Por Artur Henrique
Mensagens políticas sobre as lutas e conquistas dos trabalhadores e reflexões sobre as permanentes disputas entre capital e trabalho são fundamentais nas comemorações de 1º de maio. Mas, o Dia Internacional do Trabalhador é também dia de festa e os shows e eventos culturais são tão importantes quanto as mensagens políticas. Afinal, lazer, cultura e informação, direitos fundamentais dos trabalhadores, ainda são privilégios de poucos.
“A CUT priorizou as mensagens políticas durante alguns anos e isso foi essencial para politizar, conscientizar o trabalhador, mostrar que os riscos de retrocesso, de perda de direitos adquiridos são enormes e é preciso lutar coletivamente para garantir as conquistas e ampliar os benefícios” |
A CUT priorizou as mensagens políticas durante alguns anos e isso foi essencial para politizar, conscientizar o trabalhador, mostrar que os riscos de retrocesso, de perda de direitos adquiridos são enormes e é preciso lutar coletivamente para garantir as conquistas e ampliar os benefícios. Vivíamos períodos de crises econômicas consecutivas, ondas de desemprego, de pacotes econômicos que atingiam especialmente o bolso dos trabalhadores.
Mensagem política
Neste período conturbado, mesmo sem shows musicais, as comemorações da CUT reuniam milhares de trabalhadores ávidos por informações. A mensagem política era indispensável para a organização da classe trabalhadora que precisava participar ativamente da luta diária pela manutenção do emprego, por melhores condições de salário e renda. Conseguimos conscientizar os trabalhadores de que sem ações coletivas, amparadas por sindicatos fortes, representativos, não seria possível mudar nada. Muito pelo contrário, os riscos de retrocessos, perda de emprego e de direitos adquiridos rondavam os locais de trabalho.
Nos últimos 10 anos, a situação do país mudou e a pauta dos trabalhadores deixou de ser apenas a luta por manutenção do emprego. Com a economia brasileira mais forte – menos atrelada às crises financeiras internacionais – e os índices de emprego batendo recordes, a luta dos trabalhadores passou a ser a qualidade do emprego, a ampliação dos benefícios, das condições de trabalho e renda.
A decisão da CUT de aliar as mensagens políticas a outras atividades no 1º de maio coincide com esse período. Optamos por comemorações temáticas, com discussões sobre a situação dos trabalhadores em vários continentes e, também, com eventos culturais, feiras gastronômicas como a que fizemos este ano, no Vale do Anhangabaú, onde mais de 120 mil pessoas foram ouvir os discursos, as músicas e também conhecer a culinária de várias regiões brasileiras.
Diversidade no Brasil
Em São Paulo, o 1º de Maio da CUT teve como tema ‘‘Diversidade no Brasil e no mundo: Um olhar de cinco jeitos’’. Queríamos que os
“Optamos por comemorações temáticas, com discussões sobre a situação dos trabalhadores em vários continentes e, também, com eventos culturais” |
trabalhadores da capital paulista conhecessem e valorizassem a cultura e a história das cinco regiões do País. E milhares de pessoas que passaram no centro de São Paulo nos dias 30 de abril e 1º de maio assistiram a espetáculos de dança na fita, bumba meu boi e ciranda, e shows com artistas populares. Além disso, puderam comprar a preços acessíveis comidas típicas de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia e Pará.
A ousadia e tradição de luta da nossa Central, evidentemente, também marcaram presença no Dia do Trabalhador e foram muito bem aceitas pela população em todo o país – só na capital paulista foram mais de 1,5 milhão de pessoas, segundo a Polícia Militar – que participou das comemorações organizadas pela CUT.
Plebiscito
O 1º de maio deste ano também foi dia de luta para a CUT, especialmente a luta contra o imposto sindical que mantém sindicatos fantasmas, de gaveta e impede a liberdade e a democracia nas entidades.
Instalamos urnas em todas as capitais e grandes cidades brasileiras para que os trabalhadores participassem do Plebiscito Nacional sobre o fim do Imposto Sindical. Nossos dirigentes conversaram com os trabalhadores sobre a atual estrutura sindical brasileira, explicaram que a CUT decidiu fazer o Plebiscito, que vai até o dia 15 de junho, porque quer que o Brasil tenha, finalmente, liberdade e autonomia sindical, que o fim do imposto é fundamental para que o trabalhador tenha o direito de decidir a que sindicato quer se filiar e quanto quer pagar para garantir a sustentação financeira da sua entidade. E, com muita conversa e conscientização, conseguimos que a maioria votasse pelo fim do imposto. Mostramos que o fim do imposto fortalece a unidade, fruto da decisão dos trabalhadores e que, os que defendem a unicidade dizendo que a gente defende pulverização, na verdade, estão contribuindo para a fragmentação. O ritmo de criação de sindicatos mostra que a unicidade é a divisão dos sindicatos menores.
É por isso que a CUT defende a substituição do imposto por uma contribuição negocial – da negociação coletiva – aprovada em assembleia amplamente divulgada, da qual deve participar toda a base, independentemente do trabalhador ser ou não filiado ao sindicato.
Grande Campanha
O Plebiscito é a primeira fase de uma grande campanha por liberdade e autonomia sindicais que faremos até agosto do ano que vem, quando nossa Central completa 30 anos. Na primeira fase decidimos ouvir os trabalhadores sobre o imposto sindical. Na segunda fase, que iniciaremos em julho, durante o Congresso Nacional da CUT (CONCUT), vamos andar pelo país todo com um abaixo assinado pedindo a ratificação da Convenção 87, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Queremos entregar milhares de assinaturas para o Executivo e para o Legislativo exigindo a ratificação desta convenção que trata justamente de liberdade e autonomia sindicais.
Nosso Primeiro de Maio também foi dia de alertar os trabalhadores sobre as lutas que temos de enfrentar este ano. Entre elas, a luta contra o Projeto de Lei 4.330, de autoria do deputado Sandro Mabel (PMDB-GO), piorado pelo relator Roberto Santiago (PSD-SP), que amplia a terceirização que precariza o trabalho. Isso sem contar a luta pelas 40 horas semanais sem redução de salário, fim do fator previdenciário, isenção de imposto de renda na PLR, enfim, a pauta dos trabalhadores que já entregamos duas vezes para a presidenta Dilma Rousseff, mas que, até agora, não conseguimos avanços.
Reconhecemos que os avanços nos últimos anos foram significativos e o balanço é positivo. Não tem como comparar o que vivemos nos últimos nove anos com a era FHC/PSDB. Isso, no entanto, não quer dizer que a luta de classes acabou. Muito pelo contrário, o conflito de interesses entre o capital e o trabalho nunca deixará de existir. Hoje, por exemplo, não estamos brigando por mais empregos e, sim, por trabalho decente, pela qualidade dos empregos criados. E eles, os empresários, brigam pela flexibilização da legislação trabalhista.
Artur Henrique é presidente Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT)
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://carosamigos.terra.com.br/index2/index.php/artigos-e-debates/2862-as-prioridades-da-cut-no-dia-do-trabalhador