A armadilha do BC
Com a colaboração dos comentaristas do meu Blog (www.luisnassif.com.br), vamos entender um pouco melhor a questão das “operações compromissadas” do Banco Central com o mercado.
Como se recorda, são operações em que o BC vende títulos com promessa de recompra a curto prazo. Mesmo com liquidez ampla (isto é, ampla capacidade do investidor resgatar seu papel) e segurança total, o BC paga as mais altas taxas de juros reais do mundo.
Além disso, injetou enormes quantias de dinheiro no mercado, a fim de melhorar a situação do crédito. Na outra ponta, em vez de utilizar os lucros que teve com a apreciação do real para reduzir a dívida, aumentou o volume de operações compromissadas.
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O comentarista Morais lembrou que o Brasil é um caso raro em que as operações de mercado aberto, instrumento de controle fino da liquidez diária se transformou em parcela relevante da dívida pública, sendo grande até quando é medida em termos de PIB.
Em qualquer país civilizado, negociam-se volumes pequenos de títulos públicos no mercado, visando controlar o maior ou menor volume de dinheiro em circulação. No Brasil, o mercado aberto tornou-se um sorvedouro de recursos do Tesouro.
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No ano 2000, o então presidente do Banco Central, Armínio Fraga, anotou corretamente que o poder dado ao BC para emitir títulos e criar dívida pública era uma excrescência. E incluiu uma cláusula na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) determinando que apenas o Tesouro Nacional fosse autorizado a emitir títulos.
Em 2002, ano de eleições, o mercado passou a chantagear as autoridades monetárias, em cima da rolagem da dívida pública. Quando um papel chega no prazo de vencimento, o BC (ou o Tesouro) trocam por novo papel. A isto se chama “rolagem” da dívida. O mercado passou a recusar os papéis. O Tesouro não tinha flexibilidade nem para os prazos nem para as taxas de juros.
A saída encontrada pelo BC foi criar uma gambiarra para contornar a proibição de emitir papéis. E a forma encontrada foram as operações compromissadas. Pegava títulos em carteira e vendia com prazo de recompra. Foi um gesto de desespero, em função da paralisação da rolagem da dívida até setembro.
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No início, tais operações seguiam o perfil de prazo do open market. Lembra o comentarista que rapidamente chegaram aos R$ 80 bilhões. E aí o BC se enredou na sua própria armadilha.
Em pouco tempo os prazos foram dilatados. Em vez de prazos curtos, operações compromissadas de mais de três meses até um ano. “Nunca mais o BC se livrou do super-open market, que se transformou em mais uma forma “normal” do Estado se financiar e de sustentar o sistema financeiro, viabilizando a introdução de novas variedades de modismos como o câmbio flutuante e a meta de inflação”, diz o comentarista.
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Quando o BC inventou os “swaps reversos” (que dava lucro ao mercado quando o real se valorizava) as compromissadas explodiram de novo, servindo, em parte, como lastro desses swaps. Houve uma redução do volume quando da bem vinda desvalorização do Real, mas agora volta de novo a explodir.
Por Luis Nassif.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.luisnassif.com.br.
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18/06/2009 – 11:24
Ata COPOM: uma primeira leitura.
Foi divulgado na manhã de hoje a ata do COPOM da sua última reunião que resolveu, por um placar de 6 a 2, pelo corte de mais 100 pontos base na Selic fazendo a taxa básica brasileira estrear no terreno do um dígito, em 9,25. A ata, como um todo, tem uma leitura extremamente benigna quando se trata da evolução da inflação.
Entre os itens 18 e 29 a Ata discorre sobre a Implementação da Política Monetária e aponta ali os principais tópicos relevantes a tomada de decisão por parte do colegiado. Logo de início os diretores do BC ponderam sobre o nível de atividade doméstica, tanto interna quanto externa. Em suas palavras:
“O ritmo de expansão da demanda arrefeceu consideravelmente desde o terceiro trimestre de 2008, em parte em reação ao substancial e generalizado desaquecimento da atividade em outras economias, avançadas e emergentes. (item 18)”.
Ao inaugurar suas ponderações com este trecho, o BC deixa claro que percebe, e vê como relevante, no que tange a política de metas de inflação, os efeitos persistentes do desaquecimento da demanda em escala global. As implicações deste estado da economia ficam mais evidentes em outro item da ata.
“O Comitê entende que o desaquecimento da demanda, motivado pelo aperto das condições financeiras e pela deterioração da confiança dos agentes, ainda que nos dois casos se observe melhora na margem, bem como pela contração da economia global, criou importante margem de ociosidade dos fatores de produção, que não deve ser eliminada rapidamente em um cenário de recuperação gradual da atividade econômica. (item 25)”.
A redução da atividade gerou capacidade ociosa, o que pode, segundo sua leitura, proporcionar crescimento sem um necessária elevação na inflação no médio prazo. A ata segue no mesmo tom e deixa claro a leitura do BC sobre a evolução da inflação.
“O Copom avalia que, diante dos sinais de arrefecimento do ritmo de atividade econômica, no que se refere, por exemplo, aos indicadores de produção industrial, ao mercado de trabalho e às taxas de utilização da capacidade na indústria, bem como à confiança de empresários e consumidores, e ao comportamento das expectativas de inflação para horizontes relevantes, continuaram se consolidando as perspectivas de concretização de um cenário inflacionário benigno, no qual o IPCA voltaria a evoluir de forma consistente com a trajetória das metas. (item 24)”.
Mais direto impossível. No entanto, a ata aponta – como é de praxe – que a política monetária tem seu efeito defasado no tempo, e que não se deve ter em mente apenas o último corte, mas sim o ciclo inteiro de desaperto monetário. Este foi o motivo do placar rachado entre a diretoria do BC.
“O Comitê avalia que decisões sobre a evolução da taxa básica de juros têm que levar em conta a magnitude do movimento total realizado desde janeiro, cujos impactos sobre diversos indicadores econômicos ficarão evidentes ao longo do tempo. Sendo assim, alguns diretores consideraram que seria apropriado, nestas circunstâncias, reduzir imediatamente o ritmo de flexibilização monetária, implementando de forma mais suave a parte remanescente do processo de ajuste. Contudo, a maioria do Copom, avaliando as projeções de inflação, que já incorporam a magnitude do movimento realizado desde janeiro, optou, neste momento, por manter o ritmo de ajuste. (item 26)”.
Porém o colegiado do COPOM aponta com unanimidade para a continuidade do movimento de corte na taxa básica, levando em conta – é claro – a evolução futura dos agregados econômicos e, principalmente, a inflação.
“Note-se, por outro lado, que na reunião houve convergência entre os membros do Comitê quanto às estimativas, tendo em vista as informações até aqui disponíveis, do espaço existente para distensão residual, que depende do cenário prospectivo para a inflação frente à trajetória das metas e do balanço dos riscos associado a este cenário. (item 26)”.
O BC faz uma ressalva interessante, e que deve estar em mente daqui para frente quando se pensa a evolução da Selic. Após esse último corte a taxa básica está em um dígito. Os efeitos desta nova realidade ainda são uma novidade. Quais seriam os efeitos sobre o consumo? Sobre o Investimento? Sobre a poupança? Por isso mesmo o BC aponta isto em ata, para avisar que estará atento a reação da economia brasileira levando em conta também este fator.
“O Copom entende, também, que a preservação de perspectivas inflacionárias benignas irá requerer que o comportamento do sistema financeiro e da economia sob um novo patamar de taxas de juros seja cuidadosamente monitorado ao longo do tempo. (item 26)”.
No conjunto a ata foi positiva, apontando uma trajetória adequada da inflação para a meta e, adicionalmente, reiterando a intenção do BC em manter o ciclo de corte na taxa de juros por mais algum tempo.
Por André Perfeito.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://colunistas.ig.com.br/economiaemacao/2009/06/18.
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Fabricantes de máquinas terão empréstimos com juros subsidiados
Medida deve integrar pacote que o governo pretende lançar nos próximos dias para a indústria de bens de capital
O pacote que o governo pretende lançar nos próximos dias para a indústria de bens de capital prevê a concessão temporária de financiamentos do BNDES com juros subsidiados, segundo fontes envolvidas nas discussões. A proposta – que ainda está sendo avaliada – inclui duas linhas diferentes, a juros fixos, uma delas com custo total abaixo da taxa de referência do banco, a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje em 6,25% ao ano. Este sistema já é utilizado hoje em poucas linhas, a maior parte com forte viés social.
O BNDES baixou recentemente os juros para a produção de máquinas e equipamentos. Hoje, o patamar é de TJLP (6,25% ao ano) + 0,9% + 0,5% do agente repassador + spread cobrado pelo banco repassador. Segundo cálculos da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), o custo total dos financiamentos oscila entre 9,5% e 12% ao ano, dependendo da empresa, do investimento e das condições bancárias.
Para o BNDES reduzir ainda mais sua taxa base, o banco propôs um subsídio, com ajuda do Tesouro. Ou seja, o Tesouro assumiria uma parte da remuneração ao BNDES, a exemplo do que já é feito com linhas de financiamento agrícola, com a linha de crédito do Pronaf. A nova linha já teria, inclusive, um nome: “Pró-Investimentos”.
Seria um incentivo de emergência ao setor, com vigência de seis meses. O banco acredita que, com isso, poderia dar um fôlego à indústria de máquinas e equipamentos, fundamental para a retomada do crescimento industrial. O setor teria fôlego para manter investimentos até o início de 2010, para quando é esperada uma retomada mais consistente da economia. Desde o agravamento da crise, em setembro, já foram demitidos 18 mil trabalhadores da indústria de bens de capital e a estimativa é que outros 35 mil sejam afastados este ano, caso o setor não se recupere.
As medidas estariam sendo preparadas para apresentação junto com um balanço da Política de Desenvolvimento Produtivo, a nova política industrial do governo, lançada em maio do ano passado. De acordo com os estudos técnicos do BNDES, as medidas para o setor podem contribuir para elevar em 10% as vendas, o que já seria considerado um resultado que justificaria o custo fiscal do programa.
O banco financia em torno de R$ 26 bilhões ao ano na produção de bens de capital pelo Finame (linha de crédito específica para o setor). Esse total inclui os equipamentos de transporte. Sem esse segmento, o programa representa em torno de R$ 10 bilhões ao ano. É um valor substancial para a remuneração do banco. Por isso, a redução da taxa terá de ser subsidiada por meio da equalização do Tesouro. De acordo com o acompanhamento do banco, a produção de bens de capital caiu em média, nos primeiros cinco meses do ano, 20% em relação ao mesmo período do ano passado.
A direção da Abimaq comenta que em alguns setores, como o de máquinas e ferramentas, a perda foi bem maior, em torno de 50%. “Sem medidas de incentivo algumas indústria quebrarão antes de 2010”, diz Mario Bernardini, assessor da presidência da Abimaq.
Ele confirma que o BNDES está preparando um financiamento especial para o setor. E adianta que a proposta negociada com o banco inclui o alongamento do prazo para dez anos para todos os projetos (hoje o prazo pode chegar até 10 anos, sob critério do banco); aumento do prazo de carência de seis meses para até dois anos; e taxas especiais de juros.
“São idéias que estão na mesa. Mas, o programa não será só isso. De nada adianta facilitar condições de crédito para a indústria produtora se não houver demanda. Por isso o governo está trabalhando também com a possibilidade de concessão de vantagens tributárias para os clientes, como a recuperação imediata do PIS/Cofins e ICMS”, diz Bernardini.
Hoje, as empresas esperam 12 meses pela recuperação do PIS/Cofins na aquisição de máquinas e outros 48 meses pela recuperação de ICMS.
A indústria negocia principalmente com o governo de São Paulo, que responde por 60% da produção, a recuperação imediata do ICMS. “É vantagem para o comprador, mas não é desoneração”, diz Bernardini.
Por Irany Tereza.
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Governo prepara incentivos para indústria de máquinas
RIO – O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, prevê que o conjunto de medidas de incentivo ao setor de bens de capital (máquinas e equipamentos) saia no início da semana que vem. Ele ressalvou que as medidas ainda estão em fase de formatação e sendo discutidas com o Ministério da Fazenda. De acordo com Coutinho, uma desoneração do ICMS “é difícil, porque com os Estados é um processo mais complicado”. No entanto, ele também observou que existe sensibilidade por parte dos Estados para “um tratamento mais leve do ICMS sobre bens de capital”.
O presidente do BNDES acredita que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) este ano fique perto de 1% “ou um pouquinho abaixo, mas no ano que vem certamente vamos crescer 4%”. Ele defendeu a continuidade de estímulos e políticas para consolidar a recuperação da economia brasileira. Ele afirmou ainda que o setor de bens de capital está em um vale, mas mostra boas perspectivas para 2010. Coutinho prevê que no último trimestre de 2009 a utilização da capacidade instalada da indústria de transformação deve chegar a 81%. Ele acredita também que o cenário vai melhorar no ano que vem, levando a uma retomada dos investimentos.
Coutinho afirmou que há expansão de investimentos em setores como petróleo e gás e energia. Para ele, alguns fabricantes de bens de capital deveriam converter parte de sua produção para esses setores. O executivo vê boas perspectivas também para os bens de capital para agricultura. O secretário de planejamento do Rio de Janeiro, Sérgio Ruy Barbosa, afirmou que o Rio de Janeiro já desonerou o ICMS sobre bens de capital no fim do ano passado e que os Estados de São Paulo e Minas Gerais também já tomaram providências em relação a isso. Coutinho e Barbosa participam do 38º Forum Nacional dos Secretários Estaduais de Planejamento, no Rio.
Por ADRIANA CHIARINI – Agencia Estado.
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BNDES sugere desenvolver agências de fomento regionais
RIO – O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, defendeu hoje que os Estados criem com o governo federal um programa de desenvolvimento de agências de fomento. Ele lembrou que vários bancos estaduais foram fechados ou privatizados nos anos 90. Segundo Coutinho, a falta de capilaridade do BNDES, com sede no Rio de Janeiro, cria a necessidade de o banco trabalhar em parceria com instituições financeiras públicas e privadas e também com agências de fomento. “Estamos abertos a que o BNDES possa participar do capital de agências (de fomento) até para governança e gestão”, afirmou.
As parcerias com bancos regionais e agências de fomento podem permitir o repasse dos recursos do BNDES para arranjos produtivos locais, microempresas em regiões afastadas dos grandes centros urbanos, acredita. Coutinho também disse que o banco tem intenção de apoiar projetos de planejamento dos Estados, buscando integração com os grandes projetos regionais ou nacionais.
Falando sobre a crise econômica global atual, Coutinho disse que o atual cenário só é comparável à grande depressão dos anos 1930. “Apesar disso, pela primeira vez a economia brasileira mostra capacidade de passar pela crise e superá-la”, afirmou. “Agora é possível olhar o futuro e enxergar uma perspectiva de futuro.” Nesse contexto de superação da crise, o Brasil deve passar a “pensar no longo prazo”; de acordo com ele, e o planejamento é “imperioso.”
Por ADRIANA CHIARINI – Agencia Estado.
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O bode na sala é o spread
ENTREVISTA- Guido Mantega: ministro da Fazenda
A queda de braço entre o governo e os bancos privados por causa do spread (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) esquentou. Depois de muita pressão, as instituições financeiras passaram a dizer que desejam baixar o spread, mas não conseguem em razão do peso elevado dos impostos e do depósito compulsório em seus custos. Nesta entrevista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, contesta esse argumento sem fazer rodeios. “Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório”, afirma.
Bem-humorado com o desempenho acima da média do Brasil na crise econômica global, Mantega só mostra desconforto quando fala do câmbio e das mudanças anunciadas para a caderneta de poupança. No primeiro caso, afirma que está preocupado mas, no momento, não há nada a fazer. Sobre a poupança, deu a entender que o anúncio de mudanças nas regras é complicado, assusta as pessoas e trouxe algum desconforto ao governo. A seguir, os principais trechos da entrevista.
A última ata do Copom (Conselho de Política Monetária) diz que o espaço para redução dos juros básicos da economia ficou menor…
Com uma taxa de 9,25%, é óbvio que ficou menor. Uma das funções do Banco Central é mostrar que está sempre atento à inflação. O BC não pode dizer que vai baixar os juros, mas o fato é que está baixando.
Essa redução poderia ser mais rápida?
O custo financeiro no Brasil continua muito alto. É uma distorção em relação ao que acontece em outros países. A grande anormalidade é que os spreads (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) são muito altos no País. O consumidor brasileiro paga juros absurdos. Mas estamos caminhando. A vantagem é que antes havia três bodes na sala: tiramos dois, mas sobrou um.
O senhor está falando do spread?
O bode na sala é o spread. As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam. Fora os períodos de crise, quando ela aumenta mesmo, nossa inadimplência é normal. Mas ela é superestimada pelas instituições financeiras. Existe também um pouco de concentração no setor financeiro. Antes da crise, o spread era muito menor. Mas os bancos ficaram com medo e chutaram para cima. No Brasil, como já há um exagero, ficou um exagero e meio.
Os banqueiros dizem que o spread é alto por causa dos impostos que pagam e do compulsório que são obrigados a recolher. O governo pensa mexer nisso?
Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório. O compulsório já diminuiu bastante nesta crise, nós liberamos mais de R$ 100 bilhões. Aliás, diga-se de passagem, na composição do spread 36% é a possibilidade de inadimplência. Evidentemente, isso está superestimado. Eles costumam prever uma inadimplência maior e com isso cobrar uma taxa maior. Outra é a margem de lucro. Os bancos brasileiros estão bem acostumados a ter margem de rentabilidade elevada. Não tenho nada contra isso, mas acho que aí tem espaço para diminuir.
Na sua opinião, quanto seria possível diminuir?
Da composição do spread, a cunha fiscal dá 7% a 8%, o compulsório não dá 3%, 36% é inadimplência e, se não me engano, 24% é custo administrativo. No custo administrativo tem a margem do banco. Então, quase 60% é risco de inadimplemento e mais custo administrativo.
E por que os bancos não baixam o spread?
É preciso ter concorrência. Hoje, mais de 70% do crédito é atendido por sete ou oito grandes bancos. O governo precisa criar condições para que haja concorrência. A queda da Selic (a taxa básica de juros) ajuda. A ação dos bancos públicos também. Eles estão liderando o processo de aumento do crédito e de redução de juros. Acho que está surtindo efeito. Pela primeira vez, percebo que os concorrentes (os bancos privados) estão sentindo essa agressividade que não existia antes.
Além de mobilizar os bancos públicos, que mais o governo pode fazer para aumentar a concorrência no mercado financeiro?
Pode fortalecer os bancos pequenos e médios. Já fizemos isso. Não deixamos que os bancos pequenos saíssem do mercado. Agimos para permitir aos bancos públicos adquirir instituições financeiras sem maiores problemas e direcionamos o compulsório para a compra de carteiras de bancos menores. Nós sabemos que os bancos menores sofreram saques, a saída de fundos, alguns bancos tiveram a reputação afetada por problemas de derivativos… Tudo isso foi superado. E agora vamos fazer o fundo garantidor de crédito para a pequena e média empresa.
O governo desistiu de mexer na fórmula da poupança?
Nós buscamos fazer a menor mudança possível. É que as coisas são complicadas. Vocês já viram a fórmula da TR (Taxa Referencial de Juros)? É complicadíssima. Só um grande especialista consegue entender. Você não consegue comunicar, transmitir isso à população. Aí aparece o uso político com gente querendo desinformar (a oposição disse que o governo quer acabar com a caderneta de poupança). Então, escolhemos o caminho da menor mudança possível.
É por isso que o governo anunciou e depois não falou mais no assunto?
Foi anunciado e foi dito que a medida de aumento de tributação é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso. O projeto está pronto, não tem nenhum segredo. Cria o Imposto de Renda, tem lá um desconto e tal. A tributação é pequena. E o contribuinte vai declarar em 2010 e pagar em 2011. A poupança vai continuar sendo uma das melhores opções de investimento. Cerca de 99% das cadernetas têm até 50 mil de aplicação e aí não muda nada.
Já está havendo alguma migração dos fundos de investimento para a poupança. Não é perigoso para o financiamento da dívida pública?
Não preocupa porque não está havendo fuga do Tesouro (refere-se aos títulos públicos).
O câmbio preocupa o senhor?
Sim, o câmbio preocupa. Do jeito que está, diminui a competitividade de nossas exportações e pode trazer um fluxo de importações indesejado. Essa parte é objeto de observação. Se for necessário, faremos medidas para atenuar. Agora, o câmbio flutuante é um regime positivo. Tem hora que ele flutua para um lado, tem hora que flutua para outro. O que não pode é flutuar só para um lado. Hoje, o excesso de valorização prejudica o País. E aí começa a preocupação. Mas estamos comprando mais reservas. O Brasil se deu muito bem comprando reservas. Foi uma estratégia que introduzimos no governo a partir de 2006 quando me tornei ministro da Fazenda, foi uma das primeiras questões que levei ao presidente Lula e ao Henrique Meirelles (presidente do BC).
Qual seria uma taxa ideal hoje?
Não tem taxa de equilíbrio. A taxa de equilíbrio é aquela que é resultado das transações do mercado. O governo não trabalha com taxa de equilíbrio e não tem meta de câmbio.
Os juros altos não contribuem para encher o mercado brasileiro de dólares?
Acho que potencialmente um diferencial de taxas de juros poderá no futuro fazer isso. No momento, não acho que cause esse impacto. Mas vamos separar as coisas. Existe uma valorização do real produzida diretamente pela desvalorização do dólar. Não há o que fazer. É o Barack Obama (presidente dos EUA) que precisa agir. Uma valorização um pouco maior do real em relação a outras moedas se deve também a virtudes da economia brasileira. Nosso mercado de capitais é mais sólido, tem regras mais claras e tem mais liquidez do que o mercado de capitais indiano, chinês e russo. Isso provoca entrada maior de capitais no Brasil. Isso também valoriza o câmbio.
A arrecadação caiu sete meses seguidos e os gastos correntes continuam subindo. Como fechar essa conta? O governo vai cortar gastos?
A queda da arrecadação era esperada porque está diretamente relacionada com o nível de atividade econômica. E nós tivemos uma retração. Além disso, fizemos desonerações (tributárias). Elas têm um impacto. Vamos fazer um superávit menor, mas calibramos isso de modo que a nossa dívida não cresça. A nossa dívida pública está estabilizada. Ela estava em 36% (do PIB) e foi para 39,8% porque tiramos a Petrobrás do cálculo. No ano que vem será menor. Quando a economia retomar, vamos voltar a ter arrecadação. Temos uma situação confortável que nos permite esse período em que estamos gastando mais. O gasto do governo é bom para a economia, ativa a economia.Estamos mantendo os investimentos, mantivemos todos os programas sociais e as despesas do governo. Então vai haver um certo desequilíbrio este ano que poderá até nos levar a cortar mais gastos correntes. Foi o que o Paulo Bernardo (ministro do Planejamento) falou. Se continuar havendo frustração de arrecadação, poderemos vir a cortar gastos correntes dos ministérios.
Que tipos de gastos podem ser cortados?
Gastos correntes dos ministérios. Não vamos mexer no Bolsa-Família, não mexeremos nos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas os demais gastos podem ser adiados. Nós já fizemos um contingenciamento e talvez tenhamos de fazer alguma restrição a mais para equacionar essa situação.
O governo estuda desonerar a folha de pagamentos?
São medidas clássicas, que sempre estarão em estudo. Porque o Brasil tem um custo de folha mais elevado que outros países, então é algo que sempre está na nossa alça de mira. No projeto de reforma tributária, está prevista a redução de 1% da contribuição previdenciária por ano, até chegar a diminuir para 6%. Poderemos antecipar alguma coisa, em vista do cenário que temos, mas aí temos de olhar o custo. Cada 1% de redução custa R$ 3,8 bilhões por ano. É bastante, mas não estamos descartando nada.
E os outros setores? Todos estão pedindo…
Todos os setores empresariais sempre pediram. Mas o governo não se influencia pela pressão de setores. Quem teve a ideia de fazer a redução do IPI fomos nós, não foram eles. Ontem (quarta-feira) fizemos uma avaliação com o Jackson Schneider (presidente da Anfavea) e ele acha que, graças a esse programa de desoneração de IPI, eles venderam 250 mil carros a mais. Nós perdemos IPI, mas em compensação pagamos menos seguro desemprego, aqueles funcionários que continuaram ganhando salário consumiram, pagaram outro tipo de tributo, houve compensações. Se você deixa a economia cair, se deixa o nível de atividade desacelerar, a arrecadação vai cair mais ainda.
O aumento da alíquota sobre a importação do aço não vai contra o próprio discurso do presidente Lula, de que num momento como este não deveria haver medidas protecionistas?
Com a crise, a indústria do aço no mundo caiu 50% e agora tem gente de outros países querendo exportar aço até a preço de custo. Nós observamos isso criteriosamente, esperamos a indústria nacional baixar o preço, eu quis ver as faturas e aí nós subimos 12% (o imposto de importação). É uma medida que a OMC (Organização Mundial do Comércio) aceita e não dá para deixar nosso mercado ser invadido por exportações de baixo custo de outros países.
O senhor e o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, sempre foram associados a uma política chamada de desenvolvimentista, voltada para a produção. E isso entrou na agenda até dos liberais mais convictos…
Nós não somos estatistas. Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60, ou dos anos 70. Moderno, dinâmico. A gente só entra onde o setor privado precisa de um impulso. Depois, ótimo. O Estado não precisa ficar, a não ser em certos setores, que precisam ficar vigiados. O setor financeiro é um deles, porque é uma concessão. Foi no setor financeiro que os Estados Unidos comeram bola, cometeram erros que estão corrigindo hoje com essa regulamentação extremamente positiva, que já temos no Brasil. Por isso nosso sistema é mais sólido.
Qual o plano para todas essas participações em empresas em crise que o BNDES está comprando? É vender depois ou permanecer como acionista?
No passado o BNDES precisou ajudar na implementação de alguns setores, ele floresceu e aí vocês vende as ações (das empresas do setor). Aliás,o BNDES tem lucrado muito com aquilo que fez no passado, o que significa que fez só coisas positivas. Quando estava no BNDES, me lembro que o lucro em 2003 tinha sido R$ 1,4 bilhão. Em 2004, foi de R$ 3,3 bilhões e daí para a frente só tem crescido. Portanto, só faz coisas sólidas. Os bancos públicos vieram para ficar, são atores econômicos importantes hoje e trabalham com princípios de eficiência, responsabilidade e produtividade. São lucrativos, eu faço exigência de metas de produtividade. A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil são instrumentos de política econômica e dessa participação do Estado estimulando a infraestrutura. Nós estávamos defasados em infraestrutura e os investimentos não vinham espontaneamente do setor privado. O governo precisou dar um impulso. Mas nós não somos estatistas.
Quem é:
Guido Mantega
É ministro da Fazenda desde março de 2006, quando substituiu Antonio Palocci. Também foi ministro do Planejamento e presidente do BNDES. É formado em Economia pela Universidade de São Paulo.
PERFIL: “Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60 ou 70. Moderno, dinâmico”
JUROS: “As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam”
POUPANÇA: “Foi anunciado que a medida é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso”
Por David Friedlander e Leandro Modé.
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