Gritamos, nos impusemos, adotamos posturas tipicamente masculinas para nos fazermos ouvidas. As oportunidades aos poucos foram surgindo, e cá estamos nós, em uma nova reflexão sobre o papel que tanto sonhamos desempenhar.
Falar sobre os desafios da mulher no poder hoje é recuperar toda a trajetória do movimento feminista e reafirmar as transformações e a discussão em torno da igualdade entre homens e mulheres. Gritamos, nos impusemos, adotamos posturas tipicamente masculinas para nos fazermos ouvidas. As oportunidades aos poucos foram surgindo, e cá estamos nós, em uma nova reflexão sobre o papel que tanto sonhamos desempenhar.
Em rápida comparação com o passado, é evidente que temos motivos para comemorar.
Desde o ano passado, o Chile do ex-ditador Augusto Pinochet é governado por Michelle Bachelet, primeira mulher a comandar um país sul-americano. Principal economia da União Européia, a Alemanha tem desde o ano retrasado a primeira chanceler do sexo feminino, Angela Merkel. Nos Estados Unidos, a ex-primeira-dama, ativista pelos direitos da mulher e atual senadora, Hillary Clinton, é pré-candidata à presidência.
Paradoxalmente, vem também da maior potência econômica do mundo o exemplo de presença feminina no poder que frustra as expectativas de quem espera mudanças de impacto quando uma mulher está no alto comando. Condoleezza Rice está há mais de dois anos à frente de um dos cargos de maior importância do planeta, a Secretaria de Estado norte-americano.
Negra e nascida no Alabama na década de 1950, justamente um dos estados que mais sofreu com a perseguição racial promovida pela facção Ku Klux Klan, Condoleezza mostrou-se grande apoiadora do presidente George W. Bush na chamada “guerra contra o terrorismo”. Apoio dado à revelia dos anseios de boa parte da sociedade, em especial manifestados por mulheres e negros, em relação à política conservadora adotada por Bush.
Mas deixemos por ora tais situações de lado. Cabe a cada um refletir e concluir por si.
O fato é que, por muito tempo, as mulheres foram totalmente excluídas da vida pública. A inclusão política das mulheres no Brasil só aconteceu na década de 30, com o sufrágio universal, e não foi acompanhada de outras melhorias e direitos de cidadania.
Mais tarde, as ações afirmativas despontaram como uma possibilidade de promover a igualdade de oportunidades e compensar ou corrigir discriminações resultantes de práticas ou sistemas sociais.
A lei de cotas foi uma ação afirmativa importante que impulsionou a elevação do número de candidatas e possibilitou o fortalecimento de candidaturas femininas e feministas. Além disso, a lei de cotas provocou uma larga discussão, em todos os níveis, sobre a pequena participação das mulheres no processo eleitoral e político, fato que até então não obtinha a devida atenção de grande parte da sociedade.
O fator positivo é que ainda que sejamos, sim, minoria no poder, estamos sempre protagonizando o momento. Despertando atenções, chamando para nós a responsabilidade. São os exemplos que vêm das camadas de base do poder que me fazem otimista em relação aos desafios da mulher. Sabemos que a presença feminina é dominante nos movimentos sociais. Mas, por conta do acúmulo de tarefas, delegam poder aos homens.
Por isso, faz-se necessária uma ampliação de políticas de ações afirmativas, como maior investimento na formação política das mulheres, incentivo à participação, igualdade de oportunidades no acesso a cargos de comando e poder e uma intensificação da discussão sobre a maior socialização do trabalho doméstico, particularmente dentro da família.
O convite para participar do seminário “Género y Política: Experiencias en America Latina y Europa”, a ser realizado nos dias 19 e 20 de abril em Santiago do Chile, veio em momento oportuno. Como gestora do município em que acumulo os cargos de vice-prefeita e secretária de Orçamento e Planejamento Participativo, sinto ser necessária a troca de experiências com pessoas atuantes em outros países.
A própria ONU, Organização das Nações Unidas, estabeleceu a Promoção da Igualdade de Gênero como um dos objetivos de desenvolvimento do milênio. Isso significa que um mundo melhor depende também da valorização da mulher. Portanto, este é um debate que não pode se restringir ao universo feminino. Ele deve ser encarado por toda a sociedade para que realmente alcancemos a justiça e a paz.
Por Ivete Garcia, que é socióloga e vice-prefeita de Santo André (SP), onde foi vereadora duas vezes. Militante do movimento de mulheres há 20 anos, coordenou a Assessoria dos Direitos da Mulher na 1ª gestão de Celso Daniel (1989-1992).
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.