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Por 10:23 Cidadania, Destaque

Endividamento: O comprometimento da renda afeta o consumo das famílias brasileiras?

O Brasil possui atualmente diversas situações conjunturais que sugerem uma melhor qualidade de vida da população de uma maneira geral, como, por exemplo, o pleno emprego, a valorização do salário mínimo, que impacta nos benefícios previdenciários, ou ainda a inflação controlada e o início da implementação da Reforma Tributária, que em 2026 isentou do Imposto de Renda Pessoa Física trabalhadores formais com salários de até R$ 5 mil mensais.

Considerando esses fatores positivos, o endividamento e a inadimplência estariam derrubando a percepção positiva das pessoas sobre o acesso a bens e serviços pela população?

Série endividamento

Durante o mês de maio, o Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região está publicando uma série de conteúdos sobre o endividamento da população, o comprometimento da renda e o efeito de percepção na qualidade de vida das pessoas.

Na primeira semana, relatamos, a partir de dados disponíveis no Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (2025), a situação do endividamento no Brasil e da oferta de crédito pelo sistema financeiro. Cobramos a responsabilidade dos bancos em assumir sua função social na oferta de créditos impagáveis para parte da população.

Na segunda semana, recortamos dados estratificados do tipo de crédito acessado por gênero e raça, considerando a população que trabalha com carteira assinada no Brasil. Destacamos que as mulheres, principalmente mulheres negras, acessam mais os créditos que possuem taxas de juros mais caras.

Neste terceiro conteúdo, trazemos elementos para problematizar a relação entre o comprometimento da renda com dívidas e os impactos no consumo, bem como na percepção da qualidade de vida a partir do Índice de Desconforto de Crédito (IDC), desenvolvido por estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Comprometimento da renda

Conforme dados publicizados pelo Banco Central no dia 27 de abril, relativos a fevereiro de 2026, o endividamento das famílias chegou a 49,9% e o comprometimento de renda com o custo desse endividamento subiu 1,9% em doze meses, alcançando 29,7%.

O volume de crédito contratado por pessoas físicas foi de R$ 2,5 trilhões, 12,3% maior que no mesmo período de 2025, com expansão principalmente no uso do cartão de crédito (2,2%), no crédito consignado para trabalhadores do setor privado (10,1%) e no financiamento de veículos (0,8%).

Já a inadimplência do chamado crédito das famílias foi de 5,3%. O Relatório da Cidadania Financeira (2025) já demonstrava índices semelhantes de comprometimento da renda da população com a contratação de ofertas de crédito, especialmente entre pessoas de baixa renda, ou seja, neste estudo, aquelas inscritas no CadÚnico 2024.

Entre as pessoas de baixa renda que são negras, 24,5% da renda é comprometida com o endividamento e esse índice é de 25,3% entre as pessoas brancas; já o comprometimento com o uso do cartão de crédito é de 4,8% da renda entre as pessoas negras e de 4,7% entre as pessoas brancas. Entre as mulheres de baixa renda, o comprometimento é maior do que a renda dos homens com o endividamento.

Que renda é essa?

Conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados dia 8 de maio pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio mensal das famílias brasileiras chegou a R$ 2.264 por pessoa em 2025. Esse valor representa crescimento real – já descontada a inflação – de 6,9% em relação a 2024, que é a maior renda média familiar já apurada pelo PNAD, estatística iniciada em 2012.

Para consolidar o cálculo, o IBGE apura os valores de todos os rendimentos recebidos pelos integrantes das famílias e divide pelo número de moradores do domicílio, considerando salários, bônus, aposentadoria, pensão alimentícia, benefício social, bolsa de estudo, seguro-desemprego, aluguel e aplicações financeiras. Já a renda média individual com trabalho ficou em R$ 3.560, alta de 5,7% acima da inflação na comparação com 2024 (R$ 3.208).

Em 2025, o Brasil tinha 212,7 milhões de pessoas, sendo 143 milhões com algum tipo de rendimento, o que representa 67,2% da população, o maior nível já registrado na série histórica. A parcela de brasileiros com rendimento do trabalho alcançou 47,8% da população, e dos que receberam alguma outra fonte, 27,1% (como benefícios previdenciários).

Comprometimento da renda afeta o consumo?

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) divulgou uma estimativa positiva para o aumento do consumo no dia das mães. A expectativa da entidade é que fossem comercializados para a data o montante de R$ 82 bilhões, representando R$ 2,7 bilhões a mais em comparação ao dia das mães de 2025.

A expectativa positiva considerava as estatísticas sobre o mercado de trabalho e o aumento da renda da população, mas essa projeção de vendas, conforme a Fecomércio, seria em mercados, perfumarias, lojas de calçados e roupas. Já o consumo de bens duráveis estaria prejudicado ao depender de maior acesso ao crédito (em parcelas mensais) e de comprometimento da renda da população para planejar mais essa dívida. Mas ainda assim, esse tipo de comércio teria a menor taxa de crescimento, e não exatamente uma queda nas vendas.

Índice de Desconforto de Crédito

A Fundação Getúlio Vargas publicou um estudo que chamou de Índice de Desconforto de Crédito, que trata justamente da percepção da população sobre qualidade de vida, sobre a possibilidade de pagar o endividamento, o risco da inadimplência. A pesquisa parte da premissa que há um “descolamento” entre a sensação de bem-estar (ruim) das pessoas e a realidade macroeconômica (positiva) do país. Esse índice surge nesse contexto de forte expansão do crédito: mudanças regulatórias, inovações tecnológicas, entrada de novos atores (fintechs, bancos digitais), alteração de hábitos durante na pandemia, programas de transferência de renda e Pix.

A expansão do crédito, especialmente para pessoas físicas, atingiu os produtos com maiores taxas de juros, e, segundo o estudo, em modalidades voltadas para consumo (crédito pessoal, cartão de crédito e consignado), “que cobram juros muito elevados e seguem um modelo de oferta (digital) bastante agressivo”, portanto, “o comprometimento de renda para pagamento de juros tem aumentado, com efeitos negativos sobre o bem-estar da população devedora”.

Índice de Desconforto de Crédito é, portanto, construído a partir de três componentes: inadimplência (refletindo a incapacidade de cumprir obrigações financeiras, pelo menos uma parcela com atraso superior a 90 dias), comprometimento de renda com dívida (refletindo quanto do fluxo de renda corrente está sendo absorvido pela dívida) e qualidade do crédito (medindo a participação de modalidades mais onerosas no total do crédito contratado), e tem como consequência essa captura de diferentes aspectos da relação das famílias com o crédito.

Como conclusão, “dentro do horizonte temporal analisado, o desconforto com uso do crédito está bastante elevado nesse momento, o que justifica a percepção negativa de bem-estar das famílias”.

Custo de vida para além do endividamento

Na semana passada, dia 11 de maio, o IBGE divulgou a inflação, que em relação ao mês de abril chegou a 4,11% nos últimos 12 meses, pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), indexador que corrige salários. Já o IPCA, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, está em 4,39% no acumulado de 12 meses.

🔗 Saiba mais aqui sobre a diferença entre INPC e IPCA

Apesar do controle inflacionário, o Banco Central ainda utiliza a justificativa do controle da inflação para perpetuar a taxa Selic em dois dígitos. No final de abril, a Selic foi reduzida de 14,75% para 14,50% ao ano, mas, na avaliação entidades do setor produtivo e por representantes sindicais, o nível ainda elevado dos juros continua pressionando a economia, com efeitos negativos nos investimentos, no consumo e na renda.

Em entrevista à Agência Brasil, a presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, criticou o ritmo de queda da Selic e afirmou que a política monetária tem impacto direto sobre a renda da população. “A redução de 0,25% é muito pouco. O nível de endividamento das famílias está enorme”, afirma, ressaltando que a taxa básica influencia todo o sistema financeiro. “Quando a Selic sobe, os bancos cobram mais caro no crédito. Quando cai, o crédito fica mais barato, mas essa redução ainda é insuficiente”, disse.

Mensalmente, o Dieese estima o salário mínimo necessário com base no valor da cesta básica mais cara do país (São Paulo, em abril) e levando em consideração a determinação constitucional que estabelece que o salário mínimo deve ser suficiente para suprir as despesas de um trabalhador e da família dele (quatro pessoas, sendo dois adultos e duas crianças que equivalem a um adulto) com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência.

Em abril de 2026, o salário mínimo necessário deveria ter sido de R$ 7.612,49 ou 4,70 vezes o mínimo de R$ 1.621,00.

No acumulado dos quatro primeiros meses de 2026, as 27 capitais tiveram alta nos preços da cesta básica. Em Curitiba, por exemplo, considerando o salário mínimo líquido, após o desconto de 7,5% da Previdência Social, um trabalhador comprometeu 53,09% da renda para adquirir os itens alimentícios da cesta básica (dados Conab e Dieese).

Se o endividamento é motivo de preocupação e se a inadimplência virou também uma realidade na vida das pessoas, não podemos deixar de pensar na necessidade da valorização dos salários ser prioridade, seguindo a lógica do que já temos como política desse governo de valorização do salário mínimo e com reflexos nos benefícios previdenciários. É também necessário que pensemos em mais políticas de proteção ao consumidor, já que a inadimplência e o endividamento são também ferramentas de projeção dos setores que lucram muito, como é o caso dos bancos”, analisa Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato.

Você deve estar sentindo falta de um dos fatores que pesa nessa balança: o endividamento pelos jogos de azar. No próximo conteúdo, finalizaremos a série trazendo os dados sobre o impacto das bets na inadimplência das famílias.

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Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região

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