Uma prática que começou nos serviços de entrega e transporte por aplicativos agora avança sobre atividades consideradas estratégicas para a população. Empresas responsáveis pelo abastecimento de água (Sabesp) e pela distribuição de gás (Comgás), em São Paulo, passaram a utilizar plataformas digitais para recrutar pessoas interessadas em fotografar e filmar imóveis de clientes que solicitaram serviços, como novas ligações, alterações cadastrais e outras demandas técnicas. O modelo, revelado pelo UOL, mostra o avanço da chamada uberização para atividades que tradicionalmente eram executadas por trabalhadores treinados, uniformizados e vinculados às concessionárias.
Embora as empresas apresentem a iniciativa como uma forma de agilizar processos, dirigentes sindicais afirmam que a substituição de profissionais qualificados por pessoas remuneradas por tarefa representa mais um passo na precarização das relações de trabalho, reduz a qualidade dos serviços prestados e pode trazer riscos tanto para a população quanto para quem aceita executar esse tipo de atividade.
Para representantes dos trabalhadores, o avanço das plataformas digitais sobre atividades técnicas reforça um processo iniciado há anos com privatizações, terceirizações e redução dos quadros próprios das empresas.
De acordo com o diretor da Executiva Nacional da CUT e presidente da Federação Interestadual dos Urbanitários do Sudeste (Fruse-CUT), Esteliano Pereira Gomes Neto, o problema não está no uso da tecnologia, mas na substituição do conhecimento técnico por trabalhadores sem qualificação específica.
“O serviço público é essencial. Continua tendo origem pública e essa lógica precede de precarização, colocando pessoas sem conhecimento, sem know-how, o que pode desencadear maus serviços, contas superfaturadas, avaliações sem acúmulo técnico e até acidentes materiais e com perda de vidas”, afirma.
Segundo ele, uma fotografia da fachada de um imóvel está longe de ser suficiente para avaliar uma solicitação feita por um consumidor.
“A pessoa pressupõe que a residência tem oito, dez ou quinze cômodos e presume determinado consumo, como se a edificação consumisse alguma coisa por si só”, critica.
Na avaliação do dirigente, a consequência pode ser o aumento de erros nas análises e nas cobranças feitas aos consumidores.
“Hoje o cliente reclama porque a conta aumentou. Em vez de uma avaliação técnica, manda-se alguém apenas para tirar fotos da área externa do imóvel. Muitas vezes o avaliador sequer entra em contato com o morador”, diz.
O vice-presidente de Saneamento da Confederação Nacional dos Urbanitários (CNU-CUT) e diretor administrativo e financeiro do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Espírito Santo (Sindaema-ES) Fábio Giori Smarçaro, afirma que uma vistoria é muito mais complexa do que registrar imagens de um imóvel.
Segundo ele, o trabalhador precisa conhecer normas técnicas, legislação, critérios operacionais e as características da rede para decidir, por exemplo, se determinado serviço pode ou não ser executado.
“É necessário ter profissionais qualificados, porque eles sabem avaliar se o serviço solicitado pode ou não ser realizado. Há pedidos que dependem da pressão da rede, das condições do imóvel, da titularidade da ligação e de vários outros fatores que um trabalhador de plataforma, sem treinamento e sem conhecer as normas da empresa, simplesmente não terá condições de analisar.”
Para Smarçaro transformar essa atividade em uma tarefa remunerada por demanda significa reduzir uma função técnica a um simples envio de fotografias.
“Se é apenas para tirar uma foto, o próprio cliente poderia fazer isso. Mas o profissional de vistoria existe justamente porque precisa interpretar tecnicamente aquela situação”, afirma.
Segurança preocupa moradores e trabalhadores
Outro ponto destacado pelos dirigentes é a segurança. Quem recebe um profissional identificado por uniforme, crachá e veículo oficial consegue reconhecer que se trata de um representante autorizado da empresa. Com trabalhadores recrutados por plataformas, essa identificação deixa de existir.
“Como o morador vai saber quem é aquela pessoa fotografando sua casa? Hoje a população já convive com inúmeros golpes. Quem garante que aquele indivíduo realmente está prestando serviço para a concessionária?”, questiona Smarçaro. Ele lembra que o risco também recai sobre quem executa a atividade.
“Já existem relatos de trabalhadores confundidos com criminosos, hostilizados e até ameaçados. Imagine alguém sem uniforme, sem crachá e sem veículo identificado entrando em bairros para fotografar imóveis. O risco para a integridade física é enorme.”
O secretário-geral do Sinergia Gazista, Rafael Magalhães, o Rafael do Gás, compartilha da mesma preocupação.
“Uma pessoa descaracterizada tirando fotos da sua casa pode ser confundida com alguém que está observando o imóvel para cometer um crime. Isso coloca em risco tanto a população quanto esse trabalhador precarizado”, afirma.
Precarização pode eliminar postos de trabalho qualificados
Além dos riscos para consumidores, os dirigentes sindicais avaliam que a adoção desse modelo pode acelerar a substituição de trabalhadores contratados diretamente pelas empresas por pessoas sem vínculo empregatício, remuneradas apenas pelas tarefas executadas.
Para Rafael do Gás, a lógica econômica é simples: quanto menor o número de empregados próprios, menor o custo para as concessionárias.
“Cada trabalhador de aplicativo tira o emprego de uma pessoa que poderia estar no quadro próprio da empresa fazendo essa atividade de fiscalização”, afirma.
Segundo ele, esse processo já ocorre em diferentes etapas dos serviços de gás canalizado. Primeiro vieram as terceirizações. Depois, a redução dos quadros próprios. Agora, na avaliação do dirigente, surge uma nova etapa, em que parte das atividades pode ser executada por pessoas recrutadas por aplicativos.
“Os impactos são gigantes. As empresas contratam poucos trabalhadores próprios, recorrem à terceirização e agora podem avançar para trabalhadores de plataforma. É uma cadeia de precarização”, diz.
Fábio Smarçaro também acredita que a substituição tende a crescer porque representa redução imediata de custos para as empresas.
“É muito mais lucrativo contratar um trabalhador precarizado, sem direitos, sem salário fixo, sem FGTS, sem INSS, sem plano de saúde, sem fornecer veículo, ferramentas, equipamentos de proteção e treinamento. Para a empresa é redução de custos; para o trabalhador é só perda e retrocesso”, afirma.
Na avaliação dele, esse tipo de contratação interessa apenas às empresas e às pessoas que, diante do desemprego, aceitam qualquer forma de trabalho para garantir renda.
“Essa plataforma só interessa aos empresários e aos trabalhadores que estão desesperados para conseguir um emprego e colocar alimento dentro de casa.”
O atendimento perde qualidade
Quem trabalha diariamente no setor afirma que a vistoria é uma das etapas mais importantes da prestação do serviço.
É nesse momento que o profissional verifica se existem condições técnicas para executar uma ligação, alterar uma instalação ou atender a solicitação do consumidor.
“A atividade de vistoriante é a porta de entrada da empresa na casa do cliente. Muitas vezes é o único contato presencial entre a concessionária e a população. Precarizar essa função é precarizar todo o atendimento”, afirma Smarçaro.
Ele lembra que um profissional qualificado precisa, por exemplo, abrir caixas de hidrômetros, verificar redes subterrâneas, identificar riscos de acidentes e lidar com situações que exigem treinamento específico.
“São atividades que envolvem agentes contaminantes, animais peçonhentos e equipamentos. Um trabalhador sem treinamento e sem EPI não deveria executar esse tipo de serviço.”
Para Rafael do Gás, a experiência mostra que reduzir equipes técnicas nunca significou melhora no atendimento.
“Hoje o atendimento já é bastante precário. Muitas empresas acabaram com as agências presenciais, obrigando principalmente pessoas idosas a resolver tudo por aplicativos ou telefone. Agora surge mais uma etapa desse processo de afastamento entre empresa e consumidor”, afirma.
Ele cita situações comuns enfrentadas por consumidores que têm dificuldade de utilizar meios digitais.
“Muitas pessoas dependem de filhos ou netos para acessar aplicativos, emitir contas ou solicitar religação do serviço. Isso já prejudica parte da população.”
IA e plataformas ampliam o controle sobre o trabalho
Na avaliação dos dirigentes, o avanço das plataformas faz parte de uma transformação maior do mundo do trabalho, marcada pelo uso crescente de inteligência artificial, monitoramento permanente e metas cada vez mais rígidas.
Rafael do Gás afirma que esse processo já ocorre dentro das próprias empresas. Ele cita como exemplo a utilização de câmeras inteligentes instaladas em veículos da companhia onde trabalha.
“As câmeras monitoram praticamente tudo. Registram bocejos, uso das mãos no volante, frenagens e diversos comportamentos do trabalhador. Muitas vezes os gestores passam a confiar mais na inteligência artificial do que na realidade observada pelo empregado, mesmo quando o sistema apresenta erros”, relata.
Segundo ele, a substituição da avaliação humana por sistemas automatizados representa outro aspecto da precarização das relações de trabalho.
“Modernização” ou aprofundamento da precarização?
Para os dirigentes sindicais, o uso de plataformas digitais em serviços essenciais faz parte de um processo mais amplo de transformação das relações de trabalho, frequentemente apresentado pelas empresas como modernização, mas que, na prática, transfere custos, riscos e responsabilidades para o trabalhador.
Fábio Smarçaro afirma que esse movimento ganhou força após uma série de mudanças na legislação trabalhista.
” A lei da terceirização, a reforma trabalhista, a reforma da Previdência e o avanço da uberização nos governos Temer e Bolsonaro representaram um grande retrocesso para os trabalhadores e o uso desse tipo de plataforma representa um novo passo na retirada de direitos”, afirma.
Segundo ele, a tecnologia deveria ser utilizada para melhorar as condições de trabalho e a qualidade dos serviços, e não para eliminar empregos e direitos.
“Quando o movimento sindical ouve a palavra ‘modernização’, arrepia. Geralmente ela aparece para justificar retirada de direitos. Nunca para reduzir a jornada, melhorar a qualidade de vida ou dividir os ganhos de produtividade proporcionados pelas novas tecnologias”, diz.
Smarçaro ressalta que os trabalhadores produzem muito mais hoje do que há algumas décadas, mas continuam submetidos a jornadas intensas e a formas permanentes de monitoramento.
“Hoje trabalhamos muito mais. Existe WhatsApp, reuniões virtuais, aplicativos, redes sociais. O trabalhador está sendo monitorado o tempo todo e permanece em produção praticamente o tempo inteiro”, afirma.
Na avaliação dele, a uberização representa “o auge da precarização” porque elimina praticamente todas as garantias associadas ao emprego formal.
“Ela gera desemprego, substitui empregos protegidos por trabalho precarizado e deixa o trabalhador sem salário garantido, sem benefícios, sem seguridade social, sem proteção nenhuma”, resume.
Serviços essenciais não podem ser tratados como mercadoria
Para Rafael do Gás, discutir o uso de plataformas em concessionárias de água, energia e gás exige ir além das relações de trabalho e refletir sobre a própria natureza desses serviços.
“Água, saneamento, energia e gás são serviços essenciais. Não são mercadorias”, afirma.
Segundo ele, quando a lógica do lucro passa a orientar empresas responsáveis por serviços indispensáveis à população, a tendência é reduzir investimentos, enxugar equipes e buscar formas cada vez mais baratas de execução das atividades.
“Quando esses serviços passam para as mãos da iniciativa privada, eles deixam de ser vistos apenas como prestação de serviço e passam a ser tratados como produto. E serviço essencial não deveria ter como objetivo principal gerar lucro”, afirma.
O dirigente lembra que, embora as empresas argumentem que novas formas de gestão aumentam a eficiência, isso não se traduz necessariamente em tarifas menores.
“Fala-se muito em modernização, mas as tarifas continuam aumentando. O lucro cresce, a inteligência artificial avança, mas o trabalhador perde direitos e a população não percebe melhora proporcional na qualidade do serviço”, afirma.
Tecnologia e o futuro do trabalho
O uso de plataformas digitais para recrutar pessoas para realizar vistorias em imóveis abre uma nova frente de discussão sobre o futuro do trabalho em setores considerados estratégicos.
Até poucos anos atrás, a uberização estava associada principalmente ao transporte individual e às entregas por aplicativo. Hoje, segundo dirigentes sindicais, o mesmo modelo começa a alcançar atividades técnicas que exigem qualificação, conhecimento operacional e responsabilidade sobre serviços essenciais.
A preocupação é que uma função antes desempenhada por profissionais treinados, identificados e protegidos por direitos trabalhistas seja gradualmente fragmentada em tarefas isoladas, executadas por trabalhadores sem vínculo empregatício, remunerados apenas por demanda e submetidos à lógica das plataformas digitais.
Nesse cenário, o debate deixa de envolver apenas o futuro das relações de trabalho e passa a alcançar também a qualidade dos serviços prestados à população, a segurança dos consumidores e a responsabilidade das concessionárias que administram atividades essenciais para milhões de brasileiros.
Privatiza que piora
Para o diretor da Executiva da CUT Nacional a discussão não pode ser separada do processo de privatização vivido por parte dos serviços essenciais nos últimos anos.
“O serviço público tem outra finalidade. Empresa privada tem como objetivo principal o lucro”, resume Esteliano.
Segundo ele, a redução das equipes técnicas acaba afetando diretamente a população.
“As agências reguladoras precisam ser revistas. Hoje o consumidor muitas vezes fala sozinho. Foram criadas estruturas que acabam protegendo muito mais as empresas do que os clientes”, critica.
O dirigente afirma que o problema não está apenas no atendimento ao consumidor, mas também na conservação da infraestrutura.
“Vai ficando uma rede obsoleta, sem equipamentos adequados e sem investimento suficiente. Tudo isso aparece depois na qualidade do serviço”, afirma.
A denúncia dos sindicalistas foi, de certa forma, comprovada após uma sequência de acidentes envolvendo obras executadas em conjunto com redes de gás. Em maio de 2026, uma intervenção da Sabesp no bairro do Jaguaré, na capital paulista, atingiu uma tubulação da Comgás, (privatizada em 1999), provocando uma explosão que destruiu dezenas de imóveis, deixou mortos e feridos e expôs falhas na coordenação entre as concessionárias. Menos de um mês depois, um novo vazamento de gás durante uma obra na região central da capital levou a Sabesp a demitir funcionários, anunciar mudanças na estrutura operacional e reforçar os protocolos de engenharia e fiscalização. Para os sindicatos, esses episódios evidenciam os riscos da redução de equipes técnicas experientes e do avanço da terceirização em atividades de alta complexidade.
A privatização da Sabesp foi concluída em 23 de julho de 2024, quando por decisão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) foi vendido o controle da companhia por cerca de R$ 14,8 bilhões. O modelo de venda foi alvo de críticas de especialistas, parlamentares e entidades sindicais, que afirmaram que a companhia foi negociada abaixo do valor de mercado.
Desde a privatização, segundo levantamento dos sindicatos, cerca de 47% dos empregados deixaram a companhia, entre programas de desligamento, demissões e reposição insuficiente de vagas, ampliando a dependência de empresas terceirizadas e de outras formas de contratação mais flexíveis. Para as entidades, a perda de profissionais experientes compromete a transmissão do conhecimento técnico acumulado ao longo de décadas e aumenta os riscos operacionais.
Texto: Rosely Rocha
Fonte: CUT