No mês de abril, durante coletiva de imprensa em viagem oficial na Espanha, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribuiu à expansão das bets a inadimplência de parte da população brasileira que não consegue pagar suas dívidas. “Uma das coisas que está endividando a sociedade, fazendo com que ela gaste aquilo que não poderia gastar, são as apostas no mundo digital”, declarou Lula.
Mais do que isso, o presidente criticou ausência de regras regulatórias no setor de jogos de azar como ameaça à soberania de países, afetando a saúde mental das pessoas, e impulsionando gastos que não cabem no orçamento familiar, tudo isso facilitado pelo acesso com o uso do celular.
Em 2025, a arrecadação (oficial) do setor das bets atingiu R$ 9,95 bilhões. Já no primeiro trimestre de 2026, jogos e apostas resultaram em arrecadação de R$ 4,17 bilhões, sendo R$ 1,15 bilhão apenas das bets.
De acordo com uma pesquisa da Quaest, também do mês de abril, 29% dos brasileiros afirmam ter o costume de apostar em bets.
Endividamento pelas bets
O site BBC News Brasil publicou depoimento de uma jovem de 21 anos que exemplifica o cenário: viu uma influenciadora divulgando uma bet numa conta de instagram, clicou, apostou 10 reais e ganhou 100 reais, achou que ia continuar ganhando e não conseguiu mais parar de jogar – e de perder, tornando-se uma endividada que não tem meios para pagar as dívidas, pois conseguiu empréstimos em cinco instituições financeiras diferentes – e gastou tudo em bets.
Em outro relato, um homem disse ter gasto seu patrimônio, montante que chegou a 100 mil reais, no vício em bets e que as dívidas não pagas, após vender um carro, gastar o dinheiro que tinha em poupança, e adquirir empréstimos, é de R$ 30 mil.
De acordo com estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em levantamento publicado pela Agência Brasil, de janeiro de 2023 a março de 2026 a inadimplência do consumidor causada pelas bets retirou R$ 143 bilhões do comércio varejista e o crescimento do gasto dos brasileiros com as plataformas eletrônicas nesse período foi superior a R$ 30 bilhões por mês.
A CNC divulgou, ainda, o perfil das pessoas endividadas por bets: homens, maiores de 35 anos, com renda de até cinco salários mínimos, e com maior escolaridade.
Banco Central rastreia apostas
O próprio Banco Central tem dados sobre as bets. Durante depoimento ao Senado na CPI das Bets, em abril de 2025, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que no primeiro trimestre do ano passado apostadores destinaram até R$ 30 bilhões por mês às bets.
Conforme notícia publicada pela Agência Brasil, o acompanhamento pelo BC tornou-se efetivo após as bets legalizadas serem obrigadas a registrar uma conta bancária com uma Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) específica, mas os dados não serão divulgados periodicamente pelo Banco Central, pois o presidente do BC esclareceu que, além da elaboração de estatísticas, o trabalho do BC em relação às bets resume-se à prevenção à lavagem de dinheiro e ao combate ao terrorismo.
CPI das Bets
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets tramitou no Senado e foi encerrada em junho de 2025. Seu relatório final teve mais de 500 páginas e já indicava que as pessoas deixavam de consumir para gastar em jogos, se endividavam, deixavam de pagar contas básicas e de até mesmo comprar alimentos ou remédios. Outras questões foram levantadas a partir de estatísticas e depoimentos, como indícios de lavagem de dinheiro e manipulação de resultados.
Série endividamento
Durante o mês de maio, o Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região publicou uma série de conteúdos sobre o endividamento da população, o comprometimento da renda e o efeito de percepção na qualidade de vida das pessoas.
Na primeira semana, relatamos, a partir de dados disponíveis no Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (2025), a situação do endividamento no Brasil e da oferta de crédito pelo sistema financeiro. Cobramos a responsabilidade dos bancos em assumir sua função social na oferta de créditos impagáveis para parte da população.

Na segunda semana, recortamos dados estratificados do tipo de crédito acessado por gênero e raça, considerando a população que trabalha com carteira assinada no Brasil. Destacamos que as mulheres, principalmente mulheres negras, acessam mais os créditos que possuem taxas de juros mais caras.

Neste terceiro conteúdo, trouxemos elementos para problematizar a relação entre o comprometimento da renda com dívidas e os impactos no consumo, bem como na percepção da qualidade de vida a partir do Índice de Desconforto de Crédito (IDC), desenvolvido por estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Durante esse percurso que traçamos para entender o endividamento das famílias brasileiras, ficou claro, mais uma vez, que a situação é desigual para as mulheres. Mesmo que elas não sejam o maior perfil a se endividar com as bets, são elas que precisam dar seu jeito para que o orçamento familiar funcione quando, por exemplo, o homem que mora na casa, se for o caso, é viciado em bets e gasta seu dinheiro com isso. Então além de nós, mulheres, mais ainda, mulheres negras, acessarmos majoritariamente o crédito oferecido como produto mais caro pelos bancos, temos que dar conta do endividamento de outros familiares”, avalia Cristiane Zacarias, presidenta do Sindicato.
Apesar dos jogos de azar e cassinos terem uma legislação bem restritiva e proibitiva no Brasil já há muitos anos, durante o governo Temer as bets foram autorizadas e continuadas sem qualquer regulamentação durante a pandemia, no governo Bolsonaro. Nos anos de 2023 e 2024 é que as primeiras estatísticas e rastreios financeiros começaram a ser possíveis.
VALORIZE SEU SINDICATO!
#FIQUE SÓCIO! Conheça todas as vantagens de se associar e sindicalize-se.
#FALE COM O SINDICATO! Entre em contato pelo WhatsApp ou pelo canal de Denúncias.
#VEM PRAS REDES! Acesse nosso Instagram, Youtube, TikTok ou Facebook.
#VEM PRO CANAL! Cadastre-se no nosso canal do WhatsApp e ative as notificações.
#BAIXE O APP! Tenha nosso Aplicativo no seu celular, com a carteirinha digital e muito mais.
#RECEBA NOSSAS NOTÍCIAS! Cadastre-se para receber mensagens direto no WhatsApp.

Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região