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Navegar contra a maré

Adital – Depois do discurso de Obama, na tarde de 23 de maio de 2008, na Fundação Nacional Cubano-Americana, criada por Ronald Reagan, escrevi uma reflexão intitulada ‘A política cínica do império’ (25 de maio de 2008). (1)

Nela, citei suas palavras textuais ditas diante dos anexionistas de Miami: “Juntos vamos buscar a liberdade para Cuba; essa é minha palavra; esse é meu compromisso… É hora de que o dinheiro estadunidense faça com que o povo cubano seja menos dependente do regime de Castro. Manterei o embargo”.

Depois de incluir vários argumentos e exemplos nada éticos sobre a conduta em geral dos Presidentes que precederam ao que fosse eleito para esse cargo nas eleições de 4 de novembro, escrevi textualmente>

“Vejo-me obrigado a fazer várias delicadas perguntas:

1o É correto que o presidente dos Estados Unidos ordene o assassinato de qualquer pessoa no mundo, sob qualquer pretexto?

2o É ético que o presidente dos Estados Unidos ordene torturar outros seres humanos?

3o O terrorismo de Estado é um instrumento que deve ser utilizado por um país tão poderoso como os EUA para que exista a paz no planeta?

4o É boa e honorável uma Lei de Ajuste que se aplica como castigo a um só país, Cuba, para desestabilizá-lo, mesmo que isso custe a vida de crianças e mães inocentes? Se é boa, por que não se aplica o direito automático de residência aos haitianos, aos dominicanos e demais países do caribe e se faz o mesmo com os mexicanos, centro-americanos e sul-americanos que morrem como moscas no muro da fronteira mexicana ou nas águas do Atlântico e do Pacífico?

5o Estados Unidos pode prescindir dos imigrantes que cultivam vegetais, frutas, e outras esquisitices para os norte-americanos? Quem varreria suas ruas, prestaria serviços domésticos e realizaria os piores e menos remunerados trabalhos?

6o São justas as perseguições aos sem documento, que atingem, inclusive, às crianças nascidas nos Estados Unidos?

7o É moral e justificável o roubo de cérebros e a contínua extração das melhores inteligências científicas e intelectuais dos países pobres?

8o Você afirma que seu país advertiu, há tempos, às potências européias que não admitiria intervenções no hemisfério e também reitera a demanda desse direito, reclamando ao mesmo tempo o direito de intervir em qualquer parte do mundo, com o apoio de centenas de bases militares, forças navais, aéreas e espaciais distribuidas no planeta.Pergunto-lhe: É essa a forma pela qual os Estados Unidos expressa seu respeito pela liberdade, pela democracia e pelos direitos humanos?

9o É justo atacar de surpresa e preventivamente sessenta ou mais escuros lugares do mundo, como os chama Bush, sob qualquer pretexto?

10o É honorável e correto investir milhões de milhões de dólares no complexo militar-industrial para produzir armas que podem aniquilar várias vezes a vida na Terra?”.

Eu poderia ter incluido várias perguntas mais.

Apesar das cáusticas interrogações, não deixei de ser amável com o candidato afro-americano, em quem via muito mais capacidade e domínio da arte da política do que nos candidatos adversários, não somente no partido oposto, mas também no seio de seu próprio partido.

Na semana passada, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou seu Programa de Recuperação Econômica.

No dia 1o de dezembro, apresentou o de Segurança Nacional e também o de Política Exterior.

“Biden e eu temos o prazer de anunciar-lhes nossa equipe de Segurança Nacional… os velhos conflitos não foram resolvidos; novas potências que se afirmam colocam mais pressão sobre o sistema internacional. A disseminação das armas nucleares apresenta o perigo de que a tecnologia mais letal do mundo caia em mãos perigosas. Nossa dependência do petróleo estrangeiro fortalece os governos autoritários e põe nosso planeta em perigo.

…nosso poderio econômico tem que ser capaz de sustentar nossa força militar, nossa influência diplomática e nossa liderança global.

Renovaremos velhas alianças e forjaremos associações novas e duradouras… os valores dos Estados Unidos são o maior que esse país pode exportar ao mundo.

…a equipe que reunimos aqui hoje está especialmente preparada para fazer justamente isso.

…homens e mulheres representam a todos esses elementos do poderio dos Estados Unidos… Eles têm prestado serviços como militares e como diplomatas… partilham meu pragmatismo sobre o uso do poder e meus objetivos acerca do papel dos Estados Unidos como líder do mundo”.
Conheço a Hillary Clinton” -diz.

Não esqueço que ela foi a rival do presidente eleito, Barack Obama, e esposa do presidente Clinton, que sancionou as leis extraterritoriais Torricelli e Helms Burton contra Cuba. Durante sua luta pela postulação, ela se comprometeu com ditas leis e com o bloqueio econômico. Não me queixo, simplesmente faço constar.

“Sinto-me orgulhoso de que ela seja nossa próxima Secretária de Estado”, prosseguiu Obama, “que gozará de respeito em todas as capitais e, evidentemente, terá a capacidade para fazer avançar nossos interesses em todo o mundo. A designação de Hillary é um sinal a amigos e inimigos da seriedade de meu compromisso…

Em momentos em que enfrentamos uma transição sem precedentes em meio a duas guerras, pedi a Robert Gates que continue no cargo de Secretário de Defesa…

A nosso secretário Gates e a nosso exército, darei uma nova missão tão logo assuma o cargo: a responsabilidade de por fim à guerra no Iraque mediante uma transição exitosa com vistas ao controle iraquiano”.

Chama-me a atenção que Gates é republicano e não democrata; a única pessoa que ocupou os cargos de Secretário de Defesa e Diretor da Agência Central de Inteligência, que esteve em um e em outro cargo sob a direção de governos de um e de outro partido. Gates, consciente de sua popularidade, declarou que primeiro se certificou de que o presidente eleito o escolhia para todo o tempo que fosse necessário.

Enquanto Condoleezza Rice viajava com instruções de Bush a Índia e ao Paquistão, para mediar as tensas relações entre ambos países, o Ministro de Defesa do Brasil autorizava há dois dias uma empresa brasileira a fabricar mísseis MAR-1; porém, ao invés de um só como era feito até agora, seriam produzidos cinco deles para vender ao Paquistão 100 mísseis por um valor total estimado em 85 milhões de Euros.

“Esses mísseis são acoplados a aviões e desenhados para localizar radares em terra. Funcionam como uma forma de monitorar muito eficazmente o espaço e também a superfície”, afirma textualmente o Ministro, em sua declaração pública.

Obama, por sua parte, continua imperturbável em sua declaração do dia 1o de dezembro: “Para avançar, continuaremos fazendo os investimentos necessários para o fortalecimento de nosso exército e para o aumento de nossas forças terrestres, com o fim de derrotar as ameaças do século XXI”.

Sobre Janet Napolitano, assinalou: “Contribui com a experiência e a habilidade executiva que necessitamos na Secretaria de Segurança Interior…

Janet assume esse papel crucial tendo aprendido as lições dos últimos anos, algumas delas dolorosas, desde o 11 de setembro até o Katrina… Ela compreende, como todos, o perigo de uma fronteira insegura e será uma líder capaz de reformar um Departamento que cresce sem controle, sem deixar de proteger nossa pátria”.

Essa conhecida figura havia sido designada por Clinton como Fiscal do Distrito de Arizona, em 1993, ascendida a Fiscal Geral do Estado, em 1998; foi postulada pelo Partido Democrata em 2002 e eleita mais tarde Governadora desse Estado fronteiriço, que constitui o caminho de entrada mais transitado pelos sem documentos. Foi reeleita como Governadora em 2006.

Sobre Susan Elizabeth Rice, disse: “Susan sabe que os desafios globais que enfrentamos exigem instituições globais que funcionem… necessitamos as Nações Unidas mais eficazes”, afirma com desdém, “como órgão de ação coletiva contra o terrorismo e contra a proliferação, a mudança climática e o genocídio, a pobreza e as enfermidades”.

Sobre James Jones, Assessor de Segurança Nacional, expressou: “Estou convencido de que o general James Jones está especialmente bem preparado para ser um hábil e enérgico assessor de Segurança Nacional. Gerações de Jones prestaram serviços no campo de batalha, desde as praias de Tarawa, na Segunda Guerra Mundial, até Foxtrot Ridge, no Vietnam. A Medalha de Prata de Jim é parte do orgulho desse legado… Foi chefe de um pelotão no combate, Comandante Supremo das Forças Aliadas na guerra” (refere-se a OTAN e à Guerra do Golfo) “e trabalhou pela paz no Oriente Médio”.

Jim está concentrado nas ameaças de hoje e do futuro, pois compreende a conexão entre a energia e a segurança nacional, e tem trabalhado na primeira linha da instabilidade global desde Kosovo até o norte do Iraque e no Afeganistão.

Ele me assessorará sobre a forma de utilizar com eficiência todos os elementos do poderio americano para derrotar as ameaças não convencionais e promover nossos valores.
Confio em que esta é a equipe que necessitamos para um novo começo na Segurança Nacional dos Estados Unidos”.

Com Obama se pode conversar onde deseje, já que não somos predicadores da violência e da guerra. Deve ser recordado de que a teoria da cenoura e do garrote não terá vigência em nosso país.

Nenhuma das frases de seu último discurso contem elementos de resposta às perguntas que formule o passado 25 de maio há somente seis meses.

Não direi agora que Obama é menos inteligente; pelo contrário, está demonstrando as faculdades que me permitiram ver e comparar sua capacidade com as do medíocre adversário John McCain, a quem por pura tradição a sociedade norte-americana esteve a ponto de premiar suas “façanhas”. Sem crise econômica, sem televisão e sem Internet, Obama não ganharia as eleições vencendo o onipotente racismo. Tampouco, sem os estudos que realizou primeiro na Universidade de Columbia, onde se graduou em Ciências Políticas e, depois, na de Harvard, onde estudou Direito, o que lhe permitiu converter-se em homem de classe modestamente rica. Não era certamente Abraham Lincoln, nem esta época corresponde àquela, pois trata-se de uma sociedade de consumo, onde o hábito de poupar foi perdido e o de gastar se multiplicou.

Alguém teria que dar uma resposta serena e sossegada que deve navegar hoje contra a poderosa maré das ilusões que Obama despertou na opinião pública internacional.

Ainda tenho algumas mensagens por analisar… São notícias de várias partes do mundo. Calculo que somente Estados Unidos gastará nessa crise econômica mais de 6 bilhões que somente poderão se avaliados pelos demais povos do mundo com suor, fome, sofrimento e sangue.

Nossos princípios são os de Baraguá. O império deve saber que nossa pátria pode ser convertida em pó; porém, os direitos soberanos do povo cubano não são negociáveis.

Nota:

Para ler o artigo ‘A política cínica do império’ em espanhol: http://www.adital.com.br/SITE/noticia.asp?lang=ES&cod=33228

Tradução: ADITAL

Por Fidel Castro Ruz.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.adital.org.br.

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