Em visita oficial aos Estados Unidos, a presidente Dilma Rousseff criticou a política cambial adotada pelos países ricos, que prejudica o crescimento dos emergentes, entre os quais o Brasil. E cobrou do presidente Barack Obama, que a recebeu em audiência, na Casa Branca, nesta segunda (9), a construção de uma política de investimentos que equilibre essa expansão monetária.
Najla Passos
Em visita oficial aos Estados Unidos, a presidente Dilma Rousseff criticou a política cambial adotada pelos países ricos que, para driblar a crise internacional, desvalorizam excessivamente suas moedas, prejudicando o crescimento dos emergentes, entre os quais o Brasil. E cobrou do presidente Barack Obama, que a recebeu em audiência, na Casa Branca, nesta segunda (9), a construção de uma política de investimentos que equilibre essa expansão monetária.
“Discutimos a nossa preocupação diante da crise internacional que levou instabilidade, baixo crescimento e desemprego a várias regiões do mundo. E também manifestamos que reconhecemos o papel dos bancos centrais, especialmente, nos últimos meses, do Banco Central europeu, em impedir uma crise de liquidez de altas proporções, afetando a todos os países. Mas também manifestamos para o presidente a preocupação do Brasil com a expansão monetária, sem que os países com superávits equilibrem essa expansão monetária com políticas fiscais baseadas na expansão dos investimentos”, afirmou, acompanhada de Obama, em pronunciamento à imprensa, ao final da reunião.
De acordo com a presidenta, o papel dos Estados Unidos é primordial para a retomada do crescimento. “A grande flexibilidade da economia norte-americana, a liderança na área de ciência, tecnologia e inovação tida pelos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, as forças democráticas que fundam a nação americana tornam importante, tanto na contenção da crise quanto na retomada da prosperidade. Os países do BRICS [bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] respondem, hoje, por uma parte muito expressiva do crescimento econômico, mas é importante perceber que a retomada do crescimento, num horizonte de médio prazo, passa também pela retomada expressiva do crescimento americano”, continuou ela.
Ainda sobre questões multilaterais, a presidenta disse à imprensa que conversou com Obama sobre a IV Cúpula das Américas, que acontece no próximo final de semana, em Cartagena, na Colômbia. A presidenta afirmou que a Cúpula irá discutir estratégias para aprofundar a integração entre os países, expandir os mercados internos e evitar as políticas protecionistas, “principalmente às voltadas ao câmbio”. E, também, traçar estratégias para combater o tráfico internacional de drogas.
Dilma Rousseff também destacou a importância da reunião do programa Governo Aberto, que será realizada em Brasília, no próximo dia 17. E para a qual a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, já confirmou presença. “Nós consideramos essa política de governo aberto essencial para o combate à corrupção, a garantia de maior transparência e também de maior eficiência no gasto público, na medida que se melhora a possibilidade de avaliação e monitoramento. Eu considero que isso contribui, também, fortemente, para a democracia em nosso país. E também, o acesso do cidadão à informação que lhe é devida”.
A Conferência Mundial do Meio Ambiente, a Rio + 20, que será realizada em junho, foi outro tema que entrou na pauta. “Eu tenho certeza que a cooperação entre o Brasil e também o nosso estreito relacionamento e parceria são muitos importantes para o nosso país, mas também para um desenvolvimento, no século XXI, que se caracteriza, como é o tema da Rio+20, para qual eu convidei o presidente Obama, que é crescer, incluir e sermos capazes de conservar e proteger o meio ambiente, que é, nada mais, nada menos, a definição de desenvolvimento sustentável”.
A reunião de Dilma com Obama durou cerca de 1h30, tempo em que eles discutiram também as relações bilaterais entre os dois países. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Os Estados Unidos foram o 2º principal parceiro comercial brasileiro em 2011, após a China. Entre 2007 e 2011, o intercâmbio comercial brasileiro com o país cresceu 37%, passando de US$ 44 bilhões para US$ 60 bilhões.
“O investimento brasileiro nos Estados Unidos, o investimento direto, já chega a 40% do total do investimento americano no Brasil. Todas essas relações apresentam resultados muito importantes, mas, ao mesmo tempo, demonstram que nós estamos aquém das nossas possibilidades. Tanto o Brasil como os Estados Unidos têm áreas estratégicas nas quais cooperar, ou melhor, aprofundar a sua cooperação”, comentou a presidenta. Conforme ela, a realização da Copa do Mundo, das Olimpíadas e as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) abrem amplas oportunidades de investimentos no país.
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Nós e eles: a viagem de Dilma aos EUA
As relações do Brasil com os EUA quase sempre foram de subserviência. Hoje mudaram. Não por eles, que continuam imperiais, prepotentes, sem consciência da sua decadência.
Terminada a segunda guerra, Octávio Mangabeira beijou as mãos do presidente dos EUA, Harry Truman, que visitava o Brasil. Instaurada a ditadura militar, Juracy Magalhaes, ministro de Relações Exteriores, adaptando a frase da General Motors, afirmou: “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil.” Logo apos os atentados de 2001 nos EUA o então ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Lafer, se submeteu a tirar os sapatos para ser controlado em um aeroporto dos EUA. Os três são da mesma linhagem tucano udenista, sombras que deixamos para trás.
As relações entre o Brasil e os EUA mudaram, porque mudamos nós e porque o mundo está mudando. A Presidenta que chega hoje aos EUA é uma mulher, que lutou contra a ditadura militar que os EUA promoveram e apoiaram, eleita por seu antecessor, um operário que colocou o Brasil no caminho da soberania e do respeito internacional.
Não importa se o tratamento que eles deram ao seu aliado canino há poucos dias, foi pomposa, cheia de reconhecimentos e salamaleques. Que eles se abracem na decadência anglosaxã. Temos certeza que eles trocariam imediatamente esse apoio caquético por uma aliança estratégica conosco, se estivéssemos dispostos a isso.
Mas não estamos. Temos uma política externa independente, digna, que brecou o projeto norteamericano da Área de Livre Comercio das Américas (ALCA), que rejeita Tratados de Livre Comércio com os EUA, que privilegia a América Latina e seus projetos de integração regional, que prefere as relações com o Sul do mundo que com o Norte.
Não estarão na mesa os grandes temas da política internacional nas reuniões de Dilma com Obama. Porque sobre eles nós temos posições irreversivelmente antagônicas – Cuba, Irã, Palestina, crise econômica interacional, entre tantos outros.
Serão relações bilaterais, sobre temas particulares, entre uma potência decadente e uma potência emergente. Uma que projeta o mundo do século XX e outra que reflete o novo mundo, o do século XXI. Ninguem tem dúvidas qual delas tem projetada uma tendência descendente no novo século e qual tem uma tendência ascendente. Ninguém tem dúvidas que o século norteamericano ficou para trás e o novo século já é o século do Sul do mundo. Como representante desse mundo é que Dilma viaja hoje, digna, com a força moral da nossa soberania, aos EUA.
Por Emir Sader
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