Problema causa adoecimento entre os trabalhadores bancários
São Paulo – Quem já passou sabe o que significa. O assédio moral é o cruel resultado de uma política de gestão dos bancos, inaugurada na década de 1990, que transformou o cotidiano dos trabalhadores e fez do bancário um vendedor à priori. A pressão para bater metas, cumprir prazos, comercializar produtos para engordar a fantástica receita de prestação de serviço dos bancos, assume muitas vezes aspectos grotescos de maus tratos, agressões verbais, humilhações.
Foi esse quadro, que está tornando insuportável o dia-a-dia nas instituições financeiras, que levou os bancários a colocar o fim do assédio moral como uma das prioridades da Campanha Nacional 2008.
Por isso, a reivindicação foi apresentada à mesa de negociação entre o Comando Nacional dos Bancários e a federação dos bancos (Fenaban) logo na primeira rodada, no dia 27, quando os dois lados se comprometeram a debater os termos de uma cláusula de combate ao assédio moral que deverá fazer parte da Convenção Coletiva de Trabalho. Na segunda rodada, no dia 2, esses termos foram discutidos durante mais de nove horas, em negociação que se estenderá, numa reunião extraordinária, na segunda-feira, dia 8.
O que está acertado – Alguns pontos avançaram. Os banqueiros, que queriam criar apenas um programa pontual de combate ao assédio, cederam e aceitaram estabelecer uma política permanente para acabar com essa situação nos bancos. Ambos os lados também reconhecem que será necessário criar estrutura para o acompanhamento dos casos que serão denunciados ao Sindicato e ao banco.
Também foi acordado que em caso de promoção de gestores será avaliado se fizeram uso de assédio moral contra seus subordinados.
O que está pegando – Apesar dos esforços do Sindicato em fazer avançar a construção da cláusula de combate ao assédio moral, dois pontos fundamentais permanecem pendentes e travaram a negociação do último dia 2. Os banqueiros querem, após a apuração dos casos denunciados, dar o retorno apenas para os trabalhadores. “Isso não podemos aceitar. O bancário ficaria desprotegido e a função primordial do Sindicato seria anulada. Sem nossa fiscalização, ao lado do trabalhador, a cláusula corre o risco de não funcionar”, esclarece o presidente do Sindicato, Luiz Cláudio Marcolino, integrante do Comando Nacional.
Além disso, os bancos recusaram-se a criar o manual de conduta para coibir o assédio moral. “Querem fazer isso a partir do código de ética de cada instituição, de forma unilateral. Se isso desse certo, não existiria assédio hoje, já que os banqueiros são unânimes em dizer que não concordam com a prática”, destaca Marcolino.
A rodada desta segunda-feira tem o objetivo de por um fim a essas pendências. “Esperamos que os negociadores da federação dos bancos façam a lição de casa e venham para a mesa em condição de fechar a cláusula que vai começar a acabar com o assédio moral”, afirma Marcolino.
Participação – No dia 10, quarta-feira, o Sindicato realiza plenárias em todas as regionais. “Os bancários devem participar. As plenárias são espaço garantido para os bancários debaterem a campanha e ajudar a traçar estratégias”, convoca a secretária-geral do Sindicato, Juvandia Moreira. “As assembléias serão convocadas quando houverem propostas a serem analisadas”, esclarece a dirigente.
Calendário da Campanha
Dia 8, segunda-feira
Rodada de negociação extraordinária sobre assédio moral, outras questões de saúde, segurança e igualdade de oportunidades
Dia 9, terça-feira
Rodada de negociação sobre emprego, cláusulas sociais e renováveis
Dias 16 e 23 de setembro
Rodadas de negociação sobre cláusulas econômicas
Por Cláudia Motta – 05/09/2008.
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Bancários afastados relatam drama da volta ao trabalho
Falta de programa de reabilitação e discriminação a quem adoece agravam o problema
São Paulo – As negociações das questões de saúde que acontecem na segunda-feira, dia 8, dentro do calendário da Campanha Nacional 2008 interessa muito aos bancários que contraíram doença ocupacional devido a falta de condições de trabalho e que, depois de período de afastamento, retornaram às funções.
Os vários relatos que chegam ao Sindicato têm sempre um ponto em comum: todos revelam um verdadeiro drama repleto de discriminação, falta de perspectiva e ambiente de trabalho totalmente desfavorável. Ingredientes suficientes para baixar a auto-estima dessas pessoas. Os bancários reivindicam um programa de reinserção deste grupo de trabalhadores.
“A cultura dentro das instituições financeiras é discriminar e depois demitir. Queremos negociar um programa para que esses trabalhadores possam retomar sua vida profissional sem dificuldades. Mesmo porque quem adoeceu o bancário foi a própria instituição que não ofereceu condições de trabalho digna.”, afirma o secretário de saúde do Sindicato, Walcir Previtale.
Discriminação – Uma funcionária do Santander que não quer se identificar conta que quando retornou ao trabalho foi discriminada, o que aumentou seu problema de saúde. “Fiquei seis anos afastada. Quando voltei as minhas funções as pessoas no meu departamento não dava nem bom dia. Ficava durante o expediente lendo revista e ouvindo piadinha desrespeitosa”, fala.
A bancária conta ainda que diante do ambiente hostil desenvolveu síndrome do pânico e foi obrigada a se afastar novamente e a entrar com uma ação contra o banco por discriminação. “Houve uma mudança de postura em conseqüência do processo que eu movi. Hoje retomei minha função, mas com certeza sem a ação continuaria ouvindo piadinhas desrespeitosas”, revela.
A trabalhadora fala da expectativa da negociação de saúde. “É preciso que os bancos criem um programa de reabilitação com psicólogo e assistência social para que os trabalhadores possam retomar sua carreira sem discriminação”.
No Unibanco o problema não é diferente. Uma bancária que se afastou por 11 meses por causa de uma depressão relata que ao retomar suas funções sentiu na pele o preconceito dos chefes e colegas. “As pessoas vêem a gente como fracos. Os colegas não se misturam e ainda isolam. Ouvi muitas brincadeiras sutis”, diz.
A bancária relata que ao retornar às funções o ambiente ficou ainda mais propício para desenvolver mais doenças por causa da discriminação. “Ficamos sem auto-estima. Havia recomendação tanto do médico do banco quanto do INSS de procurar um outro departamento, mas o Unibanco ignora e manda a gente se virar para encontrar um outro setor”, desabafa.
Para amenizar o problema ela defende a criação de um departamento para buscar a reintegração de trabalhadores que sofreram com as doenças ocupacionais.
Lei – Além de cobrar dos banqueiros um programa de reintegração dos trabalhadores vítimas de doença ocupacional, o Sindicato defende também o cumprimento da lei 8213/91, que estabelece que a reabilitação profissional deve ser realizada exclusivamente sob a supervisão do INSS e a sua regulamentação, conforme o decreto 3048/99.
Por Carlos Fernandes – 08/09/2008.
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