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Polarização de quem caras pálidas?

Por que não checar os números? Resultados contra resultados, estendidos na mesa ou nas telas de TV. Quem fez mais para o país em todos os tempos?

Por José Carlos Peliano (*) Arquivo

Se o Brasil elegesse Lula os empresários iriam sair daqui e investir noutros países. O futuro do país estaria ameaçado irremediavelmente. Se nos lembramos bem foi este o recado transmitido pela mídia em 2002 e alardeado páginas e páginas, telas e telas de TV, regiões afora.

Essa a polarização escolhida e lançada pelos grandes meios de comunicação. De um lado o futuro do país nas mãos dos empresários, de outro o atraso, os seguidores do PT e aliados, sonhadores, que não tinham ainda governado. O pânico foi insuflado entre os eleitores. Ou se apostava no escuro, ou se seguiria uma vez mais a procissão do poder do capital e seus interesses coligados.

Lula eleito, o sonho derrotou a voz da mídia, ensaiada às custas de muitos investidores interessados, daqui e do exterior. Lula reeleito de novo quatro anos após a contragosto dos poderosos meios de comunicação de plantão. O povo em sua maioria de votantes confirma nas urnas o primeiro e único presidente brasileiro nordestino, retirante, torneiro mecânico. As elites indignadas não admitiram nunca que carne de sol substituísse baby beef.

Pois, foi esse perseguido pela mídia todo o tempo de seus oito anos de governo quem conseguiu proezas até então nem pensadas. Contrariamente aos governos anteriores, despediu-se das amarras do FMI e passou a orientar a sua própria política econômica. Sem mandantes, nem consultores enviados pelos mesmos interesses.

Pôs Lula o país na rota do crescimento outra vez a despeito da grave crise internacional que tomou conta do mundo. Países antes considerados seguros e fortes, como os Estados Unidos e os caciques da Europa, todos eles sofreram amargamente o baque com quedas na expansão econômica e nos níveis de emprego. Muitos deles seguiram a fila e se dependuraram no FMI.

O Brasil fora disso. A mídia nacional assumiu postura cínica e desavisada. Nada ou pouco a falar das conquistas dos governos de Lula e muito a falar de eventuais tropeços, mesmo que inventados por previsões espúrias de dominadores de bolas de cristal feitas nas garagens de suas casas ou nas intrincadas elucubrações saídas de seus computadores.

A polarização do embate político nasceu das páginas dos jornais, das telas de TV e dos mais nervosos radialistas e comentaristas. Nunca admitiram os governos capitaneados por Lula. Nem de sua seguidora Dilma. A mídia perdeu no voto popular, mas não se vergou à pompa e circunstância. Pau neles, o lema que comandou os noticiários, comentários e entrevistas desde a eleição de 2002!

Entra Dilma e o refresco não chega. Fizeram de tudo e por tudo para desacreditar o governo, colocá-lo em cheque, ameaçá-lo de uma intriga ou de outra. A conta não terminava. Começado em Lula e esticado em Dilma, apareceu o famigerado mensalão, alcunha dada pela mídia antagonista. Bordoada midiática por todos os lados, diariamente, de manhã, de tarde e de noite. Intrigas políticas ensopadas com interesses contrariados ensaiaram a maior polarização já vista e vivida na estória republicana do país.

Hoje a polarização criada pela mídia começa a pagar seu preço pela reprovação de entidades jurídicas e advogados notórios do país ao comandante do processo do mensalão por arbitrariedades e ilegalidades cometidas.

Uma outra das mais importantes e marcantes conquistas dos doze anos de Lula e Dilma, depois do adeus ao FMI, a queda na desigualdade de rendas, foi relegada a segundo plano pela mídia. Não se menciona. Nem a oposição fala a respeito porque permaneceu em seu papel de oposição pela oposição. Juntas, mídia e oposição, fizeram e ainda fazem de tudo para descaracterizar, desqualificar e polarizar os doze anos.

É verdade que muito do crescimento econômico tímido do Brasil nos últimos anos está nas mãos de empresários que igualmente querem virar o barco. Alimentam-se mutuamente, mídia, oposição e alguns empresários. Embora os governos de Lula e Dilma tenham facilitado sobremaneira a vida deles com linhas de crédito e financiamento e programas de investimento – veja o PAC por exemplo.

Candidato a presidente e consultores associados querem agora ir contra os aumentos do salário mínimo. O outro candidato nem programa definido tem. Quer a mídia e a oposição jogar tudo fora? O avanço social conseguido nos três governos, reconhecido apenas pela mídia e governos estrangeiros, teve sua razão mais importante nos aumentos maiores do salário mínimo em relação à inflação. Querem voltar atrás. Esta a polarização contra os mais pobres do país que as campanhas elaboram nos bastidores, mas temem jogar no ar.

E vêm agora falar de polarização exatamente porque o PT colocou no ar uma chamada eleitoral alertando para que o país não volte atrás? Este o poder sub-reptício da mídia e da oposição. Criaram a polarização e jogam-na contra o PT e seus governos! Mas a maioria dos eleitores até agora souberam discernir o joio do trigo. Com os defeitos que possam ter encontrado, o pão que saiu da forma dos doze anos ainda é saboroso e saudável.

E o cinismo continua. Boa parte da mídia irá lucrar muito com a Copa e depois com as Olimpíadas. Mas ao mesmo tempo critica a construção dos estádios, a arrumação da infraestrutura urbana, a melhoria dos aeroportos, a qualidade dos serviços. Uma no cravo, outra na ferradura.

Chamaram as primeiras manifestações de bandos de baderneiros. Hoje conclamam a importância delas contra os gastos excessivos para a realização da Copa. O baluarte da dignidade jornalística global chegou nas telas de sua TV a apontar os bandos de baderneiros das manifestações. Seu canal e repórteres passaram a ser então acuados nas coberturas. Voltou atrás dias depois para reconsiderar e falar bem dos antigos baderneiros virando a metralhadora midiática novamente contra o governo.

Se querem continuar a polarização por que não checar os números. Resultados contra resultados, estendidos na mesa ou nas telas de TV. Quem fez mais para o país em todos os tempos? Os doze anos de Lula e Dilma ou os anteriores todos juntos? O que a mídia, a oposição e os novos candidatos a presidente têm a dizer? Sem tergiversarem nem tirarem engodos de suas bolas de cristal?

(*) Economista

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Polarizacao-de-quem-caras-palidas-/4/30945

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O poder, cadê o poder?

Os eixos fundamentais do poder político conservador na sociedade, hoje, se articulam em torno do sistema financeiro e do monopólio privado da mídia.

por Emir Sader em 15/05/2014 às 08:21

Depois do desmascaramento do caráter supostamente neutro do Estado propugnado pelo liberalismo, pela denúncia da sua natureza de classe por Marx, a contribuição de Gramsci redefinindo o poder sob a forma da hegemonia, foi a mais importante para a teoria do Estado e do poder nas sociedades capitalistas.

Nas sociedades “ocidentais”, mais complexas, o poder não se concentrava mais no aparato de Estado, mas se enraizava em distintas instancias da sociedade, onde era necessário dar a batalha essencial para a substituição do poder de classe da burguesia por um poder majoritário dos trabalhadores.

Como uma de suas consequências, a estratégia de “tomada do poder” da esquerda, que havia tido sucesso na Rússia, deixava de ter vigência nas sociedades ocidentais, mais complexas, onde a disputa fundamental se daria pela hegemonia na sociedade, que desembocaria na construção de um poder alternativo ao do Estado burguês.

A estratégia bolchevique se estendeu ainda para a China, para Cuba, para o Vietnã, para a Nicarágua, sem questionar a visão de Gramsci, por serem consideradas ainda sociedades periféricas, em que o controle do Estado permitia o controle do poder efetivo na sociedade. Foi a partir desse momento que a disputa hegemônica foi se generalizando como forma de luta pelo poder, conforme as sociedades foram se tornando mais complexas, as relações de poder se disseminando por distintos espaços da sociedade.

As maiorias eleitorais, a capacidade militar de assalto do Estado, características de duas correntes dentro da esquerda – a social democracia por um lado, os movimentos guerrilheiros por outro – ficaram superadas, diante do predomínio dos poderes econômicos e de formação da opinião pública.

O fim da guerra fria com a vitória do bloco ocidental liderado pelos EUA mudou também a correlação de forças no plano militar a nível mundial com seus reflexos a nível nacional. Os movimentos guerrilheiros centroamericanos se deram conta disso e buscaram se reciclar – com sucesso em El Salvador, fracassando na Guatemala – para a luta política institucional. As vias pacíficas de transformação revolucionária do Estado encontraram na derrubada do governo de Salvador Allende no Chile seus obstáculos – os poderes econômico, internacional, militar e midiático da direita.

O golpe militar no Brasil já havia demonstrado que não era necessária uma ameaça real ao capitalismo para que essas forças se desatassem e rompessem o tipo de democracia existente. A combinação entre a força econômica, internacional, midiática e militar se desatou diante de riscos muito menores para o poder tradicional.

Na era da globalização neoliberal, a esquerda herda derrotas de dimensão estratégica: o fim da primeira forma de existência do socialismo, com a URSS e o campo socialista; o enfraquecimento do Estado, da política, dos partidos, das soluções coletivas, dos direitos, da cidadania. Tudo em favor do mercado, do consumidor, do livre comércio, da globalização neoliberal.

A esquerda passou a estar na defensiva, ao não ter resposta a dar ao diagnóstico neoliberal de que as economias deixavam de crescer pelas travas das regulamentações estatais, da burocracia e da corrução estatal, dos excessivos direitos dos trabalhadores, das travas nacionais, da ineficiência dos Estados. Com a apologia das empresas e dos empresários, da livre circulação do capital, do Estado mínimo, da desregulamentação. Além da diabolização definitiva do socialismo e a naturalização do capitalismo e das formas liberais de democracia.

Nesse marco de globalização do modelo neoliberal – nunca um modelo se estendeu tanto e em tão pouco tempo como o neoliberal -, setores da própria esquerda tradicional foram aderindo a modalidades de neoliberalismo – do PS francês ao espanhol, do nacionalismo mexicano do PRI ao argentino do Carlos Menem, do socialismo chileno aos tucanos brasileiros. O consenso do bem estar social foi substituído pelo consenso do mercado.

Além das transformações econômicas, – aberturas dos mercados nacionais, financeirizacao das economias,  desindustrialização da periferia, desterritorialização dos grandes investimentos do centro do capitalismo, extensão das terceirizações, privatizações, – se somaram as sociais – mercantilização das relações sociais, penetração do poder do dinheiro em todos os espaços sociais, projeção dos banqueiros como magnatas maiores, precarização das relações de trabalho, – e as políticas – naturalização da democracia liberal como “a democracia”, enfraquecimento dos partidos, desmoralização dos governos e dos parlamentos, projeção da mídia como direção política da direita.

O modelo neoliberal foi se enfraquecendo conforme as fragilidades da hegemonia do capital financeiro sob sua forma especulativa foram aparecendo claramente. Na América Latina, as três maiores economias foram sendo vitimas das crises financeiras típicas do neoliberalismo: Mexico em 1994, Brasil em 1999, Argentina em 2001/2002.

De novo, tal qual se havia dado no começo do século XX, as crises explodiram na periferia, conforme o capitalismo central se fortaleceu, exportando as contradições mais profundas para os países do Sul do mundo. Mas essas crises geraram, em países da America Latina, o esgotamento do modelo neoliberal e o surgimento de governos pós-neoliberais. Estes avançaram pelas linhas de menor resistência do modelo neoliberal: políticas sociais, integração regional, papel ativo do Estado.

Mas as relações profundas de poder não foram afetadas.  É baseada nelas que a direita resiste, tendo no sistema financeiro e no monopólio privado da mídia suas bases fundamentais de sustentação. Aí resiste, no essencial, o poder, mesmo nos países onde predominam politicas posneoliberais.

Com base no sistema financeiro, canalizam os capitais fundamentalmente para a especulação e promovem a mercantilização da sociedade e do seu próprio sistema político. Com base no monopólio privado dos meios de comunicação se fabrica uma opinião pública centrada numa agenda falsa da realidade, se promove a mentalidade consumista e egoísta, com todo tipo de preconceitos, funcionando, além disso, como partido político da oposição.

Quem não tiver a compreensão de que os eixos fundamentais do poder conservador na sociedade se articulam em torno do sistema financeiro e do monopólio privado da mídia está desprovido da capacidade de ação eficaz para desbloquear os obstáculos que travam a continuidade e o aprofundamento do processo de democratização social iniciado em 2003 no Brasil.

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/?/Blog/Blog-do-Emir/O-poder-cade-o-poder-/2/30934

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