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Além do Master: Flávio Bolsonaro mira anistia, blindagem do bolsonarismo e pautas pró-empresários

Nem só de escândalo do Banco Master vive o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Ele vem delineando sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026 a partir de três eixos centrais: a defesa de anistia ampla para Jair Bolsonaro e os envolvidos nos atos de 8 de janeiro, a proposta de suspender por um ano a reforma tributária aprovada pelo Congresso e a coautoria da PEC 12/2026, apelidada por críticos de “PEC da escala 7×0”. As sinalizações partem do próprio senador e de seu entorno político, incluindo o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da pré-campanha, Rogério Marinho, e foram reportadas em vários veículos que mantêm interlocução com a extrema direita, como a CNN Brasil e a Folha de S.Paulo.

Agenda de sobrevivência do clã

A fala mais reveladora sobre o que move a pré-campanha de Flávio Bolsonaro não veio do próprio senador, mas do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Em abril deste ano, Valdemar afirmou publicamente que, se o partido não vencer a eleição presidencial de 2026, Jair Bolsonaro ficará “mais dez anos preso”. A declaração transformou em discurso oficial o que já era leitura corrente no núcleo bolsonarista: a disputa presidencial é, antes de tudo, uma peça jurídica.

Flávio Bolsonaro não contradiz essa lógica. O senador defendeu abertamente uma anistia ampla para os envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro e chegou a afirmar que seria preciso “zerar o jogo” político no país. Em outra declaração, foi ainda mais direto: disse que só abriria mão de uma candidatura presidencial caso Jair Bolsonaro estivesse “livre e nas urnas”. A condição revela a hierarquia da pré-campanha: a candidatura do filho existe, em primeiro lugar, como instrumento de pressão pelo retorno do pai. O que se apresenta como projeto político para o país parte, portanto, de uma necessidade de sobrevivência do clã.

Desmonte da pauta econômica

Na área econômica, a proposta mais concreta divulgada pelo entorno de Flávio Bolsonaro é uma PEC para suspender por um ano a entrada em vigor da reforma tributária aprovada pelo Congresso. A informação foi publicada pela CNN Brasil e pela Folha de S.Paulo. Rogério Marinho, coordenador da pré-campanha, justifica a medida como necessária para “corrigir distorções” e rever as exceções criadas no novo modelo. O entorno do senador também passou a defender a redução da alíquota-padrão prevista no novo IVA.

O próprio Flávio foi além: já falou em revisar ou até revogar a reforma tributária, sob o argumento de que seria preciso construir um sistema “realmente simplificado”. A reforma tributária foi aprovada após décadas de debate no Congresso e é considerada por economistas de diferentes espectros como avanço estrutural. Suspendê-la por decreto legislativo, sem apresentação de impactos orçamentários detalhados, é uma aposta de alto risco, cujos custos reais a pré-campanha ainda não explicou publicamente. O que a proposta deixa claro, por ora, é a disposição de usar a pauta econômica como vetor de confronto com o governo atual, independentemente das consequências técnicas.

A PEC da escala 7×0 e o confronto legislativo

Flávio Bolsonaro aparece formalmente como coautor da PEC 12/2026, apresentada pelo líder da oposição no Senado, Rogério Marinho. O texto altera o artigo 7º da Constituição para permitir que trabalhadores escolham entre o regime tradicional da CLT e um modelo flexível baseado em horas trabalhadas, com remuneração proporcional e possibilidade de acordos individuais entre empregado e empregador. Críticos da proposta, entre eles centrais sindicais e parlamentares governistas, apelidaram o texto de “PEC da escala 7×0” e argumentam que ele amplia a precarização das relações de trabalho ao abrir brecha para jornadas extenuantes sob o rótulo de “flexibilidade”.

O percurso institucional da proposta no Senado também chamou atenção. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, despachou a PEC 12/2026 rapidamente para a CCJ, enquanto a proposta que busca acabar com a escala 6×1, de interesse dos trabalhadores, segue sem tramitação célere. A assimetria de tratamento entre as duas propostas não passou despercebida: evidencia como o poder de pauta do Senado pode ser mobilizado seletivamente, acelerando o que interessa à oposição e represando o que pressiona por mais direitos.

Implicações políticas para 2026

O conjunto das propostas de Flávio Bolsonaro desenha uma candidatura que não busca ampliar base nem moderar discurso. A pauta une dois públicos distintos: setores econômicos insatisfeitos com a reforma tributária e o núcleo político que depende da anistia para manter Jair Bolsonaro como figura central do bolsonarismo. A convergência entre esses interesses é o que sustenta, por ora, a viabilidade da pré-campanha dentro do PL.

A estratégia sinaliza que o partido não apostará em aproximação com o centro, mas no embate direto contra as reformas aprovadas na gestão atual e contra o sistema de justiça que condenou o ex-presidente. A centralidade da anistia como bandeira de campanha indica que a polarização em torno do STF e das instituições seguirá como combustível eleitoral. Para o PL, perder 2026 não é apenas uma derrota política: na leitura de Valdemar Costa Neto, é a confirmação de mais uma década de Jair Bolsonaro fora da disputa. Essa equação transforma a candidatura de Flávio em algo que vai além de uma eleição: é a tentativa de usar as urnas para reescrever o desfecho jurídico do bolsonarismo.

Foto: Beto Barata/Agência Senado

Texto: Henrique Rodrigues

Fonte: Revista Fórum

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