Trinta anos dedicados à militância e pesquisas científicas sobre o universo feminino dão à Vera Soares – mestre em Educação, fundadora e integrante do Agende Ações em Gênero, Cidadania e Desenvolvimento – autoridade para tratar de temas que interessam as mulheres brasileiras. Foi o que aconteceu na última sexta-feira (07), durante Ato Solene em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, na Alesp.
Durante o evento, promovido pela FETEC/CUT-SP e Contraf-CUT, em parceria com o Gabinete do Deputado Cido Sério, Vera Soares explanou sobre o “Empoderamento da Mulher Trabalhadora”.
Segundo a militante, a década de 70 em nosso país foi marcada pela política ditatorial dos governos militares, mas também pelos diversos movimentos sociais populares. Movimentos que fizeram emergir novos atores e novos temas políticos.
“Dentre esses novos atores estão às mulheres, que, ao transcenderem seu cotidiano doméstico, fazem despontar um novo sujeito social – mulheres anuladas emergem como mulheres inteiras, múltiplas, heterogêneas. Estão nos movimentos contra a carestia, pela anistia, na luta por creches, criam associações e casas de mulheres, entram nos sindicatos para seus encontros. Novos temas entram no cenário político, introduzidos pelo feminismo”, lembra.
Ainda que vinculado às ideologias da esquerda, esse movimento que ressurge na década de 70, comenta a pesquisadora, expressa uma série de questões e problemas que as esquerdas foram incapazes de solucionar e assumir. Traz uma redefinição da política: incluindo nela às relações de poder presentes no cotidiano, ampliando os espaços de participação, denunciando diversas formas de dominação, que se criam e recriam cotidianamente.
“Esse feminismo torna visíveis às relações de poder estabelecidas entre as pessoas, por todo o tecido social. São sistemas de opressão, igualmente determinantes na vida das pessoas e dos grupos sociais; são as relações hierarquizadas entre sexos. A interferência feminista torna visível, compreensível, a relação dialética e reforçadora entre a estrutura de classes do capitalismo e a estruturação sexual hierárquica do patriarcado”.
Nesse sentido, as feministas junto com outros movimentos sociais e sindicais de mulheres começam entre as décadas de 80 e 90 a debater alguns pontos da teoria e da prática do fazer político. Estabelecem uma diferença entre sexo e gênero, para diferenciar o social do biológico, bem como, enfatizam a construção social da identidade da mulher e do homem.
“Trazendo as relações pessoais para debate, o movimento de mulheres busca uma política que relacione as ligações entre vida pessoal/opressão da mulher na casa e a exploração entre homens e mulheres no trabalho assalariado”, destaca Vera.
A militante lembra ainda que o feminismo questionou a visão estadista da mudança social, assinalando que não bastava apenas transformar o Estado – era preciso mudar também as relações pessoais e as idéias. “Não se trata de esperar que estas se modifiquem num passe de mágica, pelas transformações econômicas e políticas: pode-se começar as mudanças políticas desde já”, indaga.
O feminismo, nesse sentido, trouxe novos temas para o conjunto do movimento de mulheres: direito de ter ou não ter filhos, punição aos assassinos de mulheres, aborto, sexualidade, prazer, lesbianismo como exercício da livre sexualidade, violência doméstica.
“Desenhando sua identidade, as mulheres vão construindo a trajetória do movimento, identificando os temas. Descobrem a centralidade do trabalho doméstico em suas vidas, descortinando a divisão sexual do trabalho, que lhes reservou um espaço “natural” – a casa, a família -, a partir do qual a mulher vê o mundo e é vista por ele. Ela é excluída do mercado de trabalho (ou nele incorporada intermitentemente) por ser a responsável pela reprodução da força de trabalho, tarefa cotidiana, pesada e invisível”.
Por todo esse histórico de luta, as ações afirmativas no mercado de trabalho são, nos dias de hoje, uma estratégia para romper com a desigualdade de oportunidades de trabalho entre homens e mulheres. São medidas práticas baseadas no princípio da não-discriminação, criadas por iniciativa particular de empresas ou como parte de políticas governamentais.
“Discriminação na busca do emprego, dificuldades de ascender a postos de chefia, desigualdades de remuneração entre os gêneros são alguns dos conhecidos obstáculos no caminho das mulheres que ingressam na vida profissional. Rompê-los de maneira inovadora é o desafio que a atual fase do movimento de mulheres trabalhadoras deve enfrentar”, finaliza Vera Soares.
Por Michele Amorim.
NOTÍICA COLHIDA NO SÍTIO www.fetecsp.org.br.