O iconoclasta Nelson Rodrigues, cujo verbo ácido a ninguém poupava, amava o povo brasileiro a ponto de espicaçá-lo com falso desdém: era a sua forma de despertar os nossos brios esmaecidos. Dele é a cáustica observação de que o brasileiro tem complexo de vira-lata. Não há dúvida de que muitos brasileiros, principalmente nas elites, guardam o deslumbramento dos nativos diante do estrangeiro que chegava do mar.
Não fomos os únicos: os bravos guerreiros astecas viram nos invasores espanhóis, montados em portentosos cavalos que eles não conheciam centauros invencíveis.
Se Nelson estivesse vivo, provavelmente repetiria o constrangido epíteto: a reação de alguns brasileiros ao acordo obtido por Lula e pelo primeiro-ministro turco Erdogan, com Ahmadinejad, do Irã, é a de que não temos credenciais para nos metermos em assuntos que não nos concernem. O raciocínio parte de uma dúvida intimidadora: se o entendimento não der certo, perderemos credibilidade internacional. É um raciocínio que cambaleia, do ponto de vista moral. Ninguém pode desgastar-se por procurar a paz. Não caminha tampouco o argumento de que a situação no Oriente Médio não nos interesse. Com o surgimento da América, as divergências, direta ou indiretamente, começaram a atravessar o oceano. Disso fomos vítimas quando a Holanda, em conflito com a Espanha a que Portugal estava então unido invadiu a Bahia e Pernambuco. A partir de 1914, todas as guerras passaram a ser planetárias, mesmo quando o teatro de operações se limite na geografia.
O problema do Oriente Médio nos toca profundamente. Fomos corresponsáveis, com a decidida posição de Oswaldo Aranha que presidia a Assembléia Geral da ONU em São Francisco pela criação do Estado de Israel, e de um Estado palestino no mesmo território. Se as nações fossem movidas de mauvaise conscience, estaríamos hoje avaliando se fizemos o melhor em 1948. Concluiríamos que não agimos mal, porque obedecíamos às circunstâncias históricas. E porque não agimos mal naquele momento, agimos bem, agora, quando tentamos esvaziar as tensões entre o Irã e Israel. O confronto não nos interessa, embora possa interessar ao lobby sionista dos Estados Unidos e da Europa. E atuamos com o mesmo sentimento de justiça quando cobramos o cumprimento de todas as resoluções da ONU que exigem a independência e soberania do povo palestino em fronteiras seguras.
É irrelevante saber se a senhora Clinton está atendendo mais aos eleitores sionistas e ao lobby da indústria de armamentos do que aos interesses profundos de seu país, que o presidente Obama parece identificar. Há, desde a campanha eleitoral, diferença de approach com relação ao Oriente Médio entre a bem sucedida advogada de Chicago e o mestiço nascido no Havaí com o inquietante sobrenome Hussein. Cada pessoa é também a sua circunstância, de acordo com o achado do jovem Ortega y Gasset, e a ela sempre pagará algum tributo. A circunstância de Lula fez dele, desde a infância, um negociador. Homens que não nascem com o futuro assegurado pelos bens de família devem negociar o seu destino com os percalços da vida, e Lula soube fazê-lo, e bem, pelo menos até agora.
Desde outubro passado, o governo americano manifestou publicamente seu interesse em uma solução de compromisso pela qual o Irã enviasse seu urânio, parcialmente trabalhado, para enriquecimento completo em outro país. Na época se falou na Rússia, mas os falcões americanos provavelmente a isso se opuseram, em memória da Guerra Fria. Lula se entendeu com a Turquia, membro temporário, como o Brasil, do Conselho de Segurança, a fim de negociar a saída diplomática e honrosa para o impasse.
O Brasil não necessita da licença de terceiros para conduzir sua política externa. Cabe-lhe exercê-la com o respeito que o governo deve ao Estado e, o Estado, à soberania do povo. Entre os que contestam a importância do acordo há os nostálgicos de um tempo em que Otávio Mangabeira beijava a mão de Eisenhower e Vernon Walters dava ordens aos golpistas de 64.
Queiram, ou não, os xenófilos deslumbrados, o compromisso de Teerã é uma vitória diplomática do Brasil e do metalúrgico Luiz Inácio, que chefia o Estado.
Por Mauo Santayana. Jornal do Brasil – 19/05/2010.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.ptnacamara.org.br.
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Amorim pede que Conselho de Segurança avalie acordo sobre urânio e evite sanções ao Irã
Brasília – O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, enviou hoje (19) carta aos integrantes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A carta tenta sensibilizar os membros do órgão para que confiem no acordo de troca do urânio do Irã e, assim, evitem a adoção de resoluções que provoquem sanções econômicas contra os iranianos. O documento foi redigido em conjunto com o governo da Turquia. A iniciativa ocorre no momento em que a pressão norte-americana contra os iranianos avança.
Na carta, Brasil e Turquia explicam, em detalhes, o acordo, firmado na última segunda-feira (17), em Teerã. Para garantir a interpretação dos dez pontos contidos no acordo, foi enviada também cópia do documento original. Amorim e o chanceler turco, Ahmet Davutoglu, destacaram ainda que o acordo é um avanço para evitar confrontos e meios não pacíficos para a solução de impasses, como o que envolve o programa nuclear iraniano.
“A declaração conjunta destaca o direito de desenvolver a investigação, produção e utilização da energia nuclear para fins pacíficos, sem deixar de sublinhar a forte convicção de três países [Brasil, Turquia e Irã] de que a troca de combustível nuclear será uma oportunidade para iniciar um processo para criação de um futuro positivo e construtivo em uma atmosfera de não confronto que conduz a uma era de interação e cooperação”, diz a carta, no seu segundo trecho.
Pelo acordo, firmado na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, compromete-se a transferir urânio enriquecido a 3,5% para a Turquia. Em troca, no prazo de até um ano, receberá urânio enriquecido a 20%. Com isso seriam dirimidas as dúvidas sobre o enriquecimento de urânio para a fabricação de armas – ou seja fins não pacíficos.
No entanto, parte da comunidade internacional, liderada pelos Estados Unidos, levanta dúvidas sobre a execução, pelo Irã, do acordo. Ontem (18), durante reunião do Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos conseguiram apoio da França, da Inglaterra, da China e da Rússia para definir um esboço de resolução. No documento, a orientação é impor sanções econômicas ao Irã por suspeitas de produção de armas atômicas.
Sem citar diretamente esta disposição, Amorim e o chanceler turco destacaram a confiança de que Estados Unidos, França, Alemanha, Rússia, China e Inglaterra revejam a tendência a veto ao Irã. “Temos plena confiança de que o G5+1 [Estados Unidos, França, Alemanha, Rússia, China e Inglaterra] vai rever a declaração conjunta [referindo-se ao acordo firmado com o Irã] com vista a preparar o caminho tanto para o reabastecimento, da forma mais eficiente e eficaz, e considerando as questões relacionadas com o programa nuclear iraniano e as questões mais amplas de interesse mútuo preocupação, através do diálogo construtivo”, diz a carta.
Por Renata Giraldi – Repórter da Agência Brasil. Edição: Lílian Beraldo.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciabrasil.gov.br.