O quanto do saber quem somos vem dos olhos de quem nos vê? Já parou pra pensar como o olhar do outro influencia na forma como você compreende sua identidade? E quanto essa compreensão interfere no se aceitar como é?
Adela é uma jovem responsável, afetuosa e delicada que vive com os pais em Pamplona, onde trabalha restaurando obras de arte. Sendo catequista, ela desenvolve amizade com o padre local, com quem tem oportunidade de começar a olhar para si mesma de forma mais atenta em diálogos francos e acolhedores na sacristia. Suas inquietações aumentam quando conhece Isabel, a fisioterapeuta de sua avó, por quem passa a sentir algo que, até então, desconhecia.
Quando nasce, Adela é dita Adela, chamada de Adela, assim nomeada e assim criada, como uma menina. Como uma mulher. Mas quem nasce é alguém que ainda não tinha conhecimento suficiente sobre si para se compreender, para se identificar. A.D. como se auto nomeia mais tarde, é uma pessoa intersexo e, ao nascer, seus pais tomam a decisão de definir seu gênero, autorizando os procedimentos cirúrgicos para tal.
O filme Minha querida senhorita, de Fernando González Molina, com criação e roteiro de Alana S. Portero, baseada em obra cinematográfica anterior de Jaime de Armiñán e José Luis Borau, traz para a tela as angústias e dores de quem toma consciência, com 26 anos de idade, de que sua busca por identidade apenas começou. Os pais não apenas escolhem por Adela seu nome e sua identidade de gênero, como também decidem jamais contar a ela sobre sua constituição física natural. Assim, ao chegar na fase adulta, não conhece nada sobre seu corpo e não tem as ferramentas necessárias para lidar com as emoções que começa a sentir.
A condição da personagem faz pensar, portanto, no quanto nossa identidade é afetada por aquilo que nos falam sobre nós, pela forma como observamos que os outros nos enxergam. Adela só começa a olhar para o próprio corpo com autonomia e sem sentir vergonha de si mesma/o quando aqueles com quem convive a/o deixam confortável para isso. Nesse sentido, refletindo sobre a forma como a sociedade de modo geral pode interferir limitando, delineando, restringindo, depreciando ou, por outro lado, apreciando quem somos, percebemos o quanto ela define, em grande medida, a auto-imagem e auto-aceitação que podemos ter.
Daí a importância do mês da visibilidade LGBTQIA+, em junho. Se Adela se via pelos olhos dos pais e isso a deixava desconfortável com o próprio corpo, sempre buscando mudar, se adaptar, melhorar aquilo que, de fato, era sua própria constituição humana, da mesma forma os olhares da sociedade podem constituir o mesmo tipo de agressão e negação da humanidade de cada um e todas as pessoas LGBTQIA+. Para quem é da comunidade, parece ser um momento de se fazer ver, de reafirmar a própria existência enquanto ser humano, completo e complexo em sua humanidade. E para os outros é momento de refletir, de conhecer e aprender a olhar de forma mais respeitosa, acolhedora e humana para o diverso.
Regina Maria Miranda é formada em Letras, pela UFPR, e especialista em Educação à Distância. É bancária do Banco do Brasil, dirigente sindical e professora particular de Produção de Texto.
Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região