A missão cumprida de Sérgio Gabrielli
Seu grande feito, como diretor financeiro e depois presidente da empresa, foi ter revertido a tentativa de quebrá-la, que ficou clara no governo FHC
Por Luiss Nassif, em seu blog
O maior risco que a Petrobras sofreu, na década passada, foi a tentativa de quebrá-la em várias subsidiárias – distribuição, refino, produção.
Na própria campanha do Petróleo é Nosso, no início dos anos 50, havia a convicção dos técnicos que a integração era fundamental para dar músculos e condições de se tornar um player independente.
No final do governo FHC a Petrobras deu início a programas sofisticados de planejamento estratégico. Mas com o viés negativo da divisão da empresa, para privatização de algumas unidades.
A rigor, o grande feito de José Sérgio Gabrielli – que, nesta segunda, deixa a presidência da Petrobras – foi ter revertido esse modelo, primeiro como diretor financeiro da empresa, depois como presidente.
O segundo grande feito por ter recuperado os programas de qualidade, abandonados no período Reichstull para privilegiar os resultados de caixa da companhia.
E aí se entra no desafio de gerir uma grande estatal. Há muitos públicos a serem atendidos: os trabalhadores, os fornecedores, os acionistas, o Estado (como acionista controlador), os clientes.
O fato de ser estatal ajuda, inclusive na posição de quase monopólio do setor. Mas exige contrapartidas, uma das quais é avaliar os impactos dos reajustes de derivados sobre a inflação. Parte da redução de lucros no ano passado – 5% em relação a 2010 – se deveu ao não repasse, para os preços internos, das altas internacionais de petróleo.
Assim que entrou o governo Lula, a primeira função de Gabrielli foi percorrer o mundo para conversas com investidores, informando que não seria cometida nenhuma loucura à frente da empresa. Em 2003 foram mais de 1.200 reuniões, uma média de 100 por mês.
O segundo passo foi analisar as companhias internacionais e constatar que o modelo de empresa integrada era muito mais rentável do que aquelas meramente produtoras de petróleo ou refinadoras.
No plano estratégico de 2003, se dizia que, mais importante que o resultado de cada área, era o resultado final integrado. Cada setor manteve sua estratégia operacional mas a corporação passou a prover o suporte operacional para todos eles, integrando resultados.
Outro ponto relevante foi a renovação da companhia. De 1990 a 2000 praticamente não houve concurso. Hoje em dia, 52% dos funcionários têm menos de dez anos de quase e 46% mais de 20 anos. No meio ficou a vacância da falta de concursos.
Desde sempre a empresa tinha sistemas de informações azeitados. Com a descoberta do pré-sal, explica Gabrielli, foi necessário conferir uma velocidade maior ao que já existia. Afinal, em 2003 a Petrobras investia US$ 5 bilhões/ano; em 2011 investiu US$ 43 bilhões.
O pré-sal trouxe novas responsabilidades à empresa. Tornou-se operadora de todos os poços do pré-sal – sozinha ou em sociedade com empresas estrangeiras.
O fato da lei ter definido um ritmo razoável de produção – vai crescer de acordo com a capacidade das indústrias nacionais de fornecerem os equipamentos – permitirá à empresa formar quadros para operar o pré-sal.
Gabrielli deixa a companhia conquistando os principais prêmios internacionais destinados a executivos de petrolíferas.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://ponto.outraspalavras.net/2012/02/14/missao-cumprida-de-gabrielli/
===============================
Um depoimento sobre Graça Foster
Enviado por luisnassif, sex, 10/02/2012 – 08:46
Por Carlos Souza
Graça Foster – Presidente da Petrobras
Prezado Nassif, escrevi esse depoimento. Agradeceria se pudesse ser publicado.
Conheci a Graça há uns 20 anos. Eu tinha acabado de voltar do doutorado e ela era chefe de um setor no centro de pesquisas da Petrobras. Eu tinha tido um trabalho técnico aprovado para apresentação em um congresso no exterior. Nessa conferência a Petrobras apresentaria 6 ou 7 trabalhos. Como era comum naquela época, a Petrobras não aprovou a viagem para a conferência de vários dos autores, apenas uma vaga foi aprovada para o Centro de Pesquisas. A Graça foi a escolhida e iria apresentar seu trabalho. Os demais, como era comum acontecer, dariam “no show” no congresso.
Quando soube disso, a Maria da Graça, por conta própria, telefonou para todos os autores e se prontificou a apresentar todos os trabalhos. Com isso, acabei indo ao CENPES, o centro de pesquisas da empresa, para mostrar a ela minha apresentação e explicar um pouco do trabalho, que obviamente passava longe de sua especialidade. Ao encontrá-la, não resisti e fiz a pergunta: porque você, que poderia ir à conferência, apresentar seu artigo, e depois aproveitar o evento para conhecer outros autores e assistir a outras apresentações, está preferindo se expor, e enfrentar essa maratona para apresentar 7 trabalhos, em inglês (que não era seu forte), em áreas técnicas que não são exatamente as suas? E isso tudo por iniciativa própria, sem que ninguém sequer tenha lhe sugerido isso?
p>Sua resposta foi interessante e inusitada. Graça preferia correr os riscos de apresentar um trabalho alheio a ver a Petrobras dar um “no show” em um congresso.
Depois desse primeiro contato, passei os anos seguintes trabalhando muito próximo da Graça. Coordenei um projeto do CENPES em que 8 dos engenheiros de seu setor trabalhavam comigo. Na aprovação desse projeto conheci o hoje famoso mal humor da Graça. Ela, que nunca teve paciência para esperar, queria que o projeto fosse aprovado e tivesse ssuas atividades iniciadas o mais rápido possível. Eu porém, como futuro coordenador e observando vários aspectos técnicos e econômicos, só aceitei iniciar o projeto depois de ter todos os planos de trabalho revisados e atendendo a todos os requisitos de meu departamento. Essa demora deixou a Graça muito irritada, mais ainda ao ver que sua irritação não tinha nenhum efeito na aprovação do projeto. Quando finalmente todos os requisitos foram atendidos e o projeto deslanchou, ela veio a minha sala, na avenida Chile, e pediu desculpas reconhecendo que minha atitude visava buscar o melhor para a empresa. Essa qualidade, de reconhecer seus eventuais erros e pedir desculpas, também é bastante conhecida hoje na empresa. Somente por curiosidade, informo que esse projeto visava capacitar a empresa a perfurar poços horizontais e de longo alcance em águas profundas. Hoje a Petrobras é uma das empresas que dominam essa técnica e esse tipo de poço é o poço básico usado na produção dos grandes campos marítimos da empresa.
Depois disso ficamos amigos, trabalhamos juntos em diversas frentes, ela sempre no CENPES e eu no E&P (Exploração e Produção). Uma das últimas atividades que exercemos juntos foi sair pelo Brasil, palestrando em diversas universidades, buscando parcerias dos pesquisadores brasileiros para solucionar os diversos desafios que a Petrobras enfrentava e viria a enfrentar. A Petrobras tornava-se uma empresa gigante, o CENPES sozinho não daria conta de tudo. Precisávamos de parceiros. Palestramos e buscamos apoio desde o Sul até o Amazonas. Hoje a Petrobras tem projetos de pesquisa, sem exagero, com centenas de universidades e centros de pesquisa no Brasil e no mundo.
Depois disso, passei a ver a Graça cada vez menos. Ela começou, por mérito próprio, a exercer cargos cada vez mais altos na empresa, o que a tornava cada vez mais ocupada. Eu por meu lado, sai da Petrobras e do Brasil para ser professor em uma universidade no exterior. Mais tarde, quando retornei à indústria do petróleo, foi também no exterior, e desde essa época nunca mais vi a Graça. Já lá se vão mais de 10 anos. Mesmo sem vê-la, e sem nenhum contato, sequer por email, ainda a considero minha grande amiga e estou orgulhoso de sua conquista.
Que momento especial passa a Petrobras. Além de uma mulher como presidente, funcionária de carreira, tem entre seus diretores um engenheiro como o Formigli, também funcionário com carreira de mais de 30 anos na empresa, trabalhador e muito competente. Temos ainda o Duque e o Zelada, ambos diretores, ambos funcionários de carreira, ambos com mais de 30 anos de trabalho na Petrobras. A eles veio agora se juntar na diretoria o José Alcides, também trabalhando na empresa há mais de 30 anos. E na Petrobras Distribuidora, temos como presidente o José Lima, meu grande amigo desde os tempos em que éramos estagiários e mais tarde jóvens engenheiros em Sergipe e posteriormente na Bahia.
Tive o prazer de conhecer todos esses engenheiros, hoje ocupantes dos mais altos cargos da empresa. Conheci-os ainda jóvens, ralando, trabalhando duro e contribuindo para formar essa Petrobras que hoje conhecemos. A Graça e o José Lima também ralaram por anos a fio antes de sequer ocupar suas primeiras, e humildes, posições de chefia. A todos conheci em algum momento de minha carreira, jogamos bola, tomamos chopp, rimos e trabalhamos juntos.
Sai do Brasil antes do primeiro governo Lula, não trabalho na Petrobras e não sei muito sobre a política brasileira. Ouço sempre falar que fulano é indicação do PMDB, que o sicrano é da quota do PT, e etc. Porém, o fato é que esses engenheiros, assim como eu, ingressaram na Petrobras ainda jovenzinhos. Passaram, como eu, num concurso nacional e aberto a todos os brasileiros. Foram bons empregados, deram sua contribuição e hoje estão na diretoria da empresa. Não os vejo nem tenho com eles tenho nenhum contato há mais de uma década, mas isso não me impede de me sentir feliz por essas conquistas. Na história da empresa não me lembro de ter visto tantos empregados de carreira, competentes e merecedores, ocupando tantos cargos na direção. Para mim é motivo de orgulho. Creio que para todos os brasileiros.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/um-depoimento-sobre-graca-foster
================================
Como a Petrobras se prepara para o pré-sal

Estatal planeja investimentos de centenas de bilhões de dólares até o fim da década — e receitas ainda maiores. Novas reservas poderão torná-la uma das líderes mundiais, mas envolvem enormes desafios tecnológicos e gerenciais
Por Luis Nassif, em seu blog
O anúncio, há dias, do plano de investimentos da Petrobras ajudou a esclarecer alguns pontos que intrigavam o mercado.
A empresa tornou-se a grande operadora do pré-sal e caminha para ser uma das maiores do mundo. De um lado, necessitará captar investimentos volumosos – e eles dependem em grande parte do valor das suas ações (função da sua capacidade de gerar lucros).
Como monopolista do pré-sal, há inúmeras vantagens. Em contrapartida, foram definidos vários objetivos nacionais que ela terá que cumprir: como adquirir parte dos equipamentos com conteúdo nacional.
Com o câmbio nos níveis atuais, o produto nacional é pouco competitivo. Além disso, haverá desafios grandiosos na própria cadeia internacional de suprimentos, para atender às necessidades do pré-sal.
Para responder a essas questões, o presidente da Petrobras José Sérgio Gabriellli, participou de uma mesa redonda com analistas de mercado no meu blog (www.luisnassif.com.br).
***
Segundo ele, foi a descoberta dos campos de Campos que permitiu à Petrobras sair de uma produção de 187 mil barris por dia em 1980 para os atuais 2 milhões de barris – crescimento de 10% ao ano – desenvolvendo os fornecedores nacionais. Agora, enquanto os poços de Campos envelhecem, surge o pré-sal, abrindo perspectivas maiores ainda.
***
Hoje em dia a Petrobras é, disparadamente, a maior empresa na produção de petróleo em águas profundas do mundo, maior que a soma das três empresas seguintes.
Isso vai exigir uma notável expansão da cadeia de fornecedores e, em termos estratégicos, é melhor que seja feita em território nacional. Portanto, a produção nacional é parte integrante da estratégia da Petrobras, explica Gabrielli, e não apenas uma imposição de Estado.
***
A atual revisão foi a oitava do plano de negócios. A empresa tem 688 projetos acima de 25 milhões de dólares e 3 mil projetos abaixo de 25 milhões de dólares. Quando se faz revisão do plano, se vai ao projeto, sempre que ocorrem alterações nas premissas de preços dos projetos, as perspectivas de hierarquização desses projetos.
O plano atual prevê 224 bilhões de dólares investimentos, aumentando a participação relativa da exploração e produção no pré-sal – que sairá de 2% da produção atual para 40% em 2020.
Mudou-se também a estratégia de expansão do refino, do mercado externo para o interno, depois de identificados déficits de produção no centro-oeste, norte e nordeste. Haverá a necessidade de novas refinarias nessas áreas.
Houve mudanças relevantes também na área de gás e energia, para terminar ciclo de investimentos em infraestrutura, gasodutos e capacidade logística de entrega de gás, especialmente para ampliar os investimentos na química do gás transformando-o em ureia e amônia, moléculas que podem ser estocadas e complementares em termos de flexibilidade do gás.
O terceiro ponto é completar o ciclo de investimentos na qualidade dos produtos, reduzindo a emissão de enxofre para atender os requisitos ambientais produzindo o diesel-50, incluindo o diesel de 10 ppm de enxofre, e a gasolina de 50 ppm de enxofre.
Os investimentos – 1
O plano prevê investimento de 224,7 bilhões de dólares, e entre 30 e 31 bilhões de dólares de amortizações até 2020. Se o preço do petróleo ficar a 80 dólares no longo prazo, ou ficar a 95 dólares no longo prazo, que é uma estimativa não das mais altas no mercado hoje – a Petrobras vai gerar de caixa, depois do pagamento de dividendos, entre 125 e 149 bilhões de dólares no período
Os investimentos – 2
Hoje a Petrobras tem em caixa 26 bilhões de dólares, resultante da capitalização que fez no ano passado. A empresa planejou um desinvestimento (venda de ativos e participações) que vai gerar 13,6 bilhões de dólares. Portanto, precisará captar entre 67 e 91 bilhões de dólares nesse período. Com esses números, não haverá necessidade de novas capitalizações e emissões de ações nesse período, razão para a queda do valor das ações.
Os investimentos – 3
Com esses números, a razão entre a dívida e geração de caixa fica abaixo do limite que o Conselho de Administração fixou, de 2,5 vezes. Deve ficar entre 1,6 vezes e 1,9 vezes a geração de caixa, o que é considerado perfeitamente confortável. Do ponto de vista financeiro não haverá nenhuma vulnerabilidade na exploração do pré-sal. Esses dados foram suficientes para acalmar o mercado, depois da divulgação do plano.
Os investimentos – 4
O eventual agravamento da crise internacional não deverá afetar a empresa. Em janeiro de 2009, em plena efervescência da crise, a Petrobras captou 6 bilhões de dólares. No ano, quase 30 bilhões de dólares. Segundo Gabrielli, mesmo que aumente o risco internacional, a solidez dos projetos do pré-sal será suficiente para assegurar o financiamento necessário. Hoje em dia a empresa é considerada investment grade.
Mudanças na gestão – 1
Houve duas grandes mudanças importantes na gestão da Petrobras nos últimos tempos. Primeira foi a transformação do conceito de unidade de negócios, que estruturava a companhia em termos de organização vertical. Essas unidades foram transformado em operacionais, voltadas para produção, utilizando o máximo possível das funções matriciais corporativas. Com isso fortaleceu-se a sinergia entre todas as unidades,
Mudanças de gestão – 2
O segundo separando as gerencias responsáveis para garantir a produção das gerencias responsáveis pela implantação dos novos projetos. Não se pode exigir que o gerente de uma área como a Bacia de Campos, que produz hoje 1,6 milhão de barris de petróleo por dia seja também responsável pela implantação de mais 5 unidades novas na própria Bacia de Campos.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO http://ponto.outraspalavras.net/2011/08/12/como-petrobras-se-prepara-para-pre-sal/
