Na minha prática clínica como psicóloga, atendo um número significativo de bancários. E, com o tempo, alguns padrões vão ficando difíceis de ignorar. Esse é um movimento que não aparece apenas no consultório, pois encontramos um cenário parecido apontado pela pesquisa nacional da Contraf-CUT sobre gestão e patologias do trabalho bancário de 2024: aumento considerável de afastamentos por saúde mental, alta prevalência de sintomas ansiosos e depressivos, relatos de pressão por metas e situações de assédio moral no ambiente de trabalho.
De qualquer forma, não quero trazer dados estatísticos, que estão disponíveis para qualquer um no relatório citado, mas sim trazer um olhar sobre o ser humano por trás dos números. São experiências únicas em um único contexto compartilhado que se repete e que ganham forma quando escutamos com um pouco mais de atenção.
Nos últimos tempos, tenho observado um aumento importante de queixas relacionadas a déficits na concentração, lapsos de memória, sensação de maior lentidão, cansaço e dificuldade de dar conta do que antes parecia possível. Junto com isso, cresce também o número de encaminhamentos para avaliação psicológica e neuropsicológica, muitos deles vindos, inclusive, da saúde ocupacional ou das equipes de segurança do trabalho das próprias instituições.
A princípio, esses quadros costumam levantar uma hipótese bastante comum hoje: TDAH em adultos, muitas vezes pensado como um diagnóstico tardio. E, em alguns casos, essa hipótese faz sentido, porém não em todos.
Um caso que ilustra bem isso é o de uma mulher, trabalhadora do setor bancário, que chegou relatando forte dificuldade de concentração e desempenho atencional prejudicado. A mesma tinha histórico de afastamentos recorrentes e um humor depressivo que já vinha se arrastando há algum tempo. Ao longo da sua trajetória, suas dificuldades foram sendo traduzidas como traços de uma personalidade “difícil de se relacionar”, “sensível demais aos barulhos” ou ainda como sendo “exagerada nas emoções”. Em paralelo, vivia o período de pré-menopausa, o que acabou reforçando ainda mais a tendência de localizar o problema nela, no corpo, na sua identidade, na forma de ser.
Diante da persistência dos sintomas e do impacto nas mais diversas áreas de sua vida, foi solicitada uma avaliação neuropsicológica, com a hipótese de uma possível neuro divergência não diagnosticada anteriormente, entretanto, na condução do caso outras coisas se apresentaram.
Na análise do prontuário e dos dados longitudinais da mesma paciente, aparecem registros de processo judicial por assédio moral no trabalho e da perda de um cargo comissionado após afastamento relacionado a um episódio grave de humor depressivo. Ou seja, não se trata de uma história isolada de dificuldades individuais, mas de uma trajetória atravessada por eventos críticos no contexto ocupacional, com impacto direto sobre sua saúde mental. Além disso, o que se observou não foi um padrão atencional que sempre esteve ali, ao longo da vida, e sim um funcionamento que foi se deteriorando.
A atenção que antes se sustentava, já não tem mais a mesma eficiência, a memória foi falhando mais e o raciocínio ficando mais lento. E tudo isso veio acompanhado de procrastinação, sensação de ineficiência, um nível alto de exaustão, ansiedade constante e uma sensação persistente de não dar conta. Ou seja, não estamos falando de um transtorno do neurodesenvolvimento, estamos falando de um cérebro sobrecarregado.
E esse não é um caso isolado, pois tenho visto, com frequência crescente, bancários apresentando esse mesmo tipo de quadro. Sintomas que, fora de contexto, poderiam facilmente ser lidos como um transtorno atencional primário. Mas o contexto importa muito! Quando o trabalho passa a ser organizado em torno de metas elevadas, cobrança constante, monitoramento contínuo e pouco espaço de autonomia, o que se instala não é apenas estresse pontual, mas sim um estado de ativação contínua em que a cognição começa a operar no limite e a falhar, não porque a pessoa não tem competência e sim porque se esgotou.
Do ponto de vista clínico, isso tem um efeito importante. A queda no desempenho, que é consequência desse funcionamento sobrecarregado, passa a ser interpretada pelo próprio sujeito como incapacidade. Surgem pensamentos de insuficiência, de fracasso e de inadequação, e isso retroalimenta o quadro: quanto mais a pessoa se percebe como incapaz, mais ansiosa fica e mais seu desempenho piora.
Por isso, um cuidado importante na avaliação desses casos é não reduzir essas manifestações a uma leitura individual. Nem toda dificuldade de atenção é TDAH. Nem toda desorganização é traço de personalidade. Em muitos casos, o que estamos vendo é o efeito de um contexto de trabalho que ultrapassa, de forma contínua, os limites de funcionamento saudável. Isso não significa negar a existência de transtornos do neurodesenvolvimento, mas sim não banalizar diagnósticos quando o que está em jogo é o esgotamento.
Quando o problema é lido apenas como individual, a solução também tende a ser individual, mas quando entendemos que o contexto adoece, abre-se espaço para outro tipo de reflexão e outras formas de cuidado.
Trata-se de reconhecer que exigências contínuas de ultrapassar limites sempre terão um custo. E a minha experiência clínica mostra que esse custo vem sendo pago, sobretudo, por aqueles que adoecem em silêncio, muitas vezes responsabilizados por não conseguirem sustentar o que nunca foi sustentável.
Lilian Siqueira do Nascimento Vidal (CRP 08/12390) é graduada em Psicologia (PUC PR/2006); pós-graduada em Terapia Cognitiva Comportamental, Psicopatologia, Práticas Baseadas em Evidências e Neuropsicologia; especialista em Avaliação Psicológica e em Psicologia do Trânsito pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP).
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Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região