fetec@fetecpr.com.br | (41) 3322-9885 | (41) 3324-5636

Por 18:37 Sem categoria

Dilma, 100 dias: o jogo de claro-escuro da imprensa

A pauta, o foco e o interesse dos colunistas da imprensa escrita tem sido o de elogiar a presidenta Dilma Rousseff ao mesmo tempo em que trata de desmerecer seu antecessor no cargo. Um jogo de claro-escuro em que muitas vezes é apenas claro ou apenas escuro.

Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa

Partidos de oposição ao governo do ex-metalúrgico não economizaram em criar epítetos para rotular Dilma Rousseff. Chamá-la de “poste” virou lugar comum ao longo de 2010. Chamá-la de “marionete”, de ser criada artificialmente no laboratório do ex-presidente Lula, pontuou os debates com os presidenciáveis no segundo semestre de 2010. Não faltou quem não arriscasse uma praga poderosa de que, uma vez eleita, não governaria por si mesma, estaria sempre à sombra de seu antecessor e criador. No mesmo caminho, presidenciáveis com algum bom índice de intenção de votos nas pesquisas Ibope/Datafolha/Vox/Sensus, não hesitavam em lhe atribuir um caráter fraco. É de José Serra a sentença definitiva: “Na primeira oportunidade, uma vez eleita, Dilma trai Lula!”

Mais alguns dias e teremos sobrevivido a todos esses prognósticos fracassados. Nem Dilma tem governado o Brasil como se fosse um poste, uma marionete, nem passa-nos a impressão, por mais leve que seja, de que para espirrar necessita de prévia autorização de seu antecessor no terceiro andar do Palácio do Planalto. Também nenhum de seus atos de governo, não obstante a torcida da grande imprensa para que tal ocorresse, nos autoriza a pensar em uma traição da presidenta ao ex-presidente.

Nesses quase 100 dias de 2011, o Brasil governado por uma mulher não foi para o limbo por tantos aventado, esperado, anunciado. A presidenta anunciou logo de partida um possível corte de formidáveis R$ 50 bilhões no Orçamento da União. Desancou o governo de Mahmoud Ahmadinejad logo em sua primeira entrevista à imprensa internacional: “Não apoio um governo que apedreja uma mulher”. Referia-se à iraniana Sakineh Ashtiani.

Vendo as águas tragarem a precária infraestrutura da região serrana do Rio de Janeiro logo nas primeiras semanas de sua gestão, não pensou duas vezes, tomou um helicóptero, sobrevoou as áreas inundadas, destruídas, as casas soterradas, as vidas interrompidas e de pronto autorizou a imediata liberação de verbas para ajudar os infelizes sobreviventes da tragédia carioca.

Sinais de mudança
Montou um governo pra chamar de seu. Boa parte dos antigos colegas de ministérios nos anos Lula da Silva não voltou à Esplanada. Trouxe gente nova, como é o caso de Ana de Hollanda para a Cultura, evitou o fatiamento das estatais não entregando seu comando a partidos de sua base de sustentação. Pagou pra ver e viu. Assistiu à gritaria por um salário mínimo superior aos R$ 545,00 oferecidos por sua equipe econômica; não recuou, ao contrário, autorizou seus apoiadores no Congresso Nacional a levarem logo o tema a voto. Ganhou, e bem, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal. E assim ficou conhecendo quem merecia e quem não merecia sua confiança nas duas Casas do Congresso.

Barack Obama veio ao Brasil e a presidenta o recebeu com elegância porém com firmeza, chegou mesmo a convidar os ex-presidentes para recepção ao colega americano nos belos salões do Itamaraty. Aceitaram o convite José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Luiz Inácio Lula da Silva, o único que o convidado chamou de “o cara”, simplesmente não deu as caras. E ficou por isso mesmo, não obstante o esperneio da grande imprensa com “tamanha desfeita” para com o primeiro presidente negro a ocupar a Casa Branca.

Dilma diz e repete a quem quiser ouvir que a liberdade de imprensa é sagrada. E não fala isso para agradar a imprensa ou para lhe parecer meramente amistosa. A verdade é que a presidenta não se sente nem um pouco incomodada com as manhas e artimanhas da grande imprensa. Parece estar sempre a nos dizer que nossa grande imprensa “não fede nem cheira”. E articulou com maestria para retirar da presidência da Vale, nosso principal portento empresarial na cena internacional, o economista Roger Agnelli, empresário queridinho da vasta maioria dos líderes da oposição e arrebatador da simpatia da totalidade de nossos comentaristas de política e economia, nos jornais e revistas, nas rádios e nos telejornais. Dilma bancou o nome de Tito Botelho Martins e o Bradesco e demais acionistas o referendaram. Simples assim.

A presidenta voltou também à carga na cena internacional. É que pela primeira vez em oito anos o Brasil votou – no dia 24/3/2011 – contra o Irã em um organismo da ONU, o Conselho de Direitos Humanos. O órgão aprovou por 22 votos a favor, 7 contra e 14 abstenções a designação de um relator especial para investigar denúncias de violações de direitos humanos no país persa. Trata-se de uma sinalização de mudança no governo Dilma Rousseff em relação ao de Lula, que vinha evitando críticas ao Irã. Desnecessário dizer que quem mais festejou a mudança do voto brasileiro foi nossa imprensa… afinal, estamos novamente ao lado dos “mocinhos”, aqueles que controlam com mão de ferro o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O rumo e o remo
E como a imprensa se comportou nesses 100 dias? Foi o comportamento típico de quem espera cenários apocalípticos e, por um choque de realidade, se vê às voltas com uma normalidade política, econômica e institucional como há muito tempo não víamos no país. É que a grande imprensa jogou todas as suas fichas na certeza de que os temores (ou tremores?) da oposição demo-tucana iriam se concretizar com o avanço regular dos dias no calendário. E isso, com absoluta certeza, não aconteceu. É como se nossa grande imprensa não soubesse distinguir o que é propaganda política do que é realidade política. E também não soubesse separar até onde vai a militância política na imprensa e onde começa o verdadeiro trabalho jornalístico.

Os principais devaneios dessa imprensa se alternaram entre os seguintes blocos de temas principais:

1. Ruptura política (e quase) imediata da presidenta com o ex-presidente Lula;

2. Reconhecimento de uma herança pra lá de maldita nas contas públicas da União;

3. Formação de um ministério capenga, altamente fisiológico para atender ao imenso arco de alianças partidárias que lhe sustentaram a vitória na corrida para o Planalto.

Alheia à falta do que fazer de tantas editorias de Política, ressalte-se que ainda na segunda-feira (28/3), a presidenta Dilma voltou a afirmar que que “recebeu um país diferente, em condições de dar um salto maior ainda do que Lula conseguiu dar em seu primeiro mandato”. E não ficou por aí: “Ele me legou essa herança e, tenham certeza, vou honrá-la”.

Constatando que esse labirinto de ideias disparatadas não apresentariam no curto prazo qualquer porta de saída, a imprensa vistosa passou a semear diferenças entre o governo Lula e o governo Dilma. Foram generosos com Dilma ao louvar repetidas vezes sua discrição, seu jeito pouco afeito às câmeras, holofotes e microfones. E ressentidos ao tratar todo elogio à postura da presidenta como um petardo certeiro à postura do ex-presidente Lula. A pauta, o foco e o interesse dos colunistas da imprensa escrita – normalmente amparados nas marquises de O Estado de S.Paulo, a Folha de S.Paulo, O Globo, Veja e Época – tem sido o de elogiar a presidenta ao tempo em que trata de desmerecer seu antecessor no cargo. Um jogo de claro-escuro em que muitas vezes é apenas claro ou apenas escuro.

Não faltam colunistas se debatendo para encher suas colunas com algo que seja minimamente inteligente ou, na falta dessa qualidade, minimamente sensato. É o caso de Merval Pereira, que recentemente escreveu que “a presidenta Dilma Rousseff está acertando onde Lula havia errado e errando onde Lula havia acertado”. Esta percepção de Pereira demonstra à larga a boa vontade com que nossa grande imprensa se esforça para oferecer uma cobertura equilibrada e justa à ocupante da Presidência da República.

Não há quem não veja a oposição ao governo Dilma Rousseff como desorientada, sem discurso, inábil e inapta para conduzir temas cruciais para o futuro do país como as reformas política, tributária e a nunca esquecida reforma previdenciária. E se não consegue se organizar ao menos para debater temas como esses, como imaginar que poderiam formar um contingente oposicionista bem qualificado para se opor às políticas de governo mantidas ou criadas por Dilma Rousseff?

Meu avô Venâncio Zacarias, velho líder salineiro, político calejado nos grotões do Rio Grande do Norte, diria que a oposição atual está “sem rumo e sem remo”, e que nem “com o vento soprando a seu favor consegue seguir adiante”. Sei não, a continuar nesse trote, a cobertura política do Planalto poderá deslocar muitos de seus vistosos colunistas para engrossar as editorias de Esportes, Mundo e Ecologia.

Por Washington Araújo, que é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email – wlaraujo9@gmail.com

=================================

A derrota de Lula

A derrota de Lula seria a de ter escolhido como sucessora alguém que está rompendo com ele e redirecionando o Brasil para voltar a seu “leito natural” – o de “permanent fellowship” com os Estados Unidos.

Num artigo (Brazil stares down the US on Libya), publicado no site da Al Jazeera, o professor de História da New York University, Greg Granding, mostra por A + B – C que o governo brasileiro, sob Dilma Rousseff, recebeu amavelmente (como manda o protocolo) a visita do presidente Obama e família, mas manteve os pontos básicos da agenda brasileira em relação aos Estados Unidos, ou seja, defesa dos interesses nacionais sem conflito aberto mas também sem alinhamento com Washington.

Indo adiante, reitera o articulista essa visão ao comentar a posição brasileira no Conselho de Segurança da ONU, não apoiando a ação aérea dos Estados Unidos e outras potências ocidentais na Líbia, no que se alinha com Rússia, China, Alemanha, Argentina, Uruguai e outros países, embora os dois primeiros não tenham usado seu poder de veto.
Enquanto isso, a “distância” da política externa de Dilma/Patriota em relação à de Lula/Amorim segue sendo constantemente sublinhada na nossa mídia oligárquica, em artigos ou editoriais.

A visão de Dilma/Patriota seria pautada por “realismo”, “cooperação compatível” (a referência direta é a China, mas entende-se que o alcance da expressão vai mais longe), como em recente editorial do Estadão. Já a visão de Lula/Amorim – incluindo a do ministro Guido Mantega – se pautaria por ser “terceiro mundista”, “juvernil”, eivada de “ingenuidade”.

Há até um comentário lateral muito importante: “Até agora, as autoridades chinesas se mostraram muita mais lúcidas que as brasileiras na concepção e na defesa dos seus interesses nacionais”. Entendo essa frase de duas maneiras. Numa, mais técnica, vejo que o editorial se compraz com o novo imperialismo chinês, que exporta tudo – até mão de obra – faz dumping no mercado, intervém diretamente no câmbio, etc. Noutra, mais galhofeira, entendo que o editorial pode resvalar para elogio implícito de a China manter a rédea curta em relação à Coréia do Norte e o Tibete sob tutela, enquanto o Brasil não faz o mesmo em relação ao Paraguai e a Bolívia.

Essa postura retrógrada e retroativa, além de anacrônica, vem da posição de querer, ainda, impor uma derrota a Lula, nem que seja post-facto, em relação às eleições de 2002, 2006 e 2010 (em que Dilma ganhou). Já que a frente social não dá margem mais a críticas de peso, a econômica está sub judice com a crise mundial, o estremecimento do euro e a desvalorização forçada do dólar, resta para essa visão cujo alcance é digno de uma ameba “provar” a absoluta inadequação da política externa de Lula e seus colaboradores aos interesses brasileiros – quer dizer – aos interesses das visões oligárquicas que querem balizar nossa diplomacia e lastrear nossas políticas de estado.

A derrota de Lula seria a de ter escolhido como sucessora alguém que está rompendo com ele e redirecionando o Brasil para voltar a seu “leito natural” – o de “permanent fellowship” com os Estados Unidos.

Nem mesmo a Alemanha, que quase sempre se pautou pelo apoio irrestrito às políticas norte-americanas desde os tempos de Konrad Adenauer, segue mais esta via. Isso, aliás, tem levantado muitas críticas ao ministro de Relações Exteriores alemão Guido Westervelle por parte dos que, aqui como aí, pensam que a política nacional do país deve se alinhar automaticamente com os interesses norte-americanos. Apesar da Alemanha ter enviado tropas para o Afeganistão (sob o governo social-democrata e verde), esse alinhamento não existe mais, pelo menos do mesmo modo. Além do caso da Líbia, dou outro exemplo significativo: quando ainda os EUA se calavam sobre a questão dos direitos humanos no Egito, Westerwelle foi um dos únicos chanceleres a questionar o então presidente Hosni Mubarak a esse respeito.

Mas para o mundo onde vivem os arautos do sonho oligárquico regressivo isso não existe. Nesse mundo, tudo continua como dantes no quartel… quero dizer, no curral do Abrantes. Se o povo consagrou Lula e Dilma, e a continuidade (óbvia, só não vê quem não quer) entre ambos, inclusive na política externa – com a evolução e a flexibilidade que esse “admirável mundo novo” requer, “derroguemos o povo”. Na “nossa” eleição (a do pensamento oligárquico), ele perdeu, e perderá para sempre. Pelo menos até o “nosso” último suspiro (o dessa vocação oligáquica) que, esperemos (agora, nós, os “terceiro mundistas, juvenis e ingênuos”), não esteja muito longe, embora saibamos que, parodiando o ditado, “coisa ruim se revira até no túmulo”.

Por Flávio Aguiar, que é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.

ARTIGOS COLHIDOS NO SÍTIO www.cartamaior.com.br

Close