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Democracia e simulacro

É possível dar um grande salto político e econômico no país. Mas o presidente Lula sabe que os votos que – ao que tudo sinaliza – o elegerão domingo (29) não constituem um cheque em branco.

Enfim, chegamos ao término da campanha – e esta é uma vitória do povo brasileiro. Todas as campanhas eleitorais são tumultuadas, porque se trata de uma disputa pelo poder. Esta talvez tenha sido a mais acirrada, por uma simples razão: o país já está amadurecido para o exercício de uma democracia real, em lugar do simulacro de sistema republicano que temos sofrido ao longo dos 117 anos que nos separam da queda dos Bragança.

Os homens de empresa – salvo alguns – começam a entender que, sem mercado consumidor interno amplo, que reduza a sua dependência dos mercados mundiais, e fortaleça sua capacidade competitiva, seus negócios encontram limites. A distribuição de parcela da renda nacional para os pobres gera mais renda para todos. É isso que se constata com a expansão dos negócios nas regiões mais deprimidas do País. Poucas dezenas de reais, entregues mensalmente às famílias mais pobres, geraram novo consumo, e, com ele, mais empregos, em ciclo virtuoso da economia. O segredo é simples, mas o egoísmo histórico das oligarquias, que contamina e infecciona a classe média emergente e desinformada, cega as pessoas.

Esse segredo simples salvou os Estados Unidos na década dos 30, graças aos sentimentos de solidariedade do assistente social Harry Hopkins, que convenceu Roosevelt a distribuir recursos aos necessitados, primeiro, no Estado de Nova York e, e seguida, depois de 1933, aos necessitados de todo o país. O egoísmo dos capitalistas durante a década dos 20 havia levado a economia norte-americana ao desastre; a solidariedade de um assistente social serviu para salvar a economia capitalista na década seguinte. Só mais tarde, Keynes daria uma teoria ao New Deal de Roosevelt com seu livro clássico sobre a moeda, o emprego e os juros, publicado em 1936.

Lula deve estar consciente disso, e, se quiser manter o seu lugar na História, não pode abandonar os sentimentos de solidariedade para com o conjunto da sociedade brasileira. É por isso que ele tem manifestado o propósito de descentralizar o poder político do Brasil, retirando-o das forças conservadoras de São Paulo. Convém entender que até mesmo os meios sindicais de São Paulo são conservadores. Aos líderes dos metalúrgicos e bancários (salvo alguns, mais lúcidos), cuja força de trabalho se concentra em São Paulo, não interessa a distribuição do desenvolvimento econômico ao resto do país. E interessa menos ainda aos escritórios dos banqueiros da Sé, da Avenida Paulista e da Faria Lima.

É possível dar um grande salto político e econômico no país. Mas o presidente sabe que os votos que – ao que tudo sinaliza – o elegerão domingo não constituem um cheque em branco. Ele irá agir naturalmente com cautela, examinando cuidadosamente o poder das forças sociais em tensão no cenário nacional, a fim de decidir com o bom senso exigido em qualquer empresa humana.

Em política, como dizia Tancredo Neves, só pode quem pode, e só pode o que pode. Entender quem dispõe de poder, e saber exatamente o limite da força de cada um dos grupos que constituem a sociedade, é tarefa para os homens de Estado.

Lula deverá negociar – e lhe convém que essa negociação se faça com a intermediação dos governadores eleitos – maioria no Parlamento, em torno de um programa que inclua as reformas política, tributária e administrativa possíveis, dentro das circunstâncias históricas nacionais. O fato é que não há mais tempo para continuar a sociedade brasileira dividida entre os que produzem e os que vivem da renda especulativa de seus haveres. Entre os que compram na Daslu e os que buscam as quinquilharias contrabandeadas da China. Entre os que gastam em um jantar com os amigos o salário mínimo de um ano, e os que não sabem como dar aos filhos o almoço de amanhã.

Por Mauro Santayana, que é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.

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Democracia e simulacro

É possível dar um grande salto político e econômico no país. Mas o presidente Lula sabe que os votos que – ao que tudo sinaliza – o elegerão domingo (29) não constituem um cheque em branco.
Enfim, chegamos ao término da campanha – e esta é uma vitória do povo brasileiro. Todas as campanhas eleitorais são tumultuadas, porque se trata de uma disputa pelo poder. Esta talvez tenha sido a mais acirrada, por uma simples razão: o país já está amadurecido para o exercício de uma democracia real, em lugar do simulacro de sistema republicano que temos sofrido ao longo dos 117 anos que nos separam da queda dos Bragança.
Os homens de empresa – salvo alguns – começam a entender que, sem mercado consumidor interno amplo, que reduza a sua dependência dos mercados mundiais, e fortaleça sua capacidade competitiva, seus negócios encontram limites. A distribuição de parcela da renda nacional para os pobres gera mais renda para todos. É isso que se constata com a expansão dos negócios nas regiões mais deprimidas do País. Poucas dezenas de reais, entregues mensalmente às famílias mais pobres, geraram novo consumo, e, com ele, mais empregos, em ciclo virtuoso da economia. O segredo é simples, mas o egoísmo histórico das oligarquias, que contamina e infecciona a classe média emergente e desinformada, cega as pessoas.
Esse segredo simples salvou os Estados Unidos na década dos 30, graças aos sentimentos de solidariedade do assistente social Harry Hopkins, que convenceu Roosevelt a distribuir recursos aos necessitados, primeiro, no Estado de Nova York e, e seguida, depois de 1933, aos necessitados de todo o país. O egoísmo dos capitalistas durante a década dos 20 havia levado a economia norte-americana ao desastre; a solidariedade de um assistente social serviu para salvar a economia capitalista na década seguinte. Só mais tarde, Keynes daria uma teoria ao New Deal de Roosevelt com seu livro clássico sobre a moeda, o emprego e os juros, publicado em 1936.
Lula deve estar consciente disso, e, se quiser manter o seu lugar na História, não pode abandonar os sentimentos de solidariedade para com o conjunto da sociedade brasileira. É por isso que ele tem manifestado o propósito de descentralizar o poder político do Brasil, retirando-o das forças conservadoras de São Paulo. Convém entender que até mesmo os meios sindicais de São Paulo são conservadores. Aos líderes dos metalúrgicos e bancários (salvo alguns, mais lúcidos), cuja força de trabalho se concentra em São Paulo, não interessa a distribuição do desenvolvimento econômico ao resto do país. E interessa menos ainda aos escritórios dos banqueiros da Sé, da Avenida Paulista e da Faria Lima.
É possível dar um grande salto político e econômico no país. Mas o presidente sabe que os votos que – ao que tudo sinaliza – o elegerão domingo não constituem um cheque em branco. Ele irá agir naturalmente com cautela, examinando cuidadosamente o poder das forças sociais em tensão no cenário nacional, a fim de decidir com o bom senso exigido em qualquer empresa humana.
Em política, como dizia Tancredo Neves, só pode quem pode, e só pode o que pode. Entender quem dispõe de poder, e saber exatamente o limite da força de cada um dos grupos que constituem a sociedade, é tarefa para os homens de Estado.
Lula deverá negociar – e lhe convém que essa negociação se faça com a intermediação dos governadores eleitos – maioria no Parlamento, em torno de um programa que inclua as reformas política, tributária e administrativa possíveis, dentro das circunstâncias históricas nacionais. O fato é que não há mais tempo para continuar a sociedade brasileira dividida entre os que produzem e os que vivem da renda especulativa de seus haveres. Entre os que compram na Daslu e os que buscam as quinquilharias contrabandeadas da China. Entre os que gastam em um jantar com os amigos o salário mínimo de um ano, e os que não sabem como dar aos filhos o almoço de amanhã.
Por Mauro Santayana, que é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.

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