A direção do Banco Real ABN vem usando de práticas retrógradas e ultrapassadas para tratar dos conflitos trabalhistas. Um banco holandês que vive posando na mídia como moderno, transparente e ético, impede, por exemplo, que seus funcionários, representantes legítimos dos trabalhadores do ABN, tenham acesso às concentrações e matriz do banco.
Para o movimento sindical e a sociedade holandesa as práticas anti-sindicais das empresas é algo inadmissível. Lá, além de um espaço próprio para o movimento sindical, os dirigentes conseguem se comunicar com os trabalhadores usando a rede interna do banco.
E por que é importante o acesso dos representantes sindicais no local de trabalho?
Primeiro porque vivemos num país democrático e temos que lutar diariamente para exercer esta democracia, inclusive para preservá-la. Pois, segundo a lei de Darwin, tudo que cai em desuso, desaparece. E por esta experiência (ausência de democracia) nós brasileiros não queremos passar nunca mais.
Segundo, porque o nosso dever como representantes eleitos é de dialogar com os trabalhadores no local de trabalho, diagnosticar os problemas existentes e formular propostas alternativas de forma a não comprometer as conquistas coletivas que hoje constituem um patrimônio de todos bancários e bancárias do Brasil , que devem ser repassados para os nossos filhos e netos.
Segundo um estudo encomendado pela OCDE, nos países onde o movimento sindical é melhor organizado, mais forte e atuante, a qualidade de vida da população desses países é melhor. Pois, na medida em que aumenta o poder de atuação dos sindicatos, aumenta também a capacidade de barganha resultando numa melhor distribuição de renda entre os trabalhadores e toda sociedade ganha com isto.
No entanto, a direção desse banco trata essa conquista da democracia como caso de polícia. A polícia em via de regra, é acionada em situação de insegurança, e então pergunto: o ABN tem medo de quê? Como se não bastasse “baixar” a repressão policial durante a greve, agora está fazendo com que os dirigentes sindicais tenham que periodicamente ir à delegacia dar depoimentos sobre as paralisações ocorridas na greve. Ora, somos sindicalistas ou marginais? Que perigo representamos para o ABN?
Será ainda que ele tem medo da OLT – Organização no Local de Trabalho? Ou medo dos “podres” que podem aparecer com a ação sindical do tipo: trabalho aos finais de semana, desrespeito à jornada de trabalho, assédio moral e diversas outras irregularidades no local de trabalho.
Só que a direção do banco não consegue entender que todos esses problemas podem ser revertidos num ambiente mais saudável e até mais produtivo para o Banco se eles tratarem com mais seriedade as demandas e reivindicações de seus trabalhadores. Não é somente sugando e descartando profissionais que o ABN pode aumentar seu já exorbitante lucro (lembrando que o Brasil é responsável por, pelo menos, 18% do lucro mundial do banco).
E é justamente por este motivo, pelo lucro, que o ABN veio. Eles têm medo do potencial de organização dos trabalhadores brasileiros, mas estão aqui porque sabem que a nossa mão-de-obra é uma das mais baratas e que tem um mercado enorme a ser explorado. Cabe a nós do movimento sindical no mínimo “civilizar” toda essa ganância buscando apoio das entidades sindicais internacional, denunciando junto às diretrizes da OCDE e mobilizando os trabalhadores para fazer valer o nosso livre direito de se organizar no local de trabalho que será reforçado com a Reforma Sindical em discussão.
Por Deise Recoaro
Funcionária do ABN e diretora da CNB/CUT