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A sociedade do cada um por si foi derrotada nos Estados Unidos da América

O corolário lógico do “cada um por si” é “a culpa é somente sua”. Os estadunidenses em geral são useiros e vezeiros em enxergar problemas sociais como fossem fraquezas individuais. Essa mentalidade é parte especialmente do DNA da direita. Afinal de contas, se você toma as pessoas como as únicas responsáveis pelos seus problemas, você pode ignorá-las, privá-las, até odiá-las. O artigo é de Katha Pollit.

Katha Pollit (*) – The Nation

De todas as diferenças entre os candidatos nesta eleição, talvez a mais profunda tenha sido, como disse o presidente Obama, a que considera o fato de estarmos todos juntos nessa. Acreditamos em resolver os nossos problemas compartilhando-os – por meio do Affordable Care Act [a reforma do sistema de saúde por Obama, que está sendo chamada de Obamacare], em financiamento estudantil para estudantes de baixa renda, impostos progressivos, pesquisa científica e outras características essenciais às democracias modernas que são tomadas como certas em quase todo os países ocidentais industrializados? Ou acreditamos, com Mitt Romney, que cada um de nós – talvez especialmente as mulheres – só conta consigo próprio na sociedade? Acreditamos no governo ou nos bilionários? Uma rede de seguridade social para todos ou uma série de benefícios fiscais retalhados e de igrejas sem obrigação – vamos ser realistas, sem capacidade alguma – de ajudar a todos os que precisam? Concordamos com Mitt Romney que o governo deveria delegar a recuperação após os desastres climáticos para os governos dos estados ou, “melhor ainda”, para empresas privadas? Talvez o furacão Sandy tenha deixado esta questão clara para alguns dos famosos eleitores indecisos.

O corolário lógico do “cada um por si” é “a culpa é somente sua”. Os estadunidenses em geral são useiros e vezeiros em enxergar problemas sociais como fossem fraquezas individuais – preste atenção em como demonizamos as pessoas gordas, como se a razão pela qual há tanta gente com sobrepeso fosse simplesmente uma falta de força de vontade. Mas essa mentalidade é parte especialmente do DNA da direita. Afinal de contas, se você toma as pessoas como as únicas responsáveis pelos seus problemas, você pode ignorá-las, privá-las, até odiá-las. Vítimas de estupro, mulheres com gravidezes indesejadas, pessoas pobres (arranjem um emprego!), usuários de drogas, crianças que cometeram crimes, pessoas que têm levado uma vida imprudente ou fora da linha da maneira que for só têm a si mesmas para culpar.

Nicholas Kristof escreveu uma coluna no New York Times há algumas semanas a respeito de seu amigo Scott, que teve uma crise de meia idade, largou o seu emprego para ler livros e jogar pôquer e que, mesmo quando voltou ao trabalho, não adquiriu um plano de saúde, em parte porque estava muito caro e em parte para guardar dinheiro, mas também porque ele estava ocupado e não tinha esposa “para incomodá-lo”, para adiar a ida ao médico para tratar dos sintomas que se provou terem dado causa a um avançado câncer de próstata. O ponto de Kristof era que todos cometem erros, e que uma boa política pública leva isso em conta.

Na coluna seguinte, em que comenta a morte de Scott, Kristof escreveu a respeito de como ele “tinha ficado surpreso com a quantidade de leitores selvagemente antipáticos em relação às escolhas de seu amigo: ‘seu amigo fez uma escolha estúpida, e ações têm consequências’, disse um leitor, numa mensagem para o seu twitter”. Sim, ações têm consequências, e é por isso que precisamos de sociedade para nos proteger de nossa loucura, ignorância e avaliações ruins – a respeito de nós mesmos e dos outros. Cedo ou tarde, todos nós assumimos riscos que acabam não dando certo.

Algumas pessoas fazem sexo desprotegidas, cruzam o sinal vermelho, dirigem muito rápido, andam de moto sem capacete em Connecticut (onde por alguma razão louca é legal fazer isso), não usam cinto de segurança, bebem muito, enviam dinheiro em resposta a e-mails de príncipes nigerianos, não vacinam suas crianças. Algumas pessoas se recusaram a evacuar a cidade durante o furacão Sandy – os trabalhadores da área da defesa civil devem fornecer-lhes um bife quente ou um cobertor?

Se você quer um exemplo de como tratar questões sociais com uma mentalidade individualista prejudica a todos, considere o caso do câncer de pulmão. Esta doença extremamente séria mata 160 mil estadunidenses por ano – isso é mais do que um para cada quatro mortes por câncer. É o “número um” do ranking dos cânceres fatais, tanto em homens como em mulheres. As mulheres morrem duas vezes mais de câncer de pulmão do que de mama – e uma em cada cinco dessas mulheres nunca fumou um cigarro (para o homem, essa relação é de um para doze).

Na verdade, ao menos 55% das pessoas com câncer de pulmão nunca fumaram ou não fumam mais; alguns largaram o cigarro décadas atrás. E ainda assim, porque o câncer de pulmão é geralmente associado ao cigarro, e o cigarro é um vício e coisa que somente “idiotas” (para usar a terminologia do Tea Party) fariam e sempre fazem, o câncer de pulmão não recebe nada como o fundo de pesquisa dos Institutos Nacionais de Saúde, como recebem as pesquisas em outros tipos de câncer, com base na relação entre números de mortos e causas. Não se trata de um programa de televisão com estrelas de Hollywood, nenhuma corrida para a cura do câncer de pulmão, nada dessas estranhamente alegres campanhas de “conscientização”.

O paciente mesmo e suas famílias tendem a ficar quietos – o estigma é grande demais. Pouco importa que muitos deles tenham começado a fumar lá atrás, na época em que se passa o seriado Mad Men (anos 50-60), quando era um costume onipresente promovido pelo governo, pela mídia e, claro, pela própria indústria de tabaco. Por anos a fio, depois que já havia reportagens e estudos apontando a relação entre ambas as coisas, as revistas femininas eram lotadas de anúncios de cigarros, enquanto deixavam o cigarro e outras doenças relacionadas ao fumo fora de sua cobertura editorial e das matérias sobre saúde.

Hoje, os anúncios da indústria do tabaco são em menor quantidade – graças a, sim, regulações governamentais – mas, por causa de culpa ou vergonha, o silêncio continua. “Você não sabe como nós somos ignorados pela mídia”, disse-me por telefone Linda Wenger, líder do grupo União Contra o Câncer de Pulmão.

Como acontece, uma querida amiga minha está morrendo de câncer de pulmão. Lynn nunca fumou; ela fez yoga e se exercitou muito e comeu muito arroz integral e vegetais e viveu a maior parte de sua vida ao ar livre, no interior. Eu costumava brincar com ela, por ela ser uma maluca por saúde. O câncer não liga. Talvez, se a doença de Lynn tivesse sido pesquisada e recebido financiamento com base em sua prevalência, ela teria sido diagnosticada antes, tivesse mais anos pela frente, talvez viesse a ser curada do câncer.

Um outro amigo com câncer de pulmão era um fumante leve. E daí? Se ele tivesse fumado um pacote de cigarro por dia, como eu fiz por vários anos, ou três pacotes, como meu pai, que viveu até os 86, ele ainda seria um pai, um marido, um escritor, um amigo. Uma pessoa valiosa como todo mundo e que – como todo mundo – não é perfeita. O que foi mesmo que o cara disse a respeito de atirar pedras? Você sabe, o cara da direita cristã que não podia esperar para anular o Obamacare que eles dizem que amam tanto?

Homem nenhum é uma ilha, ou todos os homens que se virem por si sós? Ontem, a América decidiu qual será o seu lema.

(*) Katha Pollitt é uma premiada escritora, premiada poetisa e premiada jornalista, nascida em Nova York e formada em Harvard e na Escola de Artes da Universidade Columbia. Já lecionou em Harvard, Yale, Princeton, Brooklyn College, UCLA, Universidade do Mississippi e Cornell. Sua coluna “Tema para debate”, iniciada em 1995, foi chamada pelo Washington Post como “o melhor lugar par air em busca de um pensamento original de esquerda’, escreve semanalmente no The Nation, para onde contribui desde 1980. Muitas de suas contribuições para o The Nation foram compiladas em três livros: Reasonable Creatures: Essays on Women and Feminism (Knopf) [Algo como: criaturas racionais: ensaios sobre a mulher e o feminism]; Subject to Debate: Sense and Dissents on Women, Politics, and Culture (Modern Library) [algo como Senso e Dissenso: sobre Mulher, Política e Cultura] e Virginity or Death! And Other Social and Political Issues of Our Time (Random House) [Virginidade ou Morte! E Outros Ensaios e Questões Políticas de Nosso Tempo]. Em 2007 a editora Random House publicou sua coletânea de ensaios pessoais, Learning to Drive [Aprendendo a Dirigir], que foram originalmente publicados na The New Yorker e participa da antologia dos Melhores Ensaios Americanos de 2003.

Tradução: Katarina Peixoto

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21230

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Obama convenceu EUA de que Romney era candidato dos ricos

Para o analista político estadunidense Mark Weisbrot, do Centro para Investigação Econômica e Política, aa nova composição demográfica dos Estados Unidos foi importante para a vitória do atual presidente, mas não o fator decisivo por si só: “Obama ganhou porque fez um apelo econômico populista para os eleitores da classe trabalhadora de todos os grupos raciais e étnicos, algo sem precedentes em mais de 50 anos de eleições presidenciais estadunidenses”, diz Weisbrot, em entrevista à Carta Maior.

Igor Ojeda

O presidente reeleito dos Estados Unidos Barack Obama deu um banho no republicano Mitt Romney se considerado apenas o voto “étnico”. Entre os latinos, por exemplo, obteve mais de dois terços de apoio. Entre os afroestadunidenses, recebeu a adesão de nove em cada dez eleitores. Tais dados demonstram que a “America” tradicional tão ao gosto dos Wasp (Brancos, Anglo-Saxões e Protestantes) está desaparecendo.

No entanto, para o economista estadunidense Mark Weisbrot, codiretor do Centro para Investigação Econômica e Política (CEPR, na sigla em inglês), as análises sobre a influência da nova composição demográfica dos Estados Unidos nas eleições, por si só, escondem um dado ainda mais importante: “Obama ganhou porque fez um apelo econômico populista para os eleitores da classe trabalhadora de todos os grupos raciais e étnicos, algo sem precedentes em mais de 50 anos de eleições presidenciais estadunidenses”, analisa, em entrevista à Carta Maior por correio eletrônico. Segundo ele, a campanha democrata à presidência foi vitoriosa porque conseguiu convencer a maioria dos eleitores estadunidenses de que Romney e os republicanos se importam apenas com os ricos.

Isso, porém, deve trazer poucos frutos no que diz respeito a mudanças radicais. Weisbrot acredita que o novo mandato de Obama possa avançar em alguns pontos, como a aprovação de uma reforma imigratória e a concretização do novo sistema de saúde, mas teme que ele barganhe cortes de gastos sociais. Confira a seguir a entrevista.

Carta Maior – Quais são suas primeiras avaliações sobre a vitória de Barack Obama?

Mark Weisbrot – Esse resultado estava previsto pelas pesquisas eleitorais do Princeton Electin Consortium e do Fivethirtyeight.com. Portanto, não foi uma surpresa, a não ser para a maioria dos meios de comunicação e especialistas que fingiam que havia uma disputa acirrada.

CM – Por que Obama venceu?

MW – Como muitos já mencionaram, a demografia dos Estados Unidos mudou, e Romney perdeu feio entre os latinos – entre 70 a 75% votaram em Obama – e afroestadunidenses, que deram 93% dos votos ao presidente. Romney teve grande maioria entre os eleitores brancos, mas não o suficiente para ganhar, especialmente nos estados em disputa.

Mas a análise demográfica deixa escapar algo talvez mais importante: Obama ganhou porque fez um apelo econômico populista para os eleitores da classe trabalhadora de todos os grupos raciais e étnicos, algo sem precedentes em mais de 50 anos de eleições presidenciais estadunidenses. Sua campanha convenceu a maioria dos eleitores de que Romney e seu partido se importavam bem mais com os ricos do que com o restante da população.

CM – O que a reeleição de Obama pode significar em termos de política interna?

MW – Dado o impasse no Congresso, com uma maioria republicana na Câmara dos Representantes, e a falta de liderança de Obama, as diferenças não serão enormes. Há talvez melhores chances de haver uma reforma imigratória do que se Romney tivesse vencido. Provavelmente o plano de seguro de saúde do Obama será concretizado, o que proporcionará seguro de saúde para mais de 30 milhões de estadunidenses e custos mais baixos para outros milhões. E talvez um pouquinho mais de regulação financeira.

CM – Quais serão as próximas batalhas entre o presidente reeleito e o Congresso, uma vez que a atual composição se manteve semelhante à anterior, com controle republicano sobre a Câmara dos Representantes e controle democrata sobre o Senado?

MW – Haverá batalhas sobre orçamento, impostos, questões ambientais. Um dos piores resultados possíveis é que Obama apoie cortes na Seguridade Social e/ou no Medicare em uma “grande barganha” com os republicanos na discussão sobre o orçamento, assim como outros cortes em gastos sociais. É preciso uma grande pressão popular para impedir que Obama aceite tais mudanças.

CM – Em relação à política externa, alguma coisa vai mudar? Como Obama se comportará, por exemplo, em relação a Israel, Irã e Síria?

MW – A política externa do primeiro mandato de Obama foi muito semelhante à do segundo mandato de George W. Bush. Eu não esperaria muitas mudanças. Obama optou desde o começo por se concentrar na política interna e não gastar ou arriscar capital político na política externa. Isso significa muito poucas mudanças. Uma guerra contra o Irã é ainda muito possível por causa da hostilidade estadunidense e o crescimento das tensões, embora eu acredite que seja menos provável do que se Romney tivesse se elegido.

CM – E em relação à América Latina e o Brasil?

MW – Obama quase não deu atenção à América Latina, incluindo o Brasil. Estaria tudo bem se isso não quisesse dizer que a política está determinada pelo Departamento de Estado e influenciada pelos direitistas no Congresso. Portanto, tem sido basicamente a mesma política que a de Bush. Provavelmente isso continuará por outros quatro anos.

CM – Dois terços dos eleitores hispânicos votaram em Obama. Ele retribuirá esse apoio com uma política imigratória mais flexível?

MW – Sim, mas terá dificuldades em conseguir aprovar uma reforma imigratória plena no Congresso.

CM – Estas foram as primeiras eleições presidenciais após a decisão da Suprema Corte que possibilitou a criação dos Super Pacs (comitês eleitorais sem limites de arrecadação de doações). Qual foi a influência destes sobre a campanha e os resultados das eleições?

MW – Acredito que tenham ajudado os republicanos, principalmente nas eleições para a Câmara dos Representantes. Mas a campanha de Obama teve tanta publicidade quanto a dos republicanos, cujos candidatos ao Senado não gastaram tanto mais assim. Obama e os democratas se saíram muito mais bem na campanha nas ruas, de acordo com muitos relatos. Portanto, o grande capital de direita não foi decisivo nestas eleições.

Claro que o dinheiro ainda corrompe os políticos estadunidenses em longo prazo – por exemplo, o povo votou em Obama pela mudança, mas não ganhou muito em troca. Nesse sentido, nossos políticos são mais corruptos que os de muitos países da América do Sul, onde – apesar de outras formas de corrupção piores que aqui – a população tem conseguido votar por mudanças progressistas nos últimos anos e recebê-las.

Talvez mais importante que uma reforma no sistema de financiamento de campanhas nos Estados Unidos seja uma reforma no sistema de votação. Mais de 40% dos estadunidenses não votaram nestas eleições, e os republicanos como os conhecemos hoje mal existiriam como um partido se tivéssemos leis e procedimentos de votação menos restritivos.

Notícia colhida no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21224

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Internacional| 04/11/2012 | Copyleft

EUA: Cinco previsões para depois das eleições

É verdade que Barack Obama e Mitt Romney têm muitas diferenças políticas. Mas eles também estão de acordo em muitas políticas essenciais, o suficiente para prever algumas das coisas que vão acontecer nos Estados Unidos, nos próximos quatro anos, ganhe quem ganhar: a guerra contra os sindicatos vai continuar, a guerra contra o meio ambiente vai continuar, Wall Street continuará a reinar, ocorrerão cortes em nível nacional em nome da austeridade após as eleições e as guerras externas também irão continuar. O artigo é de Shamus Cooke.

Shamus Cooke – Counterpunch

É verdade que Barack Obama e Mitt Romney têm muitas diferenças políticas. Mas também estão de acordo em muitas políticas essenciais; o suficiente para tornar os próximos quatro anos facilmente previsíveis, seja quem for o vencedor. Eis cinco previsões baseadas nas mais importantes convicções que os dois candidatos partilham:

1) A guerra contra os sindicatos vai continuar. Os republicanos são explicitamente contra os sindicatos, enquanto os democratas são a favor em palavras, mas têm uma prática anti-sindical. A muito falada “Race to the Top”, política educacional nacional de Obama, atinge diretamente os sindicatos de professores – os mais poderosos sindicatos do país – atacando os direitos adquiridos por tempo de serviço e restringindo salários e benefícios.

Também os governadores democratas e republicanos, estado a estado, pretendem arrancar gigantescas concessões dos funcionários públicos ou retirar-lhes os direitos sindicais – a menos má política de exigir concessões (democratas) está apenas um passo atrás do fim da negociação coletiva (republicanos).

À medida que a recessão avança, esta política bipartidária contra os sindicatos irá intensificar-se, qualquer que seja o presidente. O alvo é baixar os salários de todos os trabalhadores, já que, dizem eles, os sindicatos distorcem artificialmente o mercado laboral em benefício dos trabalhadores em geral; atacar os sindicatos é assim um ataque a todos os trabalhadores, organizados ou não, com o objetivo de reduzir os custos laborais das empresas, que ganham assim “lucratividade”.

2) A guerra contra o meio ambiente vai continuar. Ambos os partidos tratam a questão ambiental da mesma maneira que o trabalho organizado. Os republicanos degradam-no abertamente e os democratas fazem declarações pró-ambientais ao mesmo tempo que praticam o oposto. Quem quer que vença as eleições continuará vinculado aos combustíveis fósseis, continuará a promover as prospeções de petróleo perigosas no Ártico e no Golfo, a causar estragos com a extração de “gás natural”, a construir o oleoduto Keystone, ao mesmo tempo que pouco ou nada fazem para construir a absolutamente necessária infra-estrutura energética alternativa que iria criar empregos e esperança à Humanidade contra as alterações climáticas. Obama e Romney recusam-se a tomar as medidas necessárias para enfrentar as alterações climáticas porque fazê-lo poria em causa os lucros das grandes empresas poluidoras. Nenhum dos candidatos presidenciais sequer dará início a uma honesta discussão pública sobre o problema, fazendo assim com que outros países sigam esse caminho, pondo-nos a todos em perigo.

3) Wall Street continuará a reinar. Durante os debates ficou claro que não era necessária qualquer outra ação contra Wall Street. Mas os bancos estão maiores sob Obama que na era de Bush, o que significa que continuam a ser “demasiado grandes para falirem”, garantindo que haverá futuros resgates pagos pelos contribuintes. A política da Reserva Federal não é controversa para republicanos ou democratas: as taxas de juros baixas combinadas com a emissão de largas somas de moeda – chamado de “quantitative easing” – têm ambas servido os lucros dos bancos de Wall Street, ao mesmo tempo que todos os restantes sofrem cortes nos salários e benefícios. Os empréstimos aos trabalhadores não foram facilitados, enquanto os bancos e as empresas estão literalmente sentados sobre biliões de dólares de reservas em dinheiro.

4) Cortes de austeridade nacionais após as eleições. O déficit nacional é consequência do resgate aos bancos, às guerras externas e a décadas de sucessivas reduções dos impostos aos ricos e às empresas. Obama e Romney ignoram estes factos, e são a favor de reduções maciças de empregos e cortes nos programas sociais que entrarão em vigor se republicanos e democratas não chegarem a acordo sobre quantos bilhões de dólares de cortes vão aplicar (a proposta de plano de corte de déficit de Obama seria de 4 bilhões de dólares; Paul Ryan quer 6 bilhões).

E apesar de Obama ter feito muito barulho sobre “cobrar impostos aos ricos” para ajudar a combater o déficit, as mesmas promessas foram feitas nas eleições anteriores e acabaram em nada quando ele mesmo manteve as reduções de impostos que Bush promovera para os ricos. Fazer com que os ricos paguem impostos é a única alternativa aos cortes, já que os trabalhadores pouco têm para pagar mais. Em vez disso, Obama está usando o déficit para justificar cortes maciços do Medicare, na educação pública, no subsídio de desemprego, e provavelmente noutros programas da Segurança Social. O debate de Obama/Romney sobre o déficit é, na realidade, uma discussão bem educada sobre como melhor cortar e queimar programas sociais, ao mesmo tempo em que as diferenças são exageradas para o bem das respetivas campanhas eleitorais.

5) As guerras externas vão continuar. Ouvir Obama e Romney a debater as guerras externas foi muito semelhante a um debate do tipo Pepsi/Coca-Cola. Ambos amam Israel, odeiam o Irã e a Síria, mentem sobre um calendário para o Afeganistão (nenhum analista sério acredita que os EUA saiam do Afeganistão em 2014). Ambos são a favor de continuar a bombardear com drones o Paquistão, o Iêmen e a Somália,o que constitui obviamente crime de guerra. Ao mesmo tempo, ambos acusam hipocritamente a Síria de “violações dos direitos humanos”. Em resumo, ambos candidatos discutem como melhor empurrar o Médio Oriente e o Norte de África na direção de uma guerra regional, sem receberem as culpas por isso.

Na verdade, existem sim diferenças de política social entre o presidente Obama e Mitt Romney. Mas as políticas descritas acima vão afetar profundamente todos os trabalhadores dos Estados Unidos. O país não está numa recessão típica. A maioria dos economistas concorda que, na melhor das hipóteses, os EUA podem esperar uma “década perdida” de estagnação econômica – na pior, um duplo mergulho na recessão/depressão.

As políticas descritas acima estão desenhadas tendo em conta o pior cenário, com a premissa de que para que o capitalismo se reestabilize, é necessário aumentar o poder dos bancos e das empresas, que têm de perder quaisquer restrições em relação à questão laboral, ambiental, e outras regulamentações, de forma a aumentarem os seus lucros, em detrimento de todos nós.

Assim, democratas e republicanos têm a mesma agenda na generalidade, uma agenda que todos os trabalhadores deveriam considerar detestável, já que os ganhos das grandes empresas são obtidos à nossa custa. Quando os trabalhadores se organizam e vão à luta, como fizeram os professores de Chicago, todas as ilusões nos democratas começam a desvanecer-se, porque as pessoas veem com os próprios olhos que os democratas não só se recusam a ajudá-las, mas opõem-se-lhes ativamente, tal como fizeram aos professores de Chicago. Acontecimentos como este permitirão a emergência de um movimento real que ponha em causa a agenda bipartidária dominada pelos grandes negócios.

Até que os grupos de trabalhadores e comunitários se unam numa base alargada em ações independentes contra a citada agenda bipartidária, seremos sempre arrastados ao apoio a um dos dois candidatos, nenhum dos quais defende os nossos interesses básicos.

(*) Shamus Cooke é trabalhador do serviço social, sindicalista e escreve para o Workers Action. Email: shamuscooke@gmail.com

Artigo publicado no Counterpunch

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21195

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Mais quatro anos para Obama

Candidato democrata ganha com margem confortável no colégio eleitoral e pequena vantagem no voto popular. Romney demorou 90 minutos a reconhecer a derrota. Democratas mantêm o controlo do Senado e os republicanos o da Câmara de Representantes. Foi a campanha mais cara da história dos EUA.

Esquerda.net

O presidente Barack Obama foi reeleito nesta terça-feira presidente dos Estados Unidos, numa eleição muito disputada. Mesmo depois de fechadas as urnas, as sondagens não se arriscavam a prever o vencedor. Foi preciso esperar pelo resultado de um dos principais estados em disputa, Ohio, para confirmar a vitória do candidato democrata.

Obama venceu com uma boa margem no colégio eleitoral – obteve pelo menos 303 votos, mais do que George W. Bush em 2000, que teve 271 votos. Obama conseguiu também uma ligeira vantagem no voto popular.

O panorama político nos EUA, porém, mantém-se bastante semelhante ao do mandato anterior, com os democratas mantendo o controle sobre o Senado, enquanto que os republicanos asseguraram a renovação da sua maioria na Câmara.

“Para os Estados Unidos da América, o melhor ainda está para vir”, disse Obama no seu discurso de vitória, afirmando que começa o novo mandato “mais determinado e mais inspirado do que nunca” e procurando um tom conciliatório para se colocar acima das diferenças partidárias.

O adversário de Obama, Mitt Romney, demorou cerca de 90 minutos até reconhecer a derrota, e a sua equipe de assessores chegou a estar de malas prontas para apresentar a contestação e pedido de recontagem em vários estados onde Obama vencera por pouco. Só desistiram quando ficou claro que nem assim haveria qualquer hipótese de vitória do candidato republicano.

Na verdade, Obama venceu em quase todos os estados cujo resultado estava em disputa: Ohio, Colorado, Nevada, Wisconsin, New Hampshire e Virginia. Destes estados em disputa, Romney apenas ganhou na Carolina do Norte. Nem foi necessário, como em 2000, aguardar os resultados da Florida, onde a contagem ainda não terminou mas Obama estava na frente.

Esta foi a campanha mais cara da história dos Estados Unidos. Segundo as estimativas finais, Obama terá gasto perto de um bilhão de dólares e Romney 800 milhões.

Notícia colhida no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21213

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