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A derrocada dos bancos americanos e seus efeitos no mundo

A queda dos gigantescos bancos hipotecários e de investimento americanos e alguns europeus acelera o declínio do dólar e põe em xeque a hegemonia americana. Na Ásia bancos só balançaram; nenhum caiu. No Brasil, os bancos jogaram os riscos para as empresas e algumas vão quebrar. A análise é de Bernardo Kucinski.

O terremoto financeiro americano já derrubou seis de seus grandes bancos de financiamento habitacional, três dos cinco maiores bancos de investimento e sua maior seguradora. Seis desses gigantes sumiram do mapa, engolidos por outros bancos. Quatro foram estatizados. Um cenário desolador com prejuízos de 200 bilhões de dólares a cidadãos e bancos comerciais , pânico e perda de confiança no sistema financeiro. Tentando estancar uma corrida generalizada a bancos, o governo Bush elevou de 100 mil dólares para 250 mil a garantia para depósitos pessoais e já fala em mais estatizações. (1)

Os bancos de investimento americanos eram os reis da selva financeira, sugando e reaplicando milhões de todo o mundo, de bilionários, de outros bancos, e de fundos de pensão. Os únicos sobreviventes, Goldman Sachs e o Morgan Stanley, ficaram tão mal que o governo autorizou sua transformação em conglomerado financeiro, forma disfarçada de permitir que tenham acesso a linhas de crédito do FED. (2)

O terremoto atingiu com intensidade o mercado financeiro londrino, o maior importante da Europa e o mais ligado ao sistema financeiro americano, reverberando no continente, embora a Inglaterra não tenha aderido ao Euro. A economia da Inglaterra já estava deprimida, com queda de quase 30% nos valor dos imóveis desde janeiro. Além da estatização parcial do grande banco hipotecário Bradford& Bingley e venda de suas agências ao Santander numa operação de 733 milhões de Euros, outro banco de financiamento da habitação, o HBOS foi absorvido pelo Lloyds TBS por cerca de US$ 20 bilhões.

Na terça-feira, dia 9, quando rumores de quebra atacaram o Stanley Morgan- Chase nos Estado Unidos e o Banco Real da Escócia, a Europa entrou em pânico. As ações dos principais bancos ingleses desabaram e o governo anunciou o pacote de salvamento maior do que o de Bush, e com mais ênfase na estatização parcial dos bancos (3): o pacote destina 50 bilhões de libras (cerca de 90 bilhões de dólares) à compra de ações de bancos, ou seja estatização parcial, 200 bilhões de libras a empréstimos aos bancos, e mais 250 bilhões para garantia de empréstimos de curto e longo prazo.

Antes, a onda de choque já havia derrubado bancos isolados do Norte e do centro da Europa metidos na especulação com o mercado imobiliário e com os fundos do Merril Lynch e do Lehman. A pequena Islândia estatizou todos os seus três bancos: o Glitnir, o Kaupthing e o Landsbanki Islands. Estima-se que 300 mil ingleses aplicavam pela internet no banco virtual do Landsbanki, chamado Icesave.

Na Holanda quebrou o grande banco de investimento Fortis, de atuação mundial, na Alemanha quebrou o hipotecário Hypo Real State e na Bélgica o franco-belga Dexia. Os três estão em processo de estatização ou absorção parciais (4). Embora pesadas, essas quebras não haviam abalado o sistema financeiro europeu, reforçado semanas antes por algumas injeções do banco Central europeu, e as medidas de cada governo foram tomadas em separado. A proposta de Sarkozy de criar um fundo conjunto europeu de salvamento foi barrada pela chanceler alemã, Ângela Merkel.

Mas depois do tremor do Real Banco da Escócia, governos europeus entraram em pânico. Acharam que a onde de choque havia mudado de direção e coordenaram cortes generalizados nas taxas de juros, e novas injeções no sistema financeiro, além de novos pacotes de salvamento em vários países. A filosofia geral das intervenções na Europa tem sido a de injetar o máximo possível de liquidez no mercado e estatizar o mínimo necessário para salvar o sistema. (5)

Até agora, nenhum banco quebrou no cinturão mediterrâneo da Espanha, Portugal, Itália, e Grécia, assim como nenhum banco suíço (6). Houve fusões preventivas. Na Dinamarca, o Banco de Roskilde foi absorvido por outros bancos do país e da Suécia. Na França, a financeira do grupo Rotschild vendeu 20% de suas ações ao Banco da China e dois dos principais bancos mútuos (em que os clientes são também acionistas) o Caísse d Épargne e o Banque Populaire, decidiram fundir-se, frente à tormenta que os balançava. Essa fusão cria o segundo maior grupo bancário francês.

Espanha e Itália anunciaram a criação de fundos de emergência para comprar ações de bancos. Na Espanha, o prejuízo total dos bancos com papéis americanos foi estimado entre 1 e 2,5 bilhões de euros, facilmente assimiláveis pelo sistema bancário. O Santander deve amargar 500 milhões de euros em perdas com papéis do Lehman, que pode tirar de letra, graças inclusive aos lucros fabulosos que obtém no Brasil. E mais: está aproveitando a crise para crescer, comprando fatias do Bradford & Bingley Stanley. Os demais bancos espanhóis perderam quantias menores.

Na Rússia, agora capitalista mas com um sistema bancário ainda frágil, o governo antecipou-se estatizando os bancos Svyaz Bank e Kit Finance de São Petesburgo e injetando em duas etapas o equivalente a 57 bilhões de dólares no mercado financeiro para dar liquidez (20 e depois mais 37). Putin sentiu-se suficientemente forte para diagnosticar que a liderança econômica dos Estados Unidos ficou “arruinada para sempre.” Acusou o governo americano de incapaz. E num ousado movimento em separado, o governo russo convidou as potências mundiais a discutirem um tratado que proíba o uso da força nas relações internacionais.

Na Ásia e Oriente Médio, a onda de choque chegou bem arrefecida. Bancos amargaram prejuízos, mas nenhum quebrou nesta fase. Corridas a um banco na Índia e outro em Hong Kong, foram estancadas com facilidade. O grupo indiano Tata aproveitou a crise para abocanhar por US$ 505 milhões uma unidade financeira local do grupo americano Citicorp.

O maior banco da China, o Industrial and Commercial Bank, ICBC, tinha US$ 158 milhões em bônus do Lehman, e outro banco o China Merchants Bank tinha US$ 70 milhões. O governo chinês entrou comprando no mercado de ações, cancelou uma taxa sobre transações em bolsa e criou uma linha de financiamento de exportações para pequenas empresas.

Na Austrália, praticamente todos os bancos vão perder, mas o prejuízo total estimado em US$ 800 milhões com a quebra da AIG e mais US$ 500 milhões com a do Lehman são facilmente absorvíveis. Representam apenas 0,9% dos 130 bilhões do patrimônio dos bancos envolvidos e menos de 5% do seus lucros do ano passado (7). Todos estão chiando porque querem abocanhar recursos de um Fundo Futuro, criado pelo governo para financiar aumentos do funcionalismo.

No Japão, a exposição total dos bancos, foi estimada em pouco mais de US$ 2 bilhões, dos quais US$ 1,2 pelo Mitsubishi, 463 milhões pelo Aozora Bank e 382 milhões pelo Mizuho Bank. Tudo facilmente absorvível pela banca japonesa, com a ajuda do Banco Central, que injetou US$ 200 bilhões no sistema até o final de setembro.

Assim como o Santander espanhol, o Mitsubishi, apesar do seu próprio prejuízo, aproveitou a crise para comprar 21% das ações do grande banco americano Morgan Stanley ( não confundir com o J. P. Morgan Chase) .

Em países mais receptores do que emissores de investimentos especulativos ou com economias em crescimento, como Chile, Argentina, Uruguai e África do Sul, não foram informados prejuízos importantes em bancos até agora. No Brasil, há apenas a notícia do fechamento preventivo da financeira do banco Credibel, voltada a financiamentos de automóveis e o fechamento, inclusive para saques, do fundo GWI-FI, um fundo muito exclusivo, de pouca gente, que sistematicamente rendia mais do que os outros.

Acontece que o juro que o nosso Tesouro paga por seus papéis, de 13,7% ao ano, é tão sedutor, que permite o retorno um mês e sem nenhum risco do que lá fora levaria um ano. Mas alguns bancos, mais agressivos, brasileiros ricos e até empresas podem ter aplicado no Brasil através de uma triangulação via fundos de investimento de fora, já que o imposto de renda, é isento para investidores estrangeiros (8). Se os bancos estrangeiros gestores desses fundos quebrarem vai dar prejuízo aqui.

Os bancos brasileiros negam ou não revelam envolvimento com títulos dos bancos americanos. Uma exceção é a sociedade entre o Unibanco e a AIG formando uma empresa de “private equity”, ou seja criada para investir em projetos empresariais. Mas, a decisão do Banco Central de liberar parte do depósito compulsório dos bancos desde que o dinheiro seja aplicado na compra de carteiras de titulo de bancos pequenos, denota que há dificuldades entre pequenos bancos.

A principal conseqüência da crise entre nós tem sido o grande prejuízo de algumas empresas que se deixaram seduzir por um novo “derivativo”, inventado pelos bancos, quando o Banco Central começou a baixar a taxas da Selic em 2007. Por esse derivativo, eles ofereciam a empresas empréstimo a um juro abaixo da média do mercado, e em troca a empresa se comprometia a pagar um juro maior, se a cotação do dólar ultrapasse um determinado valor. Com isso o banco se protegia contra uma alta do dólar, já que os empréstimos eram captados já fora e teriam que ser devolvidos pelo banco em dólar.

Esse derivativo, nada mais era do que um hedge cambial (proteção contra variações na taxa do dólar), para as operações de empréstimo dos bancos fundeadas em dólar. Mas o esquema era apresentado de modo tão complexo e sedutor, que diretores financeiros de empresas pensaram que a proteção cambial era da empresa. A Sadia perdeu R$ 760 milhões, a Aracruz perdeu R$ 1,9 bilhão. Como cada banco sabe para quem vendeu o derivativo, mas não para quem o outro banco vendeu, e há desconfiança de que várias empresas se ferraram com esse derivativo, todos pararam de emprestar.

Também ficou mais difícil renovar os adiantamentos de crédito para exportação (ACC), obtidos com recursos externos. Por isso o governo reagiu injetando R$ 75 bilhões no mercado, somadas todas as suas iniciativas de reforço do capital do BNDES e redução do compulsório de bancos que se dispuserem a assumir carteiras de financiamento de bancos menores. Salvou-nos até agora de uma crise maior, o fato dos bancos comerciais no Brasil não serem financiadores de investimentos pesados e projetos de longo prazo, cabendo esse papel aos bancos estatais, em especial o BNDES. E também nos salvou a demora na abertura do mercado de seguros do Brasil ao capital estrangeiro e a não adesão a ALCA.

Muitos analistas endossam a tese da chanceler alemã, de que “os Estados Unidos perderão seu status de super- potência do sistema financeiro mundial”. Robert Kurz antevê o fim dos EUA como potência mundial e o enfraquecimento do dólar como moeda mundial de troca. Além do terremoto, o PIB americano soma 16 trilhões de dólares e já foi ultrapassado pelo Europeu que está em 17 trilhões. Desde que se mantenha coesa politicamente, a União Européia é hoje a potência econômica mundial, e muito menos complicada por contradições, déficits impagáveis e guerras insustentáveis. A parte européia que mais se estressou foi a mais ligada à economia americana.

* Matéria disponibilizada simultaneamente para a Revista do Brasil (http://www.revistadobrasil.net)

Notas

(1) Um dos maiores prejuízos já anunciados foi o de 15,7 bilhões de dólares do Morgan Stanley, no entanto uma fração de apenas 2% seu patrimônio estimado em 786 bilhões.

(2) A quebra do primeiro banco, o Coutry Wide, em janeiro, passou desapercebida. Mas ao quebrar o grande banco de investimentos Bearn Sterns, em março, o FED teve que persuadir o J. P. Morgan em menos de 12 horas a comprar o que sobrou do banco, antes que abrissem os mercados asiáticos. Em julho foi preciso estatizar o IndyMac, maior banco hipotecário de Los Angeles e o sétimo maior dos Estados Unidos. A crise estava começando.

Setembro foi o mês do pânico. O Lehman Brothers faliu, mesmo vendendo parte de suas operações nos Estados Unidos ao Barclay e as da Europa e Àsia ao Nomura Holdings. O Merryl Linch foi engolido pelo Bank of America, mais juma vez com a ajuda do FED. E ruíram as mega-financiadoras da habitação, Fannie Mae e Freddie Mac, estatizadas com a injeção de US$ 200 bilhões. Em seguinda, quebrou a maior seguradora americana e mundial, a American International Group Inc (AIG), também comprada pelo governo americano e vitaminada com US$ 85 bilhões.

No final do mês desabou o Washington Mutual Fund, sexto maior banco americano, tradicional institução de poupança e empréstimo fundada em 1889. Foi a maior quebra de um banco comercial americano desde o colapso do Continental Illinois em 1984. Mais uma operação de emergência do FED e a foi comprada pelo J. P. Morgan Chase por US$ 1,9 bilhões. O último a cair foi o Wachovia, quarta maior holding bancária americana, um impressionante conglomerado financeiro com sede na Carolina do Norte e 15 milhões de clientes. Deve ser engolido pelo Wells Fargo, depois do Citi ter oferecido apenas um dólar por ação que na semana anterior valia cem vezes isso.

(3) As ações do RBS caíram 39% as do Lloyds 13% e as do Barclays 9%.

(4) O Fortis foi parcialmente estatizado pelo governo da Holanda. O Real Estate teve que ser reforçado com 35 bilhões de Euros do governo alemão e de um consórcio de bancos privados. Governos da França e Bélgica injetaram 9,6 bilhões de dólares para manter de pé o Dexia.

(5) Austrália e Emirados cortaram um ponto Suécia, Suiça, França, Grã Bretanha, Estados Unidos e Hong Kong e o Banco Central Europeu cortaram meio ponto da taxa básica de juros. A China cortou 0,75 e Canadá 0,25.

(6) O UBS (União dos Bancos Suíços) admitiu perdas que podem chegar a 44 milhões de Euros mas já separou 27,9 milhões em provisão para cobrir prejuízos.

(7) Os três grandes, ANZ ,National Austrlian Bank e West Bank estão expostos em cerca de US$ 250 milhões cada. Os demais bancos estão expostos em quantiasm menores.

(8) É o que pode explicar, além das perdas em bolsa, as retiradas em massa dos fundos de investimentos brasileiros dos mega- especuladores, Luis Fernando Figueiredo, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Ilan Goldfajn, todos ex-diretores do BC ou ex-ministros. O patrimônio do Fundo Mauá, de Figueiredo virou pó, caindo de 1,7 bilhões de reais para 192 milhões, o de Mendonça de Barros o mesmo: de 1,8 bilhão para 269 milhões e o de Goldfajn encolheu em um terço, de 364 milhões para 207. Safou-se apenas o fundo Gávea, de Armínio Fraga, ex- presidente do BC.

Por Bernardo Kucinski.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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O mito do colapso americano

Apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma sucessão na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada vez maior entre a China e os Estados Unidos.

“Como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar”.
N. Maquiavel, O Príncipe, 1513

Na segunda feira, 6 de outubro de 2008, a crise financeira americana desembarcou na Europa, e repercutiu em todo mundo, de forma violenta. As principais Bolsas de Valor do mundo tiveram quedas expressivas, e governos e Bancos Centrais tiveram que intervir para manter a liquidez e o crédito de seus sistemas bancários. Neste momento, não cabem mais dúvidas: a crise financeira que começou pelo mercado imobiliário de alto risco dos EUA já se transformou numa crise profunda e global, destruiu uma quantidade fabulosa de riqueza, e deverá atingir de forma mais ou menos extensa, desigual e prolongada, a economia real dos EUA, e de todos os países do mundo.

Muitos bancos e empresas seguirão quebrando, nascerão rapidamente novas regras e instituições, e haverá nos próximos meses, uma gigantesca centralização do capital financeiro, sobretudo nos EUA e na Europa. Os bancos e organismos multinacionais seguem paralisados e impotentes e se aprofunda, por todo lado, a tendência à estatização de empresas, à regulação dos mercados, e ao aumento do protecionismo e do nacionalismo econômico.

De todos os pontos de vista, acabou a “era Tatcher/Reagan” e foi para o balaio da história o “modelo neoliberal” anglo-americano, junto com as idéias econômicas hegemônicas nos últimos 30 anos. Como contrapartida, mesmo sem fazer proselitismo explícito, deverá ganhar pontos, nos próximos meses e anos, em todas as latitudes, o “modelo chinês” nacional-estatista, centralizante e planejador.

No meio do tiroteio, é difícil de pensar. Talvez por isto, multiplicam-se, imprensa e na academia, os adjetivos, as exclamações e as profecias apocalípticas, anunciando o fim da supremacia mundial do dólar e do poder global dos EUA, ou, do próprio capitalismo americano. Na mesma hora em que os governos e investidores de todo mundo estão se refugiando no próprio dólar, e nos títulos do Tesouro americano, apesar de sua baixíssima rentabilidade, e apesar de que o epicentro da crise esteja nos EUA. E o que é mais interessante, é que são os governos dos estados que estariam ameaçando a supremacia americana, os primeiros a se refugiarem na moeda e nos títulos americanos. Para explicar este comportamento aparentemente paradoxal, é preciso deixar de lado as teorias econômicas convencionais sobre o “padrão ouro”e o “padrão-dólar”, e também, as teorias políticas convencionais sobre as crises e “sucessões hegemônicas”, dentro do sistema mundial.

Comecemos pelo paradoxo da “fuga para o dólar”, em resposta à crise do próprio dólar. Aqui é preciso entender algumas características específicas e fundamentais do sistema “dólar-flexível”. Desde a década de 1970, os EUA se transformaram no “mercado financeiro do mundo”, e o seu Banco Central (FED), passou a emitir uma moeda nacional de circulação internacional, sem base metálica, administrada através das taxas de juros do próprio FED, e dos títulos emitidos pelo Tesouro americano, que atuam em todo mundo, como lastro do sistema “dólar-flexível”.

Por isto “a quase totalidade dos passivos externos americanos é denominada em dólares e praticamente todas as importações de bens e serviços dos EUA são pagas exclusivamente em dólar. Uma situação única que gera enorme assimetria entre o ajuste externo dos EUA e dos demais países […]. Por isto, também, a remuneração em dólares dos passivos externos financeiros americanos que são todos denominados em dólar, segue de perto a trajetória das taxas de juros determinadas pela própria política monetária americana, configurando um caso único em que um país devedor determina a taxa de juros de sua própria “dívida externa” (1). Uma mágica poderosa e uma circularidade imbatível, porque se sustenta de forma exclusiva, no poder político e econômico norte-americano.

Agora mesmo, por exemplo, para enfrentar a crise, o Tesouro americano emitirá novos títulos que serão comprados, pelos governos e investidores de todo mundo, como justifica o influente economista chinês, Yuan Gangming, ao garantir que “é bom para a China investir muito nos EUA; porque não há muitas outras opções para suas reservas internacionais de quase US$ 2 trilhões, e as economias da China e dos EUA são interdependentes”. (FSP, 24/11).

Mas além disto, do ponto de vista da hierarquia mundial, se esta crise for administrada de forma estratégica, pelo governo americano, ela poderá reforçar em vez de enfraquecer a posição futura dos EUA, dentro do sistema mundial. Para entender este segundo paradoxo, entretanto, é necessário ir um pouco além da economia e das finanças, e analisar com cuidado a origem e os desdobramentos das crises e da competição entre os estados nacionais.

Em primeiro lugar, quase todas as grandes crises do sistema mundial foram provocadas até hoje, pela própria potência hegemônica. Em segundo lugar, estas crises são provocadas quase sempre pela expansão vitoriosa (e não pelo declínio) das potências capazes de atropelar as regras e instituições que eles mesmos criaram, num momento anterior, e que depois se transformam num obstáculo no caminho da sua própria expansão. Em terceiro lugar, o sucesso econômico e a expansão do poder da potência líder é um elemento fundamental para o fortalecimento de todos os demais estados e economias que se proponham concorrer ou “substituir” a potência hegemônica. Por isto, finalmente, as crises provocadas pela “exuberância expansiva” da potência líder, afetam, em geral, de forma mais perversa e destrutiva aos “concorrentes” do que ao próprio hegemon, que costuma se recuperar de forma mais rápida e poderosa do que os demais.

Resumindo: “apesar da violência desta crise financeira, não deverá haver um vácuo nem uma sucessão na liderança política e militar do sistema mundial. E, do ponto de vista econômico, o mais provável é que ocorra uma fusão financeira cada maior entre a China e os Estados Unidos” (2).

(1) Serrano, F. (2008) “A economia Americana, o padrão dólar-flexível e a expansão mundial nos anos 2000”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO,Editora Record, Rio de Janeiro, P : 83 (Prelo)

(2) Fiori, J.L. (2008) “O sistema mundial, no início do século XXI”, in J.L Fiori, F. Serrano e C. Medeiros, O MITO DO COLAPSO AMERICANO, Editora Record, Rio de janeiro, p: 65 ( NO PRELO).

* Artigo publicado originalmente no jornal Valor Econômico (08/10/2008)

Por José Luís Fiori,que é cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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