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A metáfora da desaceleração

Na ânsia de explorar o sentido pessimista da palavra “desaceleração”, muitos editores atropelaram os fatos. Como tantas manias do nosso jornalismo, esta também nasceu lá fora. Parece que tudo começou com uma declaração do presidente Bush ainda em março, meses antes do estouro dos bancos americanos. Adotada a tese, os jornais saíram a campo para descobrir desacelerações reais ou imaginárias.

De repente, a mídia se apaixonou pela palavra desaceleração. No mundo inteiro, tudo está se desacelerando. “China desacelera” , proclama o Estadão (21/10/08). “Arrecadação tributária já dá sinais de desaceleração”, anuncia a Agência Estado.”Mantega diz que Brasil sofrerá desaceleração moderada, mas sem recessão”, é o título de um despacho da Reuters. “A crise internacional colocou um freio adicional a uma economia que já entrava em desaceleração, anuncia o jornal Valor na abertura de uma reportagem sobre o Brasil.

Na ânsia de explorar o sentido pessimista da palavra “desaceleração”, muitos editores atropelaram os fatos. Na manchete do Estadão , por exemplo, o fato principal foi colocado na segunda linha do título, como se fosse uma ironia: “E o PIB (da China) cresce 9%”. Essa é uma taxa de crescimento de milagre econômico, que acontece raramente, só quando se combinam vários fatores no processo produtivo. O titulo correto seria do tipo: China mantém trajetória de crescimento acelerado.

Mas como a intenção é retratar a crise do capitalismo financeiro anglo-saxão, como se fosse um tsunami planetário, algo da esfera da natureza, e não da esfera política, algo que pega o mundo todo e todas as atividades econômicas, é preciso instilar a idéia de que a China já está entrando em crise. Daí o reforço do sentido negativo no título do box que acompanha a matéria principal: ”Outra empresa fecha e demite.” Assim não fica nenhuma dúvida de que “a China caminha para o desastre”.

Mais notável é a forçada de barra na notícia da queda na arrecadação, da Agência Estado. Depois de mencionar o significativo aumento nas receitas do governo até agosto, o texto parte para o condicional: “Se o tomo dos lucros for tal que eles emparelhem com as demais fontes de renda, o governo pode perder R$ 52 bilhões”, diz. A narrativa não se sustenta em nenhuma informação concreta, apenas na vaga menção, sem números nem atribuição da fonte de que “nos primeiros dez dias de outubro já foi constatada queda na arrecadação em relação às previsões da receita federal.” Em relação a previsões, não em comparação ao efetivamente arrecadado em algum período anterior. Na reportagem do Valor também só há especulações.

Como tantas manias do nosso jornalismo, esta também nasceu lá fora. Parece que tudo começou com uma declaração do presidente Bush ainda em março, meses antes do estouro dos bancos americanos. “Está claro que nossa economia desacelerou”. Depois do desastre, a tese da desaceleração pegou. Foi aplicada ao mundo todo por George Soros, entre outros financistas e economistas de renome, e finalmente sacramentada como prognóstico oficial pelo presidente do FMI, Olivier Blanchard: “A economia mundial está em fase de desaceleração…é tarde demais para evitar…” disse ele.

Adotada a tese, os jornais saíram a campo para descobrir desacelerações reais ou imaginárias. A paixão pela palavrinha, nem bonita nem tão jornalística, está na sua capacidade de construir o sentido a idéia de que a economia vai mal, mesmo quando vai bem. Não deixa de ser uma desonestidade semântica. No caso do Brasil, serve à torcida disfarçada para que os sucessos do governo Lula virem insucesso antes de 2010. O pior é que em economia, há o que se chama “profecia auto-realizada”. De tanto falar em desaceleração, a mídia acaba contribuindo para que ela de fato ocorra.

No caso da China, o mote da desaceleração foi dado por extensa reportagem da edição asiática do Wall Street Journal. A China passou a crescer apenas 9%, depois de crescer 10% e até 12%, portanto está em “desaceleração”, argumenta o jornal. Essa reportagem , re-processada por grande numero de correspondentes na China, serviu como uma espécie de “derivativo” jornalístico” às más notícias da crise dos derivativos do capitalismo anglo-saxão.”Tá vendo, não é só nas economias de mercado, na China também…”

A Folha foi além dos demais jornais e cometeu a impropriedade de dizer que a desaceleração da China “já provoca impacto nos preços das matérias primas, como soja e ferro, que importa do Brasil. O preço do aço caiu 20% em três meses por causa da demanda menor.”

Ora, a demanda não é menor, continua crescendo, e muito, a taxas de milagre econômico. Mesmo a 9% ao ano, a demanda dobra em menos de dez anos. E mais: o acréscimo de demanda em 2008, provocado por um aumento de 9% do PIB, é praticamente igual ao acréscimo da demanda provocado no ano anterior por um crescimento do PIB de 10%, porque nesse ínterim a base sobre a qual se dá o crescimento é maior. A afirmação, portanto, é duplamente falsa. O preço do aço pode até ter caído, mas não por causa de uma queda na demanda. Talvez por que se esvaziou uma outra bolha especulativa, a das matérias primas.

Uma analise mais rigorosa da narrativa de desaceleração revela outras impropriedades. Ao transpor a noção distante de crescimento econômico para a noção familiar de um objeto em movimento, essa metáfora se faz falsa, como quase todas as metáforas. A analogia da produção econômica com a velocidade de um objeto não é boa. Ao estudar o movimento dos corpos, Galileu descobriu que se nenhuma força externa agir sobre um corpo em movimento, ele mantém sua velocidade. Notem bem: é preciso haver uma força externa para mudar a velocidade de um corpo, ou seja para acelerar ou desacelerar.

Na economia, embora uma decisão intempestiva das autoridades ou um tsunami financeiro possam dar um cavalo de pau na economia, isso não é automático e nem tão fácil. E mais: não é preciso haver forças externas para acelerar ou desacelerar o crescimento. Fases de expansão ou contração ocorrem por processos internos, endógenos, muitos deles oriundos das contradições entre decisões de investir e decisões de consumir, tomadas por atores sociais diferentes e em momentos diferentes.

Por Bernardo Kucinski, jornalista e professor da Universidade de São Paulo, é colaborador da Carta Maior e autor, entre outros, de “A síndrome da antena parabólica: ética no jornalismo brasileiro” (1996) e “As Cartas Ácidas da campanha de Lula de 1998” (2000).

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A bailanta financeira

Além de recuperar o Estado como elemento interventor na Economia, a presente crise trouxe palavras curiosas à tona. Uma delas é a “Economia real”. Fala-se de uma “Economia verdadeira”, e de uma “outra Economia”. Que diabos quer dizer isso?

Desculpem o gauchês lascado. Bailanta quer dizer um “grande fandango”. Não me ocorre outro nome para falar de novo dessa crise financeira que se abate sobre nós com a fúria somada do dilúvio universal, da chuva de fogo sobre Sodoma e Gomorra no Velho Testamento e das trombetas dos Cavaleiros do Apocalipse.

“Ciranda financeira” é pouco. Dá idéia de uma roda onde tudo dança, é verdade. Mas o que está acontecendo é uma espécie de “tontería” universal, para usar uma outra palavra “de los vecinos” do Prata. Todo mundo dança, mas a dança é algo caótica como numa bailanta, que é, sem dúvida, a melhor tradução para a metáfora (ou será alegoria) da Noite de Walpurgis, no Fausto, de Goethe. A fantástica dança noturna e demoníaca onde tudo roda e se transforma já foi lida por certa crítica como uma alegoria do capitalismo emergente no século XVIII. “A Bailanta de Walpurgis”: que alegoria para descrever o círculo de perdas e derretimentos monetários a que fomos levados pela incúria dos mercados!

Uma medida disso é a desmedida dos números e a correria das palavras para tentar descrever o que está acontecendo. Vejam só: imitando seu colega inglês (de posto, não de partido) Gordon Brown, a primeira-ministra alemã Ângela Merkel colocou no seu pacote de socorro aos bancos em risco de insolvência medidas moralizadoras. Os bancos deverão cortar bônus e prebendas normalmente pagas a seus executivos e membros do “Board”.

Além disso, nenhum desses cargos poderá ser agraciado com mais de 500 mil euros de salários anuais. 500 mil euros! Um milhão e meio de reais, mais ou menos! Não, leitoras e leitores, não pensem que estou me atirando a observações moralistas! A vida é assim, desigual. No meu tempo de criança, a desigualdade era da vontade de Deus; hoje é da vontade e da natureza dos mercados, esses novos Molochs que devoram tudo em seu fogo predador, o que dá mais ou menos no mesmo. Convenhamos: os motivos de antanho eram igualmente ideológicos, mas mais nobres. O que me espanta é que tanta gente, pelo mundo a fora, tenha ganho anualmente muito mais do que isso apenas para despejar sua arrogância, sua sobeja incompetência na bailanta dos mercados!

Em julho de 2007 este pobre escriba da Carta Maior já escrevia que a bolha imobiliária dos EUA iria estourar. Não sou economista, mas os passarinhos de arribação já tinham piado no meu ouvido que a coisa ia de mal a pior. E desde então, para citar velho ditado do pago, lembrado pelo Luís Augusto Fischer no seu Dicionário de Portoalegrês, “a coisa ficou feia e veio se debruçando”. E esses magos da pelota mercadeira, o que fizeram? Nada, essa é que a verdade. E agora toca todo mundo a correr atrás de seus magros haveres que, como não são sólidos, posto que se transformaram em inversões “tóxicas” numa “bolha de mercado”, desmancham no ar muito mais depressa do que aquilo que sólido é, parafraseando Marx.

Daí passamos ao reino das palavras, onde a bailanta é maior. Além de recuperar o Estado como elemento interventor na Economia, a presente crise trouxe palavras curiosas à tona. Uma delas é a “Economia real”. Que diabos quer dizer isso? Bem, olhando-se as declarações dos líderes e economistas, a “Economia real” é aquela que produz bens e serviços. Mas aqui há um delicado problema semântico e ético. É que a nossa – brasileira da língua portuguesa – “Economia real” é uma tradução do inglês “real Economy”. “Real”, em inglês, tem uma conotação moral. Quer dizer, na verdade, “verdadeiro”, ou “verdadeira”. “Real”, no nosso sentido, é “actual”.

Ou seja, fala-se uma “Economia verdadeira”, e de uma “Outra Economia”, como se durante algumas décadas, duas, para ser mais preciso, a Economia, ou “o Economia”, para ficar numa metáfora machista que convém mais a esse universo, tivesse pulado a cerca e fosse se divertir com a “Outra”, ou uma ou várias “Outras”, na bailanta das mercês, prebendas e sinecuras em que ganhar dinheiro se transformou. De novo, ninguém pense que estou a descarregar moralismos sobre a vida dos outros. Só me espanta que tanta desfaçatez, tanto descaramento e tanta incompetência sejam tão bem remunerados, e tenham sido tão bem aquinhoados com adjetivos melodiosos por toda a nossa imprensa conservadora que não cansava de incensar os mercados, com a mesma cara de pau que agora pede, exige, implora pela intervenção imediata e moralizadora de seu antigo Leviatã, o maldito Estado.

Voltando aos números: uma das realidades emergentes nessa crise de realismo (socialista?) que se abateu sobre os mercados e seus sacerdotes, é que a China tem um terço de suas reservas monetárias investidas em letras do Tesouro norte-americano. Quanto é isso? As reservas chinesas são da ordem de 1,7 trilhão de euros. Ou seja, mais ou menos 5,1 trilhões de reais. Um terço disso dá 1,7 trilhão de reais, um PIB brasileiro mais uma soma que deve equivaler ao que se sonega na nossa economia. Caramba!

Além disso, a China era uma investidora pesada na Fannie Mae e na Freddie Mac, as duas primeiras empresas de crédito imobiliário a quebrarem recentemente e darem início à presente Bailanta de Walpurgis.

Esse foi um dos fatores que levaram aos sacerdotes fundamentalistas do mercado, nos Estados Unidos, a intervirem no sistema financeiro, contra sua vontade. O bafo do tigre chinês estava muito perto, não sob a forma de alguma ameaça militar, mas sob a forma de uma quebradeira maior ainda se os chineses resolvessem de repente “realizar seus ativos”, ou seja, retirar seus investimentos nos Estados Unidos.

Aí sim a bailanta ia pegar fogo. Como ainda pode pegar, porque nessas bailantas, todo mundo sabe como a pancadaria começa, mas ninguém sabe quando e onde vai terminar.

Por Flávio Aguiar, que é editor-chefe da Carta Maior.

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