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Atual organização do trabalho gera assédio moral; terceirização e rotatividade precisam ser enfrentadas

Professor da Unicamp responsabiliza modo de produção pelo assédio moral

Rede de Comunicação dos Bancários
Paula Padilha

Apontado pelos trabalhadores como um dos temas mais urgentes nas últimas campanhas, o debate sobre saúde e condições de trabalho tomou boa parte da manhã deste primeiro dia da Conferência Nacional dos Bancários. O professor Roberto Heloani, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ressaltou a atual forma de organização do trabalho, tanto bancário como de outras categorias, como a responsável direta pelo assédio moral. “Pensar que o assédio moral é causado somente pela postura do gestor ficou para trás. O assédio acontece quando eu vejo o outro como instrumento, passível de se jogar fora”, sentenciou.

O professor defende que quem pratica o assédio moral naturaliza o processo, até mesmo de forma inconsciente, e não consegue pensar mais. E que a responsabilidade por esse quadro é da organização do trabalho, da empresa, da instituição financeira.

Heloani explicou que as consequências do assédio moral e das relações de trabalho são muito evidentes na vida de cada pessoa e que são resultado não de conflitos, naturais no ambiente de trabalho, mas do isolamento do trabalhador. “Com o isolamento, a discriminação, o indivíduo torna-se um péssimo funcionário, é a alavanca para jogar o cara para fora, para ser demitido.”

Consequências

O processo de isolamento do trabalhador, oriundo do assédio moral sofrido, e o consequente desemprego, criam para o sujeito um ciclo perverso: o homem perde sua identidade como provedor do lar, sua representação social, o casamento muitas vezes acaba, sua identidade pessoal fica comprometida, e ele chega a pensar em se matar.

“A nova configuração do trabalho atinge as relações familiares, o sujeito se torna insuportável para ele mesmo”, apontou Heloani, lembrando o processo de reengenharia de um banco público que teve como consequência o suicídio de 26 bancários, 19 deles dentro das agências onde eram seus locais de trabalho. “É uma organização de trabalho que não tem um pingo de respeito pelo ser humano.”

Na opinião do professor, que também é psicólogo, o principal ponto de conflito para as mulheres é quando ocorrem problemas com os filhos e citou exemplos como casos de doenças ou relação com drogas.

A mulher é a primeira a ser cobrada. A pressão vem de todos os lados: por seu papel de mãe e pela ótica de que quem paga seu salário é o banco e não o filho. “As pessoas são humilhadas, vilipendiadas, chutadas, enlouquecidas e descontam na família, nas pessoas mais próximas.”

Ética e moral

Roberto Heloani apontou outro quesito que interfere no funcionamento das relações de trabalho: os trabalhadores bancários sofrem porque têm princípios. “No sistema de metas, o que interessa é o resultado, não o processo. As pessoas têm vergonha de olhar nos olhos dos clientes, por pudor, por vergonha. A organização do trabalho está gerando isso.”

Para ele, o bancário pode ter metas a cumprir, desde que não sejam absurdas e impossíveis de serem cumpridas. “Os bancários são obrigados a vender aquilo em que eles não acreditam.” Heloani chama esse processo de cultura do cinismo. “Quando você age dessa forma, reproduz essa lógica, de forma inconsciente, para seu próprio colega. Quando vem a cobrança, você não tem apoio de ninguém, é o assédio horizontal.”

Roberto Heloani finalizou sua exposição chamando a atenção dos bancários sobre como combater o assédio moral. “Falta coesão e solidariedade do grupo. Só vamos vencer essa batalha revendo a forma de trabalhar, não fazendo com os outros o que não queremos que façam com a gente”.

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‘Terceirização e rotatividade precisam ser enfrentadas’, diz professor da Unicamp

Rede de Comunicação dos Bancários
Andréa Ponte Souza

“O Brasil mudou, mas ainda convive com problemas estruturais que precisamos enfrentar.” O economista Anselmo Luis dos Santos, professor doutor da Unicamp, traçou um quadro geral sobre a evolução do mercado de trabalho no Brasil, na última década, em sua apresentação no painel sobre emprego, que ocorreu neste primeiro dia da Conferência Nacional dos Bancários, em Curitiba.

Baseado em dados como os da Rais e do IBGE, o economista traçou um quadro geral sobre a evolução do mercado de trabalho no Brasil, na última década, e apontou melhora significativa do emprego. Mas ressaltou que o ano de 2003 – ainda sofrendo as consequências do último mandato de Fernando Henrique Cardoso (1998-2002) – foi um dos piores momentos da economia e do mercado de trabalho. Segundo ele, em 2003 o PIB cresceu pouco mais de 1%, mas houve melhora expressiva em seguida, com índices de crescimento de 3,5% a 4% do PIB durante o primeiro mandato de Lula (2003-2006).

“E o país passa a crescer, desfazendo mitos dos economistas neoliberais e da mídia, de que o crescimento não geraria mais emprego. E nós da Unicamp, que sempre fizemos questão de ter uma posição crítica, acreditávamos que a ausência de crescimento da era FHC era um dos principais determinantes da fragilidade do mercado de trabalho.” Ele destacou que, nesse período de oito anos, que corresponde aos dois mandatos de Lula, houve crescimento de empregos formais e uma redução do trabalho precário. Além disso, o desemprego caiu de forma expressiva.

Demografia

Outro aspecto destacado pelo economista é a mudança demográfica por que passa o país. De acordo com ele, o Brasil chegou a uma taxa de natalidade mais próxima dos padrões dos países desenvolvidos; a oferta de trabalho no meio urbano tem diminuído rapidamente; a população está cada vez mais velha; e o número de jovens entre 18 e 24 anos no mercado de trabalho – que no país ainda é a maior da América Latina – vem caindo consideravelmente.

“Houve redução no número de crianças, adolescentes e jovens no mercado de trabalho porque boa parte está nas escolas, nas instituições de ensino técnico, nas universidades, com o Pró-Uni. Isso é bom pro Brasil do ponto de vista da educação, da estrutura social e do mercado de trabalho, porque diminui a concorrência.”

E acrescentou: ao mesmo tempo, o emprego cresce na faixa etária de 25 a 49 anos. E entre a população com 50 anos ou mais, que aumenta na medida em que o país envelhece, a taxa de desemprego está em apenas cerca de 2%.

Anselmo apontou ainda que, nesse contexto, a pressão por emprego diminuiu. “O número absoluto de pessoas que entram no mercado de trabalho é bem menor do que antes, portanto, a pressão por emprego é menor e o desenvolvimento econômico foi maior.” Essa equação, segundo ele, é fundamental para entender porque o Brasil, apesar de ter apresentado nos dois últimos anos um aumento menor do PIB do que países como a Argentina e a China, teve, por outro lado, uma das melhores taxas de emprego e um dos menores índices de desemprego.

“Hoje o momento é outro. Em 2011 o PIB cresceu apenas 2,7% e este ano deve ficar em 2%. Enfrentamos uma situação diferente daquela que levou à melhoria do mercado de trabalho nos governos Lula”, ressaltou, acrescentando que é necessário que o país volte a crescer a índices de 4% para valorizar ainda mais o salário mínimo – um dos menores da América Latina.

“O salário mínimo no Brasil, apesar da política de valorização, ainda é muito baixo. Na Argentina, o mínimo tem poder aquisitivo três vezes maior do que o nosso.”

Apesar do quadro positivo, o economista lembrou que o Brasil convive com problemas estruturais herdados das décadas anteriores. Além do mínimo ainda baixo, Anselmo destacou a precariedade do mercado de trabalho.

“Somos 15 milhões de trabalhadores sem carteira, o que é uma vergonha. E não conseguimos superar os problemas da rotatividade e da terceirização, que atingem principalmente setores como o bancário”, concluiu.

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