Brasília – A redução da taxa básica de juros (Selic) de 9,25% para 8,75% ao ano, anunciada pelo Banco Central na última quarta-feira (22), pode provocar um efeito indireto nas operações de crédito ao consumidor, aumentando o volume de empréstimos bancários.
A análise é da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) e se baseia na expectativa de que a queda contínua dos juros reduza a rentabilidade de investimentos dos bancos com títulos públicos, corrigidos em parte pela Selic, o que levaria as instituições a emprestar mais para manter a lucratividade. Isso, segundo a Anefac, elevará a competição no setor, com redução no custo das operações de crédito ao consumidor final.
Comparativamente, pode-se verificar, segundo dados da Anefac, que os juros no comércio continuam extremamente altos, com queda média de 102,59% para 101,68% ao ano, embora a taxa Selic tenha caído de 9,25% para 8,75% ao ano. Em média, os juros cobrados da pessoa física estão em 131,87% ao ano.
Só para se ter uma ideia, com as atuais taxas, o cidadão que compra uma geladeira à vista por R$ 1.500,00, se for financiar em 12 vezes sem entrada, com a taxa de 101,68% ao ano ou 6,02% ao mês, vai pagar R$ 179,11 por mês, com gasto final de R$ 2.149,32.
O vice-presidente da Anefac, Miguel José Ribeiro de Oliveira, lembra que, até março deste ano, os bancos ainda estavam aumentando as taxas, restringindo o crédito e continuavam sendo mais seletivos na concessão de crédito, com prazos menores.
Porém, a melhora do cenário no país e no exterior trouxe de volta o crédito. Entre outras medidas adotadas pelo Banco Central para impulsioná-lo, está a liberação do depósito compulsório, que é o recolhimento obrigatório que os bancos fazem ao BC sobre o total de depósitos à vista. Além disso, os bancos públicos reduziram as taxas, o que aumentou a oferta de crédito ao consumidor.
“Então, o pior da crise ficou para trás e se reflete nas ações dos próprios bancos, que voltaram a ampliar mais a oferta e as condições do crédito. Tivemos a volta das condições do crédito que havia antes, com os bancos ampliando os prazos e reduzindo taxas de juros. Os bancos não sendo tão seletivos e voltaram a assediar os clientes”, disse o vice-presidente da Anefac.
Oliveira admite que o fato de a taxa de juros para o consumidor final não ter acompanhado na mesma velocidade a Selic continua sendo um problema, embora um pouco menor do que durante a crise.
De acordo com ele, embora o Banco Central tenha começado a reduzir a Selic a partir de janeiro, com quedas consecutivas, o problema ocorreu por causa do aumento da inadimplência, já que o risco subiu.
“Em um ambiente desses, no qual se esperava um dos piores dos mundos pela frente, os bancos começaram a retardar essas quedas, esses repasses das taxas ao consumidor. Então, puseram o pé no freio. O que aconteceu é que as taxas de juros estavam em processo mais veloz do que as taxas de juros aos consumidores”, afirmou.
Ele observa que, a partir de junho, houve uma menor preocupação com o calote. Tanto que no último relatório do Banco Central a inadimplência deu um pequeno recuo. Oliveira espera que os bancos comecem a repassar a queda da Selic para os consumidores.
“A gente está esperando que, daqui para frente, as taxas ao consumidor possam cair por conta desse conjunto de fatores. Até numa velocidade maior do que a queda da Selic, por causa de um competição maior que se inicia no sistema financeiro. É a nossa expectativa”.
Seguem tabelas: Fonte Anefac
Selic – 8,75% aa
TAXAS DE JUROS PRATICADAS PELO MERCADO – PESSOA FÍSICA
Linha de crédito
Novas Taxas – Mês
Novas Taxas – Ano
Variação % (mês)
Juros comércio
6,02%
101,68%
-0,66%
Cartão de crédito
10,64%
236,47%
-0,37%
Cheque especial
7,50%
138,18%
-0,53%
CDC bancos – Financiamentos de automóveis
2,74%
38,32%
-1,44%
Empréstimo Pessoal bancos
5,26%
85,00%
-0,75%
Empréstimo pessoal financeiras
11,13%
254,79%
-0,36%
TAXA MÉDIA
7,22%
130,84%
-0,55%
CHEQUE ESPECIAL
Utilização de R$ 1.000,00 por 20 dias
Nova taxa de 7,50% ao mês – R$ 50,00 de juros
CARTÃO DE CRÉDITO
Utilização do rotativo de R$ 1.000,00 por 30 dias
Nova taxa de 10,64% ao mês – R$ 106,40 de juros
Redução de R$ 0,40 no mês
EMPRÉSTIMO PESSOAL BANCOS
Empréstimo no valor de R$ 1.000,00 por doze meses
Nova taxa de 5,26% ao mês – 0+12 – R$ 114,49 – total R$ 1.373,88
Redução de R$ 0,25 na prestação ou R$ 3,00 no total
CDC BANCOS
Compra de um veículo de R$ 25.000,00 em 60 meses
Nova taxa de 2,74% ao mês – 0+60 – R$ 853,61 – total R$ 51.216,60
EMPRÉSTIMO PESSOAL FINANCEIRAS
Empréstimo no valor de R$ 500,00 por 12 meses
Nova taxa de 11,13% ao mês – 0+12 – R$ 77,49 – total R$ 929,88
Redução de R$ 0,15 na prestação ou R$ 1,80 no total
Por Daniel Lima – Repórter da Agência Brasil. Edição: Tereza Barbosa.
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Analista discorda que ano eleitoral vá provocar alta dos juros
Brasília – O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, discorda de analistas que projetam elevação da taxa básica de juros (Selic) no próximo ano, entre outras razões, por causa das eleições.“Não compactuo com esse pensamento de que inevitavelmente no ano que vem as taxas vão subir.”
De acordo com Oliveira, não há espaço no ambiente econômico atual para alteração na tendência dos juros. Ele lembra que a inflação não é uma preocupação, com os índices no atacado, por exemplo, controlados e consequentemente no varejo.
Segundo o analista, para que haja elevação dos juros, duas situações deveriam ser levadas em conta. Uma seria uma projeção do câmbio que provocasse elevação nos preços. Mas nesse caso está ocorrendo o contrário: o dólar está caindo cada vez mais e chegou a patamares abaixo de R$ 1,90. A outra envolveria os índices de preços do atacado, que se refletem nos preços do varejo no futuro e estão com deflação.
“Ainda poderíamos ter outro fator, que seria uma pressão muito forte de demanda. Ou seja, se o pessoal realmente comprasse muito, houvesse muita procura por produtos. Mas nós não temos pressão”, assinalou.
O analista acrescentou que a demanda tem crescido, mas de forma contida. Ele destacou como fator inibidor da elevação dos juros o fato de a taxa básica continuar muito elevada, mesmo com a redução da última quarta-feira, quando passou para 8,75%.
“Só teria sentido acontecer isso, se nós tivéssemos uma pressão muito grande por conta da elevação do preço do petróleo no mercado internacional, pela alta do dólar, pela volta da crise ou por uma falta de confiança muito grande. Isso não está previsto no horizonte,” comentou.
Mesmo assim, ele acredita que a redução da taxa básica passará a ser menor. Para ele, este ano promete mais dois cortes de 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 8,25% ao ano até dezembro. Para Oliveira, esse seria o piso, entre 8% e 8,5%. “Que convenhamos, ainda é muito alta se comparado a outras economias estáveis. Então, precisamos rever isso.”
Outra questão é a fuga dos investidores para a caderneta de poupança. A redução da taxa básica, que de janeiro para cá já sofreu cinco cortes, passando de 13,75% ao ano para 8,75% ao ano, tem preocupado o governo com a migração das aplicações dos fundos de renda fixa para a poupança. Esses fundos aplicam em títulos do governo, que são remunerados pela Selic e pagam impostos. Já a poupança, apesar de oferecer rendimentos menores, é isenta.
“Não acho que ela possa cair mais por conta da questão da própria poupança. A queda da rentabilidade dos títulos públicos pode fazer com que se migre das aplicações dos fundos para as poupanças, o que seria um problema para o governo para financiar a dívida pública”, disse Oliveira.
Por Daniel Lima – Repórter da Agência Brasil. Edição: Tereza Barbosa.
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