâmico, vital e progressista nas sociedades africanas”. Em seu editorial, conclui que “a expressão massiva e coordenada dos Fóruns de Bamako, de Caracas e Karachi constituirá uma força real em direção a uma reflexão sobre como conter, através de lutas convergentes, a militarização do mundo, a hegemonia política e econômica dos países ricos, e propor alternativas solidárias por um mundo comum”.
Política e logística
Para superar este desafio, o Fórum Social Mundial de Bamako terá que dar conta de questões políticas e logísticas. Politicamente, as entidades africanas à frente do Fórum em Bamako acirraram suas disputas internas nos últimos meses. De um lado, está o Fórum por um Outro Mali (Foram), dirigido por Aminata Dramane Traoré e Diaidié Danioko; do outro, a Coalizão de Alternativas Africanas para a Dívida e o Desenvolvimento, coordenada por Aminata Barry e Nouhoun Keita. Ambos estão representados no Secretariado de Coordenação, a instância mais “executiva” do FSM de Bamako.
Logisticamente, o grande problema é a falta de recursos. O orçamento inicial, previsto para 1,8 bilhões de FCFA (cerca de 8,3 milhões de reais), não deve ultrapassar 650 milhões (ou 3 milhões de reais) – mesmo com a ajuda considerável do governo venezuelano. O valor é tão baixo que corresponde à dívida que a Comissão Organizadora do último Fórum em Porto Alegre ainda corre pra pagar. O programa com as atividades do encontro também não foi impresso, e na manhã desta quinta, o credenciamento dos participantes no Palácio da Cultura levou horas.
Mas estes parecem problemas pequenos para o povo do Mali, que tanto se orgulha de receber um Fórum Mundial. Num chamamento de dois dias, 75 pessoas se voluntariaram para fazer a tradução do inglês e do francês para as demais línguas nacionais. A Rádio Kayira, uma das mais ouvidas pela população, vai transferir temporariamente sua sede e funcionar 24 horas por dia no Palácio do Congresso, onde acontece grande parte das atividades do FSM. No Acampamento da Juventude, a Be Fo FM trará debates e tribunas livres organizadas pelos jovens.
“O FSM acontecer aqui é uma vitória, porque as condições são adversas, porque o Fórum exige uma logística que é muito consumidora de energia. Neste sentido, os africanos estão se superando. Em qualquer lugar do mundo, para se organizar uma reunião como essa, é preciso um staff gigantesco. Aqui as pessoas fazem tudo na base da consciência. Mobilizam, têm disposição pra resolver os problemas. Há uma série de limitações, claro. Mas é o risco do novo. E o Fórum Social Mundial é isso: coragem para ir adiante do que já está construído », analisa a brasileira Moema Miranda, do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), membro do Conselho Internacional do Fórum.
« Do ponto de vista político, é um processo novo também. Este é um Fórum em um continente, e não em um país. É um processo que está sendo apropriado pela luta de emancipação que nasceu com os processos de descolonização. Quando os colonizadores saíram pela porta, entraram pela janela. Ou seja, o que vigora aqui é a lógica da recolonização travestida. Portanto, o desafio da reconstrução da unidade panafricana, cuja diversidade e pluralidade pode superar a nossa, na América Latina, é muito maior. O que o capitalismo fez aqui é tão absurdo que o que está acontecendo neste Fórum só mostra a força dos povos africanos”, acredita Moema.
Se Bamako responder às expectativas e for tomado como porta de entrada para o Fórum Social Mundial 2007, que acontece em Nairobi, capital do Quênia, terá ao menos um concreto e fundamental resultado: o fortalecimento do movimento altermundista em território africano.
Fonte: Agência Carta Maior
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Por Mhais• 20 de janeiro de 2006• 16:11• Sem categoria
Expectativa de resultados concretos marca início do Fórum no Mali
Bamako – Os tambores de Burundi, a dança senegalesa chamada sabarni e a música da Guiné e do Mali são uma pequena amostra da imensidão da cultura africana, tão pouco conhecida fora do continente – sobretudo no Brasil, apesar de nossas raízes. Nesta quinta-feira (19), essas representações artísticas, no entanto, foram mais do que isso. Na cerimônia de abertura que aconteceu no Estádio Modibo Keitá, elas deram o tom, a cor e o espírito do que promete ser o Fórum Social Mundial de Bamako. Embalaram e animaram as 10 mil pessoas que lá chegaram depois da marcha que percorreu o centro da cidade, convidando a população a participar do FSM que acabava de começar.
Como todas as marchas do Fórum, esta também foi marcada de símbolos e simbolismos. Partiu do Monumento da Independência, e percorreu seus primeiros quilômetros na avenida de mesmo nome. Quem percorreu todo o trajeto acabou cruzando com palestinos, filipinos, cubanos, italianos que viajaram de longe pra participar do encontro. Mas esta era uma marcha africana, dos povos africanos, que levaram pras ruas de Bamako suas tradições, costumes e até sua fauna. Para reivindicar o comércio justo entre as nações, uma organização levou camelos pra passeata. Por que não?
« Não esperava tudo isso deste Fórum, já que este ano o encontro é policêntrico. Mas fico feliz com o resultado, e feliz que o Fórum esteja na África, porque assim nos sentimos em casa. Aqui podemos discutir com profundidade nossos verdadeiros problemas, que representam também os problemas do mundo », disse o marroquino Lefnatsa Abdellah, da Federação de Funcionários da Água Potável e da União Marroquina do Trabalho, que participa pela primeira vez de um Fórum Social Mundial.
Para o brasileiro José Reinaldo Carvalho, diretor do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz), que saiu de São Paulo pra vir a Bamako, a marcha que abriu o FSM mostrou que a luta contra a injustiça e a pobreza ganha corpo em todo o mundo. « E mostrou que essa luta, aqui, é encarada do ponto de vista político; que o combate à pobreza tem que ser um combate à política neoliberal. Não se trata, portanto, de uma luta de caridade, mas de uma luta política e social », afirma Carvalho.
E foi a política que marcou fortemente os dois únicos, e breves, discursos da cerimônia de abertura no Estádio Modibo Keitá – nenhuma fala do comitê organizador, nem do Conselho Internacional do FSM. Nas palavras pronunciadas em bambari de Fanta Diara, representante de uma organização de camponeses que trabalham na plantação e colheita do algodão, uma dura crítica à globalização que desvaloriza os produtos africanos e gera, como consequência do desemprego, processos complexos de imigração dos jovens do Mali. Nas de Ibrahim Souley, um dos coordenadores do Acampamento da Juventude, a indignação da geração que mais sofre com os golpes do neoliberalismo.
« Temos consciência que as políticas neoliberais estão na base dos nossos problemas, seja nos países do sul ou do norte. Por isso, camaradas, vos recebemos com saudações militantes e revolucionárias. Decidimos assumir nossa responsabilidade histórica pelo que acontece com a juventude africana. Uma juventude que não sonha é uma juventude que não tem futuro. Por isso, depois de Bamako precisaremos de ações concretas para fazer acontecer este mundo que buscamos », disse Souley.
O anseio por resultados concretos, capazes de fortalecer as lutas travadas em todos os campos acolhidos na bandeira do Fórum Social Mundial, é o que fica das conversas com os participantes do encontro no Mali. Para as 20 mulheres da Cooperativa Demeton de reciclagem, de Bamako, os resultados concretos podem ser formas de obter recursos para melhorar seu trabalho cotiano. «Coragem de fazer nós temos, mas não temos meios », conta Mariam Dembélé Sogodogo.
Para Nedwa Mint Moctar Nech, que veio da Mauritânia, onde dirige uma ONG que desenvolve políticas de economia solidária para a insersão de artesãos e pescadores no mercado de trabalho, os resultados concretos esperados do Fórum poderiam ser recomendações de como avançar praticamente no combate ao neoliberalismo. « Sabemos que o Fórum não tem resoluções finais, mas não podemos simplesmente vir pra cá e assistir as atividades. Temos que participar de debates que vão nos ajudar a enfrentar nossas lutas cotidianas, realizar trocas que vão trazer resultados, não dispersas esforços. Integrar de um lado para continuarmos o trabalho depois », explica Nedwa.
Para o sindicalista marroquino Lefnatsa Abdellah, um resultado concreto seria articular entidades para barrar o que ele definiu como a ofensiva capitalista às normas internacionais do trabalho. « A supressão dessas leis, uma conquista do sacrifício da classe trabalhadora ao longo dos séculos, é algo que vai representar um recuo para toda a humanidade », acredita.
Em buscas de respostas
Para responder de alguma forma a esta expectativa dos participantes, o último dia do Fórum de Bamako será reservado para que as organizações possam se reunir e definir formas de articulação – no ano passado, em Porto Alegre, o período da noite foi utilizado com este mesmo objetivo. A idéia, no entanto, desta vez, é ir além do Mural de Propostas elaborado em 2005, e que reuniu 352 sugestões de ação, como a aplicação da taxa Tobin, o estabelecimento de um sistema bimonetário entre os países da América do Sul, a promoção de campanhas globais contra os tratados de livre comércio e em defesa da soberania alimentar e a condenação de do presidente americano George W. Bush por crimes contra a humanidade.
“De 2001 a 2006, muita coisa mudou no Fórum Social Mundial. Mas vivemos uma espécie de armadilha neste sentido », admite Mamadou Goita, membro do Secretariado de Coordenação do FSM de Bamako. « Precisamos ir além do Mural de Propostas porque, para muitos participantes, o Fórum não pode continuar sendo um espaço somente de encontros e debates », afirma.
O que Goita faz questão de relembrar, no entanto, é que o Fórum Social Mundial pode não ter resoluções finais, mas já apresenta resultados concretos há alguns anos. « A questão da dívida dos países do terceiro mundo, por exemplo, está sendo discutida desta maneira porque o Fórum resolveu falar disso em nível mundial. O G8 era totalmente arrogante, e se hoje há alguma abertura é porque houve pressão do Fórum para que os povos pudessem se exprimir sobre estes assuntos. Hoje os políticos e parlamentares se interessam pelo Fórum porque este espaço permite que eles próprios encontrem alternativas. É importante, portanto, que as pessoas compreendam esses mecanismos e se engajem. Se a questão não é resolvida aqui, que este seja então o espaço de tomada de consciência », diz.
Tudo indica que será, com as mais de 700 atividades auto-gestionadas que têm início nesta sexta, propostas por organizações de mais de 40 países. Entre eles, Burkina Faso, Afeganistão, Índia, Uganda, Equador e Finlândia. Em sua edição de janeiro, o jornal Sanfin, do movimento operário e popular do Mali, afirma que o “Fórum Mundial na África destacará o que há de mais dinâmico, vital e progressista nas sociedades africanas”. Em seu editorial, conclui que “a expressão massiva e coordenada dos Fóruns de Bamako, de Caracas e Karachi constituirá uma força real em direção a uma reflexão sobre como conter, através de lutas convergentes, a militarização do mundo, a hegemonia política e econômica dos países ricos, e propor alternativas solidárias por um mundo comum”.
Política e logística
Para superar este desafio, o Fórum Social Mundial de Bamako terá que dar conta de questões políticas e logísticas. Politicamente, as entidades africanas à frente do Fórum em Bamako acirraram suas disputas internas nos últimos meses. De um lado, está o Fórum por um Outro Mali (Foram), dirigido por Aminata Dramane Traoré e Diaidié Danioko; do outro, a Coalizão de Alternativas Africanas para a Dívida e o Desenvolvimento, coordenada por Aminata Barry e Nouhoun Keita. Ambos estão representados no Secretariado de Coordenação, a instância mais “executiva” do FSM de Bamako.
Logisticamente, o grande problema é a falta de recursos. O orçamento inicial, previsto para 1,8 bilhões de FCFA (cerca de 8,3 milhões de reais), não deve ultrapassar 650 milhões (ou 3 milhões de reais) – mesmo com a ajuda considerável do governo venezuelano. O valor é tão baixo que corresponde à dívida que a Comissão Organizadora do último Fórum em Porto Alegre ainda corre pra pagar. O programa com as atividades do encontro também não foi impresso, e na manhã desta quinta, o credenciamento dos participantes no Palácio da Cultura levou horas.
Mas estes parecem problemas pequenos para o povo do Mali, que tanto se orgulha de receber um Fórum Mundial. Num chamamento de dois dias, 75 pessoas se voluntariaram para fazer a tradução do inglês e do francês para as demais línguas nacionais. A Rádio Kayira, uma das mais ouvidas pela população, vai transferir temporariamente sua sede e funcionar 24 horas por dia no Palácio do Congresso, onde acontece grande parte das atividades do FSM. No Acampamento da Juventude, a Be Fo FM trará debates e tribunas livres organizadas pelos jovens.
“O FSM acontecer aqui é uma vitória, porque as condições são adversas, porque o Fórum exige uma logística que é muito consumidora de energia. Neste sentido, os africanos estão se superando. Em qualquer lugar do mundo, para se organizar uma reunião como essa, é preciso um staff gigantesco. Aqui as pessoas fazem tudo na base da consciência. Mobilizam, têm disposição pra resolver os problemas. Há uma série de limitações, claro. Mas é o risco do novo. E o Fórum Social Mundial é isso: coragem para ir adiante do que já está construído », analisa a brasileira Moema Miranda, do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), membro do Conselho Internacional do Fórum.
« Do ponto de vista político, é um processo novo também. Este é um Fórum em um continente, e não em um país. É um processo que está sendo apropriado pela luta de emancipação que nasceu com os processos de descolonização. Quando os colonizadores saíram pela porta, entraram pela janela. Ou seja, o que vigora aqui é a lógica da recolonização travestida. Portanto, o desafio da reconstrução da unidade panafricana, cuja diversidade e pluralidade pode superar a nossa, na América Latina, é muito maior. O que o capitalismo fez aqui é tão absurdo que o que está acontecendo neste Fórum só mostra a força dos povos africanos”, acredita Moema.
Se Bamako responder às expectativas e for tomado como porta de entrada para o Fórum Social Mundial 2007, que acontece em Nairobi, capital do Quênia, terá ao menos um concreto e fundamental resultado: o fortalecimento do movimento altermundista em território africano.
Fonte: Agência Carta Maior
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