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Por 13:15 Notícias

Pororoca de prejuízos na Fundação Copel

Investigação privada revela que fundo de pensão do Paraná teve perdas semelhantes às descobertas por CPI.
O grupo de especuladores suspeito de tirar dinheiro dos fundos de pensão agiu também no Paraná. Lá, o alvo foi a Fundação Copel, instituição de previdência complementar patrocinada pela Companhia Paranaense de Energia.
A Fundação Copel tem patrimônio de R$ 2,7 bilhões. É o 13º maior fundo de pensão brasileiro. A sangria em seus ativos foi promovida durante 11 meses, entre 27 de janeiro e 26 de novembro de 2003. Nesse período, foi presidida por Othon Mäder Ribas, que nomeou para a gerência de investimentos três operadores de mercado ligados ao especulador Haroldo de Almeida Rego Filho, conhecido como “Pororoca”, o mesmo cujo grupo vem sendo investigado pela CPI dos Correios.
Lá, o estratagema foi igual ao que vem sendo investigado pela CPI. Aliados postos nas funções responsáveis por investir o dinheiro dos fundos comandam operações prejudiciais ao próprio patrimônio, beneficiando terceiros. Nesse caso, os indicados para fazer o serviço foram Azis Surugi Neto, Paulo Aníbal Cruz e Ricardo Vetere.
Sob influência de Pororoca, a gerência de investimentos provocou um terremoto nas finanças da Fundação Copel. Os detalhes são chocantes. Uma investigação privada encomendada à empresa Kroll pelo próprio conselho deliberativo da instituição – cujo resultado originou um relatório, obtido com exclusividade pelo Correio – levantou perdas de R$ 4,2 milhões apenas numa amostra composta por seis operações com títulos públicos, pagamentos de taxas a bancos e uma operação imobiliária.
Ao ler o relatório, um ano e meio atrás, o presidente do conselho, Edson Rauen Viana, ficou perplexo. Escreveu uma notícia-crime e mandou-a ao Ministério Público e à Polícia Federal. A investigação oficial já está em fase conclusiva. Nos bastidores, diz-se que mais de R$ 40 milhões do patrimônio da Fundação Copel foram perdidos. “De fato, o nome dessa pessoa (Rego Filho) apareceu nas irregularidades descobertas por nós”, confirmou Viana.
Prejuízo
Para se entender o que aconteceu na Fundação Copel, basta que se observe uma única operação de compra de um lote de Notas do Tesouro Nacional – série D (NTN-D). Trata-se de um título público, vendido pelo governo, que oferece aos interessados uma taxa de juros fixa, mais a variação da taxa de câmbio até o vencimento do papel. Geralmente, é procurado por quem tem dívidas em dólar, para proteção contra as altas e baixas na cotação da moeda estrangeira.
No dia 2 de julho de 2003, a mesa de operações da Fundação Copel aceitou comprar 10 mil NTNs-D por R$ 1.760,36 cada. Naquela data, o preço médio desses papéis no mercado era de R$ 1.728,26. Ao adquiri-lo tão caro, a instituição perdeu aproximadamente R$ 321 mil. O relatório da Kroll lista outras cinco negociações semelhantes, com uma diferença de R$ 1,2 milhão em desfavor da fundação.
Não há menção sobre quem estava na ponta contrária dos negócios, lucrando às custas do fundo de pensão. Mas o relatório traz um dado curioso: naquele período, a fundação passou por cima do próprio estatuto e suas investidas no mercado foram intermediadas por 17 diferentes corretoras, em vez das 12 a que estava limitada. Dentre elas, cinco já figuram na lista da CPI dos Correios por irregularidades com fundos de pensão – São Paulo, ligada ao doleiro Lúcio Bolonha Funaro, Socopa, RMC, Planner e Novinvest.
Durante aquela gestão, a Fundação Copel aplicou R$ 300 milhões de sua carteira em fundos exclusivos administrados pelo Banco Santos – o Vicking (R$ 93,2 milhões), o FIF Latinvest FC (R$ 142 milhões) e o FIA Latinvest FC (R$ 64,7 milhões). Além disso, comprou R$ 39 milhões em CDBs da instituição financeira de Edemar Cid Ferreira.
Baixo desempenho
Os investimentos no Banco Santos, atualmente sob liquidação do Banco Central, são característicos dos fundos de pensão suspeitos de serem comandados por aliados de Haroldo Pororoca, como Núcleos, Portus e Real Grandeza. Este perdeu R$ 150 milhões de seu patrimônio por comprar CDBs praticamente na véspera da quebra do banco.
De acordo com os auditores da Kroll, em novembro de 2003, quando o esquema ruiu na Fundação Copel, a carteira de investimentos administrada pelos pupilos de Pororoca detinha R$ 365,3 milhões. Os negócios com ações e derivativos desdobraram-se numa evolução patrimonial de 59,41% em relação ao tamanho de 11 meses antes, quando eles assumiram. Parece um bom desempenho. Mas não é. Para ficar numa comparação conservadora, o índice Ibovespa no mesmo período cresceu 74,8%.
O perfil dos investimentos do fundo de pensão, que em janeiro de 2003 detinha uma parcela de apenas 6,7% em ativos de alto risco, havia sofrido uma mudança radical onze meses depois. As apostas mais agressivas subiram para 19% dos ativos, ultrapassando em muito o limite legal de 10%. Isso sem o ganho de rentabilidade esperado de quem troca conservadorismo por risco no mercado de capitais.
A atual diretoria da Fundação Copel não quis se pronunciar sobre o assunto. A reportagem tentou contactar Haroldo de Almeida Rego Filho por intermédio do e-mail do advogado de um de seus filhos, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno. Othon Mäder, Azis Surugi Neto, Paulo Aníbal Cruz e Ricardo Vetere não foram encontrados.
A trinca de operadores
O elo mais visível entre o grupo que trabalhou na Fundação Copel e o especulador Haroldo de Almeida Rego Filho é o dentista e advogado Paulo Aníbal Cruz Neto. Ele é filho do brigadeiro Murilo Santos, amigo dileto do general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército do presidente José Sarney (1985-1990). Leônidas é uma espécie de padrinho de Haroldo Pororoca.
Na década de 90, Paulo Aníbal chegou a trabalhar como auxiliar de pregão na corretora Carioca, já fechada, que legalmente pertencia a Marcos de Almeida Rego, irmão de Haroldo, dono de fato da empresa. Em 2003, ele tornou-se operador da mesa de investimentos da Fundação Copel com Ricardo Vetere, administrador de empresas famoso por ter dirigido a área de investimentos da Refer (fundo de pensão dos ferroviários) na década de 90, emprego que lhe custou um processo por infringir todas as leis reguladoras do mercado de previdência. Já foi relacionado ao ex-secretário de Assuntos Estratégicos Pedro Paulo Leoni Ramos, dono das nomeações nos fundos de pensão estatais no governo Collor.
O terceiro personagem da trinca posta na operação dos investimentos é Azis Surugi Neto. Ele trabalhou no Banestado de 1984 a 1999. Estava no Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, quando foi chamado para a Fundação Copel. É irmão do empresário André Surugi, morto no final de 2003, no mesmo acidente de avião que vitimou o então presidente nacional do PTB, José Carlos Martinez.
Por Ugo Braga – Jornal do Commercio – Correio Braziliense – 12/12/2005 – NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.anapar.com.br.

Por 13:15 Sem categoria

Pororoca de prejuízos na Fundação Copel

Investigação privada revela que fundo de pensão do Paraná teve perdas semelhantes às descobertas por CPI.

O grupo de especuladores suspeito de tirar dinheiro dos fundos de pensão agiu também no Paraná. Lá, o alvo foi a Fundação Copel, instituição de previdência complementar patrocinada pela Companhia Paranaense de Energia.

A Fundação Copel tem patrimônio de R$ 2,7 bilhões. É o 13º maior fundo de pensão brasileiro. A sangria em seus ativos foi promovida durante 11 meses, entre 27 de janeiro e 26 de novembro de 2003. Nesse período, foi presidida por Othon Mäder Ribas, que nomeou para a gerência de investimentos três operadores de mercado ligados ao especulador Haroldo de Almeida Rego Filho, conhecido como “Pororoca”, o mesmo cujo grupo vem sendo investigado pela CPI dos Correios.

Lá, o estratagema foi igual ao que vem sendo investigado pela CPI. Aliados postos nas funções responsáveis por investir o dinheiro dos fundos comandam operações prejudiciais ao próprio patrimônio, beneficiando terceiros. Nesse caso, os indicados para fazer o serviço foram Azis Surugi Neto, Paulo Aníbal Cruz e Ricardo Vetere.

Sob influência de Pororoca, a gerência de investimentos provocou um terremoto nas finanças da Fundação Copel. Os detalhes são chocantes. Uma investigação privada encomendada à empresa Kroll pelo próprio conselho deliberativo da instituição – cujo resultado originou um relatório, obtido com exclusividade pelo Correio – levantou perdas de R$ 4,2 milhões apenas numa amostra composta por seis operações com títulos públicos, pagamentos de taxas a bancos e uma operação imobiliária.

Ao ler o relatório, um ano e meio atrás, o presidente do conselho, Edson Rauen Viana, ficou perplexo. Escreveu uma notícia-crime e mandou-a ao Ministério Público e à Polícia Federal. A investigação oficial já está em fase conclusiva. Nos bastidores, diz-se que mais de R$ 40 milhões do patrimônio da Fundação Copel foram perdidos. “De fato, o nome dessa pessoa (Rego Filho) apareceu nas irregularidades descobertas por nós”, confirmou Viana.

Prejuízo

Para se entender o que aconteceu na Fundação Copel, basta que se observe uma única operação de compra de um lote de Notas do Tesouro Nacional – série D (NTN-D). Trata-se de um título público, vendido pelo governo, que oferece aos interessados uma taxa de juros fixa, mais a variação da taxa de câmbio até o vencimento do papel. Geralmente, é procurado por quem tem dívidas em dólar, para proteção contra as altas e baixas na cotação da moeda estrangeira.

No dia 2 de julho de 2003, a mesa de operações da Fundação Copel aceitou comprar 10 mil NTNs-D por R$ 1.760,36 cada. Naquela data, o preço médio desses papéis no mercado era de R$ 1.728,26. Ao adquiri-lo tão caro, a instituição perdeu aproximadamente R$ 321 mil. O relatório da Kroll lista outras cinco negociações semelhantes, com uma diferença de R$ 1,2 milhão em desfavor da fundação.

Não há menção sobre quem estava na ponta contrária dos negócios, lucrando às custas do fundo de pensão. Mas o relatório traz um dado curioso: naquele período, a fundação passou por cima do próprio estatuto e suas investidas no mercado foram intermediadas por 17 diferentes corretoras, em vez das 12 a que estava limitada. Dentre elas, cinco já figuram na lista da CPI dos Correios por irregularidades com fundos de pensão – São Paulo, ligada ao doleiro Lúcio Bolonha Funaro, Socopa, RMC, Planner e Novinvest.

Durante aquela gestão, a Fundação Copel aplicou R$ 300 milhões de sua carteira em fundos exclusivos administrados pelo Banco Santos – o Vicking (R$ 93,2 milhões), o FIF Latinvest FC (R$ 142 milhões) e o FIA Latinvest FC (R$ 64,7 milhões). Além disso, comprou R$ 39 milhões em CDBs da instituição financeira de Edemar Cid Ferreira.

Baixo desempenho

Os investimentos no Banco Santos, atualmente sob liquidação do Banco Central, são característicos dos fundos de pensão suspeitos de serem comandados por aliados de Haroldo Pororoca, como Núcleos, Portus e Real Grandeza. Este perdeu R$ 150 milhões de seu patrimônio por comprar CDBs praticamente na véspera da quebra do banco.

De acordo com os auditores da Kroll, em novembro de 2003, quando o esquema ruiu na Fundação Copel, a carteira de investimentos administrada pelos pupilos de Pororoca detinha R$ 365,3 milhões. Os negócios com ações e derivativos desdobraram-se numa evolução patrimonial de 59,41% em relação ao tamanho de 11 meses antes, quando eles assumiram. Parece um bom desempenho. Mas não é. Para ficar numa comparação conservadora, o índice Ibovespa no mesmo período cresceu 74,8%.

O perfil dos investimentos do fundo de pensão, que em janeiro de 2003 detinha uma parcela de apenas 6,7% em ativos de alto risco, havia sofrido uma mudança radical onze meses depois. As apostas mais agressivas subiram para 19% dos ativos, ultrapassando em muito o limite legal de 10%. Isso sem o ganho de rentabilidade esperado de quem troca conservadorismo por risco no mercado de capitais.

A atual diretoria da Fundação Copel não quis se pronunciar sobre o assunto. A reportagem tentou contactar Haroldo de Almeida Rego Filho por intermédio do e-mail do advogado de um de seus filhos, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno. Othon Mäder, Azis Surugi Neto, Paulo Aníbal Cruz e Ricardo Vetere não foram encontrados.

A trinca de operadores

O elo mais visível entre o grupo que trabalhou na Fundação Copel e o especulador Haroldo de Almeida Rego Filho é o dentista e advogado Paulo Aníbal Cruz Neto. Ele é filho do brigadeiro Murilo Santos, amigo dileto do general Leônidas Pires Gonçalves, ministro do Exército do presidente José Sarney (1985-1990). Leônidas é uma espécie de padrinho de Haroldo Pororoca.

Na década de 90, Paulo Aníbal chegou a trabalhar como auxiliar de pregão na corretora Carioca, já fechada, que legalmente pertencia a Marcos de Almeida Rego, irmão de Haroldo, dono de fato da empresa. Em 2003, ele tornou-se operador da mesa de investimentos da Fundação Copel com Ricardo Vetere, administrador de empresas famoso por ter dirigido a área de investimentos da Refer (fundo de pensão dos ferroviários) na década de 90, emprego que lhe custou um processo por infringir todas as leis reguladoras do mercado de previdência. Já foi relacionado ao ex-secretário de Assuntos Estratégicos Pedro Paulo Leoni Ramos, dono das nomeações nos fundos de pensão estatais no governo Collor.

O terceiro personagem da trinca posta na operação dos investimentos é Azis Surugi Neto. Ele trabalhou no Banestado de 1984 a 1999. Estava no Banco Santos, de Edemar Cid Ferreira, quando foi chamado para a Fundação Copel. É irmão do empresário André Surugi, morto no final de 2003, no mesmo acidente de avião que vitimou o então presidente nacional do PTB, José Carlos Martinez.

Por Ugo Braga – Jornal do Commercio – Correio Braziliense – 12/12/2005 – NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.anapar.com.br.

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