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Os valores dos brasileiros e brasileiras

Adital – Em 2003, início do primeiro governo Lula, fui a Picos, Piauí, em nome da Assessoria de Mobilização Social do Gabinete do Presidente da República. A idéia era ouvir os moradores de um bairro de periferia sobre os programas sociais do governo federal, explicar como funcionaria o Programa Fome Zero, que estava em fase de implantação.

Quase ao final da conversa, uma senhora se levanta e disse: “Nós não precisamos de esmolas. Eu quero é trabalhar.” Essa fala incisiva levou a equipe nacional de educadores populares do TALHER, expressão criada por Frei Betto, a enviar uma carta ao presidente Lula, falando sobre o sentimento e a esperança do povo trabalhador, especialmente o mais pobre e sofrido. O que se esperava era dignidade, o que se pedia era condição e oportunidade de trabalhar. Lembro que a senhora falou que ‘se virava’ com alguns ‘bicos’ eventuais em famílias ricas da cidade, de onde tirava o sustento da casa e da família. Mas ela queria um serviço permanente, algo que lhe desse garantia de ter um trabalho e salário regular.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) fez uma pesquisa, segunda etapa do Relatório Humano Brasileiro 2009/2010, sobre o Perfil dos Valores dos Brasileiros, que vai terminar com a definição dos novos Índices de Desenvolvimento Humano dos Municípios. Com esse novo relatório do PNUD, o desenvolvimento passa a ser visto também pela ótica dos valores dos brasileiros. Saber o que brasileiros e brasileiras pensam e como querem agir tornou-se tão importante quanto detalhar os indicadores de educação numa cidade. Numa consulta ampla e aberta à sociedade brasileira chamada Brasil Ponto a Ponto, meio milhão de pessoas disse o que precisa mudar no Brasil para suas vidas melhorarem de verdade.

Para os pesquisadores do PNUD, valor é a crença que influencia as pequenas decisões e as grandes escolhas. São necessários valores humanos, valores de vida e valores públicos para a promoção do desenvolvimento humano, para ter paz nas casas, na rua e esperança de futuro através de uma educação de qualidade. Entender os problemas levantados é o primeiro passo para pensar em como resolvê-los.

Segundo a pesquisa, em ordem decrescente os dez principais valores dos brasileiros são: bem-estar dos próximos – 8,8%; bem-estar da humanidade e da natureza – 8,5%; estabilidade social – 8,3%; autonomia, 8,2%; tradição, 8,1%; prazer, 8%; êxito pessoal, 7,2%; conformidade, 6,5%; vida estimulante, 6,1%; e poder, 5,3%.

Segundo a pesquisa, a responsabilidade de ensinar valores é, em primeiro lugar da família – 43,1%, depois da escola – 24,3%, da religião – 14,5%, do governo – 11,25%, dos amigos – 4,55% e da mídia – 2,3%.

Os resultados mostram que o ’jeitinho brasileiro’ pode estar perdendo espaço para características como a honestidade e a lealdade. Mas a grande novidade, segundo Flávio Comim, economista e coordenador do relatório, foi a estabilidade social, apontada como o terceiro valor mais importante, à frente da autonomia e êxito pessoal. Para Comim, “é um elemento novo. Em levantamentos semelhantes, a estabilidade social costumava aparecer em sétimo lugar. Bem-estar do próximo sempre aparece nos estudos”.

A importância dos valores pode variar de acordo com as regiões do Brasil ou as circunstâncias de vida de cada um. Mulheres e mais velhos são os mais solidários Quem tem maior renda familiar e menos idade cultua mais a autopromoção. As mães são mais conservadoras. Pessoas com formação superior, filhas de mães formadas nas universidades estão mais abertas a mudanças.

Do ponto de vista regional, o nordestino é o mais determinado, conformado e quem mais busca segurança. Os brasileiros mais ligados em prazer estão nas regiões Norte e Centro-Oeste. Os mais solidários estão no Sudeste e os mais abertos a mudanças, no Sul.

A pesquisa do PNUD pode ser mais bem entendida quando confrontada com uma pesquisa feita pela BBC em 27 países pelo Programa sobre Atitudes em Políticas Internacionais (PIPA, na sigla em inglês): 35% dos brasileiros dizem que o capitalismo “tem muitos problemas e precisamos de um novo sistema econômico, sendo a média mundial de 27% que acham a mesma coisa. 64% dos brasileiros defendem mais controle do governo sobre as principais indústrias do país. 89% defenderam que o Estado deve ser mais ativo promovendo a distribuição de riquezas. Segundo Steve Kull, Diretor do PIPA, “os brasileiros não são os mais entusiasmados com a globalização. Os brasileiros estão tão insatisfeitos com o capitalismo que estão interessados em procurar alternativas.”

Está aí, portanto, um retrato de brasileiros e brasileiras, como são, o que pensam o que os impulsiona a agir, como se relacionam na vida social. Não são o egoísmo, a busca da felicidade individual, a autopromoção, o individualismo seus valores primeiros. Há uma base boa e sólida para construir uma sociedade justa, solidária, fraterna. Basta acreditar no povo e oferecer-lhe oportunidade, vez e voz. O futuro do Brasil está em boas mãos.

Por Selvino Heck, que é assessor especial do Presidente da República do Brasil. Da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.adital.org.br.

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