Vistos com uma ampla perspectiva, o encarecimento do petróleo e a recuperação dos preços dos alimentos se mostrarão positivos se nos ajudarem a nos libertarmos da dependência do petróleo e a melhorar a vida dos pequenos agricultores em lugar de beneficiar as multinacionais da alimentação. A análise é de Ignacy Sachs.
PARIS – A prolongada evolução conjunta do gênero humano e da biosfera foi marcada no passado por duas grandes transições. A primeira, ao passar da coleta e da caça para a agricultura e criação de animais, ocorreu muitos milhares de anos atrás. A segunda, a era dos abundantes e baratos combustíveis de origem fóssil (carvão, petróleo e gás) começou há poucos séculos. Agora estamos no umbral da terceira grande transição, que deixará para trás a era do petróleo e, esperamos, de toda a energia de origem fóssil. A transição levará décadas, mas, segundo muitos indícios, já começou, empurrada pela alta espetacular dos preços do petróleo e pela recuperação dos preços dos alimentos.
Quando analisarem os acontecimentos de nosso tempo, os futuros historiadores verão a era da “energia fóssil” como um breve, mas acidentado, interlúdio que provocou um grande aumento da população mundial. Agora somos 6,7 bilhões de habitantes, e estima-se que seremos 9 bilhões em meados deste século, com a maioria da humanidade vivendo em áreas urbanas. Mas, apresentam-se dois grandes e iminentes desafios: o de uma potencialmente catastrófica mudança climática e o dilema de uma abismal desigualdade social, de mãos dadas com um crônico e severo déficit de oportunidades para a obtenção de trabalho decente.
Para evitar o aquecimento do clima, devido às excessivas emissões de gases causadores do efeito estufa, devemos modificar drasticamente nossas pautas de uso da energia. Para conseguirmos isso são necessárias três coisas: redução do consumo de energia por meio de uma mudança nos padrões de consumo e de estilos de vida; melhoria da eficiência energética; substituição dos combustíveis fósseis pelas diferentes energias renováveis (solar, eólica, hidráulica, marinha e biomassa).
Ao mesmo tempo, devemos reabrir a discussão sobre um novo ciclo de desenvolvimento rural para evitar o beco sem saída da excessiva e prematura urbanização, como aponta Mike Davis em seu livro “Planeta de bairros marginalizados”. É fundamental criar oportunidades de trabalho decente para bilhões de pobres das áreas rurais.
Estes objetivos podem ser conciliados mediante a promoção de modernas biocivilizações que sejam baseadas na energia solar aproveitada através da fotossíntese e que explorem os múltiplos usos da biomassa (alimento para seres humanos, forragem para animais, fertilizantes orgânicos, bioenergias, materiais de construção, fibras, plástico e outros produtos de química orgânica elaborados por bio-refinarias, indústrias farmacêuticas e de cosméticos). Os biocombustíveis são apenas um segmento de um todo mais amplo. Todas as grandes civilizações da antiguidade foram “civilisations du vegetal” (Pierre Gourou). As civilizações que virão serão diferentes das antigas, já que a humanidade se encontra em um novo e superior ponto da espiral do conhecimento. Deste modo, as modernas biocivilizações não devem ser vistas de modo algum como uma regressão, mas como um salto para o futuro.
Para envolver os pequenos proprietários rurais na produção sustentável e no processamento de biomassa, deveremos recorrer a tecnologias que impliquem conhecimentos e trabalho intensivos e, ao mesmo tempo, economia de recursos. As soluções virão de sistemas integrados de produção de alimentos/energia agro-ecológicos adaptados aos diferentes biomas e realizados com os princípios da “revolução sempre verde”, segundo as palavras de M. S. Swarninathan, também conhecidos como os da revolução duplamente verde. Trata-se de um difícil desafio, já que se pretende transformar as ameaçadoras crises dos alimentos e da energia em uma oportunidade para avançar para civilizações mais justas e sustentáveis.
Vistos com uma ampla perspectiva, o encarecimento do petróleo e a recuperação dos preços dos alimentos se mostrarão positivos se nos ajudarem a nos libertarmos da dependência do petróleo e a melhorar a vida dos pequenos agricultores em lugar de beneficiar as multinacionais da alimentação. Naturalmente, neste momento são necessárias medidas urgentes para ajudar os pobres urbanos afetados pelo atual encarecimento dos alimentos. As apostas são altas, mas o resultado está longe de ser garantido. Os capitalistas de risco são rápidos para aproveitar as ocasiões para fazer dinheiro com as novas tecnologias para produzir energia que estão surgindo graças ao petróleo caro e para explorá-las sem transformação séria do tecido social e econômico.
O começo da terceira grande transição coincide com o esgotamento dos mais importantes modelos de desenvolvimento, que dominaram o cenário desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O comunismo se desmoronou com a queda do Muro de Berlim. O reformado capitalismo do pós-guerra deu lugar ao neoliberalismo. Mas, para alguns observadores, a recente crise financeira anuncia o início do fim do neoliberalismo. Por sua vez, a social-democracia está presa na situação de “sim à economia de mercado, não à sociedade de mercado”. É por isso que, condenada a inventar novos modelos, a próxima geração se dirigirá a inexplorados e excitantes territórios.
Uma coisa é certa: a emergência de biocivilizações, quando ocorrer, mudará a geopolítica mundial, pois favorecerá os países tropicais, qualificados por Pierre Gourou como “Terras da boa esperança”. Tanto mais se esses países conseguirem ampliar a vantagem que lhes dá o clima natural por meio da pesquisa, uma apropriada organização de sua produção e um efetivo desenvolvimento da cooperação Sul-Sul.
Por Ignacy Sachs, que é professor honorário na Escola de Altos Estudos em Ciência Sociais de Paris e na Universidade de São Paulo. Seu último livro é La troisième rive — à la recherche de l’ècodéveloppement (Paris, 2008).
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.
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Brasil deve dobrar produção de grãos em dez anos
Brasília – O secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Silas Brasileiro, disse hoje (7) que o Brasil deve dobrar a produção de grãos no prazo de dez anos. Ele fez essa avaliação após entrevista coletiva, convocada para a divulgação do levantamento da safra de grãos 2007/08, que apresentou uma colheita de 143,7 milhões de toneladas.
“Nós temos um planejamento um tanto ambicioso. Eu acho que através da nossa empresa de pesquisa, a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], do planejamento do governo, do aumento do incremento para financiamento da agricultura, tanto familiar quanto empresarial, nós sentimos que, nos próximos dez anos, devemos duplicar a nossa produtividade. Haverá um momento crescente, usando, sem dúvida, o conhecimento, a pesquisa, a tecnologia, e acho que, ano a ano, vamos subir de 10% a 15% nosso índice de produtividade”, disse Brasileiro.
Segundo ele, na safra 1993/94, o país produziu 76 milhões de toneladas de grãos, e o país levou 15 anos para atingir o crescimento de quase 100%, verificado hoje. Brasileiro considera que, com os investimentos maiores em pesquisas e a renegociação da dívida agrícola, aprovada ontem (6) na Câmara dos Deputados, os produtores terão mais tranqüilidade para planejar seu trabalho.
“A partir da aprovação da MP 432 [da dívida agrícola], que é a maior renegociação de toda a história do endividamento agrícola do país, o produtor pode planejar o seu dia a dia, continuar na sua atividade normal e, conseqüentemente, também expandir. Quando há uma tranqüilidade, o homem do campo, em vez de ficar no banco renegociando seu endividamento, ele tem prazo para pagar e conseqüentemente ele irá planejar a sua produção e estará mais presente no dia a dia do campo”, disse Silas Brasileiro.
Por Danilo Macedo – Repórter da Agência Brasil.
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Dados da safra e área plantada indicam investimento em tecnologia, aponta IBGE
Rio de Janeiro – O aumento estimado da produção de grãos para este ano, que supera em 9% a colheita do ano passado, e a previsão da área plantada, que só avançou 4,3% nesta safra, demonstram que o produtor brasileiro está investindo mais em tecnologia para aumentar a produtividade.
A avaliação é do gerente de Pesquisas Agrícolas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Mauro Andreazzi, responsável pelo Levantamento Sistemático da Produção Agrícola, divulgado hoje (7).
“O produtor se capitalizou nos últimos anos, depois de períodos de seca. Aplicou mais adubo e comprou sementes de melhor qualidade. Isso é tecnologia. Plantando uma semente melhor, adubando mais, consegue produzir mais em uma mesma área”, explicou.
A safra de grãos estimada em julho pelo IBGE para este ano é de 145, 1 milhões de toneladas. Se for cumprida, baterá um novo recorde e superará a do ano passado, de 133,1 milhões de toneladas, a maior desde 2003.
De acordo com Andreazzi, a estimativa pode subir mais ainda. De acordo com ele, há expectativa de aumento na colheita do feijão e também de um bom desempenho das plantações de trigo.
“Sempre tem um dado novo entrando que não foi computado, o que também não impede decréscimos, principalmente em decorrência de condições climáticas”, disse.
Para Andreazzi, o crescimento da produção de grãos no país sinaliza também a recuperação dos preços desses produtos no mercado.
“Isso para o consumidor pode até ser ruim, mas para o produtor é bom porque os custos de produção também estão crescendo”, disse.
Por Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil.
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IBGE estima em 145,1 milhões de toneladas safra de grãos colhida neste ano
Brasília – A produção de grãos em 2008 deve bater em 9% a safra recorde do ano passado, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada hoje (7).
O país deve colher 145, 1 milhões de toneladas de grãos, volume 1% maior do que o estimado em junho (143,6 milhões de toneladas). De acordo com o IBGE, os 14 produtos analisados neste mês tiveram aumento de estimativa, com destaque para o milho, a soja e o trigo.
O fim da colheita dos produtos cultivados no verão, a reavaliação da produção de sorgo, milho e feijão e também da expectativa de acréscimo na próxima safra de feijão e das culturas de inverno como trigo foram os motivos apontados pelo IBGE para o aumento da safra.
A Região Sul deve contribuir com a maior parte da produção de grãos em 2008: 60,6 milhões de toneladas. Em seguida vêm a Região Centro-Oeste (50,5 milhões de toneladas) e a Região Sudeste (17,5 milhões de toneladas).
O Levantamento Sistemático da Produção Agrícola do IBGE mostra que há expectativa de aumento de 4,3% na área plantada nesse ano em relação ao anterior. A produção deve ocupar 47,3 milhões de hectares ao final de 2008.
Ocupam a maior parte desse terreno a cultura de soja (21,3 milhões de hectares), o milho (14,4 milhões de hectares) e o arroz (2,9 milhões de hectares), produtos que representam 90% da produção de grãos do país.
O Conab também divulgou hoje, em Brasília, a estimativa para a colheita. As duas instituições têm trabalhado para diminuir as diferenças entre as projeções.
Por Isabela Vieira – Repórter da Agência Brasil.
NOTÍCIAS COLHIDAS NO SÍTIO www.agenciabrasil.gov.br.