por Roberto Rockmann e Sergio Lirio
Expansão da economia esbarra, sobretudo, na deficiência do setor elétrico
As feições do segundo mandato de Lula só serão reveladas por completo em fevereiro, após as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado e da nomeação do novo ministério. Mas o desejo do presidente e do staff que o cerca no Palácio do Planalto de um quadriênio economicamente mais pujante reflete-se no verbo candidato a virar a palavra da moda nos próximos meses. “Destravar” é o novo jargão político-econômico de Brasília.
Na segunda-feira 1º, sob uma fina chuva e diante de uma platéia de cerca de 10 mil cidadãos, Lula falou em retirar as travas que impedem o crescimento vigoroso do País. Pouco antes, no discurso de posse no Congresso Nacional, o presidente valeu-se de uma imagem semelhante. “O Brasil não pode continuar como uma fera numa rede de aço invisível, debatendo-se, exaurindo-se, sem enxergar a teia que o aprisiona. É preciso desatar alguns nós decisivos para que o País possa usar a força que tem e avançar com toda velocidade”, afirmou. “Digo que os verbos acelerar, crescer e incluir vão reger o Brasil nestes próximos quatro anos. Vamos destravar o Brasil para crescer e incluir de forma mais acelerada”, acrescentou.
O presidente, na verdade, ecoou a esperança da maioria dos brasileiros, eleitores ou não do petista. Dados inéditos de uma pesquisa do Instituto Vox Populi, em parte publicada por CartaCapital em novembro do ano passado, apontam que quase 70% dos entrevistados acreditam em maior crescimento e mais empregos no segundo mandato. Em resumo, apostam no “destravamento” da economia.
Se uma palavra é capaz de refletir o espírito de um tempo, pode-se dizer que o segundo mandato de Lula, ao menos no campo das intenções, começa mais promissor. Para quem não se lembra, “blindar” foi o verbo a reger os primeiros quatro anos do governo petista. No fundo, era um sinal inequívoco de que a agenda conservadora e os interesses de uma minoria haviam sobrepujado as expectativas de mudança da maioria. A diretoria do Banco Central foi blindada e a conta ficou com o resto da sociedade. Em média, o PIB brasileiro cresceu a modestos 2,7% ao ano entre 2003 e 2006. Acreditava-se que o então ministro da Fazenda Antonio Palocci, apontado como fiador da política monetária, também estava blindado. Mas Palocci não resistiu 15 dias à ilegalidade cometida, com seu aval, contra o caseiro Francenildo Costa.
Por enquanto, as esperanças de destravar a economia repousam no ainda inconcluso Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a cargo do ministro da Fazenda, Guido Mantega. As versões preliminares do PAC não agradaram a Lula, que exigiu medidas mais ousadas. É certo que o pacote vai beneficiar, por meio de redução de impostos, setores como construção civil e informática. O governo também aposta na gradual mas contínua redução dos juros para estimular os investimentos do setor privado. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, espera que a taxa básica, em termos reais, chegue a 6% no fim de 2007. Uma meta difícil, a levar em conta as previsões do mercado financeiro de um corte de 1,5 ponto porcentual em 12 meses.
Ainda que o PAC seja ousado, como quer o presidente, e o Copom lime os juros com menos parcimônia, contrariando o mercado financeiro, o péssimo estado da infra-estrutura é uma trava que impõe cautela mesmo na análise dos mais otimistas. Não se trata apenas da situação calamitosa das rodovias federais ou do gargalo nos portos e aeroportos. Os riscos reais de faltar energia antes do término do segundo mandato de Lula são maiores do que os técnicos do Ministério de Minas e Energia têm admitido.
“Não houve grandes investimentos em ampliação da oferta de energia nos últimos quatro anos. Não fossem as chuvas abundantes, que enchem os reservatórios das hidrelétricas, teríamos um cenário semelhante ao que levou ao racionamento de 2001. Mas bastaria não chover muito daqui para a frente e os riscos de uma crise em 2009 ou 2010 seriam consideráveis”, afirma o engenheiro Luiz Pinguelli Rosa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ex-presidente da Eletrobrás.
Detalhe da análise de Pinguelli: os riscos existem mesmo se o crescimento da economia não for tão vigoroso quanto anseia Lula. Desde 2003, pouco mais de um ano após o racionamento, os níveis de consumo se expandem a um ritmo superior ao do PIB. No ano passado, apesar das previsões de uma alta de 2,8% do produto interno, o gasto de energia aumentou 3,9% em relação a 2005 e bateu recorde histórico. Foram utilizados 415,9 mil gigawatts, o que representa cerca de 90% da capacidade de geração.
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