Adital – Em artigo publicado no jornal Valor Econômico – Antídoto ao novo dependentismo – (1,2,3,4 nov/07, A13), Márcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), fez uma análise crucial sobre a realidade e o momento brasileiros. Termina com uma frase lapidar: “A decadência pode estar próxima do fim, porém a dependência não”.
O autor refere-se ao fato de que “o país (Brasil) se recoloca na Divisão Internacional do Trabalho como protagonista de uma matriz energética menos poluidora e geradora de uma nova riqueza”. Porém, essa ‘oportunidade histórica’ pode ser semelhante à outra acontecida na virada dos séculos XVI e XVII, quando o Brasil passou de 60 para 800 engenhos de açúcar, sem deixar de ser dependente da “extroversão econômica e da concentração da riqueza”.
Na passagem do século XX para o XXI, o Brasil, para atender a 5% de todo mercado mundial de etanol, deve saltar de menos de 100 para 600 usinas sucroalcooleiras, o que significa ocupar quase 30 milhões de hectares de área plantada somente com a cana de açúcar.
A história do Brasil é uma história de dependência. Em poucos momentos, houve espaço e vontade política de construir uma nação. O resultado é uma altíssima concentração de renda, o pensamento e a tecnologia quase integralmente importados, valores culturais introjetados de fora para dentro.
O que fazer, segundo Márcio Pochmann, “porque ainda há tempo para que o país conceda um passo urgente e decisivo na reinversão do ciclo da agroenergia”? Primeiro, é preciso haver uma profunda alteração no papel do Estado.
Segundo, o Brasil precisa constituir uma empresa pública de agroenergia com o compromisso de garantir oportunidades universais de participação do circuito inferior da economia (pequenos e médios produtores rurais e microusineiros sucroalcooleiros).
Terceiro, estabelecer um grande acordo em torno das relações de trabalho vinculadas à agroenergia, evitando a difusão do emprego associado a elevadas jornadas de trabalho, forte rotatividade e baixa remuneração.
Não se fazem mudanças sem algum grau de ruptura e sem organização social e política dos de baixo. Não há como fazê-lo sem contrariar interesses, desses mesmos que há séculos dominam a economia e a cultura brasileiras. A construção de uma vontade nacional no sentido de construir o novo e o diferente não é simples, num país continental como o Brasil, mas é necessária e urgente. Há um elemento mais favorável que em outras épocas. No momento pelo qual passa a América do Sul, há governos de esquerda e centro-esquerda que, apoiados na população, procuram caminhos de maior independência, ao lado de esforços de integração regional não dependentes dos centros hegemônicos, como tem sido ao longo dos séculos.
Superar um período de decadência, como o atravessado pelo Brasil nas últimas décadas, desde o fim do regime militar até os tempos neoliberais, e entrar num período de prosperidade e retorno do crescimento econômico, como vem acontecendo, não é garantia de superação da dependência, tampouco de justiça social. Sem rompimento com a repetição do passado, escreve Márcio Pochmann, dificilmente serão construídos os elementos portadores do futuro. Ou seja, a oportunidade histórica, como nunca antes, quem sabe esteja aí. Mas está cercada de desafios e não se tornará certeza histórica sem participação popular e compromissos com um projeto soberano de nação.
Por Selvino Heck, que é assessor especial do Presidente da República. Fundador e Coord. do Movimento Fé e Política.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.adital.org.br.