Os resultados dos principais bancos privados e públicos, divulgados nas últimas semanas, mostraram lucros exorbitantes e que não condizem com a realidade sócio-econômica do Brasil. Mas a “festa” dos bancos está com os dias contados. Enquanto os bancos se esforçam para se fazer acreditar, afirmando de forma convicta que os balanços refletem a eficiência de suas organizações, a verdade está vindo à tona. Os lucros dos bancos são frutos do suor dos trabalhadores bancários e da exploração dos clientes proporcionada pelos empresários do sistema financeiro.
O ministro da fazenda, Guido Mantega, disse nesta terça (22), durante entrevista para a Radiobrás, que os bancos têm que abrir um pouco a mão. O governo afirma que já fez a sua parte para reduzir o spread bancário e que agora é a Febraban que tem que lucrar um pouco menos e reduzir o spread. Mantega já havia dito em entrevistas anteriores que defende a adoção de algumas medidas para aumentar a concorrência entre os bancos.
Desta vez, ele assegurou que o trabalhador vai poder transferir dinheiro da conta de onde recebe seu salário para outra, em banco de sua escolha, sem pagar CPMF ou tarifas bancárias. “Estamos dando ao trabalhador o direito de escolher o banco com que quer trabalhar”, afirmou. Muitas vezes as empresas negociam a folha de pagamento com o banco e têm alguma vantagem em troca. E aí fica o compromisso de que essa conta não pode sair de lá. Cria-se uma dificuldade, principalmente com tarifa elevada”, comentou o Mantega. “Queremos que os bancos corram atrás do cliente e não que o cliente fique pedindo favores aos bancos”.
Correndo atrás dos clientes?
A fala do ministro denota uma realidade do sistema financeiro brasileiro. No Brasil, os bancos falam e “quem tem juízo obedece”, ou seja, clientes e bancários se submetem. O sistema bancário é muito concentrado, poucos bancos concentram quase todo o capital. Com isso os bancos conseguem impor tarifas de serviços bancários imorais e praticar taxas elevadas de juros nos empréstimos. Segundo acompanhamento da Revista Pro Teste, entre abril de 2005 e fevereiro de 2006, as cestas de serviços dos bancos aumentaram, em média, 13%. Os serviços bancários deveriam, no máximo, ser reajustados de acordo com a inflação ou taxa Selic, porém o aumento dos serviços foi de, no mínimo, o dobro da inflação no período.
Atualmente quem corre atrás dos bancos são os clientes. Correm porque enfrentam, cobranças indevidas, movimentação de recursos sem aviso, alterações nas cestas de serviços e falta de segurança nas operações realizadas, além do aumento excessivo de tarifas bancárias.
Por outro lado, os bancários sofrem com metas abusivas impostas pelos banqueiros, têm a sua saúde afetada por doenças ocupacionais e pelo assédio moral praticado pelos bancos. Para medir o tamanho da pressão por resultados imposta aos trabalhadores, basta lembrar quantas vezes você já não se sentiu coagido a comprar um novo produto ou serviço do banco. Quando o banco abre mais contas, ou seja, tem melhores resultados, o “prêmio” para os bancários são as horas extras, o corte dos 15 minutos de ginástica laboral e os constrangimentos diante de metas que não podem ser alcançadas.
Olhando para o próprio umbigo
Anteontem (21), durante reunião entre o Comando Nacional dos Bancários e a Fenaban, os bancos disseram um sonoro não para todas as reivindicações dos bancários. O setor mais lucrativo do país negou a correção da inflação nos salários, o aumento real e a melhora da Participação nos Lucros e Resultados. Não deram ouvidos para solicitações como 13ª cesta-alimentação, 14º salário, horário de atendimento e a garantia de emprego.
“A expectativa era de que a Fenaban ao menos reajustasse com base na inflação e discutisse um índice de ganho real, entretanto, eles abriram a reunião propondo um acordo com validade de dois anos, mas sem reajuste algum agora”, conta Roberto Antônio Von Der Osten, presidente em exercício da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Estado do Paraná, FETEC-CUT-PR.
“Diante dos lucros fabulosos que os bancos conseguiram, não poderíamos ter uma expectativa diferente. Se há este lucro, as metas foram atingidas e a rentabilidade está sendo maximizada, esperávamos que pelo menos a inflação e um índice de ganho real fosse proposto como ponto de partida. Mas não foi isso que aconteceu. A Fenaban disse que não é possível atender nenhuma das nossas reivindicações e que com a inflação baixa não há necessidade de negociações anuais. Podemos negociar o período de duração do contrato, mas aquela não era uma conversa do bem. Eles não pretendem recompor as perdas salariais”, concluiu.
Contra o poder dos bancos
A maior arma nas mãos de clientes e bancários contra as arbitrariedades dos bancos é a informação e a mobilização. As ações do movimento sindical serão intensificadas depois da intransigência que o banqueiros demonstraram na última rodada de negociação. Os trabalhadores querem uma negociação justa, que beneficie não apenas os bancários, mas toda a população.
Para um bom atendimento nos bancos são necessárias contratações, ampliação do horário de atendimento com dois turnos de trabalho e boas condições de trabalho, com o fim da violência psicológica e da pressão desmedida por resultados. Estas são algumas das solicitações dos bancários.
O Banco Central possui um ranking de reclamações de clientes dos bancos. As principais queixas dos clientes estão relacionadas ao atendimento, fornecimento de informações e documentos, transparência nas relações contratuais e prazos não estabelecidos ou não cumpridos. Outra situação grave se refere à falta de informações básicas aos clientes.
A prepotência dos banqueiros é tanta que afirmavam que não poderiam se sujeitar ao Código de Defesa do Consumidor. No entendimento deles, eles não prestam aos consumidores um serviço mediante remuneração, apenas intermediam a circulação de moeda do país!
Uma nova rodada de negociação está prevista para o próximo dia 29, às 15h, em local a ser definido. Antes disso, os bancários vão promover diversos atos de protesto. O primeiro no dia 24, quinta-feira, em todo o país. E outros, até o Dia do Bancário (28 de agosto), pelo fim do assédio moral e das metas abusivas.
Patrícia Meyer – FETEC-CUT-PR.
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