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Anomia e poder

A anomia do mundo atual está presente em coisas insuspeitas, por exemplo, na noção de países emergentes. Na verdade, trata-se de países capitalistas periféricos ou dependentes nos mais variados graus. O perigo é se achar que a atual situação é natural e inamovível.

Presentemente, há uma imensa dificuldade de chamar as coisas pelos seus próprios nomes. Dá-se a isto o pomposo nome de anomia que pode se referir à perda da capacidade de dar o exato nome às coisas ou a inexistência de regras sociais a serem cumpridas. O primeiro sentido é o aqui abordado. Lembra-se, como Eduardo Galeano, a tendência em chamar alhos de bugalhos, de esconder, através do uso pudico ou impróprio da língua, o verdadeiro significado de cada coisa ou de cada fenômeno.

O escritor francês Balzac já reclamava, no século XIX, da necessidade imposta pela sociedade de seu tempo de se praticar a anomia. Terminou por escrever uma deliciosa coletânea de contos que, no Brasil, a tradução nomeou como Contos Picarescos. Nesta, o celebre autor abandonou a sua finesse burguesa-aristocrática e disse coisas de arrepiar os cabelos e as carecas dos mais educados e crentes no pudor literário. Lima Barreto, no Brasil, jamais teve papas na língua, dizendo para quem quisesse escutar o que achava do que via e vivia. Teve, como se sabe, muitos problemas por isto, por mais que sua literatura, essência de sua vida, tenha se tornado imortal.

Na atual fase da modernidade, surgiu nos EUA e se espalhou pelo mundo o já famoso ‘politicamente correto’. Este impede o uso de uma linguagem mais clara e direta. Dele, o que sobra de intrinsecamente correto é a crítica veraz ao uso da fala e da escrita para a verbalização de inúmeros preconceitos. Infelizmente, transitam por vários idiomas frases e comentários racistas, sexistas, homofóbicos, idadistas e cultuadores da ignorância. Palavras e construções fraseológicas populares e eruditas são usadas para oprimir e tentar convencer de que alguns são superiores a outros e que não é possível se aproximar do real e concreto.

Uma linguagem mais direta pode conter preconceitos gravíssimos, tal como vimos recentemente nas vociferadas pelo governador que disse querer estuprar um ministro. Mas, o controle civilizado do modo em que as coisas são ditas não deve impedir que se fale a verdade. Muitas vezes, para dizê-las é preciso falar coisas que arrepiam os mais pudicos. O que o governador fez contraria o perfil moral mínimo que se espera de um funcionário público, ainda mais se eleito para representar um grande conjunto de seres humanos. Neste caso, a anomia foi praticada no seu sentido invertido, dentro de outras possíveis inversões.

Não ser anômico não deve ser confundido com a opção pela grosseria ou pelo que é chulo ou pornográfico. Aliás, uma linguagem desta natureza pode ser até mais anômica do que outras. Existe algo de mais ou menos meio milhão de palavras na língua portuguesa, considerando-se as infindáveis variações da língua. Portanto, não faltam nomes a dar as coisas e aos fenômenos. A anomia existe com a fuga consciente ou ingênua da natureza dos problemas que precisam ser denominados. Canalhas de todos tipos, profissões e funções manipulam o sentido das palavras aos seus interesses e gostos. Praticam a anomia, dando nomes ou escondendo os nomes reais de fatos, processos, pessoas e coisas. O que lhes importa é impedir qualquer possível aproximação do real.

Não há, por exemplo, outro nome a dar para os corruptos que roubam o dinheiro público e para os corruptores que pagam para receber em dobro ou ainda mais. Eles são ladrões da pior espécie e deveriam ser enquadrados no código penal como tais. Ditaduras jamais foram governos interinos, como se está vendo em Honduras. Traficantes não são usuários, bem como alcoólicos não vendem bebidas, a não ser para sustentar os seus próprios vícios. Viciados são, de fato, doentes e assim devem ser tratados. Se alguém mata de modo direto ou indireto, não importa sua roupa ou uniforme, é assassino.

Fascistas são fascistas, não deveriam poder usar o nome de democratas. Os que acreditam em um Estado forte, na defesa dos interesses das elites mais ricas, e na política de repressão como o seu centro gravitacional, são fascistas. Não podem usar os antigos símbolos e nem proclamar como gostariam de voltar ao passado ditatorial. Deixam de dizer, mas não são menos fascistas por isto. Tal forma de pensar é aplicável a qualquer variação política existente ou a ser criada, desde que ela venha a se travestir em algo diferente de sua real natureza.

A anomia do mundo atual está presente em coisas insuspeitas, por exemplo, na noção de países emergentes. Na verdade, trata-se de países capitalistas periféricos ou dependentes nos mais variados graus. O perigo é se achar que a atual situação é natural e inamovível. Isto leva a não se lutar para se alcançar um quadro de maior justiça social.

O verdadeiro desenvolvimento das nações se dá quando os índices de desenvolvimento humano aumentam e diminuem ou circunscrevem a miséria. Isto, no contexto possível do capitalismo moderno. Não há capitalismo sem desemprego e miséria. Basta sobrevoar o que ocorre nas nações mais ricas. Mesmo nas mais desenvolvidas economias, que funcionam nos cânones deste modo de produção, constatam-se desigualdades imensas. Veja-se o exemplo dos EUA.

Como se sabe, a atual ordem mundial está estabelecida desde a Segunda Grande Guerra (1939-1945). De lá para cá existiram mudanças, mas nenhuma delas significou a entrada no clube seleto das nações cada vez mais ricas. Mesmo o caso chinês, país que conta com a maior taxa contemporânea de crescimento econômico, nada ainda indica que ocupará o lugar das nações mais ricas. Considere-se para a compreensão disto, o elevado nível de desigualdades sociais da sociedade chinesa. Nos demais países, ditos emergentes, o ‘buraco é mais embaixo’, os problemas sociais são muito graves.

A anomia está presente em tanta coisa, que os limites deste pequeno artigo não poderiam dar conta completamente do recado. Sua origem remota está no nominalismo medieval europeu. Neste, dava-se nome a tudo sem a preocupação de se relacionar o nome ao verdadeiro significado de cada coisa ou fenômeno. O importante era dar nomes, sem querer saber se eles eram pertinentes aos conteúdos. O nominalismo era formalista. Falava da casca, sem chegar ao caroço. O formalismo dos dias que correm é impressionante.

Por Luís Carlos Lopes, que é professor e autor do livro “Tv, poder e substância: a espiral da intriga”, dentre outros.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.

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