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Bolsonaro soube e não impediu Michelle de fazer vídeo atacando Flávio

Jair Bolsonaro sabia que Michelle Bolsonaro gravaria o vídeo em que acusou Flávio Bolsonaro de lhe dar uma “punhalada” e não impediu a publicação que abriu uma crise pública no clã da extrema direita.

A informação foi publicada inicialmente por Malu Gaspar, no O Globo. Segundo a coluna, Bolsonaro foi avisado pela mulher antes de o vídeo ir ao ar, mas não interferiu para conter a ofensiva contra o próprio filho, senador pelo PL do Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência.

O novo bastidor se soma a outra leitura publicada por Bela Megale, também no O Globo, que aponta a responsabilidade do ex-presidente na deterioração da relação entre Michelle e Flávio. O resultado é uma crise que deixou de ser apenas uma briga entre madrasta e enteado e passou a atingir diretamente a autoridade política de Bolsonaro sobre sua própria sucessão.

Bolsonaro foi avisado antes do ataque de Michelle

De acordo com a apuração de Malu Gaspar, aliados que acompanharam o episódio afirmam que Michelle disse ter chegado “ao limite” com ataques feitos nas redes por apoiadores dos filhos do ex-presidente e com a entrevista em que Ciro Gomes comparou Lula e Jair Bolsonaro.

Um interlocutor próximo afirmou à coluna que não seria possível dizer que Bolsonaro autorizou a iniciativa, mas que ele a compreendeu. “Ele está na Faixa de Gaza. Deixou ela desabafar”, disse esse aliado, segundo o O Globo.

O dado central é político: enfermo, Bolsonaro sabia que a mulher atacaria Flávio publicamente e não conseguiu, ou não quis, impedir que a crise explodisse em vídeo. Para integrantes do PL, o episódio reforça a imagem de uma família que não consegue administrar a própria campanha sem transformar disputa interna em munição pública.

Michelle usou reportagem da Fórum no vídeo contra Flávio

A crise já havia sido exposta pela Fórum. No vídeo, Michelle usou um print de uma reportagem da Fórum para negar bastidores sobre pedido de desculpas e dizer que foi humilhada por Flávio.

A ex-primeira-dama afirmou que o senador foi ríspido, a desrespeitou e teria dito que ela deveria ficar fora das decisões do partido porque “não entenderia nada de política”, como mostrou a Fórum.

A gravação também teve efeito nas redes. Levantamento publicado pela Fórum mostrou que o vídeo mobilizou milhões de menções e transformou a pré-campanha de Flávio em uma guerra aberta pela herança política de Bolsonaro.

Bolsonaro perdeu controle da própria sucessão

A responsabilidade de Bolsonaro no racha aparece no momento em que o ex-presidente tenta transferir capital eleitoral ao filho mais velho. Flávio Bolsonaro consta no perfil oficial do Senado como senador do PL pelo Rio de Janeiro, com mandato de 2019 a 2027.

Bolsonaro, por sua vez, está fora da disputa eleitoral por decisão do Tribunal Superior Eleitoral, que declarou sua inelegibilidade por oito anos, contados a partir das eleições de 2022, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação.

Desde então, o bolsonarismo tenta resolver quem herdará o espólio político do ex-presidente. A escolha de Flávio, no entanto, atravessou a relação com Michelle, que chegou a ser tratada por setores do PL como alternativa eleitoral e hoje comanda a estrutura feminina do partido.

Racha expõe Flávio, Michelle e o PL

A disputa começou no Ceará, onde Michelle se opôs à aliança do PL com Ciro Gomes. Flávio, Eduardo Bolsonaro e outros aliados defenderam o acordo local. A Fórum mostrou que Eduardo atrelou o apoio a Ciro à busca de votos para a anistia ao pai.

Michelle interpreta a composição como incoerente com o discurso bolsonarista, já que Ciro foi adversário público de Bolsonaro e dos filhos do ex-presidente. Flávio, por outro lado, tenta montar palanques estaduais para viabilizar sua candidatura nacional.

O problema é que a briga rompeu o limite do bastidor. Michelle transformou a divergência em vídeo, Flávio teve de pedir desculpas publicamente e Bolsonaro, segundo o novo relato do O Globo, sabia da ofensiva antes de ela ocorrer.

A crise também escancara a fragilidade de Bolsonaro como fiador da própria sucessão. Sem poder disputar a eleição e sob restrições judiciais, o ex-presidente tenta comandar o bolsonarismo, mas viu mulher e filho entrarem em choque público no momento em que o PL precisava vender unidade.

No fim, a pergunta que passou a circular no partido deixou de ser apenas se Michelle apoiará Flávio. Com Bolsonaro avisado antes do vídeo, o ponto agora é outro: até que ponto o ex-presidente deixou o racha avançar e ajudou a produzir a crise que ameaça a candidatura do próprio filho.

Texto: Diego Feijó de Abreu

Fonte: Revista Fórum

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